Love as Sakura | 爱如樱

50 第45章 Deixe o silêncio ser ouvido


—Yan Da!

Pian Feng chamou assim que ela passou por eles como se fossem objetos decorativos na sala. Apesar de já estar preparado para uma reação do tipo jamais imaginou que doeria de maneira tão insuportável. Ele preferia ter sido torturado por mil anos do que vê-la incapaz de mesmo olhar para ele. Queria explicar, desesperadamente, que suas atitudes do passado não tinham qualquer influência sobre como ele a via agora. Precisava que ela entendesse o quanto ele a amava, de verdade, completamente, como se fosse seu irmão, ou o pai que ela deveria ter tido. A esperança surgiu no momento que ela congelou, mas durou apenas um segundo e a porta logo foi aberta.

— Yan Da, espere, por favor!

Huang Tuo o deteve segurando seu braço.

— Pian Feng, deixe-a ir.

— Mas...

— Pian Feng. — Chao Ya o interrompeu. — Deixe-a ir.

A própria cantora, apesar do conselho, estava chorando. Entendia os motivos que levavam Yan Da a agir daquela maneira, mas isso não diminuía a dor da indiferença dela. Inconformado, Pian Feng deixou o corpo cair no sofá e cobriu o rosto com as mãos, Huang Tuo sentou ao lado dele e apertou seu ombro em sinal de solidariedade, ele compartilhava a dor deles tal qual a preocupação, mas em um grau um tanto menor.

— Ela precisa de um tempo sozinha. — Disse o médico confortando o amigo. — Entenda que são muitas coisas para ela lidar, nesse momento imagine que ela provavelmente mal sabe quem é. Yan Da vai voltar, Pian Feng.

— E se acontecer alguma coisa? — Indagou, a voz trêmula. — Se ela correr algum perigo? Se for emboscada de novo? Se beber até não conseguir ver a mão diante do rosto?

— Não estamos mais falando de uma mortal indefesa, Pian Feng. — Lembrou-lhe Chao Ya. — Ela é a princesa do fogo agora, seus poderes foram restaurados tais quais os de Ying Kong Shi. Melhor que ninguém, Yan Da sabe se defender.

— Não, não sabe! — Objetou. — Se ela soubesse se defender não teria passado por tudo que passou! Ela é boa demais, maldição, será que ninguém vê isso além de mim?!

— Entendo a sua preocupação, meu amigo, mas esse não é o momento para pressionar a princesa. — Aconselhou o médico. — O fato de ela não ter gritado ou feito acusações é um bom sinal. Respeite o espaço dela, Pian Feng. Amar é deixar ir. Tenho certeza que, em breve, ela vai voltar e queimar você com suas próprias mãos.

O guerreiro do vento estava contando com isso. Apesar de ainda se sentir magoado e apreensivo, os conselhos da esposa e do amigo serviram para manter a cabeça de Pian Feng em cima do pescoço e, racionalizando a respeito da situação, ele acabou percebendo que os dois estavam certos, Yan Da estava passando por muita coisa, apesar do guerreiro desejar estar ao lado dela para apoiá-la, precisava respeitar suas decisões.

※※※

A primeira coisa que Shi viu quando seus olhos se abriram assustados, foi o rosto pacífico de Ka Suo. Ele lembrava da sensação sufocante queimando seu peito enquanto o oxigênio desparecia dos seus pulmões. Aquela fraqueza debilitante nublando seus sentidos conforme o gosto amargo e ferroso explodia na sua boca. Por um minuto, o príncipe do gelo acreditou que estava morrendo. Então todo aquele caos foi substituído por uma série de sonhos estranhos que não se conectavam com nenhuma realidade que ele conhecera e a dor foi dispersada.

— Yan Da... — O nome veio à sua boca cheio de um sentimento pesado.

— Tudo bem, Shi, ela está bem. — Garantiu o irmão.

— Não, não está. — Contrapôs. — Preciso vê-la.

— Shi wangzi, eu não faria isso se fosse você. — Advertiu Xing Jiu e só então o jovem príncipe se deu conta da presença do astrólogo no quarto. — Primeiro porque as consequências da quebra do escudo dos sonhos recaíram praticamente todas sobre você. Segundo, porque este pode não ser o melhor momento para a princesa ouvir o que você tem a dizer.

Vendo a confusão no rosto do irmão, Ka Suo explicou.

— Você e Yan Da compartilham uma alma, lembra disso, não é? — Quando Shi assentiu, ele continuou. — Quando o escudo dos sonhos colocado nela foi quebrado, todos os reflexos físicos recaíram sobre você, de modo que ela não sofreu danos maiores que as feridas emocionais.

— Isso é bom... — Disse após longa pausa. — Tanto melhor se fui o único ferido.

— O processo drenou muito da sua energia, Shi, você precisa descansar. — Alertou o irmão. — Imagino o quanto quer esclarecer as coisas com a princesa, mas entenda que diante de tudo isso ela não vai acreditar em você agora, deixe-a colocar os sentimentos em ordem e esfriar a cabeça primeiro.

— Desculpe, mas não posso.

Afastando as cobertas, o jovem príncipe se pôs de pé e logo foi detido por uma vertigem que o fez cambalear e cair sentado na cama outra vez. Ele amaldiçoou a própria fragilidade enquanto Ka Suo tentava convencê-lo a descansar.

— Você não entende! —Irritou-se. — Foi isso que eu sempre fiz, deixei ela ter o tempo dela para supor e presumir inverdades isso quando eu mesmo não mentia! Ge, estou a um passo de perdê-la de novo, simplesmente não posso deixar ela entender as coisas como quer ou acreditar naquelas verdades distorcidas. Eu preciso encontrá-la, deixar ela me bater se for preciso, mas quero tentar dizer a verdade.

