Love as Sakura | 爱如樱
47 第42章 Um jogo de ilusão
Xing Jiu, Liao Jian e Yue Shen chegaram ao apartamento de Shi bem a tempo do astrólogo voltar a vomitar um bocado de sangue e cair no chão com uma dor muito profunda. Era por volta das onze da noite, Ka Suo ficou chocado ao ver aquilo, poucas coisas eram capazes de machucar Xing Jiu daquela maneira e definitivamente não era um bom sinal. Tudo que o astrólogo conseguiu dizer antes de desfalecer foi o nome de Yan Da. Yan Da, Liao Jian e o monarca — que segurava Xing Jiu em seus braços — trocaram um olhar preocupado, um frio medonho subiu pela espinha de Ka Suo quando ele murmurou olhando a boca suja de sangue do amigo.
— Começou...
— Zenme ke ne?*[1] — Yue Shen arguiu, perplexa. — Nós administramos as porções e os feitiços corretamente, ela não devia...
— Vá até Chao Ya e Pian Feng, veja como está a situação. — Ordenou Ka Suo e Yue Shen saiu. — Me ajude aqui.
Liao Jian e o rei colocaram Xing Jiu deitado o mais confortavelmente no sofá, a tez do astrólogo estava pálida e o monarca parecia preocupado enquanto segurava o pulso do seu braço direito e passava energia espiritual para ele. O advogado, por sua vez, sentia uma tensão diferente pairando no ar, como se um manto negro cobrisse o mundo vagarosamente apagando qualquer resquício de luz. Algo grande estava vindo.
— Isso deve ter sido demais pra ele. — Comentou tentando afastar aquela sensação ruim.
— De algum modo ele era o primeiro responsável pelas retenções das memórias dela, o escudo dele era a primeira defesa, reforçado pelas poções de Huang Tuo, uma vez que esse escudo é quebrado abruptamente ele será afetado por isso. — Havia certa raiva na voz de Ka Suo. — Eu não entendo, estava tudo sob controle, ela não devia ter acordado agora.
— Mais cedo ele passou mal assim. — Contou Liao Jian. — Mas pensei que era só a poção enfraquecendo, podíamos lidar com isso mais um pouco.
— Algo aconteceu. — O monarca meneou a cabeça. — É preciso um poder muito específico e grande para romper um escudo dos sonhos. A menos que...
— Bu ke neng. — Meneou a cabeça. — Você tem monitorado Lan Shang todo esse tempo.
— Mas, majestade, Lian Ji também é uma sereia. — Lembrou-lhe. — Ela poderia manipular a joia se desejasse. Lan Shang passou muito tempo ao lado dela, se a joia está nas mãos dela é a única explicação lógica para isso. Eu só não sabia que ela tinha poder sobre outros clãs.
— A lágrima ancestral é uma das forças de fundação, ela tem poder suficiente para causar um dano substancial no mundo imortal se usada da maneira errada. — Explicou. — Apenas as sereias imperiais conhecem a extensão do seu poder.
— E a avó de Lan Shang não vai ajudar. — Anuiu o advogado com um suspiro.
— Estamos por conta própria e, para o nosso próprio bem, espero que a relação que Shi construiu no presente com a princesa seja mais forte que a dor que ele causou no coração dela.
※※※
Pian Feng estava histérico quando Huang Tuo finalmente chegou ao apartamento. As lágrimas vertiam de seus olhos de modo incessante e ele se recusou a largar Yan Da, a quem mantinha abraçada ao seu corpo como um pai com a filha morta nos braços após um acidente. Não importava quantas vezes Chao Ya ou o curandeiro tentasse fazê-lo recobrar a razão, ele só conseguia entender que Yan Da estava com dor.
Uma dor que ele não era capaz de aliviar.
