A chuva fina pinicava o rosto de Yan Da enquanto, ao seu redor, os sons de lamento ecoavam no silêncio da sua mente. Alguém estava falando alguma coisa elogiosa, mas ela não conseguia ouvir. Era como se não estivesse mais conectada com aquele mundo, havia sido expulsa da realidade e, para sua própria proteção, se isolara no universo da sua mente. A única coisa da qual ela estava consciente era da dor, aquela força avassaladora e pungente se espalhando gélida por cada veia do seu corpo.

Uma dor que ela ainda desconhecia.

Uma dor que podia matá-la se continuasse a crescer daquela maneira.

A mão de Huo Yi parecia pesar uma tonelada no seu ombro e, vez ou outra, ele apertava com força como se desejasse esmagar os ossos de Yan Da. Em um lampejo de consciência, ela arriscou olhar para cima apenas para ver que o pai não chorava, ao contrário, havia certa raiva queimando em seus olhos. Ao lado dele, Shuo Gang se mantinha impassível, seus outros irmãos enfileiravam-se atrás e apenas Hu Bing estava imerso em um pranto silencioso enquanto segurava um buquê de jacintos azuis nas mãos trêmulas.

Ela queria fugir. Correr o mais rápido possível para longe de todo aquele pesadelo. Em seu coração, Yan Da sentia medo embora ainda não soubesse de quê. Os olhos encheram de água, mas nenhuma lágrima caiu. O vestido preto molhado começava a lhe dar frio, mas ninguém parecia disposto a se mexer. As palavras deram lugar ao silêncio opressor e ela fitou a caixa de madeira, reluzente pela água da chuva, ser coberta por areia. Sua mão diminuta esticou-se na direção dela, mas os dedos do pai apertaram ainda mais seu ombro fazendo Yan Da reprimir um gemido de dor.

As gotas caindo do céu tornaram-se mais grossas e alguém abriu um guarda-chuva sobre Huo Yi, ele não se preocupou em puxar Yan Da para o abrigo deixando que ela ficasse encharcada com o pequeno jato caindo da lona preta. Hu Bing caminhou até a borda do buraco e atirou dentro um dos jacintos do buquê. Ele também estava completamente molhado e seus lábios tremiam, mas era como se não notasse. Olhando para Yan Da, ele se aproximou e segurou a mão dela puxando-a do aperto severo do pai. Em sua mente, a menina agradeceu.

O abraço do irmão mais velho era acolhedor, como se ele entendesse os conflitos que se acumulavam dentro dela. Além disso, Hu Bing dividia seu calor com ela. Ele havia tirado seu blazer — mesmo molhado — e colocado sobre os ombros nus de Yan Da, junto ao seu corpo, os braços do irmão ajudavam-na a sentir-se mais quente, ficar ao lado dele não era solitário, ela se sentiu amparada em um momento no qual estava perdida tentando racionalizar o que acontecia à sua volta. Shuo Gang virou o rosto em sua direção e esboçou um sorriso cruel, Yan Da se encolheu o que fez Hu Bing apertar mais o abraço de modo protetivo. Ela não tinha certeza se ele havia visto o olhar do outro ou se apenas achava que ela estava com frio, mas naquele momento não importava muito.

Quando acabou, as pessoas começaram a se dispersar, Huo Yi parou diante dela e de Hu Bing com um olhar duro. Seu irmão mais velho devolveu-o com uma raiva que Yan Da jamais vira explodir em seus olhos pacíficos, ele a puxou impossivelmente mais para perto de si, cobrindo-a com seu corpo como se desejasse escondê-la do pai. Um sorriso macabro torceu a face de Huo Yi e, seguido por Shuo Gang e os outros filhos, ele saiu do cemitério deixando-os sozinhos. Dois homens começavam a preparar o alicerce da cerâmica preta que receberia a lápide de Meng Xi Yu, tanto Hu Bing quanto Yan Da ficaram parados ali por longo tempo olhando o lugar onde o corpo da mãe desaparecera.

— Vamos, xiao wu.*

A palidez do céu mal deixou-os perceber que aquele dia triste findava. Enquanto voltavam para casa sob a chuva torrencial, Yan Da mantinha a mente na mão quente do irmão segurando a sua e não no corpo sem vida da mãe. Nos momentos dolorosos que antecederam sua morte e na languidez funesta do seu rosto quando a viu pela última vez no hospital. Tentou não pensar no olhar duro do pai ou no sorriso diabólico de Shuo Gang. Na apatia de Ya Xing e Xin Jue — que mais pareciam robôs que pessoas — tampouco naquele vazio opressor dentro do seu peito.

