Love as Sakura | 爱如樱

51 第46章 Feito por mim


Mesmo contrariando sua vontade, Yan Da não viu opções além de voltar para o apartamento quando deixou Shen Hairong para trás. Ainda não estava preparada para encarar Pian Feng e Chao Ya, se fosse franca consigo mesma admitiria que, apesar de se sentir magoada pela traição, não sentia realmente raiva deles. Desde a morte de Peng Yan, era-lhe impossível lembrar de algum momento em que a cantora e o agente não estiveram ao seu lado, todas as boas recordações que construíra desde o sofrimento com a perda do melhor amigo fora por causa deles e conviver com os efeitos colaterais daquele trauma teria sido ainda mais complicado sem os dois ao seu lado.

Contudo, sempre que seus rostos amistosos lhe viam à mente, ela pensava em Ying Kong Shi por trás deles. A frustração era enlouquecedora.

Resolver suas pendências — pelo menos parte delas — com Shuo Gang a ajudara a sentir-se melhor. Todavia, só conseguiria se sentir realizada quando ele estivesse atrás das grades, Yan Da não desejava a morte dele. Morrer, ela pensava, era fácil demais para ele. Não, ela desejava que ele sofresse cada segundo do resto da vida miserável dele atormentado por aquilo que fez. Foi apenas quando pensou nisso que lembrou-se de um lugar para onde podia ir e ninguém pensaria em encontrá-la.

Quando sua determinação melhorou um pouco mais, veio o primeiro mal estar. Sua visão ficou turva e a cabeça parecia rodar, ela sentia-se enjoada com a boca seca. Há quantas horas não comia nada nem bebia água? Fechou os olhos por um momento e respirou fundo, se não estivesse errada, conseguiria chegar ao seu destino em duas horas a pé partindo da sua localização atual, ela aguentara até ali, podia suportar mais um pouco. Sentindo-se desamparada e solitária, Yan Da recomeçou a caminhar agradecida por ter escolhido tênis e seus pés não estarem machucados.

Virou uma rua e olhou para os lados tentando se lembrar em que direção ir, a visão falhou novamente e ela pediu a si mesma que suportasse um pouco mais. As pernas mal respondiam quando conseguiu se orientar e seguir pela direita, os passos mais lentos lhe levando a uma rua arborizada ladeada de condomínios de classe média, salpicadas de árvores que choravam folhas no chão e com um fluxo de carros bem menor. Após seguir um pouco mais, ela sentiu-se mole, sua visão escureceu por um momento e ela sentiu o corpo despencar.

Foi nesse instante que algo a segurou. Braços fortes e quentes.

Um perfume amadeirado inundou seus sentidos, ela se lembrava de tê-lo sentido antes, mas não lembrava onde. Todavia, aquele aroma lhe forneceu alguma tranquilidade. Enquanto permanecia de olhos fechados para tentar reestabelecer o próprio equilíbrio, Yan Da tentava desvincular seus pensamentos daquela exaustão que lentamente ia engolindo seus músculos, também do vazio que oprimia o seu coração.

— Yan Da...

Aquela voz. Um sussurro suave e baixo cheio de preocupação e tristeza. Os olhos de Yan Da se abriram para contemplar o dono daquela voz que assombrava seus pensamentos, o rosto de Shi ainda estava um pouco nublado na sua mente, mas ela podia distinguir suas feições mesmo se perdesse a visão. Obrigou as pernas a lhe obedecerem e afastou a fraqueza para longe quando se afastou dele com brusquidão, os olhos magoados fitando aquele rosto que um dia ela amou com tudo de si. Lembrou do sorriso dele quando mentiu para ela, da sua face quase sempre sem expressão, daquele cuidado falso alimentando as esperanças de um sentimento sem futuro.

Ela queria odiá-lo.

Odiá-lo ao ponto da voz dele ser insuportável aos seus ouvidos e não uma música suave que espantasse todos os seus temores. Odiá-lo ao ponto de não se importar em queimá-lo até as cinzas sem sentir que seu próprio espírito também estava sendo destruído. Não obstante, mesmo depois de todo o tormento que vivera no passado, culminando em uma morte dolorosa e injusta, nem isso seu coração traiçoeiro era capaz de lhe ofertar. Contrariando toda a rebeldia da sua razão, aquele coração se apaixonara pelo maldito príncipe do gelo de novo.

Todavia, Yan Da não era a mesma de quatro mil anos atrás. Ela não se permitiria aquela fraqueza. Sabia que a única coisa que recebia em troca de amor era dor, perda e traição. Ela podia escolher, e escolheria não seguir aquele caminho. Não permitiria que Ying Kong Shi brincasse com a sua vida outra vez, destruísse o que restara da sua existência. Ela já tinha perdido a capacidade de sonhar quando perdera Peng Yan, não ia deixar ele levar o único fio de determinação que a prendia à vida com as forças que lhe sobraram. Tudo que havia no coração daquele homem era sua devoção cega por Ka Suo, nunca houve espaço para ela.

Afinal, Yan Da era só uma linda amiga.

— Yan Da, por favor, me escute...

A raiva incendiou o sangue da princesa do fogo e naquele momento ela mal conseguia encarar Ying Kong Shi, mas a verdade era que estava mais irritada consigo mesma por ainda se sentir mexida em apenas ouvir a voz dele. Era como uma maldição que a prendia num círculo vicioso do qual não conseguia se livrar.

— Eu não tenho nada para ouvir de você. — Ela o cortou. — Fique longe de mim.

— Me deixe explicar...

Yan Da quase riu. Depois de tudo aquilo ele ainda insistia em mentir pra ela? Não era suficiente tudo que lhe fizera passar antes? Quanto mais ele ainda precisava destruir por causa de Ka Suo até se sentir satisfeito? Ela não ia ser usada como uma ferramenta para salvar o irmão dele ou ninguém mais.

— Explicar o que, Ying Kong Shi? — Exaltou-se, frustrada e furiosa. — Que você mentiu pra mim? Que brincou com meus sentimentos? Que deixou meu melhor amigo ser morto porque era conveniente para você e seus amiguinhos? Explicar que no fim de tudo eu ainda valho menos que o seu precioso irmão? Me diga, qual dessas coisas você quer explicar?

Cada memória lhe vinha à mente como a pulsação dolorosa do sangue sob um hematoma, Yan Da se perguntava o que ainda estava fazendo ali dando-se ao trabalho de dispensar Ying Kong Shi, ele não valia seu tempo. Não valia nada do que ela havia feito por ele. Ainda assim, a estabilidade no seu corpo se agravava conforme o abalo emocional tomava proporções maiores, se manter firme era cada segundo mais difícil. Sua garganta estava seca, sua cabeça pesava e seu corpo exausto doía. A insistência de Shi só serviu para minar sua paciência, quando ele se aproximou mais com a intenção de tocá-la, a princesa não pensou duas vezes antes de estapeá-lo com todas as forças que lhe restavam.

Não se sentiu culpada quando viu o sangue escorrendo nas pequenas feridas que lhe provocou no rosto. Era o mínimo que ele merecia pelas feridas muito maiores que havia infligido a ela. Atrás dele, Yue Shen fez menção de se aproximar, mas o príncipe ergueu a mão, detendo-a.

