Love as Sakura | 爱如樱
41 第36章 Perdoado (I)
O coração de Shi martelava no peito quando ele quase largou o carro no estacionamento do condomínio e pegou o elevador para o andar no qual Yan Da morava. A urgência em vê-la se misturava com o temor de sua própria reação a ela. Em todas as suas lembranças, ele agira como um crápula insensível, usando os sentimentos dela em seu favor até o último minuto, quando ela desistira da sua vida, enfrentando o próprio pai, para salvá-lo. De novo.
Por um instante, quase desistiu quando o elevador parou e as portas se abriram para o corredor ladeado de casas. Com um suspiro, o príncipe do gelo disse a si mesmo que era melhor enfrentar o confronto de uma vez e deixar o destino decidir o caminho que ele seguiria. Lembrou a si mesmo que Yan Da não sabia de nada, para ela só existia aquela vida — igualmente pautada em muito sofrimento — e pelo menos ali ele não era o epicentro dos seus infortúnios, ainda.
Parou diante da porta do apartamento dela e bateu várias vezes, mas não obteve resposta. Tentou de novo e até mesmo telefonou, mas o celular caiu na caixa postal. Encarando aquilo como um sinal, o príncipe do gelo voltou para seu próprio apartamento e largou-se no sofá com a cabeça cheia de pensamentos. Parte de Shi tentava não entrar em pânico pensando que algo havia acontecido a Yan Da, se Lian Ji não dava sinal de estar por aqui e todos eles estavam com o irmão no galpão de Liao Jian, significava que não havia perigo imediato.
Não sabia o que achava da atitude de Lan Shang ao abrir um abismo do tempo, se era uma estupidez sem precedentes ou uma ideia desesperada para ajudar Ka Suo. Shi sentia que o relógio do tempo era como uma bomba sobre suas cabeças prestes a explodir. Suspirou, cansado, sem saber em qual problema tinha de se concentrar primeiro. Ouviu o som da porta abrindo e imaginou se era o irmão voltando para casa, mas como não fazia muito tempo desde que saíra da casa de Liao Jian rejeitou a ideia.
Ele permaneceu imóvel enquanto a pessoa deixava os sapatos no genkan e calçava um dos chinelos. Yue Shen surgiu no seu campo de visão logo depois e pareceu surpresa por encontra-lo acordado.
— Wangzi, ni xingle. — Ela fez uma mesura diante dele.
— Por favor, não faça isso. — Ele se encolheu. — Não mereço que me chame dessa forma, muito menos que me preste esse tipo de reverência. Além do mais, a tribo do gelo ficou para trás e aqui eu sou só Shi.
A maga negra ergueu uma sobrancelha encarando-o com alguma curiosidade.
— Yan Da... — Ele começou, mas se calou sabendo que não tinha direito de perguntar sobre ela, sobretudo, não sabia se a maga negra pensava do mesmo modo que Pian Feng àquele respeito.
— Ela está bem, não se preocupe. — Respondeu, um sorriso travesso brincando em seus lábios. — Talvez você não saiba o que houve com Chao Ya, ela está no hospital, enviamos a princesa até lá, Pian Feng já está a caminho.
Ele anuiu, aliviado. Parte de si se sentia decepcionada por não ter conseguido ver a princesa, a outra parte, contudo, agradecia por adiar o encontro, Shi não sabia se conseguiria agir de forma menos calorosa diante dela, corria o risco de, no turbilhão de emoções, acabar assustando-a novamente como aconteceu da outra vez quando ele acordou e a abraçou sem qualquer hesitação. A ex-assassina se virou preparando-se para ir até a cozinha quando a voz dele a fez parar.
— Yue Shen... — O tom tremulou parecendo quebrar o silêncio como martelo em um vidro. — Quero pedir perdão pelo que fiz a Huang Tuo e o que tentei fazer a você. Eu sinto muito, por tudo.
Por um instante, Yue Shen não disse nada. Continuou seu caminho até a cozinha, serviu água em dois copos e levou para a sala de estar, colocando um diante de Shi. O jovem príncipe mantinha a cabeça abaixada, ela lembrou-se de sua figura altiva e intimidadora quatro mil anos atrás, forjando um plano intrincado para destruir Huo Yi, proteger Ka Suo e salvar a tribo do gelo, agora não parecia muito diferente de um menino cuja mãe descobrira uma travessura. Um sorriso suave se formou no rosto da guerreira, ela suspirou e recostou-se na poltrona onde estava sentada.