Mesmo sendo sete anos mais velho que ela, Hu Bing não era como seus outros irmãos, ele se importava de verdade com ela e, mesmo antes de Meng Xi Yu falecer, já a tratava como sua princesinha — algo que o pai, por algum tempo, também fez. Yan Da não se lembrava quando ele havia se tornado aquele homem frio —, ele não a levou direto para casa, ao invés disso pararam em uma loja de conveniência visto que a chuva parecia não dar sinais de abrandar. Hu Bing comprou um guarda-chuva e algo quente para a irmã comer enquanto a levava para casa. No meio do caminho, Yan Da se mostrou sonolenta, ele não hesitou em pegá-la no braço — mesmo ela já sendo uma criança de nove anos — e deixá-la dormir no seu ombro durante o resto do percurso.

Ah, como ela queria nunca mais sair daquele abraço seguro.

※ ※ ※

— Como você se atreve a mudar sua irmã de escola sem me consultar?!

— Eu fiz o que era melhor para Yan Da! Ela estava sendo intimidada na outra escola.

— Isso não te diz respeito, Hu Bing.

— Diz, porque ela é minha irmã, é meu dever protegê-la como você devia fazer enquanto pai! Não vou permitir que ela seja infeliz como a minha mãe foi!

Yan Da acordou com os gritos da discussão. Sua garganta estava em chamas e todo seu corpo era sacudido por tremores. Ela estava ainda um pouco desorientada e o som das vozes de Huo Yi e Hu Bing parecia uma sirene estridente e ensurdecedora em sua cabeça mesmo estando no corredor e não no seu quarto. Ela se encolheu abraçando o velho elefante de pelúcia, último presente da mãe no seu aniversário de sete anos, murmurou um chamado por ela, mas sua voz não saiu e as paredes da garganta protestaram ardendo ainda mais, um suor frio escorria pelo seu pescoço e suas costas, seu cabelo estava grudado no rosto e, do lado de fora, a discussão continuava.

— Cuidado com o que diz!

— Ou o quê? — Desafiou Hu Bing. — Vai destruir a minha vida como fez com a mamãe?

O som de algo quebrando foi a resposta da pergunta. Huo Yi ainda gritou alguma coisa que Yan Da não ouviu, sua cabeça era um peso doloroso e era mais difícil se manter acordada. Sua mente começou a oscilar entre a realidade e a inconsciência, não viu o momento em que Hu Bing entrou no quarto, sua mão era como um cubo de gelo sobre a pele dela e Yan Da tremulou diante do toque, o gemido exasperado do irmão quase a assustou.

— Xiao wu? — Chamou segurando a mão dela. — Xiao wu, está me ouvindo?

— Mamãe...

Foi a última coisa que Yan Da disse antes de ser tragada pelas sombras.

O gelo foi a primeira coisa que ela sentiu quando a consciência retornou devagar. Abrindo os olhos, Yan Da se viu com o rosto enterrado na neve, o frio se intensificou e todo o lado esquerdo da sua face estava dormente. Não se lembrava de como havia ido parar ali e foi com muita dificuldade que se colocou sentada. A paisagem bucólica ao seu redor era composta de várias árvores de diferentes tipos, belíssimas acácias japonesas com flores albinas, jacarandás ostentando sua floração lilás-azulada, impressionantes flamboyant com seus galhos espaçados e flores alaranjadas, bordos avermelhados e carvalhos frondosos, todos cheios de viço desafiando o cenário glacial.

O frio atava Yan da como uma corda, ela notou ainda usar a camisola com a qual fora dormir ao chegar do enterro da mãe. Abraçando o próprio corpo, ela se pôs de pé e começou a caminhar, os pés descalços afundando no gelo, os lábios tremiam, mas sabia que se ficasse parada acabaria congelando mais rápido. Após andar por longo tempo, a pequena menina encontrou alguém. Estava de costas, os cabelos branco-prateados caíam até o chão como um véu de noiva, sua mão bonita movia-se com graça acertando pequenos cristais de gelo nas flores de uma acácia, suas roupas eram tão brancas quanto a neve sob seus pés, detalhes prateados e azuis destacavam-se nos punhos e barras, ele pareceu se dar conta da presença dela, mas antes que a menina pudesse ver seu rosto, de súbito, ele desapareceu tal como o local à sua volta.

