Love as Sakura | 爱如樱
42 第37章 Perdoado (II)
Yan Da colocou o telefone de volta na mesa de cabeceira e notou que Pian Feng não estava mais na cama. Na noite anterior, o amigo parecia transtornado e com medo de deixá-la sozinha, ele se ofereceu para dormir na poltrona do quarto dela, como se esperasse vigiá-la a noite inteira, aquele comportamento incomum deixou a princesa preocupada, mas ela não fez perguntas e pediu-lhe que dormisse ao seu lado, como Hu Bing fazia quando ela era criança. De alguma forma, esperava que aquilo deixasse o amigo mais tranquilo, não sabia se tinha sido eficaz, mas esperava que sim. Se Pian Feng não queria lhe dizer o que estava acontecendo, lhe restava confiar que ele podia lidar com o problema e, no momento certo, lhe contaria.
Apesar de ainda ser muito cedo, ela sentiu o sono desaparecer após a ligação do chefe, ele não fora específico sobre o que se tratava a reunião na hora do almoço, de modo que Yan Da passaria algum tempo analisando os últimos projetos da empresa para ter uma ideia clara do que poderia ser e estar preparada. Adiaria a visita à Chao Ya para a parte da tarde quando estaria com a mente mais despreocupada. Sabendo que não conseguiria dormir de novo, decidiu fazer uma caminhada para se exercitar um pouco antes do café da manhã.
O cheiro de café fresco pairava no ar quando ela chegou à sala de estar e encontrou Pian Feng com um avental na cozinha. Saudou-o com um sorriso enquanto servia um copo com água para si mesma, avaliando-a por um instante, o guerreiro largou o que estava fazendo, guardou os legumes cortados em potes e pediu que ela pusesse na geladeira, depois disso desapareceu no corredor que levava ao quarto de Chao Ya e voltou alguns minutos depois vestido com roupas esportivas.
— Vamos? — Falou para Yan Da que ergueu a sobrancelha. — Está indo correr, certo?
— Hum, desde quando você corre?
— Desde que quero ficar de olho em você? — Deu de ombros. — Vamos lá, só não quero te deixar sozinha, me aguente um pouco grudento por um tempo, hao bu hao?
Será algum tipo de estresse pós-traumático pelo que aconteceu com a jiejie? Pensou ela por um instante enquanto olhava para o ar de inocente que Pian Feng tentava transmitir. Suspirando, ela anuiu e os dois saíram; Yan Da costumava correr usando a esteira que tinha em casa, fazia isso uma hora durante a manhã ou a noite, mas naquele dia desejava um pouco de ar fresco e o calor do sol da manhã sobre sua pele. Ela e Pian Feng seguiram até um parque que ficava a mais ou menos meia hora do condomínio onde moravam, correram juntos por volta de uma hora e meia quando voltaram para casa, ele foi terminar o café da manhã enquanto ela tomava banho.
Apesar de tentar não pensar muito naquilo, no fundo da sua mente, Yan Da ainda pensava na última vez que vira Ying Kong Shi, na maneira como ele a abraçou, no seu corpo trêmulo sacudido por soluços. A maneira como sua expressão abatida se mostrava transtornada e angustiada quando, por um átimo de segundo, ela o olhou antes de sair correndo assustada. Parte dela se sentia envergonhada da sua atitude, mas naquele momento era o melhor que conseguiu fazer dado o choque pela atitude dele. Também se sentia culpada por tê-lo deixado sozinho naquele estado, embora não soubesse qual seria sua reação quando o visse novamente, ela não podia negar que desejava o próximo encontro. Era contraditório pensar que ao mesmo tempo em que desejava vê-lo, tinha medo que isso acontecesse, Yan Da achava a sensação muito irritante.
Quando voltou à cozinha, a mesa já estava posta e Pian Feng voltava do banho já pronto para bancar o guarda-costas dela, contudo havia um leve sinal de irritação na sua expressão que ela não conseguiu entender.
— Na hora do almoço eu tenho uma reunião, vou visitar a jiejie em seguida. — Anunciou ela enquanto se servia de uma porção de arroz.
— Preciso cuidar de um problema na agência, deixo você no restaurante e você me liga quando sair, tudo bem?
— Hao. — Anuiu. — Tem algo errado?
— Não, só estou irritado com o diretor, ele está cobrando a volta de Chao Ya mesmo sabendo que ela não recebeu alta ainda.
Por alguma razão, ela não conseguia acreditar que o problema era aquele, mas decidiu comprar a conversa.