— Permita-me lhe fazer uma pergunta, dianxia — Ela riu quando Shi ergueu a cabeça e fez uma careta para a palavra alteza. — Muito melhor, mantenha a cabeça erguida. Suponha que uma pessoa é presa em um quarto escuro e receba maus tratros por um ano, ao ponto de enlouquecer e esquecer quem é, de onde vem e o que a levou até ali. Quando consegue finalmente se soltar, ela ataca seu captor no momento em que ele vem maltratá-la e o mata. De quem é a culpa?
— Do captor, é claro. — Respondeu ele, direto e firme.
— Mas foi ela quem o matou. — Contrapôs Yue Shen. — Mesmo que ele estivesse errado, ele nunca a ferira gravemente.
— Mas ainda assim, ele é o culpado. Diante do sofrimento, ela esquecera completamente sua identidade, quem sabe quantos outros danos mentais e emocionais poderia estar sofrendo, não se pode culpá-la por suas ações.
— Exatamente. — Sorriu. — Você está certo. Naquele momento, ela não sabia quem era, onde estava e o que estava fazendo, ela apenas agia por seu instinto. O mesmo pode se aplicar a você, apesar de algumas sutis diferenças. Todos nós sabemos disso e portanto não o culpamos de nada. Pense que a parte de Li Tian Ji que habita em você é como essa pessoa irracional e ferida, a força das circunstâncias o empurrou a fazer o que fez, não foram suas escolhas. Uma prova disso é que quando você recuperou sua identidade, se sacrificou para que Ka Suo pudesse viver outra vez.
Shi não respondeu. A postura de Yue Shen parecia muito com a do marido, os dois lhe disseram praticamente a mesma coisa de maneiras diferentes, por mais que a culpa que seu coração carregava não pudesse ser aplacada, ele começava a ver seus erros sob uma otica diferente, se as vítimas de suas ações — e aqui ele excluía Yan Da disso, já que os erros que cometera contra ela eram sim por sua escolha — não o recriminavam por seus crimes, o que mais ele podia fazer além de tentar reparar os seus erros e tentar seguir em frente pelo caminho certo dessa vez?
As memórias em sua mente ainda estavam tão vívidas e dolorosas que não importava o quanto tentasse, ele não conseguia se livrar da dor. Aquela tortura insistente lhe lembrando do sangue de todos eles em suas mãos. Sobretudo com Yan Da, eram seus atos contra ela que mais lhe pesavam na alma, toda dor que Shi lhe causara fora escolha sua, ele premeditadamente enganou, traiu e iludiu, brincando com os sentimentos dela até o momento final. Yue Shen parecia perceber o clima sombrio se formando dentro dele, pois interrompeu seus pensamentos chamando-lhe a atenção.
— Nós não nos conhecemos muito a fundo, não é? Permita-me lhe contar uma história. — Disse e o príncipe ergueu o olhar em sua direção. — Eu tinha uma irmã mais velha chamada Yue Zhao. Éramos muito próximas e com isso quero dizer inseparáveis. Quando completei cem anos, abandonei a magia de cura para aprender magia negra e poder protegê-la. Meus pais foram contra e por muito tempo me evitaram, como se eu fosse uma espécie de demônio, levou muito tempo para que, com a ajuda de Yue Zhao, eu pudesse conquistar a confiança e o respeito da nossa tribo outra vez.
“Éramos não muito mais que adolescentes quando conhecemos Huang Tuo, o príncipe da tribo Xamã. Yue Zhao apaixonou-se por ele à primeira vista e, por saber que ele era o prometido dela, eu procurava evitá-lo, evitar, sobretudo, os sentimentos que sentia por ele e não ousava contar a ela ou a ninguém. Naquela época, Huang Tuo não era tão flexível e livre como hoje, ele era mais sério e parecia achar que a nossa diferença de idade fazia dele uma espécie de pai, por isso me tratava como uma criança instransigente. Por vezes, desconfiava que ele sabia o que eu sentia por ele, da mesma forma que eu sabia do fato de ele não amar minha irmã tanto quanto era amado por ela.