— Mais um pouco e eu teria sido feita de idiota de novo, não é? — Ela gritou, frustrada e irritada com as lágrimas despontando em seus olhos. — O que você quer conseguir dessa vez? Precisa que eu morra por você de novo? Desculpe, não estou disposta.

— Eu sei que você não acredita em mim, mas nada do que eu te disse era mentira. — A voz de Shi estava embargada, mas ela sabia que era só um artifício para conseguir comovê-la.

— Não insulte a minha inteligência, Ying Kong Shi, eu não vou permitir! — Ameaçou.

— Yan Da...

Ali estava, aquele tom. Ele ia dizer a pior das mentiras, aquela que seria capaz de atingi-la como um soco no estômago levando embora todo o ar. Ela levou as mãos às orelhas na tentativa de bloquear o som da voz dele, se perguntava como ele podia usar aquelas palavras tão banalmente.

Bì zuǐ! Wǒ bùyào tīng.*[1]— Interrompeu-o. — Sabe o que eu mais odeio, Ying Kong Shi? O fato de eu sequer conseguir destruir você como realmente tenho vontade de fazer.

Admitir aquilo era errado, dava a ele uma arma contra ela, mas Yan Da não conseguia mentir.Ela não era como eles.

— Acredite em mim, suas palavras surtem um efeito igual ou pior que qualquer destruição. — As palavras dele soavam magoadas. — Nunca foi minha intenção...

— Me machucar? — Riu sem humor. Ele era realmente cínico. — Me enganar? Me usar como ferramenta pra conseguir o que queria? O que você faz então quando tem intenções? Você é um excelente ator, Shi wangzi.

— Eu sei que, visto assim, eu pareço um monstro, mas toda história tem dois lados...

Eu confiei em você! — Yan Da o impediu de continuar. Sabia que, dado o seu coração, podia acabar acreditando nas mentiras dele novamente. — Não tem lado algum que explique sua falsidade ou tudo que foi perdido em nome da sua cegueira por Ka Suo! As coisas que você fez... como você pôde? É isso que eu ganho por ser boa com você, mas não vou cometer o mesmo erro duas vezes.

— Isso não é justo...

— Não se atreva a falar de injustiça comigo! — Exasperou-se. — Quem é você para me dizer o que é justo ou não?! Você, que passou por cima de tudo e todos deixando um rastro de destruição em nome da liberdade de alguém que sequer queria ser realmente livre! Quantas pessoas morreram em nome da sua cegueira por Ka Suo, Ying Kong Shi? Quantas mais você quer destruir para se sentir satisfeito?!

Yan Da sentiu a voz falhar. O nó na sua garganta parecia estrangular as palavras conforme ela as atirava nele como facas, tinha de tirar aquilo do seu peito, dar voz ao silêncio de todos aqueles anos, à revolta de tudo que ele lhe fizera.

— Ka Suo fez as próprias escolhas, nem uma única vez ele lutou de fato pela própria liberdade então porque você tinha que fazer isso? — Indagou, as lágrimas ardiam em seus olhos, mas ela se recusava a deixá-las cair na frente dele. — Não importa o que você diga, machucar todos nós foi escolha sua! Mentir pra mim, me usar para seus propósitos, se aproveitar dos meus sentimentos foi escolha sua! Então não ouse olhar no meu rosto e dizer que estou sendo injusta. Wǒ gàosù nǐ*[2]nunca mais apareça na minha frente de novo ou eu sou capaz de tentar matar você!

No fundo, ela desejava que aquilo fosse além de uma promessa vazia. Não seria capaz de machuca-lo e sua consciência disso só a fazia odiar-se ainda mais. Só o que desejava naquele instante era se afastar o máximo possível dele, ir para longe de tudo aquilo, trancar-se em um lugar onde ninguém seria capaz de encontrá-la. Yue Shen entrou em seu caminho, Yan Da se envergonhava das lágrimas que enchiam seus olhos quando aquela guerreira implacável fez menção de pará-la, lembrou-se das vezes que ela lhe ajudou, lhe ofereceu uma palavra amiga. Tudo agora parecia tão falso.

Sentiu a mão ardendo prestes a formar uma esfera de fogo, mas a energia acabou consumindo o resto das suas forças e, sem que conseguisse evitar, a visão escureceu e seu corpo desistiu de uma vez. Yan Da se sentiu despencar, Yue Shen guinchou quando se precipitou para segurá-la e a sensação dos braços da mulher lhe amparando foi a última coisa que sentiu antes de ser envolvida pelo manto de trevas.

※※※

— De jeito nenhum. — A voz de Huang Tuo era dura e insensível como poucas vezes os amigos ouviram. — Passe para outro médico, não posso sair agora... Não dou a mínima para quem é o pai dele! Se o doutor Teng não quiser atender, mande-o para outro hospital...

Chao Ya e Pian Feng trocaram olhares enquanto viam o amigo revirar os olhos diante da insistência do que parecia ser sua “secretária impaciente” do outro lado da linha. A julgar pela irritação do curandeiro, algum paciente VIP devia ter exigido ser tratado por ele e, como médico mais talentoso do hospital, ele não ligava muito para regras ou o juramento do ofício da medicina em certas ocasiões.

— Srta. Qi, para o inferno o que mandou o diretor do hospital ou o que o maldito paciente quer! Se o diretor faz tanta questão, que ele mesmo o atenda! — Exasperou-se. — Estou no meio de algo muito mais importante e não vou a lugar nenhum agora.

Ele encerrou a chamada e largou o celular ao seu lado no sofá, apertando a ponte do nariz, irritado. Huang Tuo era sempre cordial, pacífico e bem humorado, havia poucas coisas que conseguiam tirá-lo do sério e seu senso de justiça era muito rígido. Contudo, o que mais espantava a cantora e o guerreiro era o fato do curandeiro se recusar a salvar uma vida. Nunca haviam testemunhado tal coisa.

— Problemas no hospital? — Chao Ya perguntou com cautela.

— Você não vai acreditar nisso — começou ele — Shuo Gang levou uma boa surra de alguém. O rosto está desfigurado e... — Huang Tuo apontou para a virilha de Pian Feng — deram perda na única cabeça que ele usava. O pai dele estava histérico berrando querer o melhor médico para o filho, o diretor do hospital me exigiu lá.

— Acha que... Yan Da? — Pian Feng arriscou, o coração disparando no peito.

— Se foi mesmo ela, devo lhe parabenizar da próxima vez que a vir. — O curandeiro recostou-se na cadeira cruzando os braços. — Foi digno de nota. Eu não teria feito melhor para um assassino repulsivo como Shuo Gang.

— O que será que está passando na cabeça dela? — A cantora se levantou e começou a andar de um lado para outro, preocupada.

— Quatro mil anos sem usar os poderes, mas quando os recuperou estreou no churrasco da cara do irmão psicopata, ela não poderia estar mais lúcida. — Apontou o médico. — Além de salvar uma boa parcela de mulheres, pela descrição de Qi Bo Lian ele não vai conseguir usar aquela cabeça para mais nada.