— Ela parece bem, acho que não vai demorar muito para receber alta. Tenho certeza que a estadia não está sendo das melhores, ela odeia ficar confinada.
— O doutor Huang me disse que ela está progredindo bem, a recuperação foi muito rápida comparada com outros casos.
— Ainda estou preocupada com isso, não parece haver qualquer progresso da polícia com esse caso. E se essa pessoa tentar de novo, Pian ge?
— Não se preocupe tanto, vou cuidar disso pessoalmente. Nem que eu precise obrigá-la a andar com uma roupa da SWAT cercada por guarda-costas.
Yan Da deu uma risada imaginando a cena.
— Fadinha, sobre esse seu almoço, pode me prometer uma coisa? — Ele não olhava para ela, apenas espetava a comida no prato com o kuaizi.*[1]
— O que? — Perguntou ela, observando-o com certa inquietude.
— Seja cautelosa. — Pediu e dessa vez ergueu um olhar sério para ela.
— É apenas uma reunião de negócios, Pian ge, não vou ouvir nada mais que uma proposta. — Sorriu tranquilizando-o.
— Exatamente por isso. — Seu rosto continuava impassível. — Não ceda ao cliente tão facilmente sem antes saber seu passado, hao bu hao?
Ela encarou-o por um tempo de maneira penetrante, não entendia que tipo de código era aquele, nunca tinha visto Pian Feng agir daquela forma antes. Erguendo uma sobrancelha, analisava-o com minúcia, ele parecia inquieto, preocupado, triste. Assentiu em concordância ao pedido dele, sabia que ele se preocupava de verdade com ela e se agia daquela maneira era pelo seu bem.
— Deixe que eu te pergunte algo, Pian ge. — Pediu ela e Pian Feng anuiu. — Você confia em mim?
— Claro que confio em você, Yan Da. — Respondeu de pronto sem qualquer hesitação. — Se há algo em você no qual minha confiança vacila é no seu coração bom demais.
— Não sei o que está te deixando preocupado desse jeito, mas acredite em mim, gege, eu não vou a lugar nenhum.
Pian Feng baixou o olhar para o prato intocado e engoliu as lágrimas, não importava sob que perspectiva olhasse aquilo, só conseguia ver Yan Da ferida pelo orgulho e devoção cegos de Ying Kong Shi, conhecendo a história da princesa por completo, essa ideia destruía seu coração. Parte de si sabia que aquela atitude era bastante egoísta, não podia privar a princesa do seu destino, especialmente naquela vida ainda mais amarga que a anterior, mas quando lembrava do seu semblante torturado ao lembrar de Peng Yan ou viver uma memória do passado, ele só conseguia pensar em trancá-la numa torre e impedir qualquer um de se aproximar dela outra vez. Suas mãos fecharam em punho, Lian Ji estava lá fora e sabia que Shi era um alvo fora de alcance, com Yan Da vulnerável pelas memórias retidas, havia um X vermelho nela pedindo para ser atingido.
— Lembre dessa promessa, gongzhu. — Murmurou ele tentando disfarçar a voz trêmula. — Não me torne um monstro por você.
Yan Da não entendeu aquelas palavras, nem sua reverência quando a chamou de princesa, mas a firmeza na voz de Pian Feng não deixava qualquer margem para dúvidas de que ele falava sério.
※※※
Shi encontrou Huang Tuo no corredor que levava ao quarto particular onde Chao Ya estava internedada, o médico sorriu como sempre carismático, o jovem príncipe sempre achava que o sorriso do médico era brilhante o bastante para cegar.
— O que pretende me deixando cego logo cedo pela manhã assim? — Brincou Shi enquanto se aproximava.
— Dianxia. — O curandeiro fez uma discreta mesura.
— Pare já com isso, Huang Tuo, não estou brincando. — Advertiu. — Wǒ gàosù nǐ*[2], eu posso relevar esse comportamento vindo de qualquer um dos outros, menos de você. Te tenho como meu melhor amigo, um irmão, aqui não existe essa hierarquia, somos iguais, então não me trate dessa maneira.
Huang Tuo não tinha certeza se seu queixo tinha caído de verdade ou apenas na sua cabeça. O posicionamento de Shi e suas palavras sérias e cheias de convicção aqueceram o coração do médico de tal forma que ele quase sentiu as lágrimas ardendo em seus olhos. Aquele coração quente de Shi era uma novidade para ele, no passado o príncipe era sempre prático, direto e frio, aquela existência, construída ao redor dele e de Ka Suo de maneira gradual, finalmente dera a ele uma sensibilidade humana.