“Yue Zhao percebeu nossos sentimentos um pelo outro e planejava cancelar o casamento entre eles. Mas ela acabou ficando doente no meio daqueles dias tormentosos, Huang Tuo se dedicou dia e noite para curá-la e apenas nesse momento percebi o que eu havia deixado para trás, podia proteger a minha irmã de todos os perigos diretos, mas não podia salvá-la. Em seus momentos finais, ela me implorou que fosse feliz, que me permitisse viver aquele sentimento escondido, pois era a primeira vez que eu amava de verdade na vida. Mas eu recusei.
“Após sua morte, era incapaz de aceitar Huang Tuo, não havia quaisquer impedimentos para que ficássemos juntos além da sombra de Yue Zhao que eu insistia em manter viva no meu coração. Sabe qual foi o resultado disso, er dianxia? Passamos a vida inteira lutando lado a lado, infelizes, até o momento em que ele desistiu da sua vida para me manter a salvo e eu sequer pude lhe dizer o quanto o amava. E se posso te dizer que me arrependo de algo na minha vida, é isso. Por isso, nessa segunda chance recebida, não quero desperdiçar nenhum instante me agarrando a um passado que não posso mudar.”
Levantando-se, Yue Shen sentou ao lado dele e, surpreendendo-o, segurou sua mão entre as dela.
— O que quero dizer com tudo isso, dianxia, é que mais difícil que perdoá-lo por ter me deixado sozinha, foi perdoar a mim mesma e conseguir encarar de frente meus sentimentos. A mesma coisa se aplica a você, deixe aquele passado de erros diretos e indiretos enterrado junto com Snowblade, você está aqui, agora, tem a chance de mudar tudo para todos nós. Mas antes de pedir perdão a qualquer um de nós, precisa perdoar a si mesmo. Só assim quando afirmarmos que não guardamos qualquer espécie de rancor contra você, será capaz de acreditar e focar naquilo que é realmente importante.
Shi sentiu os olhos arderem e fez o possível para engolir as lágrimas murmurando um agradecimento para Yue Shen, ela deu tapinhas suaves na sua mão, consolando-o. Ele sabia que não seria fácil se perdoar, mas faria o possível para não decepcioná-los. Um passo de cada vez, um problema por vez, podia fazia aquilo. Um dia ele fora o mais poderoso ilusionista da tribo do gelo, ainda sentia aquele poder fluir pelas suas veias, agora era sua vez de dar as cartas e ele jogaria do jeito certo.
※※※
Liao Jian e Huang Tuo parara no declive das cerejeiras e olharam ao redor com ares nostálgicos. Nenhum dos dois teceu qualquer comentário ao clima imutável do lugar, enquanto para um aquele lugar era o eco de um passado que desejava esquecer, para o outro era o lar que não saía do seu coração. O guardião do norte fitou o rosto sério do curandeiro enquanto este analisava a paisagem em silêncio, compenetrado.
Quando se encontraram quatro mil anos atrás, Huang Tuo era um talentoso e nobre curandeiro, chefe da tribo xamã, tinha ares gentis e uma mente sagaz, embora fosse um tanto silencioso, Liao Jian admirava sua coragem e persistência. Contudo, na sua nova vida, o médico era descontraído, despreocupado e brincalhão, seu sorriso era capaz de amolecer até o mais duro e resistente dos corações, talvez por isso, vê-lo sério e concentrado daquela maneira parecesse incomum aos olhos do advogado.
— Você é um bom rastreador, procure na floresta do nevoeiro uma caverna segura de boas proporções. — Orientou o médico. — Que ainda não tenha sido usada por nada, imortais, humanos ou animais e que atenda a uma direção harmoniosa.
Liao Jian anuiu diante das especificações ditas de forma clara e firme na voz de Huang Tuo. Mesmo m sua posição atual, o curandeiro ainda tinha em si a pose nata de um líder. Huang Tuo era o tipo de pessoa que combinava com o ditado de que o estômago do primeiro-ministro pode segurar um barco*[1], por isso era fácil esquecer que ele tinha aquele lado mais centrado. Se o próprio advogado não tivesse visto com seus próprios olhos, ao recuperar suas memórias, o sofrimento do médico pelo coração de Yue Shen e a destruição de sua tribo, ele não acreditaria sequer que Huang Tuo sentia outra coisa que não fosse alegria.