Děng děng, nǐ gāng zài tīng yàn dá hé mó yāo liáotiān le? — Xing Jiu se pôs de pé, abismado. — Bù kěnéng!*[1]

O príncipe não respondeu, apenas respirou fundo e cambaleou até o banheiro, ainda sentia um gosto amargo na boca e parecia grudento de suor. Ka Suo e Xing Jiu se olharam por um instante e a incredulidade no rosto do astrólogo era proporcional a preocupação no do monarca.

— Mesmo compartilhando uma alma, seria impossível Shi ver alguma coisa na mente de Yan Da. — Apontou o astrólogo. — Se isso aconteceu, meu rei, ele está ainda mais poderoso que quatro mil anos atrás! Acha que isso é devido a...

— Não sei. — Cortou Ka Suo, temendo que o irmão ouvisse. — Mas se for verdade, mantenha isso entre nós. No momento, Shi é tudo que temos para salvar Li Luo e esse mundo.

Impaciente, Xing Jiu telefonou para Huang Tuo a fim de informar sobre a ida de Shi até o apartamento e saber se Yan Da havia acordado. Acreditava que o médico seria capaz de evitar o confronto entre eles, do jeito que as coisas estavam, o relacionamento entre os príncipes estava cada vez mais frágil e caso a conversa acontecesse no momento errado, Yan Da podia acabar se afastando ainda mais dele.

Ela se foi. — Informou o médico do outro lado com um suspiro. — Não sabemos onde está e nem conseguimos falar com ela porque não levou o telefone.

— Como assim “se foi”? — Exasperou-se. — E Yue Shen?

Não sei. Ela saiu muito antes de Yan Da acordar.

Murmurando um agradecimento, Xing Jiu desligou o telefone e apertou a ponte do nariz. Shi saía do banheiro usando roupas limpas e exalando o cheiro de loção.

— Preciso de café. — Reclamou o astrólogo.

— Eu cuido disso. — Afirmou Ka Suo e saiu.

— O que aconteceu? — Quis saber Shi olhando para o amigo.

— Yan Da não está no apartamento, wangzi. — Ele largou o corpo na cadeira e pegou o cubo dos sonhos. — Huang Tuo me disse que ela saiu logo após acordar e não levou o celular consigo.

— Eu posso achá-la. — Afirmou o príncipe.

— Como? — Perguntou Xing Jiu com uma mistura de curiosidade e apreensão.

— Você disse que compartilhamos uma alma, não é? — Um sorriso enigmático se formou nos lábios de Shi. — Ela está em mim, eu posso senti-la.

E sem dizer mais nada, desapareceu pela porta no momento que Ka Suo retornou com o café de Xing Jiu, este largou o cubo dos sonhos sobre a cama de Shi e pegou a xícara sorvendo o líquido quente com avidez.

— Nunca antes eu me deixei tanto intimidar pelo seu irmão quanto agora. — Admitiu entre os goles.

※※※

Yan Da se arrependeu apenas por um momento de não ter levado o celular quando olhou o bar que despontou em uma das esquinas. Contudo, melhor que ninguém sabia que beber não resolveria seus problemas — e talvez trouxesse mais. Apesar dos protestos do seu corpo, ela continuou andando, já se sentia melhor por não chorar mais, até porque provavelmente já esgotaram seus estoques de lágrima. Tudo que aos poucos ia restando era a raiva.

Conforme suas emoções iam se equilibrando após andar por tanto tempo, ela começou a se desprender da dor e prestar mais atenção ao cenário à sua volta. Os cheiros começavam a variar entre vielas fétidas e restaurantes já recebendo clientes para a hora do almoço. Homens e mulheres de terno e roupas de escritório apareciam em carros, ônibus ou a pé segurando carteiras e bolsas de mão, parado em banquinhas de rua ou entrando em estabelecimentos requintados.

Ela se deu conta que andara por uma manhã inteira e não sabia exatamente onde estava naquele momento. Yan Da não comera nada antes de sair de casa, mas, talvez fosse o efeito da tristeza, não sentia qualquer fome. Ver aquelas pessoas de terno, contudo, lhe recordou de algo. Caminhar a esmo daquela maneira, se não tinha lhe dado um alívio para os sentimentos, ao menos lhe recordara que havia um ponto pelo qual ela podia começar. Havia contas que Yan Da precisava acertar e devia começar enquanto a raiva ainda ardia no seu peito. As memórias se misturavam na sua mente quando ela parou e olhou à sua volta tentando se localizar, não vira as ruas pelas quais entrara e onde saíra, de modo que levou algum tempo para ajustar seu senso de direção. Não temia que o recomeço da caminhada tirasse sua determinação, andara a manhã inteira e não sentia cansaço ou melhora na dor que lhe oprimia o coração.

Pegou o sentido leste e recomeçou a caminhar. As ruas pareciam um intrincado labiríntico conforme ela avançava por vendedores de rua, um frenesi caótico no trânsito e transeuntes que enchiam as calçadas disputando espaço com turistas deslumbrados batendo foto de tudo que viam pela frente. Os prédios altos faziam-na sentir-se ainda menor e, de repente, era como se ela mesma fosse uma turista conhecendo a cidade pela primeira vez, os odores de fritura se misturando com CO2 e mais com os diferentes cheiros que enchiam o ar — perfumes baratos, suor, produtos de limpeza e tinta fresca.

Os passos que antes eram incertos e não se importavam muito onde chegariam, agora eram firmes e determinados. Yan Da direcionou toda sua energia naqueles sentimentos quentes no seu peito, isso a distraía da dor, esta mais pungente e violenta que nunca. O passado ardia como uma queimadura de terceiro grau em sua pele; mantinha as mãos fechadas em punho para evitar as chamas de explodir tudo à sua volta, afinal, as pessoas naquele lugar nada tinham com seus tormentos e injustiças. Todavia, o novo objetivo claro afastava a nuvem caótica de sensações explodindo raios dentro dela.