Shi finalmente se tornara real.
— Wa, Ying Kong Shi, você precisa me preparar antes de dizer essas coisas emocionais. — Ele deu uma leve risada nervosa. — Pode não parecer, mas eu fico sem palavras também, sabia?
Ele bagunçou os cabelos do mais novo em um gesto de carinho, seus olhos brilhando de alegria.
— Seu pequeno causador de encrenca, sabe que eu te adoro como um irmão mais novo. — Apertou levemente o ombro de Shi. — Obrigado pela sua consideração, é uma honra para mim. Garanto que estou ao seu lado para o que precisar.
— Apenas continue testando minha paciência e me tratando como sempre tratou. Você mesmo disse para deixar o passado para trás, não vou poder fazê-lo se continuar me chamando assim e colocando esse abismo entre nós.
— Hao, hao, hao, se continuar desse jeito eu vou acabar chorando no meio do corredor, como ficaria minha reputação depois disso? — Brincou. — Está aqui por saudades de mim ou veio fazer outra coisa?
— Você precisa melhorar o seu ego. — Riu. — Vim ver Chao Ya. Preciso falar com ela.
— Oh, dui le. — Ele pareceu ter lembrado de algo. — Você perdeu essa parte. Lian Ji mandou um pequeno recado para Ka Suo atirando em Chao Ya... agora sabemos que ela usou as habilidades de Li Luo para isso, ela errou o coração por muito pouco.
— Como ela está agora?
— A recuperação dela está praticamente completa. Claro, eu dei uma ajudinha, mas não podia acelerar muito ao ponto de parecer milagroso, os outros médicos iam suspeitar. — Esboçou um sorriso travesso. — Há apenas uma enfermeira com ela agora fazendo uma checagem geral, está aberto a visitas.
— Obrigado. Passo para te ver antes de ir embora, tenho um compromisso na hora do almoço.
— Shi ma?*[3] Vai terminar o momento interrompido com a princesa? — Provocou.
— Você age com essa confiança toda porque Yue Shen é irascível e violenta quando se trata da sua proteção, não é? — Shi sorriu. — Do contrário, tenho minhas dúvidas se você me provocaria com essa mente tão suja.
Huang Tuo deu uma risada.
— Eu não diria que minha esposa é irascível e violenta, ela só é um pouco superprotetora. — Argumentou. — Por que acha que Ka Suo a designou como sua sombra?
— Porque nem mesmo eu tenho peito para desobedecer as ordens dela. — Shi fez uma careta. — É por esse respeito que você ainda está com todos os dentes nesse sorriso brilhante.
— Respeito, claro. — Sorriu matreiro. — Vejo você mais tarde, boa sorte com a princesa, espero que ela não fuja de novo.
— Huang Tuo!
O médico já estava se afastando quando Shi gritou seu nome em tom de ameaça, mas um sorriso terno iluminava seu rosto. Era impossível não adorar aquele médico. Meneando a cabeça, ele fez o resto do seu caminho para o quarto de Chao Ya. A enfermeira estava de saída quando ele chegou, um pouco sem jeito, o príncipe entrou no quarto e cumprimentou a cantora em tom cordial.
— Er dianxia. — Chao Ya respondeu o cumprimento de maneira respeitosa.
— Oh, céus, acho que vou precisar fazer uma reunião coletiva e pedir que não me chamem assim... — Suspirou frustrado. — Vamos voltar a parte em que eu sou apenas o Shi que recebe conselhos sobre Yan Da, tudo bem?
Chao Ya deu uma leve risada.
— Tenho ouvido que tem sido difícil pra você. — Observou ela. — Já quero adiantar de antemão que não o culpo de nada, independente do que você acredite, Shi. Tudo que eu te peço é para não machucar Yan Da outra vez.
— Não dessa vez. — Prometeu. — Te dou minha palavra, dedicarei minha vida para fazer Yan Da feliz, vou protegê-la com tudo que tenho.
— Isso é o bastante para mim, além disso você não me deve coisa alguma. Eu só quero que ela seja feliz, mais que qualquer um ela merece isso.
Shi anuiu sem conseguir dizer mais nada. Ela tinha razão e a maior culpa de Yan Da não ter sido feliz quatro mil anos atrás era ele. A princesa havia morrido com o coração ferido pela traição e frieza dele.
— Ouça, Shi, acredito que tenha escutado muito isso nos últimos dias, mas sinto que devo repetir para você... pode ser realmente difícil e mesmo que não na mesma intensidade, entendo como você se sente. Mas antes de conseguir o perdão de qualquer um de nós, precisa conseguir o seu próprio, porque mesmo que afirmemos não ter nada contra você, enquanto se enxergar como um assassino nosso perdão será inútil.