Recorrendo a um recurso de emergência, Huang Tuo precisou deixar o amigo inconsciente para poder atender a princesa. Tomando-a nos braços, ele a devolveu à cama e examinou o equilíbrio espiritual de Yan Da atestando que o processo de recuperação das memórias havia de fato começado. Entretanto, ao contrário do que aconteceu a Shi, a mente da princesa não estava caótica, embora o curandeiro fosse capaz de sentir a angústia que ia engolindo o espírito dela. Yan Da, contudo, permanecia imóvel como se estivesse adormecida, não fosse a fina camada de suor se formando em seu rosto e os esporádicos gemidos que ela dava, acompanhados de contrações no corpo, não se poderia dizer apenas olhando que ela estava imersa em um processo tão doloroso.
— Há quanto tempo ela está assim? — Quis saber o médico.
— Eu não tenho certeza... — Chao Ya estava angustiada ao lado do marido inconsciente. — Ela chegou bem em casa, veio para o quarto e alguns minutos depois a ouvimos gritar por Pian Feng, quando chegamos aqui ela já estava...
Ele examinou as coisas sobre a cama e só então percebeu a mão dela fechada sobre alguma coisa. Huang Tuo tentou abrir os dedos da princesa, mas não conseguiu, franzindo o cenho ao ver o sangue esvaindo por entre os dedos dela ele sentiu um frio na espinha. Segurou a mão de Yan Da e fechou os olhos analisando o poder do objeto, foi nesse momento que Yue Shen irrompeu no apartamento e se deparou com todo o pandemônio já instaurado.
— Lan Shang. — Huang Tuo disse em tom autoritário. — Traga Lan Shang aqui o mais rápido possível.
Yue Shen não esperou ele repetir e saiu rapidamente de volta ao apartamento de Shi enviando Liao Jian para buscar a princesa sereia. Deu um resumo do que havia acontecido para Ka Suo que lhe ordenou ir atrás de Shi, o problema é que nenhum dos dois sabia onde o príncipe estava e com Xing Jiu desacordado as opções de busca se tornavam muito extensas. Com um suspiro, Yue Shen saiu para começar pelos lugares mais óbvios.
Chao Ya olhava assustada para Huang Tuo enquanto o curandeiro segurava a mão de Yan Da, concentrado. Ela via a aura dourada do médico penetrando o corpo da princesa e apesar de por fora ela parecer melhor, por dentro a cantora imaginava que a situação não estava boa. Apenas quando a mão dela parou de sangrar o médico a soltou, suspirando.
— O que está acontecendo?
— Ela está segurando a lágrima ancestral. — Contou ele, a voz dura. — Isso a fez ser sugada pelas próprias lembranças e quebrar o escudo de Xing Jiu, ele não deve estar em melhor condição agora.
— Como ela pode ter conseguido a lágrima ancestral?!
— É o que quero saber. — O rosto bonito de Huang Tuo foi torcido pela raiva. — Não consigo tirar a pedra da mão dela, enquanto não fizer isso ela vai estar inacessível a qualquer um de nós, perdida.
— O que isso quer dizer?
— Quer dizer que ela vai ficar presa no próprio corpo. — Afirmou em tom sombrio. — E pode não acordar nunca mais.
※※※
“Yan Da...”
Eu reconhecia aquela voz, mas de onde? Não conseguia me lembrar. Não me lembrava de nada além daquele fogo que engolia as minhas veias causando uma dor agonizante. O que estava acontecendo? A princípio, foi apenas um caleidoscópio de luz provocado pela joia, os reflexos de arco-íris diante dos meus olhos pareceram me engolir enquanto tentava com todas as forças largar a pedra presa entre meus dedos, sentia-a afundando na minha pele, rasgando a superfície, fundindo-se com meu sangue.
Então veio a escuridão.
Não havia nada além do vazio. Fiquei presa na dúvida se deveria me mexer, se conseguiria me mexer. O fogo nas minhas veias se tornava cada vez mais intenso e era com muita dificuldade que eu suportava a dor. Era uma sensação muito próxima a ter todos os tendões se partindo ao mesmo tempo enquanto os ossos explodiam dentro do corpo provocando buracos na pele e, se me concentrasse demais naquela sensação, podia sentir aquele calor ficar mais forte em todo o meu abdômen.
“Yan Da... obrigado. Você é minha amiga mais linda. Minha melhor amiga.”
Ying Kong Shi.