Do ponto onde estava antes até seu destino, no ritmo que caminhava, a princesa do fogo levou uma hora e meia para conseguir chegar. Naquele momento, o intervalo de almoço havia acabado e, mesmo tendo jurado outrora que não voltaria a pisar naquele lugar, sentia certa satisfação agora que estava acobertada por algo que aquelas pessoas ali dentro não tinham: poder. Nenhum deles podia mais machucá-la. Embora o clima estivesse ameno naquele dia, Yan Da sentia as roupas grudando em sua pele por causa do exercício constante e ininterrupto desde o início da manhã, olhou por longo tempo para a fachada do lugar onde trabalhou por anos em busca não apenas de provas, mas, no fundo, de algum tipo de reconhecimento também.

Tudo que restava agora era decepção consigo mesma por todo tempo que desperdiçara ali em nome de sentimentos que nunca existiram.

O segurança pareceu surpreso ao vê-la ali, mas não se atreveu a pará-la. Altiva, Yan Da marchou para dentro do prédio sem se importar por usar trajes informais que a tornassem um destaque ali. Recebia com indiferença os olhares curiosos dos funcionários, mas, tal como o segurança, nenhum deles a abordou. Ela duvidava que houvesse alguma punição caso o fizessem, mas gostou da sensação de autoridade mesmo assim. Tomou o elevador vazio e manteve o foco na adrenalina que pulsava em cada pequena célula do seu corpo. Enquanto subia para o setor executivo, Yan Da rememorava as cenas de sua vida — aquela que findara e esta que caminhava para o fim — mesclando-as em um único tempo e permitindo que toda a revolta inflamasse as suas veias.

Quando as portas se abriram o escritório diante dela estava um caos. Ela percebeu antes mesmo de passar pelas portas de vidro que separavam as mesas dos funcionários do corredor. Telefones tocando desesperadamente, gritos, estagiários correndo com fotocópias e cafés, diretores e supervisores destilando estresse por toda a parte. Um sorriso de satisfação se formou no rosto da princesa, talvez agora percebessem quem fazia realmente o que. Talvez não, afinal, o CEO era cego.

Todos os funcionários, sem exceção, pararam ao vê-la. Alguns rostos se iluminaram em esperança, outros pareciam chocados como se vissem um fantasma, mas, como no saguão, ninguém lhe dirigiu a palavra. Ela atravessou as mesas e baias de vidro entrando em uma das salas no corredor adjacente sem bater ou pedir licença. A pessoa atrás da mesa pôs-se de pé com uma mistura de surpresa e choque ao vê-la ali, ele não teve tempo de olhá-la duas vezes dos pés a cabeça quando Yan Da rapidamente cobriu a distância que os separava e esbofeteou-o com tanta força que ele caiu no chão com sangue saindo do lábio inferior.

— Yan Da, ni fengle ma?!*[2] — O olhar mortal de Shuo Gang não a intimidou nem um pouco.

Ela lembrava com nitidez do tapa que ele lhe dera, muitos séculos atrás, quando ela lhe falara para soltar Yun Fei, a quem ele torturou por estragar seu sórdido plano de vende-la como um cálice de cristal para Hei Feng. Entre tantas outras vezes, no passado distante ou recente, que ele se atrevera a tocá-la com aquelas mãos sujas do sangue de inocentes.

— Encare como a cobrança de uma dívida antiga. — Ela disse simplesmente. — Eu havia me esquecido que precisava te bater. Muito.

— Quem você pensa que é? — Bradou ele limpando o sangue da boca. — Esqueceu qual é o seu lugar?!

— Quem você pensa que é, Shuo Gang? — Devolveu ela, empurrando-o quando fez menção de levantar. — Não passa de um libertino nojento que elimina qualquer um no seu caminho. Seu lugar é na cadeia, para onde eu pretendo te mandar na primeira oportunidade, do contrário pode ser o inferno, não me importo para onde você vai desde que sofra horrivelmente.

Cego pela fúria por ter sido nocauteado por uma mulher que ele sempre teve sob controle, Shuo Gang se levantou ainda um tanto atordoado e chocado com a postura da irmã que sempre o temeu. Ele não sabia onde ela havia conseguido aquela confiança toda para agir daquela forma diante dele, mas não pretendia deixar, ia fazê-la recordar quem estava no comando. Yan Da, parada pacientemente diante dele, não demonstrava qualquer hesitação, seus olhos estavam inflamados por uma raiva que não podia ser descrita com menos que ódio, quando Shuo Gang ergueu a mão pronto para segurar o pescoço dela, viu-a interceptada pela mão da irmã que prendeu seu pulso com tamanha força que ele gritou de dor.

Yan Da o largou com brusquidão e o irmão caiu sentado na poltrona encarando o pulso vermelho como se a pele tivesse sido queimada. A princesa do fogo trancou a porta e apertou um botão para acionar o blecaute das janelas do escritório. Voltando-se para um Shuo Gang desconcertado, ela viu o momento em que ele puxou uma seringa da gaveta, a agulha de aço cintilou na luz fluorescente, mas nada na expressão de Yan Da mudou, como se o objeto fosse insignificante — como de fato o era. Nesse momento, pela primeira vez na vida, ela contemplou medo nos olhos do irmão e aquilo a deleitou.

— Sua inutilidade e incompetência sempre o enfureceram. — Cuspiu ela. — Contudo, mais cômodo que tentar servir para algo, era transformar a minha vida num inferno, não é mesmo? Por duas vezes você tirou Peng Peng de mim da maneira mais cruel possível.

— Duas vezes? Do que...

Ela o calou com um soco que o fez bater contra o armário atrás da mesa, o nariz sangrando, provavelmente quebrado — ela esperava que sim! — enquanto ele gritava de dor.