— Xiao wu? — A mão de Hu Bing acariciou seu rosto. — Graças aos deuses, você acordou.

A expressão do adolescente era de completo alívio, ele suspirou e sorriu inclinando-se para depositar um beijo na testa de Yan Da, conforme a febre cedia, seus olhos paravam de arder. Hu Bing sentou ao lado da irmã na cama e a abraçou prometendo que tudo ficaria bem.

Entender a perda da mãe foi um processo lento para a pequena menina de nove anos que começava a encarar a vida sob o viés da dor, abandonando os sonhos de inocência. Agora, ela era a única mulher no meio de homens em diferentes graus de caráter. Hu Bing, por ser mais próximo da mãe, era o mais compassivo com ela, seguido por Ya Xing, este cinco anos mais velho que ela, embora fosse um tanto apático, não a destratava realmente. O mesmo não podia ser dito de Shuo Gang e Xin Jue, talvez pela diferença de idade entre eles ser tão curta, apenas um ano, e o fato de serem tão próximos de Huo Yi, contribuísse para atribuir a ambos um caráter tão cruel.

O fato do pai instigar a competição entre eles tampouco era de muita ajuda. Isso parecia incitar para que usassem os métodos mais baixos um com o outro deturpando o próprio caráter ao nível mais ordinário. Entre os dois, contudo, Shuo Gang era o pior e, por esse motivo, o favorito de Huo Yi. Atormentar Yan Da — com a bênção do pai — era seu esporte favorito, ela nunca entendeu a razão pela qual o irmão lhe odiava daquela maneira. Apesar de odiar a escola, ela preferia as horas que passava lá dentro apenas por lhe permitirem ficar a salvo da crueldade de Shuo Gang.

A nova escola onde Hu Bing lhe matriculara era mais longe de casa, mas ela não se importava. O irmão ia lhe levar e buscar todos os dias e quando precisava ficar até mais tarde na escola incubia o motorista a levá-la em segurança para casa. Yan Da era uma excelente aluna, inteligente e curiosa, mas sempre retraída, como se tivesse medo de se aproximar das outras crianças da sua idade. No intervalo do almoço, ela comprava sua comida e se escondia no pátio dos fundos, havia uma mesa sob um kiri japonês cujas flores — que juntas conferiam um tom próximo ao lavanda — oferecia uma beleza singular ao lugar e à aparência melancólica da menina.

Geralmente, ela levava livros consigo para estudar enquanto comia e pelas primeiras semanas esse hábito permaneceu. As crianças preferiam o pátio frontal da escola onde havia espaços variados para brincadeiras. Ali, Yan Da estava sozinha ou, raramente, com alunos do último ano preocupados demais com suas provas e trabalhos bimestrais para prestar atenção nela. Mas havia um aluno que nunca deixava de perceber sua solidão, na verdade, desde que ela havia sido transferida para a escola ele prestava atenção em tudo sobre ela.

Certo dia, Yan Da cumpriu seu hábito de comprar o almoço e ir para seu refúgio — como ela passara a chamar o lugar — com um livro de matemática debaixo do braço. Contudo, mal havia se sentado à mesa quando alguém ocupou o banco de frente para ela colocando um prato de comida ao lado de um livro de matemática da série posterior a dela. Erguendo o olhar, confusa, ela encarou o garoto que lhe ofereceu um sorriso carismático.

— Posso me sentar aqui, não é? — Perguntou ele. — Sei que não está esperando ninguém, eu vejo você aqui todo dia. Meng Yan Da, certo? Você estuda com a Liu Fei, minha amiga. Eu sou Peng Yan.

Ela não respondeu. Seus olhos confusos continuavam olhando o garoto e tentando entender o que ele estava fazendo ali. Em todas aquelas semanas, ninguém se aproximara dela, chegou mesmo a acreditar que era invisível quando estava sob aquele kiri japonês. Peng Yan parecia um pouco com seu irmão Hu Bing, muito sociável e simpático, embora nas últimas semanas ele só sorrisse perto dela. Desde a morte da mãe, seu da ge havia se tornado uma pessoa sorumbática e até mesmo agressiva no que dizia respeito ao pai, os únicos momentos em que ela conseguia ver o jovem cheio de vida que comprava flores para a mãe todos os dias na volta da escola era quando eles estavam juntos. Parecia que, desde a morte de Meng Xi Yu, Hu Bing havia tomado para si a responsabilidade de cuidar de Yan Da uma vez que estava claro que ninguém mais o faria.