Tentei seguir a direção daquela voz, mas algo parecia bloquear meu avanço, eu não conseguia alcançá-lo. Havia um aturdimento bagunçando meus pensamentos, por mais que tentasse, me era impossível assimilar e ordená-los. A última recordação vívida que me restava era o beijo de Ying Kong Shi no meio dos brilhantes fogos de artifício e percebi, com terror, que mesmo essa única sensação — me mantendo sã no meio daquela situação descabida — começava a desaparecer.
Eu estava me perdendo de mim mesma, em um lugar do qual não sentia que conseguiria sair.
※※※
Após deixar Yan Da no condomínio, Shi ainda não queria voltar para casa. O dia havia sido perfeito, naquele momento não havia qualquer nuvem de medo pairando sobre seu coração, ele conseguira conquistar um espaço no coração da sua princesa e a esperança de que podiam construir uma felicidade livre das amarras do passado crescia em seu peito. Dirigiu de volta até o prédio da Zhang Ying e tomou o elevador até o térreo, a sensação dos lábios de Yan Da sobre os seus ainda era vívida tal como o calor do corpo dela ainda parecia aquecê-lo.
Sentando-se na mesma cadeira que ela ocupara momentos atrás, ele contemplou o céu escuro salpicado de estrelas prateadas, não conseguia afastar da lembrança o rosto angustiado de Yan Da quatro mil anos atrás e essa sensação era como um agouro sobre o dia terno que tiveram juntos. Pensou em ligar para ela, mas pela hora tardia rejeitou a ideia, não queria despertá-la caso já estivesse dormindo.
Foi olhando o céu que ele sentiu aquela pontada estranha no peito e a direção das estrelas pareceu, de repente, mudar como se, uma a uma, elas fossem sendo absorvidas pela escuridão. Shi pôs-se de pé e analisou o firmamento, aquele peso no seu coração não desaparecia e ele não conseguia encontrar a causa. Então, a escuridão do céu passou a crescer também dentro dele e num minuto se tornou difícil respirar como se ele tivesse sido atingido no estômago.
Pareceu passar muito tempo enquanto as peras do príncipe do gelo cediam e ele lutava para respirar, a visão perdendo o foco. Ele cambaleou na direção da porta do térreo, mas acabou caindo. O que há de errado comigo? Pensava, enquanto a sensação de sufocar se tornava mais intensa. Tateou o bolso procurando o telefone, mas as mãos trêmulas e úmidas de suor não conseguiam segurar o aparelho com firmeza. Foi então que a porta abriu e Yue Shen apareceu, a silhueta dela estava borrada aos olhos de Shi, mas ele a reconheceu pelas roupas escuras e os passos firmes.
— Dianxia! — A guerreira se abaixou e ajudou-o a levantar. — Essa é realmente uma má hora para você ficar mal também.
— “Também?” — Balbuciou ele, resfolegando. — O que houve?
— Não há tempo para explicar, precisamos voltar agora.
A urgência na voz dela tirou de Shi qualquer inclinação a fazer outras perguntas. Apoiando-o em seu corpo, Yue Shen abriu um portal para leva-los de volta ao apartamento e os dois chegaram em segundos ao quarto de Shi. Mesmo debilitado, o príncipe cambaleou com a ajuda dela até a sala de estar onde Xing Jiu remanescia desacordado e Ka Suo caminhava preocupado de um lado para o outro.
— Ge...
— Shi! — O monarca precipitou-se até o irmão mais novo ajudando-o a sentar no sofá. — O que houve com você?
— Não sei... — Disse em meio a resfolegares. — Há algo errado aqui dentro.
Ele apontou o próprio peito e Ka Suo ficou com uma expressão rígida.
— Shi, Yan Da está despertando. — A expressão chocada do príncipe não ajudou a amenizar o que ele tinha a dizer. — Algo deu errado e a barreira que Xing Jiu colocou no corpo dela foi quebrada. Huang Tuo está com ela agora.
— Preciso vê-la...