A forma despreocupada como Huang Tuo falava aquilo teria soado assustadora e cruel se a pessoa em questão não fosse Shuo Gang. Tanto Pian Feng quanto Chao Ya sabiam que Yan Da desejaria se vingar pelo que acontecera à Peng Yan, mas nunca imaginariam que recuperar as lembranças afloraria dentro da princesa do fogo tamanho sadismo. Yan Da era sempre doce e generosa, mesmo que o irmão merecesse um castigo muito pior que aquele não conseguiam imaginá-la cometendo um ato de violência tão grande.

Apesar de ter tomado decisões que favorecessem seu clã no passado, a princesa do fogo nunca fora realmente cruel com ninguém. Yan Da era justa, ficava ao lado do pai, mas não concordava com as atitudes dele. Pian Feng e Chao Ya estavam preocupados sobre a pessoa que acordara horas atrás. Quanto as memórias readquiridas a haviam mudado? Entretanto, precisavam levar em consideração que ela estava presa na efusão dos sentimentos, toda a raiva aflorando pelo seu corpo sem ser realmente processada com racionalidade. Mais do que nunca, Pian Feng queria estar ao lado dela.

Aya, não fiquem com essas caras. — Censurou o curandeiro. — Quando Yue Shen foi dar uma surra nele não ouvi nenhum protesto, por que agora é diferente? Yan Da foi injustiçada por ele, quatro mil anos atrás e seis anos antes. Por que ela não pode ensinar uma lição àquele moleque doentio?

— Sabemos disso, é só que... — Chao Ya se interrompeu.

— Esqueceram por um instante que ela era Yan Da, a princesa do fogo. — Completou. — E não a mortal frágil que vivia sob a proteção de vocês ignorante quanto à própria identidade e sofrimento primário. Superproteger Yan Da nesse momento é um erro, ela precisa encontrar a força em si mesma mais do que nunca. Não digo que não me preocupo pelo fato de ela repudiar Ying Kong Shi, mas nenhum de nós pode censurá-la por isso. E, sejamos francos, todos queríamos que Shuo Gang apanhasse consideravelmente desse jeito.

— Tem razão. — Suspirou Pian Feng colocando as mãos no rosto. — Me sinto um pai que não quer admitir que a filha cresceu.

— Você é exatamente isso. — Provocou o curandeiro.

Antes que o guerreiro pudesse retrucar os três sentiram algo anormal no ar, em questão de minutos o portal abriu próximo à porta e Yue Shen surgiu seguida por Ying Kong Shi que trazia Yan Da desacordada nos braços. Huang Tuo se precipitou para eles e ordenou que Shi colocasse a princesa na cama, os demais o seguiram apreensivos enquanto o príncipe colocava Yan Da sobre o colchão e se afastava. O médico sentou ao lado dela e tomou seu pulso ficando sério por longo tempo, usando sua magia, ele “escaneou” o corpo da princesa em busca de ferimentos internos, mas o que constatou, para seu alívio, não era nada sério. Pegando o telefone, Huang Tuo falou alguns minutos enquanto os presentes esperavam preocupados pelo seu diagnóstico, ele pediu algumas coisas à pessoa do outro lado da linha, entre elas um soro e um tripé.

— O que ela tem? — Ying Kong Shi quis saber tão logo o curandeiro desligou.

— Não precisam enlouquecer, ela só está exausta. Uma exaustão severa que, ao colocar pressão demasiada no corpo dela, levou-a ao limite. — Explicou. — Além disso, ela está começando a mostrar sinais de desidratação, muito tempo desacordada e quando finalmente acordou não se alimentou ou ingeriu água.

— Mas ela vai ficar bem, não é? — Chao Ya perguntou, a voz trêmula.

— Claro que sim, vou ministrar um soro com algumas vitaminas, ela só precisa descansar agora. — Garantiu ele, sorrindo. — Yan Da não é uma boneca de porcelana, é muito mais forte do que vocês julgam, imaginem que com todas essas limitações físicas ela causou aquele estrago em Shuo Gang! É minha nova heroína!

— Shuo Gang? O que houve com ele? — Shi franziu o cenho.

— Conto os detalhes depois. — Prometeu o curandeiro. — Agora todos vocês pra fora, Chao Ya, quando o enfermeiro trouxer o que pedi mande-o entrar. Luna, fique aqui e me ajude um pouco.

Apreensivos, Chao Ya, Pian Feng e Ying Kong Shi deixaram o quarto, restando apenas Yue Shen que, a pedido do marido, trocou a roupa da princesa por algo mais confortável enquanto ele esperava no banheiro. Ela lhe contou da conversa nada amistosa entre ela e Shi enquanto ele lhe explicou que não deixara Chao Ya para cumprir a tarefa porque a cantora estava nervosa demais para ser realmente ágil. A conversa ficou nesses tópicos por algum tempo enquanto os dois tentavam equilibrar a preocupação com o desfrutar da companhia um do outro, parecia fazer um longo tempo desde que estiveram a sós.

— Acho que vamos demorar um pouco até nos reunirmos em casa de novo. — Yue Shen sorriu. — Vai ficar aqui com ela?

— Acredito que seja mais prudente. Se, como você disse, ela está irracional, talvez seja melhor ficar e manter Ying Kong Shi do outro lado da porta com a desculpa das “ordens médicas”. — Ele segurou a mão da esposa, acariciando-a delicadamente.

— Tenho minhas dúvidas que isso vá funcionar. — Ela revirou os olhos. — Ele está determinado a persegui-la. Se Xing Jiu não trancá-lo em um sonho por alguns dias, não vai ter nada que o mantenha longe dela.

— Ele descobriu bem na hora o amor, hein? — Ironizou o médico.

— Estamos ficando sem tempo, Huang Tuo. — O rosto bonito de Yue Shen ficou obscurecido pela preocupação. — Isso não parece nem perto de se resolver, o que faremos?

Ele a puxou para seu colo. Yue Shen deixou-se sentar ali envolvida pelos braços do homem que amava, amargando a possibilidade de não ter uma vida ao lado dele e o tempo perdido. Huang Tuo beijou-lhe os lábios devotamente e, acariciando seu rosto com suavidade quase sacra, no fundo do seu coração, compartilhava dos mesmos temores, mas tentava não focar em demasia naqueles sentimentos pessimistas, sobretudo para não alimentar no coração dela as raízes obscuras de tais tormentos. Levou muito tempo para que finalmente conseguissem ficar juntos; cada minuto com ela deveria ser tratado como a mais preciosa das ocasiões.

— Minha Luna, não pense nisso. — Sua voz soou baixa e sensual. — Tudo vai acabar bem, você vai ver. Ying Kong Shi pode ser teimoso, mas não é burro. Ele é um estrategista, não esqueça. Sabe a hora de recuar.

Yue Shen queria acreditar naquilo, mas seu coração continuava inquieto como se previsse outro final trágico para aquela história. Queria deixar todos os deveres de lado e se trancar em um quarto com o marido pelo resto de tempo que acreditava lhes restar, contudo, ia contra a natureza dos dois. Eles lutariam para permanecer juntos e vivos, lutariam até o fim e, caso acontecesse, morreriam juntos.