Entretanto, aquele estranho na sua frente não era seu irmão mais velho. Yan Da baixou a cabeça para seu prato e começou a comer em silêncio, tinha a impressão de já ter visto o garoto em algum lugar, mas não conseguia lembrar onde. Ainda assim, ter amigos não era uma boa ideia, Shuo Gang destruía tudo que ela tocava, se era importante para ela, ele faria de tudo para tirar, como dias atrás quando ele quase lhe tirara a última lembrança que ela tinha da mãe.

— Me devolve, Shuo Gang, é meu! — Exigiu forçando a voz a soar dura e não vacilar.

— Ou vai fazer o quê sua pirralha imprestável? — Cuspiu segurando o elefantinho acima da cabeça. — Você é igualzinha a ela, inútil, chorona e fraca! Foi por sua causa que ela morreu.

— Não é verdade! — Contrapôs Yan Da lutando contra as lágrimas.

— É claro que é, você deixou ela doente, ela era fraca como você e o mesmo vai te acontecer em breve.

O elefantinho sumiu da mão de Shuo Gang nesse momento e, quando ele olhou para trás, o rosto vermelho de fúria de Hu Bing o encarava. Ele caminhou até Yan Da e devolveu o bichinho para ela colocando-a atrás dele.

— Você não é apenas covarde, mas baixo também, não é, Shuo Gang? — Acusou. — Acha que é engraçado intimidar alguém mais fraco que você, ainda mais sua própria irmã? Ah, claro, você não tem qualquer espécie de caráter, como vai sentir remorso, não é? Estou perdendo meu tempo aqui.

— Isso não é da sua conta, seu marionete da mamãe.

— Yan Da é da minha conta sim, e se eu vir você incomodando ela de novo vou te lembrar a sensação de perder dentes. — Ameaçou. — Xiao wu, zou ba.*

— Ei, tudo bem?

Yan Da ergueu a cabeça na direção de Peng Yan, havia uma expressão estranha em seu rosto, como se ele estivesse preocupado, ela não se dera conta de ter se perdido nos próprios pensamentos e ficado estática por alguns minutos. Largando a comida, ela pegou o livro de matemática e apenas saiu correndo.

※ ※ ※

Se houve uma coisa que Yan Da aprendeu sobre Peng Yan foi o fato de ele ser resiliente e muito, muito persistente. Não importava se ela não falasse nada e fingisse que ele não estava ali, ele permanecia e agia normalmente, como se os dois fossem amigos de longa data. Muitas vezes ela tinha vontade de perguntar o que ele realmente queria, mas falar com ele parecia ser dar o braço a torcer. Quando ela chegava ao seu local costumeiro de almoço, ele já estava à sua espera — e mesmo quando ela tentou mudar de local, ele descobriu e voltou a fazer companhia forçada.

Peng Yan se tornou quase sua sombra, ela suspeitava que, se ele pudesse, se mudaria para a sala dela apenas para ter mais tempo de irritá-la — coisa que ele parecia gostar muito —, mas não era de uma forma cruel como Shuo Gang, ele demonstrava se importar mesmo com ela e se preocupar com seu comportamento recluso.

— Por que você quer ser meu amigo? — Indagou ela, certa vez, confrontando-o.

— E por que você não quer que eu seja? — Sorriu.

— Eu não preciso de amigos.

— Todo mundo precisa de amigos. — Contrapôs ele. — Tudo bem se não quiser falar comigo, acho você legal como é e estou disposto a ser seu amigo.

Ela voltou sua atenção para o livro de cálculo não sabendo como responder aquilo. Na verdade, muitas das coisas que Peng Yan dizia eram difíceis de rebater. Para um garoto de dez anos ele era muito desenvolvido.

— Sinto muito pela sua mãe. — Continuou. — Devia ter dito isso bem antes, mas você parecia tão triste no cemitério que fiquei com medo de piorar as coisas.

— Você estava lá?