— Achou que eu nunca seria capaz de pegar você? — Um sorriso cruel brincou nos lábios dela. — Seu inferno acabou de começar, Shuo Gang, e vou garantir que seja longo e duradouro!

Shuo Gang pensou estar vendo coisas quando as mãos de Yan Da ficaram incandescentes como ferros numa forja, mas suas dúvidas se dissiparam quando ele sentiu o rosto queimando quando as palmas encostaram na sua pele, era como se ela tivesse colocado sua cabeça numa chapa de metal quente, a dor era indescritível e o grito dele dessa vez foi alto o bastante para atrair atenção, batidas frenéticas soaram na porta, mas Yan Da não se importou. Quando suas mãos deixaram o rosto desfigurado em carne viva do irmão ela anuiu satisfeita.

— Quero ver que mulher vai querer você agora. — Sorriu. — Você está muito mais parecido com o monstro que é de verdade. Me diga, como é sentir dor? Ao que parece, gege, você gosta de provoca-la, mas não aguenta muito senti-la, não é?

Meng xiansheng! — Alguém gritava do lado de fora batendo na porta. — Meng xiansheng, está tudo bem?

Eu vou te...

— Denunciar? — Yan Da riu. — Vá em frente. Primeiro, vamos ver quem vai acreditar em você, que provas você vai usar. Depois, quando eu apresentar provas, veremos quem de nós vai terminar atrás das grades.

Meng xiansheng, por favor, responda! — Implorou outra voz atrás da porta.

— Voltem ao trabalho. — Ordenou Yan Da. — Agora!

O som de saltos e sapatos sociais foi ouvido se afastando pelo corredor enquanto Shuo Gang, caído no chão numa confusão de lágrimas e sangue chorava em agonia. Primeiro, meses atrás, viera aquela mulher louca, agora Yan Da também enlouquecera, o que estava acontecendo? E o que era aquilo nas mãos da irmã? A dor o deixou tão paralisado que ele mal conseguia se mexer, ainda assim tentou se arrastar para longe quando Yan Da pegou uma pequena escultura de ferro que ele havia comprado numa viagem à Itália, por um momento se perguntou se ela pretendia matá-lo com ela.

— Sabe — continuou ela olhando para a escultura de modo sinistro —, por muito tempo me perguntei se você prezava algo além de dinheiro. Há nesse mundo algo que você realmente estime, Shuo Gang?

— Yan Da... eu estava errado. — Sua voz implorava, mas a irmã parecia falar consigo mesma. — Eu não devia ter me metido com Peng Yan, mas saiu do controle, não fui eu que mandei machuca-lo, eu juro!

— Imagine o desastre que seria um ser desprezível como você engravidar uma mulher? — Indagou Yan Da, ainda olhando a escultura e ignorando-o completamente. — Foi então que me dei conta que é isso que você preza mais além do dinheiro. Aquilo que você acha que é domínio sobre as mulheres. Sempre foi assim, perpetrando essa ideologia podre de Huo Yi, mas veja só quem está sobre quem agora.

— Yan Da... por favor! — As queimaduras ardendo no rosto desfigurado quase perdiam espaço para o pavor que ele sentia naquele momento.

— Não podemos permitir isso, não é? — Ela se abaixou diante dele. — Ninguém ia querer que outra mulher fosse vítima de um demônio, como a minha mãe foi, e precisasse se submeter a algo como você.

Então, sem qualquer sinal de misericórdia na sua expressão, Yan Da baixou com toda força a estatueta na virilha do irmão. Ouviu o som do apêndice sendo esmagado e o grito de Shuo Gang foi um berro primitivo que fez todo o corpo dela estremecer. Uma mancha se formou na calça e o irmão estava vermelho com olhos esgazeados enquanto se encolhia no chão engolido por uma agonia infernal. Largando a arma no chão sem demonstrar remorso, Yan Da se pôs de pé e olhou-o de cima lembrando da aparência de Peng Yan quando o encontrou largado na lama seis anos antes. Ou no rosto de agonia dele quatro mil anos atrás naquela floresta quando estava prestes a ter seus membros arrancados do corpo. Por que ela deveria se compadecer daquela coisa no chão?

— Lembre bem dessa sensação, Shuo Gang, você está reduzido ao verme que é de verdade. — Sua voz soou dura. — E essa é a sensação de dor quando se machuca alguém.

Um baque alto soou atrás dela e a porta se abriu com violência. A figura de Huo Yi parou em choque na porta e atrás dele vários funcionários pareciam abismados. Rapidamente, o pai mandou todos voltarem ao trabalho e fechou a porta atrás de si encarando Yan Da com fúria e incredulidade. Ela, contudo, não se abalou pela presença dele e apenas caminhou tranquilamente até a porta como se o pai não fosse diferente de qualquer móvel ali dentro.

— Faça o que você faz de melhor e abafe o caso. — Disse apenas. — Do contrário sua imagem de bom empresário pode desabar e não vou me importar nada com isso.

— O que você...

— E se sequer passar pela sua cabeça olhar para mim de novo — cortou-o ainda sem se virar para ele, a mão na maçaneta — vai acabar igual ou pior a essa coisa que chama de filho. Como ele, você também é repulsivo, Huo Yi.

Abriu a porta e bateu-a atrás de si ouvindo o chamado furioso do pai ser abafado pela porta. Sem se abalar, ela seguiu o corredor até um banheiro, lavou as mãos um pouco sujas de sangue, passou um papel toalha úmido no rosto e, altiva, saiu por onde entrou. Todos os funcionários que fofocavam suposições do que havia acontecido se calaram quando ela passou, encolhendo-se em seus lugares.