Dessa vez, de verdade.

※※※

Ka Suo não se sentiu melhor depois da ligação de Chao Ya informando o que aconteceu a Yan Da. Muito menos quando, horas atrás, Xing Jiu — que estava lendo as estrelas de forma obsessiva no quarto de Shi — lhe contou que Yan Da estava conversando com Shen Hairong. Por algum motivo, isso lhe soava estranho. A ex-rainha das sereias não demonstrara qualquer interesse neles antes, manteve-se à margem de todos os problemas, sua única interferência foi quando soube que Lan Shang estava sendo usada por Lian Ji, mas nem mesmo contou a Ka Suo que ela estava usando o corpo de Li Luo. Qual o propósito dela em conversar com Yan Da exatamente quando a princesa recuperara as memórias?

Outra coisa que lhe fazia pensar muito sobre a atitude dela era o fato de, em todo aquele tempo, ela não ter procurado a neta para pedir satisfações. Não que ele acreditasse que Lan Shang realmente apareceria para ela depois de roubar a lágrima ancestral, ainda assim a questão permanecia como um incômodo no fundo da mente do monarca. Algo estava errado ali. Todavia, ao monitorar a estrela de Lian Ji, o astrólogo lhe garantiu que ela continuava no mundo imortal, mas ele podia sentir a presença dela em algum lugar ali, como as teias tenebrosas de uma escuridão que os cercava sem que se dessem conta.

Liao Jian estava no escritório quando ele telefonou, mas garantiu que a princesa sereia estava segura na casa e não poderia sair. Ele saberia se tentasse. A localização da estrela de Lan Shang corroborava aquela afirmação, de modo que o monarca decidiu agir por outros meios. Sem avisar ao astrólogo para onde ia, ele pegou o celular e as chaves do carro, sabia que seu braço direito conseguiria localizar sua posição nas estrelas, não queria perder tempo. No banco do carona, depositou a caixa de madeira que Shi dera de presente a Yan Da contendo a lágrima ancestral. Precisava fazer um teste antes de tirar conclusões.

Ka Suo conhecia os poderes de Lian Ji, já lutara contra ela antes. Ela não era uma pessoa comum, era uma semideusa, capaz de manipular as estrelas e controlar o cajado Dan Xing*[3], uma arma da tribo dos astrólogos que só se equiparava ao cajado de vovó, dado a Xing Jiu. Além dos mais, ela era uma criadora, podia com perfeição criar um mundo e personagens capazes de ludibriar até o mais são e perspicaz dos imortais. Com a destruição de Ren Xue Cheng, ele não sabia até onde o poder dela fora perdido, para ter convencido Li Luo a se permitir parasitar, ele julgava que ela não estava tão forte quanto antes, mas ainda era uma adversária difícil e escorregadia. De todo modo, mesmo que tivesse seus poderes, eles estariam reduzidos de forma considerável ali, ela não podia controlar aquele mundo à sua vontade.

Meia hora depois ele estacionou diante da imponente mansão Shen. Sem vacilar em sua determinação, ele segurou a caixa ciente de que a lágrima ancestral podia revelar a identidade de seu verdadeiro dono. Claro que ela só obedecia às sereias, por isso Ka Suo estava contando com a sorte para fazer aquele plano funcionar. Se ela brilhasse na presença da mulher, significava que aquela era verdadeiramente a rainha das sereias. Apesar de ela responder apenas aos membros de seu clã, ela só era capaz de brilhar nas mãos da realeza. E Lian Ji podia até ser uma semideusa, mas não era nobre.

Ele foi recebido por um mordomo empoado que o guiou por um labirinto de corredores largos cheios de quadros com obras de arte impressionista e barroca até uma sala sufocante de tão cheia. Ao que parecia, a simplicidade elegante do clã das sereias foi subjugada pelo consumismo quando transportada para aquele mundo. Tudo naquele lugar era uma mistura desconexa de objetos exóticos. Sofás repletos de almofadas com motivos indianos, esculturas renascentistas, papel de parede vintage com quadros do cubismo e modernismo que destoavam ainda mais do ambiente. De algum jeito, tudo ali parecia caótico. Nos fundos, havia uma mesa vitoriana com cadeiras combinando e um jogo de chá em porcelana chinesa, uma cristaleira exibia artefatos egípcios, as janelas eram altas com pesadas cortinas de veludo vermelho e tinham vista para o exuberante jardim lateral cheio de estátuas estranhas.

Ele estava prestes a congelar a própria cabeça diante de toda aquela mistura desconcertante de coisas quando a velha mulher entrou na sala, apoiada na bengala e vestindo um conjunto azul gritante, Sheng Hairong ainda tinha traços da mulher bonita que fora um dia e mesmo Ka Suo não podia entender como a passagem do tempo naquele mundo afetara sua aparência, contudo, não sentia mais que uma tênue essência mágica no seu interior.

— Presumo que não esteja esperando eu me curvar diante de você. — Disparou ácida. — A que devo sua inusitada visita?

— Estou com algo que pertence a você. — Retrucou, impassível.

— Minha neta, imagino. — Sem demonstrar qualquer abalo, ela sentou-se em uma poltrona amarela.

— Não estou forçando Lan Shang a se esconder de você, se é o que acha. — Salientou, áspero. — Ela não quer vê-la por própria escolha.

— Ka Suo, você é tão falho mentindo quanto é falho conduzindo um reino. — Suas palavras eram tão mordazes quanto seu sorriso. — Não entendo por que aquela criança tola ainda é tão cega por você.

— Ninguém é tão responsável por isso quanto você mesma. — Devolveu.

— Realmente. E não é algo de que me orgulhe. Você era tão obstinado quanto seu pai, aquele tolo egoísta. — A carranca no rosto dela quase dava a Ka Suo a certeza de que estava falando com a avó de Lan Shang realmente. — Se ele não tivesse sido o idiota que foi, você não seria fraco como é, Lian Ji não teria se tornado a criança podre que se tornou e Lan Shang não seria miserável como é. E ainda teve a hipocrisia de causar todo aquele tormento por você ter escolhido aquela mestiça para se casar, como se ele mesmo não tivesse agido igual na sua idade. Quem sai aos seus não degenera, bem dizem.

Quem a ouvisse não podia dizer que ela um dia fora aliada da tribo do gelo. Todavia, verdade seja dita, Shen Hairong não era aliada de ninguém verdadeiramente. Sua lealdade mudava conforme a dança do poder ditava as regras. Ela só queria que o clã das sereias ficasse seguro, o resto não era importante. Mas a sensação de haver algo errado nela permanecia incomodando Ka Suo. Ao perceber que ele a escrutinava, a mulher lançou-lhe um olhar cortante.

— Então, se não veio trazer a minha neta o que está fazendo aqui?

— Como disse, estou com algo que lhe pertence. — Reiterou e, abrindo a caixa, revelou a lágrima ancestral.