— Claro que estava. — Ele suspirou. — Meng fūrén* era amiga do meu pai. Não sabia que somos vizinhos?

Ele franziu o cenho quando ela não respondeu.

— Não me espanta nunca ter te visto brincando na frente de casa... antes pensava que você só não gostava de jardins, mas parece que é pior, não é?

Yan Da tomou um gole de chá e Shi respirou profundamente. Ainda não sabia como encarar tudo que ela estava contando, mas sentia que o desfecho seria pesado demais para ele mesmo já sabendo o final de Peng Yan. O modo saudoso com que ela falava sobre ele e a forma como seus olhos brilhavam lhe causavam certo incômodo e ele não podia deixar de se sentir mais idiota por beber vinagre de alguém já morto. Do mesmo modo, se via completamente chocado pela forma como ela era tratada pelo pai, mesmo não concordando com as atitudes dos seus, Shi sabia que era amado por eles e tinha seu apoio quando precisasse, lhe era impossível imaginar a vida que Yan Da havia levado até então.

— Quando penso nisso hoje — disse ela com a voz embargada — me arrependo muito de não ter me tornado amiga dele logo de início, isso me teria permitido aproveitar mais o tempo ao lado dele... ou talvez, se eu soubesse o que viria a seguir, teria dito a Hu Bing ge que queria mudar de escola.

— Depois de tudo pelo que você havia passado, não era errado sentir medo, Yan Da. Você tinha razão em não confiar nas pessoas, aqueles que mereciam sua confiança e deveriam te proteger viraram as costas, seu irmão, apesar de tudo, ainda era uma criança para cuidar de outra criança...

— Não culpo o Hu Bing por nada, ele suportou muita coisa por muito tempo para me manter segura, mas queria que ele tivesse me levado embora com ele ou pelo menos permanecido aqui. — Comentou tomando outro gole de chá. — Se ele tivesse ficado, Peng Peng talvez não tivesse partido.

Yan Da, é claro, não respondeu a pergunta. Contar aquilo para Peng Yan seria admiti-lo como seu amigo e ela não se sentia pronta para fazer isso. Ainda que não o julgasse com o mesmo peso com o qual fazia com seu pai e os outros três irmãos, mas mais como pesava Hu Bing — ainda que ela entendesse muito pouco sobre o julgar em si — ele ainda fazia parte da mesma classe humana que os remanescentes do que ela conhecia por família: homens.

Ela não conseguia contar a ele que, ao chegar em casa, se Hu Bing não estivesse presente, ela se trancava no quarto e só abria para Peipei, sua empregada, ou Ziwen, o motorista. Ficar no quarto significava estar segura de Shuo Gang, e ela tinha lá dentro tudo que precisava além do mais, sabendo que não podia estar sempre por perto, Hu Bing havia providenciado algumas melhorias dentro do cômodo para que ela se sentisse ainda mais confortável. A mãe de Yan Da tinha uma fortuna particular que não fora dividida entre os filhos por igual — para surpresa de toda a família —, mas ficara metade para Hu Bing e a outra metade sob a tutela dele para que Yan Da tomasse posse ao ser maior de idade. Hu Bing tinha acesso ao dinheiro através de um advogado que Xi Yu designara para ele meses antes de falecer e que gozava de sua confiança.

Yan Da não sabia que Huo Yi havia tentado várias vezes comprar o advogado e falhara, mas Hu Bing tinha conhecimento disso e era não somente grato, mas depositava em Luo Bai toda a confiança que não direcionava ao pai.

Peng Yan, vendo ela novamente imersa em pensamentos, deu a volta na mesa e sentou ao lado dela, apoiando a cabeça na mão e ficando bem próximo ao seu rosto o que fez Yan Da tomar um susto quando voltou a realidade. Ela quase caiu do banco, mas ele a segurou pela cintura puxando-a de volta para o banco e dando uma risadinha para descontrair.

— Sabe, você pensa demais para uma pessoa da nossa idade. — Apontou o garotinho. — Em parte, imagino como você se sente, minha mãe foi embora de casa quando eu tinha quatro anos... por sorte, meu pai me amava o suficiente para não me largar nas mãos de qualquer um e ir embora também.

Yan Da não podia dizer o mesmo.

— Ei, eu não sei o que tá havendo com você, mas não precisa passar por isso sozinha. É aí que entram os amigos. — Ele sorriu. — Me deixe passar por isso com você, hao bu hao?