— Obrigado, Chao Ya. Isso é realmente importante pra mim.
— O meu perdão ou o discurso de autoajuda? — Brincou ela e ficou aliviada quando Shi deu uma risada.
— Ah, antes que me esqueça, outra razão de eu estar aqui é reestabelecer seu núcleo dourado. Não queremos outra surpresa desagradável como essa.
— Isso... — Ela hesitou parecendo preocupada.
— Não se preocupe, meu estoque está acima da média. — Ele sorriu.
Shi tirou a esfera da tribo de música xamânica e, usando energia, fê-la pairar entre ele e Chao Ya, a cantora respirou fundo e fechou os olhos, dizendo a si mesma para relaxar. O príncipe sentiu a energia se ligar ao núcleo da cantora, então impulsionou a força na esfera enquanto Chao Ya recebia o poder convertido para sua essência e sentia novamente a velha força mágica fluindo renovada por suas veias, era a sensação de acordar descansado e bem disposto após dias sem dormir. Não levou mais que alguns minutos e ela estava de volta à ativa. Quando abriu os olhos, Shi guardava novamente a esfera junto as outras na caixinha de madeira, ela o analisou com cautela.
— Estou bem, não se preocupe. — Garantiu ele sentindo o escrutínio.
— Não se sente cansado, sonolento, zonzo... nada? — Indagou ela como uma mãe aflita.
— Chao Ya nuwang*[4], quem você acha que eu sou? — Ele lhe lançou um sorriso brincalhão. — Se quer mesmo saber, você nem arranhou.
— Exibido. — Devolveu Chao Ya, descontraída.
— Se sente melhor? — A sinceridade na voz de Shi tocou o coração da musicista.
— Nova em folha. Obrigada, alteza. — Provocou.
Shi soltou uma lufada de ar e revirou os olhos. No fundo, se sentia tranquilo não apenas por Chao Ya estar segura, mas pelo relacionamento de ambos ainda estar em bons termos como antes. Ele se sentia mal pelo fim que ela tivera, assim como a perda dos homens que amava. Olhando o relógio de pulso, ele se despediu dela afirmando ter um compromisso e os dois se despediram, ele ainda passou para ver Huang Tuo e de despedir antes de seguir para o restaurante onde encontraria o cliente do irmão.
※※※
Yan Da estava com dor de cabeça. Passara o dia debruçada sobre os documentos dos últimos projetos da empresa, por mais que estivesse por dentro do tipo de trabalho da ZhangYing, ainda estava preocupada em possíveis erros que pudesse ocorrer durante a negociação. Quando estava na empresa do pai, ele nunca a deixava lhe representar em nenhuma reunião, ela era apenas ouvinte e lidava com papelada de escritório, mesmo tendo consciência da sua competência, estava com medo de cometer erros e decepcionar Ka Suo, mesmo ele tendo lhe dado a certeza que se tratava apenas da apresentação de uma proposta e ela só precisaria fazer a avaliação inicial e as possíveis coisas a serem corrigidas posteriormente.
— Se você continuar desse jeito eu vou ter que usar um extintor para esfriar sua cabeça. — Disse Pian Feng, sentado com um livro na poltrona próxima a ela. — Acho melhor ir se arrumar ou vai chegar atrasada.
— Começo a me ressentir por você não poder ficar lá comigo. — Resmungou nervosa. — Não me sinto confiante.
— Fadinha, você é competente por todos os Meng da Huo Enterprises juntos! — Encorajou ele. — Não existe qualquer possibilidade dessa negociação falhar.
— Você sabe alguma coisa dessa empresa que está fazendo a proposta?
— Podemos dizer que sim. — Suspirou. — Você vai tirar de letra, são idiotas.
— Pian ge! — Censurou.
— Vamos, largue isso e corra para o banheiro. O cliente pode ser imbecil, mas é pontual.
Ela deu uma risada sentindo-se um pouco mais leve enquanto ia para o chuveiro. Levou meia hora para ficar pronta, usou um terno preto formal sob medida de calça, blusa branca e blazer de mangas ¾. Prendeu apenas um pouco das madeixas escuras para evitar que cobrissem seu rosto e ao mesmo tempo dar-lhe um ar receptivo, fez uma maquiagem básica que era o pedido pela ocasião e organizou as planilhas e documentos que estudava dentro da sua pasta.