Eles se separaram. O curandeiro ficou diante do que parecia ser o túmulo improvisado de Li Luo, feito por Yue Shen em decorrência do encontro de Shi com Lian Ji. Enquanto isso, Liao Jian caminhou para oeste na floresta do nevoeiro em busca da caverna nas condições pedidas pelo líder da tribo xamã. Ele tinha uma ideia do motivo do médico ser tão específico em suas exigências, usando seus poderes, Huang Tuo selaria o corpo de Lian Ji, por isso o local precisava ser seguro e inabitado. Não foi muito difícil encontrar algo assim naquele local mal povoado desde a destruição de Snowblade, muitas das pessoas remanescentes haviam se mudado ou se alocado em outras tribos, além de algumas terem migrado para o mundo mortal.
De volta ao declive das cerejeiras, Liao Jian informou ao companheiro de missão sobre o local encontrado, assim, ele desenterrou Li Luo, graças ao gelo, o corpo dela continuava em perfeito estado sem sofrer corrupção, o médico anuiu em satisfação e acompanhou o advogado que, levando o corpo, guiou o caminho até a caverna. Era uma formação rochosa de tamanho mediano, a parte de dentro era quase completamente livre de rochas menores, com alguma ajuda do médico, Liao Jian construiu um esquife de madeira que Huang Tuo encantou com um escudo mágico, eles depositaram o corpo dela ali dentro e o médico ainda fez uma formação mágica em volta do esquife para reforçar a proteção e impedir que ele fosse violado.
— Se a alma de Li Luo realmente foi ligada a um abismo do tempo, precisamos manter seu corpo em perfeitas condições para que ela permaneça com algum vínculo nessa matéria. Do contrário, o abismo pode se abrir e fragmentar a alma dela em milhões, então seria impossível salvá-la. Lan Shang foi imprudente, mas tenho de admitir que essa era a única maneira de manter a rainha viva após uma oferenda de corpo como ela fez...
— Quanto tempo acha que nós tempos? — A voz de liao Jian era séria.
— Não dá pra saber... depende da força de cada pessoa, julgando pela alma de Lian Ji quero acreditar que estamos com sorte. Mas o mais seguro ainda é tirar a alma de Li Luo do abismo o mais depressa possível.
— Como fazemos isso?
— Matando Lian Ji. — O médico deu um suspiro de frustração. — Independente de ela ter conseguido seu corpo de volta, ela ainda está ligada a Li Luo, então é como se ainda partilhassem a mesma alma no mesmo corpo, eliminar Lian Ji é a única maneira de tirar a rainha do abismo e alinhar o cronômetro de vida delas, fazendo assim o pagamento do tempo e fechando os buracos no espaço. Como Lian Ji é a alma sobrando, ela precisa ser eliminada para Li Luo poder ocupar o espaço que lhe pertence, colocar a alma dela no abismo do tempo é como tapar um cano com um pano, vai bloquear o fluxo por algum tempo, mas não é permanente. Dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço, elimine a sobra e o equilíbrio se restaura.
— Um trabalho realmente nada difícil. — Ironizou o advogado.
— Nossa melhor arma ainda é Ying Kong Shi. Ele é o único com poder suficiente para matá-la.
— Nosso destino nas mãos de um garoto que mal consegue encarar o próprio reflexo no espelho. — Resmungou Liao Jian com sarcasmo. — Acho melhor reforçar meu contrato funerário.
— Não seja contraditório, Liao Jian, outrora você estava disposto a lutar em nome dele. — Lembrou o curandeiro. — No lugar do jovem príncipe, carregando a culpa que ele carrega, não acredito que nenhum de nós estaria em melhor estado.
O advogado soltou uma lufada de ar se afastando para fora da caverna. Antes, ele adimirara Shi por seu espírito forte e determinado, suas habilidades em batalha e sua inteligência estratégica. Mas vendo-o agora, nada mais que um príncipe quebrado, ele tinha suas reservas se era mesmo seguro depositar seu destino nas mãos dele.
— Aya, pare de agir como uma criança mimada, homem. Você é testemunha que Shi sempre ajudou no escuro*[2] a tribo do gelo e possibilitou a libertação de todos nós. Inclusive, estamos aqui graças a ele. — Censurou o médico enquanto fechava a caverna com uma barreira mágica. — Isso deve servir.
— Poupe fôlego, se sobrevivermos a isso de verdade vou dar todo meu dinheiro para você. — Sorriu dizendo em tom provocativo.