Amigos. Há quanto tempo Yan Da não se permitia aquele luxo? Na pré-escola ela tinha um amiguinho chamado Feng, eles dividiam a mesma mesa e a professora estimulava muito o trabalho em equipe e a coletividade, mas nessa época sua mãe ainda era viva e Shuo Gang não tinha nas mãos o poder de estragar muitas coisas na sua vida. Contudo, quando passara para o primeiro fundamental, os amigos que conseguia estavam interessados na sua posição social — e por isso eram facilmente manipulados por Shuo Gang a abandoná-la ou maltratá-la — ou, sem qualquer motivo, acabavam traindo-a. Yan Da começou a ser intimidada pelas outras crianças e não sabia até que ponto o irmão estava envolvido naquilo já que estudava em uma escola multiseriada.

Fora por essa razão que Hu Bing a matriculara em uma escola particular só do fundamental, longe de Shuo Gang e Xin Jue. Ya Xing era irrelevante, a única pessoa com quem ele dispendia alguma energia era consigo mesmo. Ela queria acreditar que podia ter um amigo, mas as vozes na sua mente lhe alertavam não ser uma boa ideia. Assim, ela apenas meneou a cabeça sem dar qualquer resposta concreta para Peng Yan. O menino, muito a frente da sua idade por sua experiência de vida, apenas sorriu disposto a não desistir. Havia, para ele, uma beleza especial em ser o amigo que uma pessoa mais precisava quando ela mesma não se dava conta disso.

Desde que a sua mãe fora embora, seu pai, Peng Jicheng, tomou para si a responsabilidade de fazer do filho um homem melhor do que ele era. Ensinou Peng Yan o valor e a importância da amizade, a forma correta de tratar as mulheres e a nunca dar as costas para as coisas certas mesmo quando todos o faziam. O garotinho aprendeu desde muito jovem o amargor da vida, o pai era um assalariado de escritório que passava boa parte do dia trabalhando e não tinha muito tempo útil com ele, mas cada momento que podia dedicar ao filho era feito com todo seu coração, por isso Peng Yan se esforçava em estudar e manter um futuro brilhante em mente a fim de retribuir toda a dedicação de Jicheng.

Aos dez anos, ele tinha uma mente muito distante da inocência despreocupada da infância, mas seu coração era um guerreiro pronto para fazer o bem a quem precisasse dele. Sua natureza extrovertida e carismática conquistava amigos por onde quer que passasse, por essa razão ele tinha um interesse tão singular em ser amigo de Yan Da, além de ser uma pessoa que não lhe dava qualquer bola, ele podia ver no semblante melancólico dela que aquela menina precisava com urgência de alguém.

Ele sabia porque um dia também fora assim.

Da mesma maneira que desejara uma vez que ninguém desistisse dele, também não desistiria de Yan Da.

Aquele foi um dos anos mais difíceis para Yan Da, no auge da perda da mãe, a inflexibilidade e insensibilidade do pai, as constantes brigas de Hu Bing com a família, a rebeldia sem limites de Shuo Gang, que se tornava mais perigoso e agressivo cada dia que passava, o clima pesado e escuro no qual sua casa havia mergulhado era sufocante e, cada vez mais, ela desejava ficar mais tempo na escola. Mesmo não admitindo para ninguém — incluindo a si mesma — ela se sentia bem na companhia de Peng Yan. De algum modo, ele conseguia tirá-la da sua realidade e transportá-la para um mundo onde as coisas davam certo.

Como sempre, Hu Bing a deixou em frente ao colégio, naquele dia ele estava de bom humor, não havia encontrado com Huo Yi que saíra mais cedo para a empresa e Shuo Gang e Xin Jue acordaram mais tarde, o que deu tempo para ele arrumar Yan Da com a ajuda de Peipei, tomar um café tranquilo com a caçula e deixar a casa, imerso em paz. Ela queria que todos os dias pudessem ser daquela maneira. Ele soltou o cinto dela e acariciou sua bochecha.

— Tenha um bom dia, xiao wu. — Sorriu. — Lembre-se de me ligar se acontecer qualquer coisa, está bem? Devo sair mais tarde da escola hoje, temos um projeto para fazer, mas pedirei que Ziwen venha te buscar, hao ba?