Com esforço, Shi pôs-se de pé sendo imediatamente ajudado por Yue Shen. Por mais que Ka Suo tentasse dissuadi-lo da ideia — já que não havia nada que ele pudesse fazer — o príncipe não deu ouvidos e cambaleou para fora do apartamento apoiando-se nos ombros da envenenadora. Durante o curto percurso até o apartamento de Yan Da ela não falou nada, o príncipe tentava imaginar o que se passava pela mente dela uma vez que sua expressão se mostrava impassível. Todavia, no fundo dos seus olhos, ele conseguia ver traços de apreensão e medo.
Uma novidade, já que Yue Shen parecia não temer nada.
— Shi wangzi, antes de entrarmos há algo que gostaria de lhe contar. — Disse ela sem olhar para ele. — Yan Da gongzhu estava segurando a lágrima ancestral. Ouvi Huang Tuo dizer isso a Chao Ya.
— O quê? — Shi estava chocado. — Como isso é possível.
— Acho melhor começar a pensar, uma vez que o bilhete que veio junto da pedra foi enviado por você.
※※※
“Fuwang*[2], por favor, pare! Você atrairá a ira dos ancestrais sobre nós!”
“Cale-se, Yan Da, saia do meu caminho ou vou destruir você também!”
Eu ouvia aqueles sons, eram ecos distantes em algum lugar naquela escuridão, mas não conseguia alcançá-los ou me guiar para segui-los. Tampouco qualquer imagem aparecia tornando as palavras desconectadas de um contexto que me impedia de entender a razão para proferi-las. Era estranho ouvir minha própria voz, como se não fosse realmente minha. Havia sons estranhos e de repente me senti nauseada.
Sentei-me no nada esperando, não sabia bem o quê, mas apenas esperando alguma coisa. O clima ficava mais frio, obrigando-me a me encolher, abraçando as pernas numa tentativa de me manter aquecida. Conforme o tempo passava eu perdia a noção cronológica e de espaço. Não conseguia mais distinguir há quanto tempo estava ali, onde eu estivera antes, quem era agora e quem fui um dia. O que acontecera antes de tudo se apagar. Minha consciência ia se afastando cada vez mais para um lugar distante conforme o frio penetrava meus ossos. Se conseguisse ver alguma coisa, provavelmente contemplaria o ar condensado escapando pela minha boca.
— Você vai ficar aí parada?
A voz veio de algum lugar muito perto de mim. Senti um estremecimento varrer meu corpo enquanto tentava me orientar e descobrir de onde vinha. Em algum lugar no fundo da minha mente sabia que já a havia ouvido antes, mas não conseguia me lembrar quando, onde ou a quem ela pertencia.
— Isso não combina nem um pouco com você, princesa do fogo.
— Shei?*[3]
— Tsc, tsc, o que fizeram com você? — A voz soava decepcionada. — Tiraram sua identidade, te transformaram em uma boneca facilmente manipulada pela sua vontade. Quão pouca resistência sobrou no seu espírito para não conseguir se libertar dessas correntes?
Um clarão surgiu e de repente à minha volta tudo ficou embaçado envolto numa cegante luz branca. Quando meus olhos se readaptaram à claridade, consegui distinguir uma sala, tudo nela era de um branco enlouquecedor, móveis, quadros, luzes. As paredes não tinham janelas, havia um conjunto de sofás, uma lareira, alguns parcos quadros sem qualquer cor ou desenho, sem portas, sem lustres, como se o próprio ambiente emanasse luz. No centro do lugar, de pé, havia uma mulher.
Era bonita, trajava um hanfu branco com detalhes prateados, tinha longos cabelos também brancos e uma tiara de testa com uma pedra azul. Seus olhos eram castanho claros como chocolates, lábios cheios e pele alva ao ponto de quase se confundir com os tecidos que a cobriam. Além da tiara, seu único outro ornamento era uma pulseira com pedras que pareciam diamantes. Contudo, apesar da postura aristocrática, havia algo de feroz nela, como se por baixo de toda aquela delicadeza se escondesse alguém nascida para lutar. Eu sabia que já a havia visto antes, mas não conseguia me lembrar onde.
— Quem é você? — Indaguei, confusa.