— Liao Jian, cuidado com o que fala, eu tenho uma memória infalível.
O médico sorriu e os dois se afastaram da caverna de volta para o declive das cerejeiras onde Huang Tuo abriria um portal que os levaria de volta.
※※※
— Pian ge!
Yan Da sorriu acenando para ele quando estacionou na frente do hospital. Ela deixara Chao Ya dormindo com a promessa de ir visitá-la no dia seguinte. Havia algo na expressão de Pian Feng que deixou a jovem princesa apreensiva quando entrou no carro e encarou o forçado sorriso de serenidade que ele lhe oferecia como uma promessa falsa de “não se preocupe” que ela vira diversas vezes no rosto de Hu Bing e aprendera a reconhecer de longe.
— O que houve? — Quis saber antes de afivelar o cinto de segurança.
— Não é nada demais, minha fadinha. — Mentiu. — Você comeu?
— Pian ge, você costuma dizer que eu sou uma péssima mentirosa, bem talvez você até se saia bem às vezes, mas não consegue esconder de mim quando está preocupado, sua cara e a de Hu Bing parecem quase uma cópia. — Ela lhe lançou um olhar sério.
Ele ficou em silêncio por algum tempo como se pensasse no que dizer. Yan Da começava a pensar o pior nas suas conjecturas mentais e estava prestes a quebrar as próprias regras e telefonar para o irmão quando Pian Feng finalmente quebrou o silêncio.
— Yan Da, você confia em mim? — A voz do guerreiro soou séria e fez a princesa ter um deja vu.
“Yan Da, você confia em mim?”
A voz de Peng Yan veio nítida na sua mente e, ali dentro do carro, ela rememorou aquele momento na estrada no qual achou que morreria. Com muito esforço, lutou para se manter no controle de suas emoções quando, olhando para o painel do carro, forçou sua voz a soar natural.
— Você sabe que sim. — Suas mãos apertaram a bolsa em seu colo. — Além de Hu Bing, eu o considero minha única família junto com jiejie, por que está me perguntando isso?
— Porque eu quero que você esteja segura disso: eu só faço as coisas pensando no seu bem estar, Yan Da. — Disse, vagamente. — Talvez agora isso não fique claro e não posso te explicar melhor, mas eu te peço, lembre disso sempre.
— Pian ge, você está me deixando assustada.
Ele soltou o cinto de segurança e a puxou para um abraço repentino, não usava força demasiada, apenas o bastante para senti-la ali, viva e pulsante em seus braços, agora que conhecia Yan Da, o seu coração generoso e doce mesmo diante de todos os sofrimentos pelos quais passara, a ideia de vê-la machucada, fosse por Shi ou Lian Ji, lhe era inconcebível e aterrorizante.
— Apenas confie em mim, minha fadinha — murmurou ele, a voz embargada — farei o que for preciso para proteger você.
Yan Da, confusa, o abraçava de volta. Era raro Pian Feng demonstrar aqueles momentos de vulnerabilidade, geralmente ele preferia ocultar seus sentimentos em demonstrações de um fingindo mal humor — que nunca era dirigido a ela — ou em sua taciturnidade. Se ele se permitia aquele instante de fragilidade, devia ser algo sério. Contudo, ela confiava nele o suficiente para aceitar seu silêncio sem mais perguntas.
— Meiguanxi, gege,*[3] vai ficar tudo bem.
Ela o apertou fechando os olhos. No fundo, Yan Da não tinha certeza se estava dizendo aquilo para ele ou para si mesma.
※※※
Yue Shen encontrou o marido na cozinha quando finalmente chegou em casa após deixar Shi aos cuidados do irmão. Ela se sentia mais tranquila e até mesmo esperançosa quanto a redenção do príncipe, afinal, seu julgamento não fora errado e Shi estava disposto a fazer a coisa certa, por si mesmo, por Yan Da e por todos eles. Com um sorriso, ela se aproximou do médico abraçando-o por trás.
— Bem-vinda de volta. — A voz de Huang Tuo era doce e melódica. — Ka Suo já chegou em casa?
— Sim. O príncipe já havia acordado quando eu cheguei, ele parece confuso.
— Conversei um pouco com ele, não é fácil enfrentar esse peso que ele carrega. — Anuiu o médico. — Mas tenho certeza que ele vai superar isso quando conseguir se perdoar.