Hao. — Anuiu. — Até mais tarde, da ge, esperarei você para jantar.

— Não vou me atrasar, prometo.

Ele depositou um beijo na cabeça de Yan Da e ela saiu do carro, ficando na calçada em frente a escola enquanto o carro do irmão — que havia conseguido uma licença especial para dirigir visto que só seria apto a tirar carteira dentro de um ano — desaparecia no fim da rua em meio aos outros carros. Como ainda era um pouco cedo, havia poucos alunos chegando, a maioria do último ano, incubidos de projetos finais e planejamentos para viagens que ocorreriam no fim do semestre.

A pequena Yan Da estava prestes a entrar no prédio e ir para seu local de almoço enquanto não dava o horário da aula quando alguém segurou seus cabelos com força puxando-a para trás. Ela se desequilibrou e caiu no chão, o cotovelo do braço esquerdo bateu contra o chão de concreto e uma dor intensa se espalhou por todo o membro. Olhando para cima, irritada, ela viu um grupo de três meninos e duas meninas um pouco mais velhos que ela, não deveriam ser de uma série além do sexto ano. Ela não conhecia nenhum deles, tampouco se lembrava de tê-los visto antes, mas como dizem, o fato de não vermos os monstros não quer dizer que eles não possam nos ver.

— Se não é a órfã rejeitada. — Uma das meninas abaixou diante dela segurando com força o queixo de Yan Da.

— O que vocês querem? — Ela perguntou puxando o rosto com brusquidão do aperto da menina.

— Não damos a mínima se você quer ser uma pária na escola, mas não arraste o Peng Yan pro fundo do poço com você, sua esquisita. — A outra menina falou.

Yan Da se pôs de pé, frustrada que seu dia bom havia seguido aquele caminho escuro. Seria possível um dia ela ter vinte e quatro horas de paz? Trincou os dentes para suportar a dor latejante no seu braço, não choraria na frente deles por nada no mundo.

— Eu não tenho nada a ver com Peng Yan, se ele está indo para o fundo do poço é escolha dele, não minha. — Devolveu friamente.

A primeira menina a empurrou.

— Então por que ele não quer mais brincar com a gente pra ficar com você, aberração?

— Se ser uma aberração é ser diferente de você, fico feliz com o elogio. — Retrucou Yan Da.

Um dos meninos tomou a frente, mas antes que pudesse alcançá-la uma mão segurou seu braço e puxou-o com violência para trás, ele se desequilibrou e caiu no chão. Yan Da precisou de muito autocontrole para não ficar boquiaberta quando Peng Yan apareceu diante dela e se colocou na sua frente da mesma forma que Hu Bing fazia quando Shuo Gang a intimidava.

— Sua mãe nunca te ensinou que é errado bater em meninas? — Perguntou ao garoto. — E vocês, se querem machucar a Yan Da vão ter que me machucar primeiro.

— Por que você quer ser amigo dessa esquisita e deixou a gente de lado? — Quis saber a primeira garota.

— Eu posso ser amigo de quem quiser. — Respondeu. — E se vocês são o tipo que intimida pessoas mais fracas então não quero ser amigo de vocês.

Se seu braço não estivesse doendo tanto quase o ponto de fazê-la chorar, o queixo de Yan Da teria caído com as palavras de Peng Yan. Qualquer pessoa teria. Se tivesse oportunidade, ela parabenizaria o pai dele um dia. Um dos meninos ainda se atreveu a tentar bater em Peng Yan, mas tudo que conseguiu foi uma entorse no pulso quando, cheio de habilidade, Peng Yan bloqueou o possível soco e ainda zombou do garoto dizendo que ele estava jogando muito videogame.

— Se voltar a ver vocês intimidando a Yan Da vou dizer à professora para falar com seus pais! — Ameaçou.

A segunda menina ainda olhou feio para Yan Da antes de ir embora com os outros, o garoto que teve o pulso torcido chorava quase aos gritos amparado pelos outros, Peng Yan não parecia preocupado com eles ou com o perigo de distorcerem a história e contar para algum professor que foram agredidos por ele. Mas parecia realmente preocupado com Yan Da quando se virou para escrutiná-la.

— Você está bem?

Ela assentiu, mesmo sendo mentira. Peng Yan ergueu uma sobrancelha como se não acreditasse e começou a rodeá-la, foi quando viu a mancha de sangue empapando a blusa dela no cotovelo.