— Uma vez você me salvou, encare isso como uma retribuição do favor. — Disse ela, o rosto sério. — Meu nome é Li Luo, vou contar a verdade que esconderam de você nesses últimos quatro mil anos. Sobretudo, vou mostrar o erro que você cometeu ao se apaixonar.
※※※
Lan Shang chegou acompanhada de Liao Jian, mas parecia mais carregada por ele. Estava muito mais magra, pálida, com um olhar vazio, como se sua alma tivesse sido sugada do corpo. Os lábios rachados e os cabelos, outrora vistosos, estavam opacos. Quem a conheceu em sua glória quatro mil anos atrás não seria capaz de reconhecer ali uma descendente do clã das sereias.
Huang Tuo ficou momentaneamente em choque ao vê-la, mas não comentou nada, sentia-se tão enfurecido pela pedra na mão de Yan Da que colocou a praticidade antes da compaixão.
— Escute bem, Lan Shang, porque eu não vou repetir. — Começou. — Como a lágrima ancestral foi parar nas mãos de Yan Da?
— Eu...
— Pelo seu bem, é melhor não mentir. — A voz de Shi surgiu por trás de todos eles. — Sua avó ou qualquer outra pessoa que tenha em mente não será capaz de ajudá-la se me deixar com raiva.
Todos olharam para trás, surpresos com a chegada do jovem príncipe do império da neve. Shi parou ao lado de Huang Tuo e segurou a mão de Yan Da, seu coração apertou dentro do peito quando a viu imóvel daquele jeito, a lembrança do passado quando ela morrera em seus braços lhe veio à mente e o medo de perdê-la novamente engoliu seu coração.
— Lian Ji e eu fizemos isso. — Admitiu a princesa sereia ganhando a atenção de todos, incluindo Shi. — No aniversário da avó de Ka Suo... Lian Ji sabia, de algum jeito, que ela daria uma pedra a Shi. Não foi muito difícil manipular a mente dela para o formato real da pedra, que era redonda, se tornar uma lágrima. Assim, ao invés de dar o verdadeiro diamante para Shi, ela deu a lágrima ancestral.
— Como isso não teve nenhum efeito sobre o príncipe? — Yue Shen quis saber.
— Ela só responde ao nosso comando, das sereias. — Explicou. — Lian Ji a encantou para Yan Da, por isso ela não teve efeito sobre Ying Kong Shi.
— Por isso ela estava lá naquela noite? — Huang Tuo perguntou.
— Sim. — Anuiu. — Eu lhe dei cobertura enquanto ela trocava as pedras.
— Isso não faz sentido, Ka Suo deveria ter detectado a presença dela. — Protestou Chao Ya.
— Ela ainda estava usando o corpo de Li Luo. — Lembrou Yue Shen. — Não seria detectada a menos que quisesse isso, já que Li Luo não tinha suas memórias e, por isso, era praticamente uma mortal. Ela se deixou notar de propósito do lado de fora, queria que Ka Suo descobrisse que estava parasitando o corpo de Li Luo, nossa vontade de pegá-la tiraria nosso foco do que ela estava de fato fazendo ali.
— Ela não tinha como saber quando eu daria a pedra para Yan Da, e se Ka Suo a tivesse despertado antes? — Sugeriu Shi.
— Seu irmão não faria isso. — Objetou Lan Shang. — Nós sabíamos que o propósito era fazer com que você e Yan Da se apaixonassem de verdade nessa vida para pagar o sacrifício. Se ela lembrasse, você não teria chance.
— Maldição, Lan Shang, por que não contou isso antes quando pegamos você?! — Chao Ya estava furiosa.
— Porque eu não me importo. — Um sorriso vazio se formou no rosto esquálido dela. — O destino de nenhum de vocês me interessa. Acha que joguei Li Luo naquele abismo do tempo porque sou boazinha? Nenhum de vocês tem chance de vencer Lian Ji. O jogo acabou, vocês estão condenados.
— Eu não nos subestimaria se fosse você? — A voz de Shi soou cortante. — Tirem ela da minha frente.