— Hum. Foi exatamente o que disse a ele. — Anuiu. — Vou tomar um banho e já venho ajudar você.
Ela deu um beijinho no rosto do marido e estava prestes a alcançar o corredor quando a voz dele a deteve.
— Yue Shen...
— Sim? — Virou-se para encará-lo.
— Quando isso tudo acabar, vamos nos casar. — Seu olhar era intenso enquanto a encarava. — Se sobrevivermos a isso, não quero perder mais nenhum momento.
Ela sorriu.
— Claro que sim. — Cobriu a distância entre eles e acariciou o rosto do marido. — Após o casamento, você vai fazer menos plantões.
— Negócio fechado.
Huang Tuo desligou o fogão e ignorou os preparativos que fazia, puxando a esposa pela cintura, beijou-a intensamente mergulhando naquele universo inteiro e brilhante que era ela. Seu mundo.
※※※
— Meng xiaojie, bom dia. — Ka Suo cumprimentou ao telefone enquanto sovava com delicadeza a massa do baozi.
— Ying xiansheng, algum problema no escritório? — A voz de Yan Da ainda soava um tanto sonolenta.
— Perdoe por ligar assim tão cedo. Tenho um compromisso agendado para a hora do almoço e gostaria que a senhorita me representasse, não vou poder comparecer. É uma pequena reunião simples.
— Claro, sem problemas.
— Não há necessidade de ir ao escritório pela manhã, após esse compromisso, a senhorita pode tirar o resto do dia de folga.
— Mesmo? Não há nenhuma pendência na qual precise da minha ajuda?
— Oh, eu vou precisar fazer uma pequena viagem hoje, de modo que deixei todas as questões do escritório organizadas. Conto com a senhorita nesse compromisso que não pude adiar, lhe enviarei a localização do restaurante por mensagem.
— Tudo bem, tenha uma boa viagem, xiansheng.
Ele desligou com um sorriso. Não muito depois, Shi apareceu na sala de estar já de banho tomado e trajando roupas simples, um jeans escuro, camisa branca de botão com mangas dobradas até metade do braço, olhando-o daquela maneira ele parecia ainda mais jovial.
— Com quem estava falando? — Quis saber.
— Ah, apenas minha secretária. — Mentiu. — Vai à algum lugar?
— Visitarei Chao Ya no hospital. — Informou.
— Sobre isso, há algo que gostaria de conversar com você.
Shi ergueu a sobrancelha enquanto observava o irmão sovar delicadamente a massa sobre o balcão coberto de farinha, ele separava a massa em porções, abria e recheava, depois fechava no formato do baozi com precisão, habilidade e sutileza. Lembrou-se da expressão feroz dele no dia anterior enquanto ameaçava Lan Shang naquele galpão, com suas memórias novamente, ele tinha dificuldade de reconhecer essas diferentes faces do irmão com quem cresceu.
— Algo errado?
— Antes de tudo, queria me desculpar com você. — Começou. — Foi culpa minha, não cumpri meus deveres, não cuidei bem de você, falhei em te proteger. Eu sinto muito, Shi.
— Ge, como pode dizer isso quando fui eu quem causou todas aquelas mortes, inclusive a sua. — Shi meneou a cabeça. — Independente das circunstâncias, esse sangue está nas minhas mãos, sou o único que deve ser perdoado.
— Se tudo aquilo aconteceu foi por causa do meu desejo egoísta e cego que não levou nada e ninguém em consideração, Shi. Se desde o começo eu não tivesse colocado minha vontade acima do meu dever, nada disso teria acontecido com você, com Yan Da ou com qualquer um dos meus amigos. — Contrapôs o rei do gelo. — Você é a pessoa mais importante da minha vida, mas eu assisti você se destruir enquanto ficava preso na autocomiseração.
Ele não respondeu imediatamente, continuava olhando as mãos do irmão trabalhando enquanto colocava os baozi na panela de vapor,
— De minha parte, eu fui irracional. — Disse finalmente após um longo silêncio. — Posso ter sido manipulado para assassinar todos vocês, mas estava muito consciente do que fiz a Yan Da. Fui consciente até o final, mas estava cego, ge. Por isso te peço que me perdoe. Me perdoe porque, dessa vez, eu vou ser irracional outra vez.