Tão logo alcançou o lado de fora, as mãos de Yan Da começaram a tremer e ela sentiu um sabor amargo na boca, era uma mistura estranha de satisfação e angústia. Olhou uma última vez para a Huo Enterprises sabendo que, daquele ponto em diante, o único contato que teria com sua antiga família seria o momento em que colocaria Shuo Gang no banco dos réus. Lutando para não ser engolida mais uma vez pela dor e as memórias, ela recomeçou a caminhar, ignorando os protestos dos seus pés e pernas, sentia-se zonza, talvez por não ter se alimentado, e desesperadoramente não havia qualquer lugar para ir.

※※※

Ying Kong Shi ganhou a rua sem saber exatamente para onde ir.

Por mais que tentasse localizar Yan Da, o fato de ela não estar focada em um único sentimento dificultava o rastreamento. Na última vez que conseguira a façanha de chegar até ela, o que prevalecia no coração da princesa do fogo era medo, agora a confusão entre dor, ódio, revolta, desespero e tantos outros sentimentos que ele sequer conseguia nomear tornavam a ligação com ela muito caótica para precisar um ponto no mapa espiritual.

Frustrado, ele começou a caminhar na direção dos pontos mais óbvios, embora não a conhecesse bem o suficiente para tentar adivinhar para onde ela iria em um momento de confusão como aquele. Talvez nem mesmo a própria Yan Da soubesse para onde ir. Ele esperava que seu próprio desespero para encontrá-la fosse suficiente para conseguir chegar até ela. Contudo, apesar de não conseguir sentir a presença da princesa no seu espírito, sentia a outra presença o seguindo desde que começara a andar a esmo pelas ruas da cidade.

— Por quanto tempo vai ficar me olhando de longe como uma stalker? — Perguntou, parando e cruzando os braços enquanto encostava-se à parede de uma das residências.

Yue Shen não parecia envergonhada ou intimidada quando surgiu, sua expressão sempre impassível tampouco demonstrava qualquer surpresa de ter sido detectada por ele. Ela cruzou os braços também enquanto encarava o príncipe do gelo.

— Está aqui para me impedir?

— Poucas vezes podemos impedir vocês homens de serem idiotas. — Retrucou, mordaz. — E nas poucas vezes que tentamos vocês não nos dão ouvidos.

— Então por que está aqui?

— Gosto da sua proatividade, apesar de ser uma estupidez. — Deu de ombros. — E em parte concordo com o seu ponto de vista, talvez não seja inteligente da sua parte abordar Yan Da agora, mas ela pelo menos deve saber pela sua própria boca que você não é mais um canalha obsessivo, manipulador e insensível como quatro mil anos atrás.

— Obrigado, Yue Shen, estou me sentindo muito melhor agora. — Ironizou.

— Não que seja de muita ajuda, mas antes de começar a seguir seu rastro nada sutil, devo acrescentar, vi quando Xing Jiu localizou a estrela dela. — Informou. — Ao que parece seu radar natural está um pouco fora de uso agora.

— Então só veio me informar?

— Vim para garantir que você vai voltar um pouco menos queimado para o seu irmão. — Ergueu a sobrancelha apontando para ele. — Ela está em movimento constante, não parece ter uma direção fixa em mente, só está se movendo. Nesse momento pelo noroeste da cidade. Ele vai me ligar se o curso mudar.

— Você, definitivamente, está passando tempo demais com Huang Tuo. — Provocou.

— Eu não testaria meus limites, Shi wangzi, não estamos no reino imortal, aqui eu posso chutar o seu traseiro sem culpa. — Ameaçou.

— Soaria muito doentio dizer que estou contando com isso?

Yue Shen revirou os olhos e passou por ele, indo na direção do centro da cidade. Shi deu uma risadela sentindo-se menos sobrecarregado; gostava muito da envenenadora, ela não apenas era confiável, mas tinha o dom de fazê-lo sentir-se calmo nas situações mais desesperadoras como aquela. Ver Yue Shen caminhando à sua frente causava em Shi mais que tranquilidade.

Lhe dava esperança.

※※※

Yan Da continuou caminhando pelo que pareceram horas. Em alguns momentos, a vertigem ameaçava pôr um fim ao seu “passeio/fuga”, mas tudo que ela tinha em mente é que queria se afastar o máximo possível da empresa do pai, de Shuo Gang e sua crueldade, de Ying Kong Shi e suas mentiras, mas, sobretudo, queria desesperadamente se afastar de si mesma. Daquela pessoa que ela estava se tornando. E era assustador não saber, no fim das contas, quem ela era naquele momento. Todo seu corpo começava a protestar, o suor em seu rosto era um pouco mais intenso agora e as roupas grudentas começavam a lhe incomodar, mas ela se forçou a continuar caminhando.

Nuvens de chuva se pronunciavam no horizonte, mas as grossas — e esperadas — gotas nunca vinham e o clima ameno aos poucos se tornava mais quente conforme o abafado aumentava o mormaço. Andou um pouco mais até alcançar uma pracinha escondida nos recônditos da cidade, um lugar que ela não fazia ideia da existência. O chão era de terra batida e a presença de um velho balanço enferrujado em um dos cantos dizia-lhe que, em algum momento, foi usada como playground, mas agora era apenas um ladeado de árvores altas, bancos de madeira decadentes — mas ainda surpreendentemente estáveis — e um portão de ferro nos fundos coberto de heras que separava a praça do que parecia ser uma escola infantil desativada. Sentou-se em um dos bancos sentindo-se exausta, não só fisicamente, mas, sobretudo emocionalmente. Colocou as mãos nos bolsos da gabardina e contemplou o céu por um momento.