Como acordado, Pian Feng a levou até o restaurante. Era um local no centro, conhecido por servir comida italiana tradicional frequentado pela alta sociedade. Tinha ares de elegância, mas ao mesmo tempo era aconchegante e íntimo, Yan Da estranhou a escolha do local para uma reunião de negócios, mas já havia entendido que Ka Suo trabalhava de maneira muito distinta do seu pai no tratamento aos clientes e parceiros.
— Ligue se precisar de carona para o hospital, não vou estar muito longe de todo modo, a gravadora fica a três quadras daqui. — Lembrou Pian Feng ajeitando o cabelo dela. — Fique tranquila, você vai se sair muito bem.
— Obrigada, Pian ge. — Sorriu e deu um beijo na bochecha dele. — Vejo você mais tarde.
Ela estava prestes a sair quando ele segurou sua mão com alguma força.
— Da’er, se precisar de mim, a qualquer momento, basta ligar que venho até você. Não importa se eu estiver em conferência com o presidente, eu virei até você sem hesitação. Tudo bem?
— Seu número é meu contato de emergência, ligarei ao menor sinal de problemas, prometo. — Sorriu para tranquilizá-lo. — Obrigada, Pian ge.
Ele anuiu soltando a mão dela e a observando entrar no restaurante após acenar para ele mais uma vez. Ela deu o nome de Ka Suo na recepção e uma hostess a acompanhou até a mesa reservada para ela. Aparentemente o cliente ainda não havia chegado. Yan Da bebeu um pouco da água servida pelo garçom e respirou fundo dizendo a si mesma para manter a calma. Alguns minutos depois, alguém se aproximou da mesa acompanhado pela hostess e ela se levantou apenas para perder a força nas pernas.
Era Ying Kong Shi.
※※※
Shi chegou ao restaurante com dois minutos de atraso por culpa do trânsito. Além disso, havia precisado parar em uma loja para trocar de roupa já que não saíra de casa vestido para uma reunião e não queria perder tempo se vestindo de novo antes de ir ao hospital. Reprimindo um suspiro de frustração, ele deu o nome do irmão na recepção e foi acompanhado pela hostess até a mesa onde já havia alguém esperando. Por estar de costas, tudo que ele podia dizer sobre o cliente de Ka Suo era o fato de ser uma mulher.
— Perdoe meu atraso...
Suas palavras morreram quando a pessoa se levantou e o encarou com uma expressão de choque. Yan Da estava deslumbrante em um terno preto sob medida e Shi segurou seu braço com precisão, quando o corpo dela pareceu perder a força, para firmá-la. Não precisava de muito para saber que Ka Suo havia armado tudo aquilo, não havia qualquer cliente com propostas para o resort em Macau, naquele momento o irmão mais velho devia estar no meio da reunião dando risadas de satisfação por seu plano ter sido bem sucedido.
Quando ela se acomodou novamente na cadeira, ele sentou de frente para ela e os dois caíram em um silêncio constrangido. O garçom voltou trazendo o cardápio, como Yan Da parecia atordoada pelo choque da sua presença, ele decidiu fazer o pedido para ambos e já pensando em uma desculpa para justificar sua presença ali e a ausência do cliente que ambos esperavam encontrar. Ainda que desejasse expor a gracinha de Ka Suo, precisava admitir que agradecia ao irmão por aquela oportunidade.
Olhando para Yan Da — que mesmo pouco à vontade permanecia adorável com as faces coradas pela timidez — Shi sentia que ela lutava para manter a altivez e a calma, mas o conflito interno era evidente. Não conseguiu evitar sorrir, algumas coisas nunca mudavam. Estar ali diante dela trouxe à tona sensações diferentes do que ele imaginava, só podia ser o destino para uni-los daquela maneira, não importava quão difícil fosse a história tempestuosa do passado deles, o jovem príncipe estava certo que apenas Yan Da podia salvá-lo. A maior prova daquilo era o fato de ele se sentir tranquilo e seguro mesmo com a ameaça de Lian Ji pairando sobre eles como um fantasma sombrio.
Com Yan Da, o jovem príncipe sentia-se capaz de vencer o mundo. Ele não conseguia acreditar que podia amá-la ainda mais, mesmo quatro mil anos depois. Mesmo antes de recuperar suas memórias, Shi já estava certo que seu coração não poderia ser de nenhuma outra pessoa além dela. Todavia, os dois sempre pareciam a um passo um do outro sem nunca realmente se aproximar e o príncipe não sabia o que fazer para mudar aquela situação.