Os olhos da mulher fitaram a pedra sem demonstrar surpresa. Contrariando as expectativas de Ka Suo, a lágrima ancestral exibiu um brilho intenso diante de Shen Hairong. Ele franziu a testa, frustrado, tentando entender o que o incomodava nela além da sua postura cáustica em relação a ele. Fechando a caixa, Ka Suo ponderou se deixaria realmente ou não a pedra em posse dela, era verdade que em suas mãos ela não tinha uso a menos que Lan Shang se dispusesse a manipulá-la.

— Então, no fim, ela acabou nas suas mãos. — Anuiu e o monarca não conseguia dizer que emoções estavam por trás das suas palavras. — É um alívio que ela esteja com alguém que não pode usá-la. Contudo, está certo quando diz que me pertence, faz parte do meu clã e, por direito, é de Lan Shang.

— Nesse caso, você não se oporia se eu a levasse para ela.

— Se acha prudente e tem garantia que Lian Ji não vai consegui-la uma segunda vez, vá em frente. — A indiferença dela minou as dúvidas de Ka Suo. — De toda forma, há pouco uso para isso agora, Lian Ji conseguiu o que queria, tem seu corpo de volta e quase matou a princesa do fogo.

— Como você sabe disso?

— Eu posso não estar nos meus melhores dias, Ka Suo, mas continuo sendo uma sereia. Estou ligada à lágrima ancestral como rainha do clã das sereias, sinto quando ela é usada e como.

— Sempre quis saber a razão de toda essa sua indiferença em relação a tudo aqui.

— O que tenho a perder? — Ela ergueu o olhar para ele, gélido e furioso. — Não pedi para vir para cá e pouco me importa que destino você ou qualquer um deles vai ter. Você trouxe Lan Shang de volta apenas para satisfazer o seu ego, ter alguém no seu encalço. Por que eu deveria me importar com o curso do seu destino ou de Ying Kong Shi? Está na hora de você aprender que algumas coisas devem permanecer mortas.

Mesmo que tenha tentado não se deixar abalar pelas palavras dela, Ka Suo se sentiu magoado. Admitia que trouxera Lan Shang de volta para puni-la, mas havia coisas que ele não podia controlar. O enigma nas palavras finais dela, porém, o intrigou. Era uma espécie de aviso. Tampouco ajudava o fato daquela sensação inquietante continuar perturbando-o. Ka Suo ponderou por algum tempo o que faria com a lágrima ancestral, em uma parte, Shen Hairong tinha razão, ela não tinha mais utilidade quando Lian Ji conseguira seu propósito e era um artefato inútil nas mãos dele já que não podia usá-la.

Ele deixou a caixa com a pedra sobre a mesa de chá e, silencioso, saiu da sala.

※※※

Xing Jiu sentiu a dor de cabeça se intensificar conforme tentava entender o que havia errado naquela constelação. Estrelas que deviam estar alinhadas estavam dispersas, mas era a estrela de Lian Ji, na constelação do mundo imortal, que estava lhe causando aquele incômodo. Já fazia alguns dias que o astrólogo vinha monitorando o rastro da mulher desde que ele reaparecera no céu, mas os movimentos eram poucos e padronizados o que não condizia com os passos dela no mundo mortal.

Incomodado, o astrólogo decidiu fazer uma projeção. Tomou mais um pouco de café — aquela bebida era realmente maravilhosa — e posicionou o cubo dos sonhos diante de si, com o cajado ele usou energia para fazer o cubo projetar e alinhas as estrelas dos dois mundos à sua volta, a ação exigia um pouco mais de poder, mas era necessário. Demorara muito tempo para ele conseguir acessar as estrelas do mundo imortal naquele lugar, porém, mesmo após isso, não conseguiu descobrir o que Lian Ji estava fazendo lá.

Ele conseguiu ver o erro no padrão e o choque quase tirou-lhe a capacidade de agir. Precisava avisar a Ka Suo o quanto antes, mas ao tentar sair da projeção descobriu-se preso. Seu corpo não lhe respondia. Xing Jiu respirou fundo para não se desesperar até a figura bela e sombria de Lian Ji aparecer diante dele.

— Você é muito irritante. — A voz dela soava cortante. — Devia ter lidado com você há muito tempo.

— Seu plano não vai funcionar. — Por mais que tentasse, não conseguia se mexer. — Não conseguimos destruir você quatro mil anos atrás, mas podemos fazer isso agora.

— O fato de terem acabado com Snowblade não anula meu poder. — A arrogância e prepotência dela quase fizeram o astrólogo rir. — Eu tenho a lótus escarlate, quando eu a transformar em lótus invisível vou subjugar esse mundo em um novo jogo.

— Ah, quero muito vê-la tentar. — Sorriu. — Seu poder não funciona aqui.

— Eu podia matá-lo agora, mas já que você quer tanto apreciar minha vitória, vou lhe dar essa oportunidade.

Erguendo a mão na direção dele, Lian Ji lançou uma esfera de energia contra Xing Jiu, o astrólogo sentiu o corpo queimar conforme a dor o engolia, cuspiu uma grande quantidade de sangue, a sensação era de que seus músculos estavam se partindo dentro do corpo. A visão ia escurecendo lentamente enquanto seu corpo despencava, a semideusa aproximou-se dele olhando-o de cima com um sorriso diabólico.

— Veremos como Ka Suo se sai sem seu maior trunfo.

Ele ainda tentou dizer mais alguma coisa, mas a voz dela foi se perdendo no fundo da sua mente enquanto os membros iam paralisando, o ar escapava de seus pulmões aos poucos. As estrelas faiscaram e desapareceram, o quarto de Shi ficou fora de foco e o feixe de luz da porta que se abria foi a última coisa que o astrólogo viu antes de ser tragado pela escuridão.

※※※

Após acordar, Lan Shang decidiu descer para o jardim. Mal se lembrava há quanto tempo já estava “dividindo” a casa com Liao Jian, mas a convivência dos dois havia melhorado de forma considerável desde que ela libertara Yan Da da lágrima ancestral. O advogado era uma pessoa prática e de poucas palavras, havia uma tristeza em seus olhos difícil de perceber, ele ocultava o sentimento com sua postura sempre defensiva, mas a sereia imaginava que tinha algo a ver com Chao Ya. Nisso, ao menos, eles se pareciam, ambos foram descartados pelas pessoas que mais amavam e a quem dedicaram sua existência.

Ao sentir o sol na sua pele, ela lembrou dos dias em que almejava as pernas humanas para poder caminhar livremente naquele mundo de gelo e glamour, mesmo que seu coração não fosse recompensado com o afeto de Ka Suo. Agora, no entanto, desejava apenas ser aquela sereia inocente outra vez, viver no castelo de corais sem preocupações e sem qualquer sentimento doloroso oprimindo-lhe o peito. Dispensou a empregada quando veio lhe perguntar se desejava tomar café da manhã, não tinha fome. À medida que o tempo passava, a melancolia drenava sua vontade, ela fora criada para servir ao rei do gelo, treinada desde cedo para ser uma rainha. Agora que não tinha mais nada e a certeza do fato de nunca ser amada por Ka Suo, qual propósito podia dar a si mesma para continuar existindo?