Uma brisa fria soprou e a princesa do fogo fechou os olhos aproveitando o alívio. Era como sentir a presença de Ying Kong Shi se prenunciando na cortina do espaço-tempo e apenas aquela percepção enchia seu coração de dor e fúria. Yan Da se sentia uma tola; não importava por que ângulo olhasse, todos eles estavam envolvidos no acordo de usá-la para alcançar seu propósito. Estava prestes a abrir os olhos para afastar o pensamento quando sentiu a presença. Havia certa aura de poder nela, mas era muito mais fraca ao ponto de Yan Da não reconhecer imediatamente a quem pertencia.

Alguém sentou ao seu lado no banco sem pedir permissão.

Abrindo os olhos, Yan Da encarou a figura sentada ao seu lado. Não foi muito difícil reconhecê-la apesar de estar um tanto diferente desde a última vez que estiveram frente a frente. Uma bengala elegante sustentava suas mãos sobrepostas enquanto, altiva, ela olhava para frente como uma avó cuidadosa olhando os netos brincarem. Havia sinais de cansaço em seu rosto, os cabelos rigidamente presos acima da cabeça, um broche de diamantes brilhava no casaco preto e, na mão, uma esmeralda ornava seu dedo anelar.

— Shen Hairong. — A princesa do fogo disse, em tom de confirmação, enquanto desviava o olhar da figura. — Muito longe da água.

— Tanto quanto você dos seus rios de fogo, princesa Yan Da. — O tom sarcástico dela não passou despercebido. — Agradeça ao curandeiro e aquele príncipe obstinado por ainda estar respirando. Aquela criança estragada quase acabou com a sua vida.

— Do que...

— A lágrima ancestral teria matado você. — Cortou a velha, disparando as palavras. — Lian Ji, aquela criança podre, acha que é poderosa o bastante para controlar um poder como aquele, mas não é. Contudo, não me isento da culpa de Lan Shang tê-la ajudado todo esse tempo, fui eu quem estragou aquela menina.

— E o que está fazendo aqui, querendo que eu traga sua neta de volta? — Devolveu Yan Da, igualmente cortante.

— Claro que não. Estou aqui para lembra-la quem são seus verdadeiros inimigos.

— Poupe seu tempo, posso ver isso sozinha.

— Pode mesmo?

O modo como ela disse aquilo fez algo estranho se mover no peito de Yan Da. Apesar de ser inimiga da sua família por estar, tradicionalmente, do lado da tribo do gelo, Shen Hairong na qualidade de rainha das sereias procurava ser diplomática. Yan Da nunca esquecera como ela tentara proteger seu clã ofertando Lan Shang, primeiro para Shuo Gang, depois para Huo Yi, algo que a princesa sempre repudiou. Não concordava na obsessão da princesa sereia por Ka Suo, mas lhe enojava que um dia Lan Shang também tenha sido vista como uma mera moeda de troca tal qual ela quando o pai e o irmão tentaram casá-la com Hei Feng. Vendo-a sentada ali ao seu lado bem no momento em que tudo na sua mente e coração estavam conturbados, Yan Da não podia deixar de se perguntar se ela não estava ali fazendo novamente um papel de diplomata em favor de Ka Suo e todo o seu plano.

— Há uma diferença entre as coisas que são verdades e aquelas que encaramos como verdades, princesa do fogo. — Continuou. — Especialmente quando aquilo considerado verdade é algo subjetivo. Ao sermos trazidos para cá, todos nós fomos testemunhas do seu amor desafortunado com aquele príncipe teimoso, você vê apenas um lado da história. O que viveu. Mas o mundo não tem um lado só, tem?

— Onde está querendo chegar com isso?

— Justiça deixa de ser objetivo quando se concentra apenas num lado do papel, Yan Da. Quando fui trazida para cá junto com Lan Shang estava mais que decidida a não me meter nos planos de Ka Suo, seja lá o que ele pretende com tudo isso. Na única vez que intervi em favor da minha neta, fui traída por ela e agora sequer sei onde ela se meteu. Contudo, há duas coisas que quero dizer a você e talvez esse seja meu último ato diplomático em toda essa história.

“Quatro mil anos atrás, Yan Da, as coisas funcionavam de uma maneira diferente, tão bem quanto ninguém você sabe disso. Apesar de não ser favorável ao seu clã, nunca tive nada diretamente contra você. De todos aqueles da tribo do fogo, você era a única com um mínimo de juízo e decência. Aqui, você recebeu uma nova chance e aquém de toda a tristeza a que o destino te submeteu, cabe a você escrever um final diferente para sua história. Com isso não estou dizendo para perdoar Ying Kong Shi tão facilmente assim, mas entender que a pessoa que você é agora não é a mesma de quatro mil anos atrás, o mesmo se aplica a ele.

“Um dos meus maiores arrependimentos é não ter dado a Lan Shang autonomia para fazer as próprias escolhas. Ensinando-a a lutar pelo que acreditava e queria, tornei-a assim o que ela é hoje, alguém que não sabe viver por si mesma. Nesse apego cego por um homem que nunca vai ser seu e cega para qualquer outra coisa além dessa. É exatamente o preço de se viver nas dores de um tempo que não é mais seu. O tempo é impiedoso, princesa do fogo. Aquilo que foi plantado quatro milênios antes não sobrevive à passagem das eras. Cabe a você arrancar as heras que cresceram em volta do seu coração ou permitir que elas germinem e te sufoquem até a morte.”

Nǐ shuō dé hěn hǎo.*[3] — A princesa se pôs de pé ficando de costas para a rainha sereia. — Se o seu medo é minha fúria voltar-se para a sua neta, não precisa se preocupar. Contudo, por estar distante da diplomacia na qual era tão boa no passado, parece que há algumas coisas que você também desconhece, Shen Hairong. Não existe nada verdadeiro nesse mundo nem naquele do qual viemos. Nunca poderá existir qualquer tipo de verdade quando as histórias são escritas pelos que vencem e só mostram sua versão dos fatos.

Antes que a mulher tivesse tempo para responder, a princesa do fogo seguiu seu caminho.