— Ying Kong Shi — Começou ela, quebrando o silêncio, apesar de sua voz soar trêmula —, Zhang xiansheng não me informou que você viria para a reunião.
— Oh, sobre isso... bem, ele me telefonou e pediu que viesse lhe acompanhar. — Mentiu. — Ao que parece, o cliente teve um problema e não poderá vir hoje.
— Então não há razão para continuar aqui. — Ela levantou e Shi a deteve, segurando-a pela mão. — Há algo mais?
O tom de Yan Da era gélido. Ele podia imaginar, conhecendo-a como conhecia, que aquele era um artifício para se proteger dos sentimentos com os quais não podia lidar antes que estes fugissem do seu controle. Muitas coisas haviam mudado nela com o passar do tempo, mas suas características mais marcantes continuavam imutáveis, entre elas a que ele mais gostava: sua tenacidade.
— Por favor, fique. — A voz dele soou tão clara e direta que, quando ergueu os olhos para encará-la, Yan Da tinha uma expressão surpresa. — Gostaria de conversar com você.
Shi não tinha certeza se era pela curiosidade ou o choque, mas ela voltou a sentar ainda evitando contato visual. Havia algo no rosto de Yan Da que era mais que medo, mas ele não era capaz de identificar o que era. Colocando a pasta na cadeira ao seu lado, a princesa mantinha uma expressão impassível e ele se obrigou a ser cauteloso.
— Primeiro, me desculpe pelo outro dia, eu nunca devia...
— Se sente melhor agora? — Cortou ela. — Soube que teve um colapso nervoso.
Eu tive, é? Ele ergueu a sobrancelha um tanto confuso, o que mais haviam inventado às costas dele e não estava sabendo?
— É... pois é. — Mentiu entrando no fluxo. — Foi um efeito colateral. Sinto muito ter assustado você daquela maneira.
— Não assustou. — Retrucou. — Eu só...
Ela se interrompeu. O garçom chegou nesse momento trazendo o pedido, Shi percebeu que, de forma muito sutil, ela envolveu os braços em torno de si mesma como se tentasse se proteger de algo, contudo seu rosto permanecia quase inalterado. Franzindo o cenho, se perguntou que detalhe havia perdido. Precisava conversar com o irmão a respeito, no momento, entretanto, só podia dar o melhor de si para conseguir algum progresso com ela.
Yan Da respirou fundo, ajeitou a postura e pegou o garfo sobre a mesa. Shi decidiu acompanha-la em silêncio a princípio, naquele instante, tudo que pensava em dizer parecia errado. Ele era bom em formar estratégias e péssimo quando se tratava dela. Quatro mil anos depois, o príncipe do gelo ainda não sabia como se comportar diante de Yan Da.
— Você tem medo de mim?
A pergunta saiu sem querer e quando Shi percebeu, Yan Da baixou o garfo de volta sobre o guardanapo e o encarou com um olhar enigmático.
— Eu tenho alguma razão para temê-lo? — Sua voz tinha uma espécie de desafio, como se instigasse Shi a contar algo que ela já sabia.
— De modo algum. — Meneou a cabeça forçando a voz a soar firme. — Yan Da, creio que já me fiz muito claro sobre o que sinto por você. A única coisa que eu quero é ficar ao seu lado, mesmo que não possa me aceitar agora, me permita pelo menos isso. Eu espero, o tempo que for preciso.
— Não sei do que está falando. — Ela voltou o olhar para o prato outra vez.
— Sabe sim. — Contrapôs. — Mas caso não tenha ficado claro, creio que deva me fazer entender, então. Yan Da, eu estou apaixonado por você.
— Ying Kong Shi...
— Por favor, me ouça. — Pediu ele, quase suplicando. — Eu me apaixonei por você desde o momento em que quase te atropelei. Sei que parece loucura de livro açucarado de adolescente, mas é a verdade ainda que eu não saiba como explicar ou se realmente existe uma explicação para isso. Fico louco quando você se machuca, me derreto qando te vejo sorrir, seu rosto tímido ou irritado é a coisa mais adorável desse mundo, o som da sua voz é a música mais linda que eu já ouvi, todo o tempo, desde que te conheci, só penso em como posso te manter segura, mesmo sendo um pouco desajeitado, Yan Da, meu único propósito é fazer você feliz. Tudo bem se você tiver medo do mundo ou de qualquer coisa nele, eu vou estar aqui para segurar sua mão, mas por favor, não tenha medo de mim.