Liao Jian segurou Lan Shang pelo braço e a puxou para fora do quarto de Yan Da. A princesa sereia não fez objeções, não tentou se soltar, permanecia como uma boneca à mercê dos que a conduziam. O guardião do norte soltou um suspiro de exasperação enquanto afastava a sereia do pandemônio dentro do quarto, sua cabeça doía quando ele a posicionou de frente para si e a segurou pelos dois braços.
— Existem maneiras mais fáceis de arriscar a vida, Lan Shang, deixar Ying Kong Shi com raiva não é a mais inteligente. — Brigou o advogado.
— O destino de Yan Da pertence a ela, nenhum de vocês pode mudar isso. — Contrapôs.
— Faça ela soltar a lágrima ancestral antes que a paciência de Shi se esgote. — Ordenou ele. — Ka Suo teve consideração em manter você viva, faça essa segunda chance valer a pena, pois o príncipe não vai ser misericordioso se algo acontecer à Yan Da.
— Por que eu deveria ajudar? — Ela semicerrou os olhos para ele. — Que diferença faz para mim se ela nunca mais acordar?
— Uma vez, Yan Da salvou a sua maldita vida. — Lembrou-lhe. — Você deve isso a ela. Acha que Huo Yi teria poupado você? Yan Da chegou bem no momento que a ordem de matar você e Li Luo havia sido dada. Lian Ji também não dá a mínima para você, no momento que não tivesse mais serventia para ela estaria morta! Então me diga, quem são seus verdadeiros inimigos em toda essa palhaçada que você ajudou a criar?!
O olhar lúgubre de Lan Shang marejou por um momento. Ela não olhava para Liao Jian, a dureza e verdade nas palavras dele surtiram o efeito de um tapa no seu rosto, que ardia e latejava sob a pele frágil. Com um suspiro frustrado, ela fechou os olhos e murmurou uma canção.
※※※
— Essa é a chave do seu passado, Yan Da. — Me disse Li Luo. — Mergulhe dentro de você e encontre as respostas tiradas de você.
— Não entendo... o que quer dizer? — Indaguei.
— Ying Kong Shi mentiu para você. Todos eles mentiram. Assim como fizeram comigo. — Explicou. — Você não passa de uma ferramenta para dar a eles uma redenção que não merecem. Acha que Ying Kong Shi realmente ama você? Ele está te usando, como usou quatro mil anos atrás, ele só se importa com Ka Suo.
— Por que diz isso?
— Porque eu sei como é ser uma arma na mão de alguém. — Os olhos dela transbordavam ódio e ressentimento. — Eu era a esposa de Ka Suo, fui morta por causa dele duas vezes, meus últimos anos ao seu lado foram um inferno porque ele não se importava realmente comigo, ele amava meu corpo, minha aparência, não quem eu era de verdade.
— Você era... esposa do irmão de Ying Kong Shi?
— Lembre-se de quem é! Não permita que eles a usem em benefício próprio. A única pessoa que realmente se importava com você era Peng Yan, mesmo assim eles o deixaram morrer, tiraram ele de você para que pudesse ficar com Ying Kong Shi.
— Não, isso não é verdade.
— Você não passa de uma inimiga para eles. Para todos eles! Tudo que realmente querem é que você seja o preço do sacrifício que os manterão vivos. — Ela cuspiu as palavras com ferocidade. — No fim disso tudo você vai acabar como eu, sozinha no abismo do desespero.
Um rosto surgiu na minha mente, ele me chamava de ‘fadinha’, mas não conseguia me lembrar quem era ele. Ao seu lado, outros rostos sorriam para mim, mas não conseguia reconhecê-los, conforme as palavras dela iam entrando na minha mente eles iam se apagando, seus sorrisos evanescendo como uma foto antiga em sépia consumida lentamente pelas chamas.
Será que se aceitasse o conselho dela e mergulhasse naquele passado que ela afirmava me pertencer eu poderia esquecer aqueles rostos e todo o sofrimento por trás dos seus sorrisos?