A única pessoa que confiara nela e se dedicara ao seu cuidado sem se importar com mais nada era a última para quem Lan Shang podia olhar depois de ter roubado a lágrima ancestral para Lian Ji e fugido daquela forma. Mesmo sabendo que a avó lhe perdoaria, era tarde demais para pedir-lhe isso e tampouco a sereia tinha coragem — ou forças — para ir embora e deixar Ka Suo para trás. Ainda não. Sempre que lembrava do olhar de repulsa no rosto dele enquanto a encarava, Lan Shang sentia seu coração despedaçar. Antes de ir embora, queria ao menos tentar se redimir com ele.

Caminhou um pouco mais pelo gigantesco jardim de Liao Jian até encontrar um banco de dois lugares, o ar fresco da manhã serviu para lhe animar um pouco, talvez comesse alguma coisa ao entrar. Antes de sentar, não conteve o impulso de olhar para o estreito caminho de cascalho entre as árvores e cercas-vivas que levava ao galpão nos fundos do jardim, a construção ficava escondida da visão da casa, mas qualquer um que olhasse não suspeitaria se tratar mais que um depósito. O som de passos fez com que a sereia sobressaltasse e, imaginando ser outra vez a empregada do advogado, virou-se na intenção de dispensá-la mais uma vez, mas foi pega de surpresa ao ver a figura parada a alguns passos dela.

— Ka Suo...

A princípio ele nada disse, apenas aproximou-se devagar e sentou no banco. Levou um minuto para que Lan Shang reagisse e sentasse silenciosa ao lado dele. Inevitavelmente, seu coração batia apressado dentro do peito, ela sabia que ele não estava ali por sua causa — não da maneira como gostaria —, mas sentia-se feliz apenas em poder vê-lo.

— É bom ver que finalmente saiu um pouco do quarto. — Comentou ele após longo tempo.

— Como está Yan Da? — Ficou feliz por sua voz soar firme e indiferente.

— Ainda dormindo. Gostaria de dizer que a recuperação está saindo melhor do que imaginei, mas não é verdade. — Suspirou. — Estou respeitando a ira dela, mais que qualquer um ela tem esse direito.

— Yan Da é geniosa, mas não acredito que vá ser capaz de evitar Ying Kong Shi muito tempo. — Observou. — Um amor como o dela não é subjugado pelo ódio, tão logo ela consiga separar o passado do presente e enxergar os sentimentos dele, vai perdoá-lo.

— Espero que tenha razão. — Anuiu. — Antes de dizer o motivo de minha visita, quero que me diga como está. Nossos últimos encontros não têm sido muito agradáveis.

Lan Shang baixou a cabeça olhando para as próprias mãos sobre o colo. Não tirava de Ka Suo a razão para tratá-la daquela maneira antes, ela lhe dera motivos, por isso a gentileza dele naquele momento lhe soava quase dolorosa. Agora que a verdade estava clara, achava-se uma tola por ter acreditado em Lian Ji quando esta afirmou poder fazer o monarca esquecer Li Luo.

— Não foi culpa sua. — Assegurou. — Eu fui irracional e fiz escolhas erradas.

— Tudo isso começou comigo. — Consolou-a. — Se eu tivesse sido mais firme, poderia ter evitado toda aquela tragédia. Você também foi apenas mais uma vítima da minha fraqueza.

— Estou bem, Ka Suo. — Ergueu o rosto para olhá-lo e sorriu. — Ficar esse tempo aqui me fez refletir sobre muitas coisas.

— Me alegro em ouvir isso. — Fez uma pausa. — Vim da mansão da sua avó. Tive uma conversa pouco amistosa com ela. Acho que é hora de voltar para casa, Lan Shang.

Nesse momento, o corpo de Lan Shang retesou e ela se pôs de pé olhando para Ka Suo com uma mistura de surpresa e preocupação. Sem entender o que havia acontecido, o monarca continuou seu relato.

— Ela falou com Yan Da dois dias atrás, havia algo me incomodando nessa atitude dela, então achei melhor ir conversar cara a cara com ela.

— Isso é impossível. — Objetou a sereia.

— O que quer dizer? — Ele também se pôs de pé.

— Minha avó voltou para o castelo de corais pouco tempo após eu fugir com a lágrima ancestral, Ka Suo. — A voz dela soou trêmula. — Ela usou o portal de casa para fazer isso. Essa pessoa que você viu e falou com Yan Da não era minha avó.

Os dois se olharam por um momento compartilhando o mesmo terror. Sem esperar convite, Lan Shang seguiu Ka Suo enquanto este corria para fora da casa em busca do seu carro.

※※※

Yan Da sentiu o corpo pesado quando abriu os olhos. Não precisou se mexer muito para saber que estava em seu quarto no apartamento. O som de vozes abafadas vinha do lado de fora, mas ela não entendia o que falavam. Mesmo que não se sentisse mais exausta, a náusea estava presente como uma lembrança de... quando? O tempo continuava bagunçado na sua memória impedindo-a de se orientar. Havia um poste de soro ao lado da sua cama, porém tal como aconteceu no escritório de Shuo Gang, o pavor que acompanhava a sensação da agulha enterrada na sua pele não veio.

Sentando-se na cama com cautela, a princesa puxou a fita que segurava o ponteiro metálico e o arrancou, o sangue pingou no chão quando saiu, mas ela permaneceu indiferente à dor. Ninguém estava com ela no quarto, o que era bom, não queria falar com eles ainda, encontrar Ying Kong Shi havia lhe provado que ela não estava pronta para enfrentar aquilo. Magoada demais, desordenada demais, furiosa demais. Ficou de pé com alguma dificuldade, o corpo ainda um pouco mole, a vertigem a atingiu como um tapa e, bem no momento que pendeu, alguém a segurou.

Huang Tuo.

— Devagar. — Sua voz mantinha o mesmo tom suave e melódico de sempre, como se nada houvesse mudado. — A senhorita ficou apagada por dois dias, não é uma boa ideia fazer movimentos bruscos. E há maneiras menos danosas de se livrar de um cateter intravenoso. — Ele apontou para a agulha pendurada na mangueira do soro agora uma bagunça de sangue e soro no chão.

— Estou bem. — Mentiu soando mais áspera do que realmente gostaria.

— Ei, eu sou médico, não tente mentir pra mim. — Lembrou ele enquanto fechava o soro, embebia um algodão com alguma coisa e pegava um curativo.

— Por que se importa? — Devolveu.

— Primeiro, porque minha função é ajudar pessoas a sentirem-se melhores, embora algumas delas, como seu irmão, por exemplo, eu realmente não me incomode muito em salvar. — Apontou enquanto pegava a mão dela e passava o algodão delicadamente sobre a incisão que se formara na retirada brusca da agulha, Yan Da não puxou a mão de volta e reprimiu o gemido quando a ferida ardeu. — Segundo, porque, apesar da exceção anterior, não distingo as pessoas como amigas ou inimigas, mas sim como seres humanos que precisam e merecem atenção. E terceiro, porque, mesmo em lados opostos, nunca vi você como uma inimiga.