A forma como ela ficou vermelha fez Shi se perguntar se não havia sido um pouco direto demais. Era verdade que ele fora tomado pelas lembranças e a preocupação do risco que ela corria, sempre fizera o possível para deixar claro seus sentimentos por ela através de suas ações, falando daquela maneira podia acabar soando um tanto arrogante ou precipitado e isso começou a deixá-lo preocupado. Ela pareceu atordoada e, com as mãos trêmulas, tomou um gole da taça de água. No passado, ela deixara claro seus sentimentos, mas a Yan Da de agora, apesar de mostrar alguns sinais de interesse por ele, não era muito clara quanto a gostar dele ou não.
Teria se precipitado ao revelar de modo tão ardoroso o que sentia? Pior, ele interpretara errado os sinais que ela mostrara? Estava prestes a perder a cabeça quando se obrigou a respirar fundo e manter a calma. Não importava se ela ainda não estivesse apaixonada por ele, mesmo se levasse a vida inteira, ele continuaria tentando conquistá-la, porque para ele, tinha de ser ela. Não podia ser mais ninguém. Quando o silêncio estava deixando de ser constrangedor para se tornar opressor, Yan Da finalmente falou alguma coisa.
— Sobre isso... eu não posso te dar uma resposta agora. — Disse com sinceridade. — Espero que me entenda. Realmente sinto alguma coisa por você, Ying Kong Shi, mas não sei o que é, ou se estou pronta para enfrentar e aceitar isso. Sobre seu pedido, se não tivesse te permitido ficar ao meu lado durante todo esse tempo você não teria sido capaz de se aproximar de mim.
— A última coisa que desejo é pressionar você. Sou capaz de esperar o tempo que for preciso. — Garantiu ele. — Sinto muito se fui um tanto precipitado.
— Naquele dia, no shopping... entendi o que quis dizer, mas apenas tentei empurrar para o lado. Ainda é difícil pra mim.
Ela se referia a Peng Yan. Shi sabia que o laço que Yan Da formara com Peng Yan não podia ser comparado ou substituído, a quebra daquele laço deixara feridas profundas no coração dela, isso aliado a dor que ele próprio causara a ela quatro mil anos atrás, deixaram-na com medo de amar outra vez. Receio de confiar em qualquer pessoa que não fosse Pian Feng, Chao Ya e Hu Bing. Se quisesse ter algum progresso real no ganho da confiança dela, precisava não apenas quebrar aquela resistência que ela erguera em torno de si, mas o mais difícil de tudo: teria de conseguir a aprovação de Pian Feng.
Chegava a ser irônico que agora ele entendesse o receio do antigo guerreiro do espírito do vento em relação a sua permanência ao lado de Yan Da e que agora dependesse dele para conquistar sua confiança. Colidir com uma rocha fora menos doloroso. Após a confissão dele e a sinceridade dela, os dois terminaram a refeição com um clima menos constrangedor. Não era exatamente a mesma relação amistosa que tiveram antes de toda aquela bagunça começar, como os dias que ele cuidara dela no hospital, mas a animosidade de Yan Da no começo daquele encontro fora em grande parte amenizada e os dois puderam ter uma conversa agradável.
Shi pagou a conta e os dois saíram do restaurante. Ele se ofereceu para levá-la até o hospital uma vez que soube dos seus planos de visitar Chao Ya. Gostou como Yan Da pareceu voltar a ficar gradualmente confortável na sua companhia, parecia um peso tirado dos seus ombros e naquilo o príncipe via uma esperança de alcançar seu coração.
Yan Da não tinha certeza se era a ideia mais inteligente agir como se as palavras de Shi não tivessem desestruturado toda a sua construção emocional erguida com anos de persistência teimosa e isolamento desde a morte de Peng Yan, mas era tudo em que podia pensar para não agir de modo estranho com ele dado tudo que ele lhe dissera de maneira tão ardorosa. A princesa não podia negar que ouvir Shi dizendo gostar dela fizera seu coração tremer de uma súbita felicidade inenarrável, mas ela continuava sendo cautelosa por alguma razão desconhecida e também por causa do pedido de Pian Feng. Inclusive, parando para refletir, a forma como Pian Feng falou antes de a levar até o restaurante lhe dava a certeza que ele já sabia que era Shi quem estaria lá e não o cliente.
— Obrigada por me trazer. — Disse a ele quando estacionou diante do hospital.
— Foi um prazer. Obrigado por me fazer companhia hoje. — Sorriu. — Posso ver você amanhã?
— Claro. — Ela sorriu de volta enquanto saía do veículo. — E, Ying Kong Shi, eu não poderia ter medo de você. Dirija com segurança.