※※※

— Eu vou atrás dela!

Pian Feng levantou pela décima vez na última hora fazendo a mesma afirmação e, mais uma vez, foi impedido por Huang Tuo e Chao Ya. Ele voltou a protestar que Yan Da estava até aquela hora sem comer nada e podia acabar passando mal. Mas Chao Ya voltou a lembra-lo que ela não era mais um ser humano frágil — apesar de admitir que ela ainda precisava comer — e tinha seus próprios meios de se cuidar. O guerreiro do vento apenas sentia que precisava fazer alguma coisa ou acabaria enlouquecendo com aquela espera interminável. Huang Tuo estava na cozinha preparando alguma coisa para eles próprios comerem, pois desde que Yan Da atravessara a porta do apartamento eles não haviam posto nada no estômago além de chá e café forte, e o médico começava a sentir náuseas.

Chao Ya conseguiu fazer o marido sentar mais uma vez e ele não contrariou, mesmo se sentindo frustrado. Na cozinha, o médico movia colheres em panelas e fracos de tempero enquanto guardava sua preocupação para si em uma tentativa de não piorar o estado de nervos do amigo na sala. Estava tão compenetrado na sua tarefa que não ouviu seu celular tocando na sala de estar onde o deixara.

— Hum, Huang Tuo — Chao Ya o chamou. — “Rei de copas e cozinha” está ligando para você.

A cantora franziu o cenho diante do nome e o médico não disse nada quando ela lhe entregou o telefone. Do outro lado da linha, Ka Suo informava a saída de Shi atrás de Yan Da e que Yue Shen o acompanhara. Também dizia mais ou menos a localização da princesa. Agradecido, o curandeiro desligou a chamada e deu as informações aos amigos — ocultando a parte de Shi ter ido atrás dela. A cantora, entretanto, determinada a pensar em qualquer coisa que não fosse todo aquele caos acontecendo, desviou o assunto para outra coisa.

— Sim, mas quem é, afinal, “rei de copas e cozinha”?

— Ka Suo. — Ele sorriu.

— O quê?! — Chocou-se. — Que espécie de apelido ridículo é esse?

—Espere aí, você colocou nossos nomes todos com esses epítetos estapafúrdios? — Pian Feng se aproximou da ilha da cozinha encarando o médico com irritação, em parte feliz por ter algo em que pensar por um momento.

— Em primeiro lugar, gosto de coisas diferentes. Em segundo, não sou convencional. — Explicou. — E em terceiro, Ka Suo é muito sentimental, sempre foi. Rei de Copas é um naipe que combina com ele, já a cozinha, bem, ele tem talento culinário, ninguém pode negar isso.

— Me dê já esse telefone aqui! — Chao Ya agarrou o aparelho e começou a navegar pelos contatos. — Garoto estrela?

— Quem é esse? — Pian Feng fez uma careta.

— Xing Jiu, eu presumo. — Ela lançou um olhar de esguelha para o médico que continuava cozinhando como se nada acontecesse. — Liao Jian sabe que você o chama de Guardião do Norte esquentadinho?

— O “Guardião do Norte” é muito óbvio. — O guerreiro revirou os olhos. — Quantos anos você tem, cinco?

— Ouça só isso, você é descrito aqui como “pássaro ciumento”. — Riu ela, deliciada. — A pior parte é que combina muito com você, Pian Feng.

— Huang Tuo! — Ele fechou as mãos em punho falando entredentes num tom de ameaça.

— Não me olhe com essa cara. — O curandeiro fez uma careta. — Você parece um velho de oitenta anos rabugento e um pai coruja superprotetor. Tenho pena da sua filha.

— Ainda tem mais — a cantora interrompeu a discussão —, Yue Shen sabe que o número dela foi gravado como “minha vida violenta”?

— Poderia dizer que isso é uma piada interna, mas ela não precisa saber de tudo. — Deu de ombros.

Pian Feng pegou o celular da mão da esposa e lançou um olhar mortal para o amigo antes de continuar passeando pelos contatos.

— Espere até eu contar àquele Ying que você o apelidou de “floco de neve problemático”! — Ameaçou e Chao Ya deu uma gargalhada. — Ao que parece, Chao Ya, você e Yan Da são as únicas com quem ele teve alguma consideração.

— Eu deveria mesmo querer saber como meu nome está aí? — Ela fez uma careta.

— “Grade fada mãe”. — Informou, colocando o celular novamente na mesa de centro. — Quatro mil anos e você ainda age como um adolescente.

— Estou cogitando trocar sua alcunha por “Viagra vencido”, o que acha? — Provocou.

Chao Ya não conseguiu conter a risada e o clima no apartamento ficou um pouco mais leve. Por um pequeno momento todos eles se desvincularam da preocupação que corroía seus corações tentando apenas confiar que Yue Shen traria Yan Da em segurança para casa e, por dentro, Huang Tuo implorava ao universo que a princesa do fogo ouvisse pelo menos um minuto o que Shi tinha a dizer.

※※※

Shi seguia Yue Shen pelas ruas intrincadas da cidade quando, de repente, sentiu algo quente pulsar dentro de si e o impacto o desequilibrou. A guerreira o firmou segurando-o pelo braço e, fechando os olhos ele conseguiu senti-la. Todo o seu espírito estava inflamado de fúria e indignação enquanto ela se movia, a sensação fez o sangue do príncipe do gelo ferver como se ele estivesse pegando fogo e foi com muito esforço que ele bloqueou a agonia impedindo que os sentimentos dela se mesclassem com os dele. O choque violento ao menos lhe fez conseguir a localização precisa da princesa, mas por um bom tempo, o príncipe não conseguiu se mexer.

Zěnme yàng?*[4] — Yue Shen perguntou, preocupada. — Sua cara está verde.