※※※
Os músculos do rosto de Huang Tuo retesaram quando ele segurou o pulso de Yan Da e percebeu que ela estava ficando mais fraca. Os dedos em volta da lágrima ancestral continuavam cerrados como se ela tivesse sofrido rigor mortis. Yan Da se moveu e tossiu sangue sobre a roupa e os lençóis, Shi entrou em pânico olhando para o curandeiro.
— Nós a estamos perdendo... — Sua voz soou pesada.
— Huang Tuo! — Implorou Shi, o nó em sua garganta quase sem deixar a voz sair.
— Eu não consigo alcançá-la, a pedra está me bloqueando. — Esbravejou ele, frustrado, enquanto tentava injetar energia de cura para ela.
Shi se pôs de pé determinado a ter a cabeça de Lan Shang numa bandeja quando o som do baque surdo o fez se virar novamente para Yan Da. A lágrima ancestral, manchada de sangue, rolou pelo chão do quarto. O coração do curandeiro pulou uma batida e, sem perder tempo, ele segurou o pulso de Yan Da novamente e começou a equilibrar seu espírito, o alívio em seu rosto durante o processo era tão nítido que Shi sentiu a calma voltando aos poucos.
Huang Tuo permaneceu ao lado da princesa em silêncio pelo que pareceu um longo tempo, Shi segurou a lágrima ancestral nas mãos, se naquele dia tivesse suas memórias de volta teria reconhecido aquela pedra. Sentiu-se responsável por aquilo, não podia prever que tipo de consequências a retomada abrupta de memórias poderia causar em Yan Da, especialmente por um feitiço tão forte como um escudo dos sonhos ser rompido daquela maneira. O príncipe do gelo olhou as próprias mãos sentindo-se impotente mesmo sendo o mais poderoso entre os presentes naquele cômodo. Após o que pareceram horas, o curandeiro finalmente se pôs de pé.
— Como ela está? — Chao Ya adiantou a pergunta de Shi.
— O processo vai correr de maneira natural agora, contudo há muito pouco que eu possa fazer. — Respondeu ele, inquieto. — Além de aliviar a dor da melhor maneira que puder, a maior parte do processo depende dela mesma.
— Mas ela vai acordar, não vai? — Perguntou Shi.
— Sim. — Respondeu com convicção. — O perigo passou. Ela vai ser direcionada para o próprio passado de maneira natural. Seja lá onde a lágrima ancestral a levou, ela conseguiu sair. Tudo que podemos fazer agora é esperar. Esperar e torcer para que os momentos felizes que ela viveu nos últimos meses sejam o bastante para suplantar a dor em seu coração.
Todos eles viraram os olhos para a princesa adormecida sobre a cama. Aparentemente, não havia nada errado com Yan Da, como se ela estivesse dormindo, Chao Ya limpou o sangue em seu rosto e pediu que os demais saíssem para que pudesse trocar a blusa dela e os lençóis sujos de sangue. Pian Feng ainda não havia acordado e Huang Tuo o levou para o quarto que agora dividia com a cantora, sendo ajudado por Shi.
— Eu vou ver como está Xing Jiu. — Disse o curandeiro, sério. — Sei que quer ficar ao lado dela, mas ouça o meu conselho, Shi, há muitas coisas na mente e no coração de Yan Da, coisas que talvez ela não esteja pronta para lidar ainda e isso é muito além do que aconteceu no passado. Não era o momento certo de ela sofrer esse processo, porém não há mais nada que possamos fazer.
— Onde quer chegar? — Cortou o príncipe.
— Venha para casa comigo. — Pediu o médico. — Não sei quanto tempo o processo dela vai durar, você recuperou quatro mil anos de memórias em praticamente três dias, mas ela pode demorar mais ou menos e não acho que encontrar você ao acordar seja a melhor escolha. Especialmente porque não sei que tipos de danos todo esse problema da pedra e da quebra do escudo vai causar.
Shi baixou a cabeça sentindo-se frustrado e triste, mas sabia que Huang Tuo estava certo, quando Yan Da abrisse os olhos ele seria a última pessoa que ela desejaria ver. Mordeu o lábio até sentir o sangue explodir dentro da sua boca para engolir as lágrimas, a mão de Huang Tuo apertou seu ombro.