Ele colocou o curativo sobre a ferida e soltou a mão dela com cuidado após um pequeno carinho. Olhando para ela, Huang Tuo apenas deu um de seus sorrisos mais doces e Yan Da sabia que não conseguiria odiá-lo nem que tentasse muito com todas as suas forças. Ela suspirou.

— Imagino que não queira conversar agora, está no seu direito. — Continuou. — Já mandei Ying Kong Shi para casa, mas não vou conseguir segurá-lo por muito tempo. Não esse Ying Kong Shi.

Ela anuiu entendendo o que ele queria dizer.

— Tome seu tempo para se acalmar, Yan Da, mas, por favor, tente pesar as atitudes pelos dois lados e pelos contextos. Nenhum de nós quer o seu mal ou está usando você. Pian Feng e Chao Ya, em especial, viveram um pequeno inferno esses dias, não dormem e mal comem de tanta preocupação com você. Sei que, visto pelo seu lado, pode parecer absurdo dizer que é injusto, mas digo isso porque eles realmente amam você.

A sinceridade na voz dele não deixava margem para dúvidas, ela sentiu os olhos arderem, mas prendeu as lágrimas o máximo que pôde enquanto ele ainda a observava. Tudo estava muito caótico na sua cabeça para ela decidir tomar partido, mesmo do médico. Huang Tuo apenas anuiu e deu as costas indo até a porta, antes de sair, entretanto, virou-se para ela mais uma vez.

— Você deve ter em torno de trinta minutos até Ying Kong Shi voltar aqui. — Sorriu. — Por mais difícil que seja, farei com que aquele casal de pais coruja respeitem sua decisão.

Então saiu.

Yan Da ficou parada por um tempo, como se tentasse absorver a atitude do curandeiro. Era certo como as batidas de seu coração que naquele pandemônio de sentimentos ela nunca seria capaz de odiá-lo. O carinho que guardava por Huang Tuo em seu coração era forte demais e a própria pessoa dele repelia qualquer espécie de sentimento ruim que pudesse surgir. Ele tinha razão, em suas lembranças, mesmo naquelas circunstâncias distintas, Yan Da não fora destratada por ele, em nenhum momento ele a olhou com ódio ou hostilidade. Ela não conseguia imaginá-lo sendo hostil com alguém.

Quando conseguiu se mexer novamente, colocou algumas roupas em uma mala, pegou pertences dos quais precisaria, pôs o celular e os documentos na bolsa, pegou a chave do carro e, após tomar um banho rápido e trocar de roupa, deixou o apartamento. Foi com algum esforço que ela passou direto por Chao Ya e Pian Feng que pareciam ter tido uma conversa difícil com Huang Tuo enquanto ela fazia seus preparativos. Embora tenha se levantado, Piang Feng não a impediu de sair. A princesa do fogo não sabia com muita certeza como se sentia em relação a ele e a cantora, o passado e o presente se misturavam como uma coisa só na sua cabeça; era um tipo específico de dor com o qual ela ainda não sabia lidar.

Pôs a mala no banco de trás meio sem jeito, na pressa de sair dali o mais rápido que pudesse. Mas não foi rápida o suficiente. Assim que seu carro ganhou a rua, ela não dirigiu por mais de alguns metros antes do veículo de Ying Kong Shi ultrapassar o seu e fechá-la. Irritada e desesperada, Yan Da foi forçada a frear bruscamente se perguntando por que não conseguia simplesmente atropelá-lo. A verdade era que a princesa do fogo estava com medo. Medo daquele sentimento gritando no seu peito cada vez que ele a tocava, olhava em seus olhos, dizia seu nome. Medo por saber que a ilusão de ser enganada por ele e aceitar aquela mentira da esperança de ser amada era mais confortável do que a força necessária para esquecê-lo.

E ela ia esquecê-lo. Não importava o preço.

Shi saiu do veículo e, achando melhor enfrentar aquilo de uma vez, ela abriu a porta e desceu também. Os dois se olharam por longo tempo e lá estava novamente as batidas enlouquecidas do seu coração denunciando o amor que não podia ignorar.

— Você é muito bom em dizer não, mas não é nada competente em ouvir, não é? — Disparou ela, cáustica.

— Faça o teste e me peça qualquer coisa agora para ver se sou capaz de negar algo a você. — A intensidade na voz de Shi fez algo no estômago de Yan Da se torcer, era aquilo que chamavam de “borboletas”? Não era confortável. — Só não me peça para ficar longe de você, é a única coisa que não posso te conceder, Yan Da.

Ela ficou em silêncio por um momento.

— O que acha que vai conseguir com a sua insistência? — Era uma luta interna para sua voz soar firme como seus sentimentos não estavam. — Perdão? Uma nova chance de me enganar?

— Yan Da, não é nada disso! — Protestou ele. — Eu não sou mais aquela pessoa. Aqui nem uma única vez eu menti pra você.

Ela riu sem humor.

— Sabe qual é o problema do passado, Ying Kong Shi? Ele não pode ser mudado por mais que desejemos isso, mas pior, ele fica impregnado em nós como uma mancha que nunca sai. — Ela recuou quando ele fez menção de se aproximar. — Você era o centro do meu mundo... estava disposta a te dar tudo. Ofereci minha amizade a você quando não conseguia mais acreditar que a merecia. Te dei meu coração mesmo que ele estivesse quebrado e sabe o que recebi em troca disso? Medo.

Inevitavelmente, ela sentiu as lágrimas nublando sua visão e se odiou por isso.

— Eu me lembro de cada palavra e atitude que você tomou aqui e no passado. — Continuou. — A essa altura eu nem sei mais quem está diante de mim. Eu não conheço você. Entreguei meu amor a um personagem que sempre existiu na minha cabeça. Sabe o quanto eu me odeio por mesmo agora não conseguir nem ao menos odiar você? Disse que posso te pedir qualquer coisa, hao, então me conceda esse desejo: vá embora da minha vida. Leve todas as memórias com você, destrua essas no seu coração também.

O choque no rosto de Shi e a dor estampada nos seus olhos não passaram despercebidos por ela, ainda assim, Yan Da sentia que não podia voltar atrás, não conseguia se aproximar dele, estava assustada demais pra isso, queria poder apagar aqueles sentimentos do seu coração para sempre, terminar tudo aquilo antes que ficasse ainda mais difícil ir embora. Ela podia fazer isso. Podia apagar todo o passado caso se concentrasse com afinco na dor e na fúria. Estava cansada, não tinha mais forças para ter o coração destruído de novo.

— Saia da minha cabeça, desapareça do meu coração, tire de mim esse desejo cego por você. Pode fazer isso? — As lágrimas no rosto de Shi a machucavam, mas não eram capazes de mudar sua decisão. — É o que quero de você. E se o que te prende a isso tudo são minhas atitudes no reino do gelo, então apague tudo feito por mim.

Ela não esperou resposta, apenas voltou para o carro, travou as portas e deu a ré. Pegaria o caminho mais longo, não tinha problema. Todas as estradas, no fim, dariam no mesmo lugar. A imagem de Shi chamando seu nome e correndo atrás do carro foi ficando mais e mais longe conforme ela se afastava. Ia fazer isso. Não importava o quanto doesse, ela apagaria aquelas lembranças e aqueles sentimentos do seu coração.