Ele não respondeu imediatamente, tentando encontrar a voz em meio ao oxigênio que rareava em seus pulmões.

— Depressa, vamos para o sul. — Informou. — Abra um portal.

Wangzi, não posso simplesmente abrir um portal no meio da avenida. — Objetou. — Quer ser notícia amanhã com mortais afirmando terem visto o que eles chamam aqui de “alien” ou “mutante”?

— O que quer que eu faça, congele todos eles? — Ameaçou.

Yue Shen revirou os olhos e o puxou — quase arrastando na verdade — para um dos becos entre edifícios altos. Mais especificamente entre uma livraria e uma cafeteria. Ali, ao certificar-se que os transeuntes estavam muito ocupados com os relógios de pulso e as telas dos smartphones, ela abriu um portal tentando se basear na localização dada pelo príncipe.

Os dois apareceram em um cruzamento numa das ruas periféricas da cidade, mais ao sul, próximo de onde Yan Da fora emboscada pelos homens que um dia trabalharam para Shuo Gang. Shi olhou em volta e, sem que a envenenadora esperasse, saiu correndo pela rua sem dar explicações. Ela o seguiu e presenciou o instante em que Yan Da pendeu, fraca, e ele a segurou nos braços. A cena teria sido romântica vista de fora, mas tão logo a princesa recobrou um pouco das forças e viu quem a havia ajudado, afastou-o com rispidez.

— Yan Da, por favor, me escute...

— Eu não tenho nada para ouvir de você. — Cortou-o. — Só fique longe de mim!

— Me deixe explicar...

— Explicar o que, Ying Kong Shi? — Disparou ela, furiosa. — Que você mentiu pra mim? Que brincou com meus sentimentos? Que deixou meu melhor amigo ser morto porque era conveniente para você e seus amiguinhos? Explicar que no fim de tudo eu ainda valho menos que o seu precioso irmão? Me diga, qual dessas coisas você quer explicar?

Ele tentou se aproximar, mas ela o estapeou com força, tanta força que o rosto dele ganhou uma leve escoriação e o lábio abriu um pequeno talho.

— Mais um pouco e eu teria sido feita de idiota de novo, não é? — Indagou aos gritos, lágrimas despontando em seus olhos. — O que você quer conseguir dessa vez? Precisa que eu morra por você de novo? Me desculpe, não estou disposta.

— Eu sei que você não acredita em mim, mas nada do que eu te disse era mentira. — Sua voz estava embargada e ele mesmo lutava contra as lágrimas. — Yan Da...

Bì zuǐ! Wǒ bùyào tīng.*[5] — Interrompeu-o. — Sabe o que eu mais odeio, Ying Kong Shi? O fato de eu sequer conseguir destruir você como realmente tenho vontade de fazer.

— Acredite em mim, suas palavras surtem um efeito igual ou pior que qualquer destruição. — Assegurou. — Nunca foi minha intenção...

— Me machucar? — Ela riu sem humor. — Me enganar? Me usar como ferramenta pra conseguir o que quer? O que você faz então quando tem intenções?

— Eu sei que, visto assim, eu pareço um monstro, mas toda história tem dois lados...

Eu confiei em você! — Bradou. — Não tem lado algum que explique sua falsidade ou tudo que foi perdido em nome da sua cegueira por Ka Suo! As coisas que você fez... como você pôde? É isso que eu ganho por ser boa com você, mas não vou cometer o mesmo erro duas vezes.

— Isso não é justo...

— Não se atreva a falar de injustiça comigo! — Rebateu. — Wǒ gàosù nǐ,[estou te avisando] nunca mais apareça na minha frente de novo ou eu sou capaz de tentar matar você!

O coração de Shi estava partido. Ele imaginava que ela estaria furiosa com ele — e não podia lhe tirar a razão —, mas aquela indiferença, aquele olhar magoado, era pior do que qualquer injúria que ele já tivesse sofrido em qualquer existência. Eles tinham razão, naquele estado ela não lhe daria ouvidos, mas vendo sua postura ele duvidava que em qualquer outro momento ela realmente se dispusesse a lhe escutar.

Era mesmo o fim?

Yue Shen entrou no caminho da princesa bem no momento em que Yan Da se preparava para ataca-la, mas antes de conseguir tudo escureceu e ela despencou no vazio. A ex-assassina a amparou nos braços sem dificuldade enquanto Shi, atordoado de preocupação, se aproximava dela.

— Vamos leva-la para casa. — Disse, enquanto Shi a acomodava possessivamente nos braços. — E, para o nosso bem, faça o que ela diz, deixe-a em paz um tempo.

— Não posso fazer isso. — Rebateu o príncipe. — Mesmo que ela me mate, não posso deixar acabar assim.

— Bem, espero mesmo que ela não consiga te matar.

Yue Shen abriu um portal e os três atravessaram, Shi prendeu Yan Da com força contra seu corpo temendo que aquela fosse a última vez que conseguiria abraça-la.

Acabaria daquele jeito?

Não tinha mais volta?


Notas finais
[1] * Děng děng, nǐ gāng zài tīng yàn dá hé mó yāo liáotiān le? [等等,你刚在听艳怛和魔妖聊天了?不可能]— Espere, agora a pouco você ouviu a conversa entre Yan Da e Mo Yao? Impossível! [2] *Ni fengle ma? [你疯了吗] — Você está louca/enlouqueceu? [3] *Nǐ shuō dé hěn hǎo. [你说得很好] — Você falou/disse muito bem. [4] *Zěnme yàng [怎么样?] — Essa expressão tem muitas traduções dependendo do contexto. Nesse caso, funcionaria como um “como está?” “O que houve?” “Como se sente?” [5] * Bì zuǐ! Wǒ bùyào tīng. [闭嘴!我不要听] — Cala a boca! Eu não quero ouvir.