— Eu vou monitorá-la, prometo. Vou minimizar todos os danos que puder e manterei você informado.
— Alguém precisa estar com ela quando acordar.
— Não acredito que nenhum de nós vá ser de muita ajuda, mas ainda acho que Pian Feng seja a melhor escolha. — Forçou um sorriso. — Ou pelo menos o último de nós que ela esteja inclinada a matar. De todo modo, vamos ver antes como o processo vai ser para ela é impossível prever a reação dela ao acordar.
— Não vai me esconder nada, não é?
— Como eu poderia, meu príncipe? — Huang Tuo fez uma leve mesura.
— Pare de me chamar assim! — Shi fez uma careta. — Se essa hierarquia estúpida ainda servisse de alguma coisa por que você se curvaria quando também é um príncipe? Se o mérito for dignidade, eu que deveria me curvar para você.
— Você realmente evoluiu. — O curandeiro sorriu. — Pretendia provoca-lo com um episódio de quatro mil anos atrás quando Yan Da extraiu a pílula de fogo do seu corpo, mas vou deixar isso para mais tarde dada a situação. Agora, o mais importante, é encontrar e destruir Lian Ji, precisamos de Xing Jiu, o espírito de Yan Da está vulnerável, não podemos permitir que aquele demônio a subverta.
Shi anuiu em concordância, foi até o quarto de Yan Da uma última vez e pediu a permissão de Chao Ya para ter um momento a sós com ela algo que a cantora concedeu sem protestos deixando o cômodo em seguida. Ele sentou ao lado dela na cama e segurou sua mão, beijando-a. Acariciou seu rosto, não foi capaz de conter suas lágrimas e agradeceu por ela não poder vê-las.
— Eu sei que você não vai querer me ver, provavelmente vai me odiar... mereço isso e não tenho direito de culpá-la por isso. Fui cruel com você, me aproveitei dos seus sentimentos por mim, menti... — Ele encostou a mão dela em seu rosto. — Mas acredite em mim, Yan Da, nada do que eu disse desde que te encontrei nesse mundo foi mentira. Todas as vezes que demonstrei amar você foi verdade. É verdade. Mesmo que talvez você não esteja ouvindo isso, quero que saiba sem dúvidas que meus sentimentos por você são reais. Não há mentira nisso. E se houver um feixe que seja de esperança para esse sentimento no seu coração, espero que possa me perdoar, porque honestamente eu não sei como viver essa vida sem você ao meu lado.
Inclinando-se na direção dela, os lábios de Shi depositaram um beijo casto nos dela, ele ainda beijou-lhe a testa antes de olhá-la por longo tempo antes de se afastar, queria guardar na memória cada traço de Yan Da, a batalha real pelo coração dela estava apenas prestes a começar. Ele não pôde ver, contudo, a lágrima solitária que escorreu pela têmpora dela no momento que a porta se fechou atrás dele.
※※※
Tão rápido quanto apareceu, a figura de Li Luo e aquela sala estranha desapareceram bem no momento que ela estava prestes a me mostrar alguma coisa numa janela que fizera aparecer em uma das paredes. Mais uma vez voltou a escuridão e a dor, agora mais pungente.
Por longo tempo o frio e a agonia foram tudo que senti de volta à escuridão. Imagens vinham como flashes na minha mente e nomes eram sussurrados sem ligação direta com as imagens, mas cada um deles me trazia uma sensação diferente, despertava dentro de mim alguma espécie de luz no meio das trevas tenebrosas que me cercavam.
Então veio a luz.
No começo apenas um fino feixe dourado que se alargava, me envolvendo como um manto e afastando o medo, o frio e a dor que cresciam no meu corpo. A escuridão foi sendo dissipada lentamente por aquela luz dourada e um caminho foi tomando forma diante de mim. Pus-me de pé e segui aquela estranha estrada, meu coração batia acelerado dentro do peito, quando a luz ficou mais forte ao ponto de doer em meus olhos senti como se estivesse sendo absorvida por algo. Então tudo à minha volta desapareceu e não senti mais nada.
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