Amar devia doer daquela maneira?

“Sinto muito.” Murmurou em pensamento para ninguém.

※※※

Lan Shang guiou Ka Suo pelo intrincado de corredores na mansão na direção da sala que ele lhe descrevera no caminho até ali. A avó nunca usava aquela sala, era um depósito de coisas que ela adquirira logo quando chegara àquele mundo, uma espécie de obsessão com a história daqueles mortais distantes daqueles do mundo que ela conhecia. Mas quando chegaram lá não havia ninguém e a caixa com a lágrima ancestral também havia desaparecido.

Ela ainda o ajudou a procurar por todos os outros cômodos, mesmo os secretos, mas não havia sinal de vida na mansão. Ele não entendia. Como a estrela de Lian Ji podia estar no mundo imortal e ela ter ocupado a forma de Shen Hairong de maneira a movimentar sua estrela naquele mundo sem levantar suspeitas em Xing Jiu?

— Xing Jiu! — Exclamou o monarca.

Os dois voltaram para o carro e Ka Suo dirigiu apressado de volta para o apartamento do irmão, o silêncio no percurso estava cheio de culpa e preocupação. Lan Shang não sabia o que dizer, sentia-se parcialmente responsável por aquilo agora mal podia prever os próximos passos de Lian Ji. Ka Suo tampouco pareceu incomodado com a presença dela ou fez qualquer objeção quando ela o seguiu. Ele parou o carro diante do prédio e desceu apressado, a sereia o seguiu sem comentários.

Pareceu levar uma eternidade até o elevador finalmente alcançar o andar desejado, a sereia não sabia o que o monarca esperava encontrar quando chegassem ao seu destino, mas o apartamento cheio de gente não era um bom presságio. Chao Ya, Pian Feng, Yue Shen e Ying Kong Shi estavam sentados no sofá com rostos preocupados, não havia qualquer sinal de Xing Jiu ou Huang Tuo. Ka Suo desapareceu por um corredor curto enquanto os olhos curiosos dos demais recaíram sobre Lan Shang.

— Xing Jiu... — Começou ela.

— Muito ferido. — Contou Chao Ya. — Huang Tuo está fazendo o que pode.

— O que aconteceu?

— Não sabemos. — A voz pesada de Ying Kong Shi soou. — E o que você está fazendo aqui?

— Lian Ji... — Lan Shang começou um tanto hesitante. — Ao que parece usou a imagem da minha avó para abordar Yan Da e enganar Ka Suo... ela levou a lágrima ancestral.

Yue Shen passou as mãos pelo rosto num misto de decepção e frustração. Os amigos trocaram olhares e apenas Shi permaneceu imóvel com os olhos nas próprias pernas. Chao Ya fez um gesto com a mão indicando que Lan Shang sentasse ao seu lado no sofá enquanto esperavam.

Ka Suo entrou no quarto de Shi e encontrou Huang Tuo ao lado de um Xing Jiu desacordado, não havia sinais de luta dentro do quarto, mas ele sentia os resquícios da energia sombria e a mancha de sangue no chão não o deixou mais tranquilo. O rosto bonito do curandeiro estava tenso conforme ele transmitia cura para o astrólogo sobre a cama. Xing Jiu estava muito pálido, mas aparentemente não havia nada errado no seu corpo físico.

Zěnme yàng? — Perguntou assim que o médico se afastou do enfermo.

— Isso não é bom, Ka Suo. — Ele meneou a cabeça. — Não sei que tipo de magia foi utilizada, mas ele não está nada bem... fiz o melhor que pude para estabilizá-lo, contudo não posso dizer se ele vai acordar.

Dàodǐ fāshēngle shénme?!*[4] [O que diabos aconteceu?] — Indagou o monarca, seu coração apertando ao ponto de parar dentro do peito.

— Não sei. — Suspirou. — Mandei Ying Kong Shi para cá antes que Yan Da acordasse, ele voltou poucos minutos depois avisando que Xing Jiu estava ferido. Quando cheguei aqui tentei rastrear a energia, mas não consegui reconhecer. Meu palpite é que seja Lian Ji.

— Por que atacar Xing Jiu dessa forma? Não faz sentido.

— Ele deve ter descoberto alguma coisa, o cajado das estrelas estava com ele, mas o cubo dos sonhos desapareceu.

— E Yan Da?

Huang Tuo não respondeu imediatamente o que só aumentou o nervosismo de Ka Suo.

— Ela se foi. — Disse finalmente. — Não está sendo nada fácil pra ela, nenhum de nós poderia exigir que ela agisse racionalmente agora. Mas não se preocupe com isso, coloquei um rastreador no celular dela e conectei com o de Pian Feng. Ele vai saber sempre onde ela está.

Ka Suo anuiu. Sentado ao lado do astrólogo, ele segurou a mão do amigo sentindo-se impotente.

— Me perdoe, Xing Jiu... falhei com você outra vez.

— Não se culpe dessa forma. — Huang Tuo colocou a mão no ombro dele e apertou. — Sei que tudo parece sem esperança agora, Ka Suo, mas vamos conseguir vencer.

No íntimo do seu coração, o monarca esperava que o amigo estivesse certo.

※※※

Yan Da entrou no estacionamento do prédio e parou em uma das primeiras vagas próximas à entrada. Era uma vaga privativa. Ficou dentro do carro por algum tempo pensando no que faria a partir de agora, não via uma maneira de se sentir inteira de novo.

Tirou a mala do carro e foi buscar a chave do apartamento na guarita, mas o porteiro afirmou que havia sido levada algumas horas atrás. Ela imaginou que era a faxineira contratada para limpar o apartamento duas vezes na semana. De início, a princesa do fogo ficara tão atordoada que não se lembrara do apartamento de Hu Bing, onde passara os meses mais desoladores da sua vida após o assassinato de Peng Yang. Agradeceu ao guarda e usou o elevador até o décimo segundo andar, não ia àquele apartamento desde que o irmão se mudara para a faculdade.

Tocou a campainha estranhando a porta estar trancada. O som de passos veio minutos depois e quando a porta foi aberta, Yan Da sentiu o coração falhar. Hu Bing estava parado diante dela ainda mais bonito do que se lembrava, os cabelos molhados indicavam que saíra há pouco do banho, ele ofereceu um sorriso para a irmã adorada um tanto surpreso por vê-la ali.

Gege... — A voz dela era um sussurro incrédulo.

Wǒ huíláile, Yan Da.* [Estou de volta, Yan Da.]

O som melodioso grave da voz de Hu Bing encheu Yan Da, aquela presença confortadora e segura diante dela parecia um presente no meio daquele caos que sua vida se tornara. Sem conseguir reagir de outra maneira, ela largou a mala e a bolsa no chão e abraçou o irmão com todas as forças permitindo que as lágrimas desesperadas fluíssem como rios, em seu coração havia a esperança que elas levassem com elas toda a dor opressiva embora.