O rosto de Ka Suo desviou do seu trabalho e encarou o irmão, a tensão endurecendo os músculos do seu rosto enquanto Shi o encarava de volta com determinação. Um silêncio incômodo oprimiu o ambiente por um tempo enquanto os irmão se olhavam sem ceder um ao outro.
— Sei o que aconteceu com Li Luo e o que Lian Ji fez. — Anunciou Shi. — Sei que Lan Shang as ligou a um abismo do tempo e que ela vai tentar de tudo para destruir Yan Da já que ao que parece eu não sou mais um alvo notável.
— Shi...
— E é por saber tudo isso, ge, que eu escolho ser irracional de novo. — Continuou impedindo-o de falar. — Vou ouvir o meu coração, me impedir de cometer os mesmos erros e mesmo amando você como a minha própria vida, dessa vez eu escolho Yan Da. Vou protegê-la com tudo que eu tenho. Me perdoe por ser egoísta.
A expressão de Ka Suo suavizou e ele riu, para a surpresa de Shi que o encarou um tanto desconcertado. O clima opressor na sala, até então, ficou novamente leve, como um céu nublado que vai sendo limpo aos poucos.
— Shǎguā háizi.*[4] — Riu Ka Suo. — Era exatamente isso que eu esperava de você. Juro que iria te bater se você dissesse o contrário. Use essa oportunidade e viva o sentimento que tirei de você quatro mil anos atrás. Se permita isso, Shi, não há mais impedimentos.
— Eu irei, ge. — Ele sorriu.
— Sinto muito orgulho de você. — Ka Suo anuiu ainda dando leves risadas. — Ah, sobre o que queria conversar com você, Chao Ya, Pian Feng e Liao Jian estão vulneráveis, não tive poder o bastante para devolver força ao núcleo dourado deles, mas você pode.
— Por isso Chao Ya levou um tiro? — Ele ficou pensativo.
— Originalmente, Pian Feng veio para cá com parte dos seus poderes, mas quando aconteceu o acidente de carro envolvendo Yan Da e Peng Yan, ele interviu, creio que a princesa tenha lhe contado a respeito, a luz nas costas de Peng Yan que ela viu eram do poder de Pian Feng. Ele correu um grande risco naquele dia, quase não conseguimos trazê-lo de volta. Infelizmente, não fomos capazes de impedir a morte de Peng Yan. Huang Tuo deu um jeito de nublar as memórias de Yan Da para que ela se recordasse da luz apenas como uma espécie de ilusão ótica.Assim, ele ficou sem forças tal como Chao Ya e Liao Jian. Gostaria que devolvesse a eles seus poderes para equilibrar a luta.
— Claro que sim, é o mínimo que posso fazer. — Anuiu em concordância. — Preciso de esferas das tribos para converter a energia, você sabe que, com tudo que aconteceu, há essência do fogo no meu corpo por dividir a alma de Yan Da.
Ka Suo saiu por um momento e voltou com uma pequena caixa de madeira ornada. Dentro repousavam três bolinhas de mais ou menos seis centímetros de diâmetro, uma verde, representando a tribo de música xamânica, uma cinza representando o espírito do vento e outra azul representado a tribo do gelo, da qual Liao Jian fazia parte como guardião do norte. Ele entregou a caixa para Shi que a guardou com magia.
— Yan Da...
— Os poderes dela estão selados com suas memórias, assim como você. — Ka Suo sorriu. — Não se preocupe, quando chegar o momento ela poderá se defender.
O príncipe do gelo assentiu mostrando-se aliviado. Ka Suo pôs a mesa e Shi ajudou a dispor as travessas com a comida que o irmão preparara, era um verdadeiro banquete e ele se perguntava qual era a ocasião. Como se lesse seus pensamentos, o mais velho tocou-lhe o ombro em um leve aperto e sorriu.
— Bem vindo de volta, Shi!
— Obrigado, ge. — O príncipe fez um leve aceno de cabeça enquanto se sentava ao lado do irmão. — Vai à empresa hoje?
— Oh, foi bom tocar no assunto, eu tenho uma reunião hoje na hora do almoço, não vou poder comparecer e ao que parece, Yan Da não está disponível hoje nesse horário, você poderia comparecer no meu lugar?
— Claro, é sobre o novo resort em Macau?
— Sim, apenas a apresentação da proposta. Não deve demorar muito. — Sorriu.
— Deixa comigo, estarei lá. Envie o endereço por mensagem.
Ka Suo agradeceu, satisfeito.
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