Apressada, ela se virou e seguiu seu caminho, ele ficou parado ali até ela entrar no hospital em segurança. Não muito depois, a porta do passageiro voltou a abrir e a figura entrou no carro, que levou um susto com a intrusão repentina. Um par de olhos afiados recaiu sobre ele e o coração do príncipe se retraiu ao pensar que aquele era um dia com muitas emoções complexas.
— haojiu bujian*[5], er dianxia. — A dureza em sua voa não dava espaço para qualquer reverência. — Acho que temos uma conversa pendente.
— Estava esperando vê-lo, Pian Feng.
Shi dirigiu até um café que havia nas proximidades do hospital. Ao chegar lá, pediu uma mesa privativa em uma das salas reservadas. Pian Feng não se mostrava muito amigável de modo que o príncipe buscava ser cauteloso em suas ações. Os dois foram servidos de chá e quando a atendente saiu fechando a porta da sala, o guerreiro do vento antecipou as palavras de Shi.
— Antes que comece a balbuciar pedidos de desculpa quero deixar claro, no que me compete, não tenho qualquer tipo de ressentimento de você, naquela situação me matar foi um favor. — Disse de modo duro e direto. — Contudo, isso não quer dizer que perdoo você pelo que fez àquela criança. Isso, dianxia, eu não relevo.
— Talvez você não acredite em mim, Pian Feng, mas o peso desse crime me atormenta a alma mesmo agora. Continuo tentando, mesmo sabendo que não há uma maneira de consertar o que fiz a ela, meu único propósito agora é protegê-la, fazê-la feliz, estou disposto a dar minha vida por isso. — Shi falou em tom firme e convicto sem deixar qualquer margem para dúvida.
— Não confio em você. — Disparou. — Nada me garante que você não está arquitetando planos para mais uma vez livrar Ka Suo da solidão eterna. Especialmente agora que Li Luo está naquele abismo do tempo.
— Entendo. — Ele anuiu, tranquilo. — A última coisa que poderia fazer é culpá-lo por agir dessa forma. Mereço isso. Só me resta tentar te mostrar que minhas palavras são verdadeiras. Não importa o quanto respeite e ame Ka Suo, não vou cometer os mesmos erros de antes, vou proteger Yan Da.
— Se ela não tivesse sentimentos por você, juro que te impediria de sequer olhar para ela! Mas é notável que o destino está a seu favor, o coração da minha adorável fadinha está fadado a pertencer a você. — A voz de Pian Feng era cortante ao ponto de Shi precisar se conter para não acabar se encolhendo. — Mas Ying Kong Shi, wo gaosu ni, se você fizer a minha fadinha derramar uma única lágrima que seja nem mesmo seu irmão vai poder te salvar de mim.
— Eu lhe dou minha palavra, Pian Feng, que se eu chegar a magoar Yan Da mesmo que minimamente, me oferecerei voluntariamente a ser morto por você. — O sorrido frio e determinado de Shi era o mesmo de quatro mil anos atrás.
— É uma honra que não vou recusar. — Asseverou o guerreiro. — Estarei vigiando você de perto.
— Oh, quanto a isso, se pretende mesmo me matar um dia seria bom que tivesse poder espiritual suficiente para isso. Uma questão que me foi incumbida a resolver. — Ele bebericou o chá e depositou a xícara novamente no pires. — Darei um pouco a mais para o caso de você desejar uma tortura prolongada.
— Não brinque com isso, Ying Kong Shi!
— Você me conhece a quatro mil anos, Pian Feng. — O olhar do príncipe era altivo e gélido quando se ergueu para o guerreiro. — Ainda não aprendeu que eu nunca brinco?
Pela sua expressão, Pian Feng pareceu concordar — e gostar — daquilo. Se Shi conseguiu passar a firmeza que precisava, sentiu-se satisfeito. Sem demora, bloqueou a porta da saleta e iniciou o processo de restauração do poder do núcleo, mais do que qualquer um queria que Pian Feng estivesse em plena forma já que ele era quem ficava mais próximo a Yan Da e em quem ela confiava cegamente. Quando Shi não estivesse por perto, queria se assegurar que ele poderia protegê-la, era mais uma de suas maneiras de cuidar dela e manter sua palavra.
Não era exatamente o que ele planejava com Pian Feng, mas estava grato pelo fato de terem chegado a um acordo. Nenhum deles podia prever o próximo passo de Lian Ji, mas Shi garantiria que Yan Da sairia ilesa daquela história e estava confiante que os dois enfim teriam seu merecido final feliz.
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