Isso é estar bem? — Sua voz soou enérgica. — Vamos, temos que desinfetar isso.

Yan Da pensou em protestar, mas sentia tanta dor que deixou que ele pegasse sua mochila e segurasse sua mão puxando-a na direção da enfermaria. Ela segurou firmemente suas lágrimas mesmo que sentisse o braço inteiro queimar, Peng Yan a colocou sentada no catre, a enfermeira não havia chegado, mas a aula não demoraria muito para começar. Ele olhou para Yan Da como se a avaliasse, depois, pegando uma toalha de rosto num armário ao lado da mesa da enfermeira, colocou sobre a cabeça dela de modo que seu rosto ficasse coberto, então a abraçou.

— Tudo bem agora, se quer chorar apenas chore, não precisa segurar. — Disse baixinho. — Você fez muito bem, é tão corajosa quanto achei que era.

Ela não sabia bem o motivo, mas ouvir aquelas palavras apenas trouxe toda a sua dor garganta a fora, ela chorou copiosamente a dor da perda da mãe, a indiferença do pai, os maus tratos de Shuo Gang e Xin Jue, as mudanças de Hu Bing, as intimidações na outra escola, os amigos que a abandonaram, tudo veio à tona como um tsunami explodindo no seu peito, Peng Yan apertou os braços em volta dela e acariciava suas costas murmurando palavras de conforto, Yan Da não se lembrava de alguma vez, em seus nove anos de vida, ter chorado daquela maneira e de um todo a dor veio para fora com as lágrimas aparadas naquela toalha de rosto.

Peng Yan acolheu as lágrimas dela como se fossem suas. Não a julgou ou diminuiu por chorar, apenas a entendeu. Ofereceu sua compreensão sincera. Quando a enfermeira entrou na sala e viu a cena compadeceu-se acreditando que a menina chorava por causa do ferimento no braço, não era um corte muito sério e, em seu peito, uma dor muito maior se alastrava de modo que ela mal sentiu enquanto a mulher desinfetava o ferimento e envolvia o cotovelo dela com um curativo e uma faixa de gase. Por ela estar muito nervosa, a mulher perguntou se Yan Da queria telefonar para alguém e ir para casa, mas a menina negou, então ela deu uma dispensa do primeiro horário para Peng Yan e pediu que ele a entregasse para as professoras de ambos para que a menina pudesse se recompor até poder ir para aula.

Ele a levou para o local costumeiro de almoço, sob o kiri japonês. Sentaram-se em silêncio por longo tempo e o menino deu a Yan Da o tempo necessário para que ela se sentisse a vontade o bastante para falar, caso quisesse. Aos poucos, Yan Da parou de chorar e voltou a respirar normalmente, ele lhe ofereceu lenços para que ela secasse o rosto e assoasse o nariz.

— Obrigada. — Falou baixinho.

— Eu não fiz muito além de ficar ao seu lado. — Ele sorriu. — Você é bem durona para uma menina, estava guardando tudo isso em você.

— Não sei quem te falou que meninas são frágeis, não acredite nisso. — Aconselhou

— É claro que não. — Concordou. — Existem as meninas como você, verdadeiras guerreiras forjadas na coragem.

— Agora está puxando meu saco? — Ela ergueu a sobrancelha. — Não tem medo que sendo meu amigo as outras crianças não queiram mais falar com você como aquele grupinho?

— Nem todo mundo pensa daquele jeito, Yan Da. — Ele segurou a mão dela. — Tenho muitos amigos que adorariam ser seus amigos também se você deixasse.

Ela não respondeu, mas ele viu a apreensão em seu rosto.

— Quando eu fiz oito anos meu pai me deu um livro de presente, era um livro que ele havia ganhado do meu avô quando fez oito anos também, passei a noite inteira lendo e tinha uma parte que gostei muito, dizia assim "para ver as cores tão verdadeiras como elas são, é necessário possuir uma visão mais clara."* Fazia quatro anos que minha mãe tinha me abandonado e as crianças da rua me esnobavam por isso, mas conhecer a história desse personagem me fez sentir melhor, me fez ter um amigo. E eu entendi o que meu pai sempre dizia sobre a importância de ter um amigo para nos ajudar a caminhar.

Naquele dia, Yan Da aceitou Peng Yan como seu amigo.

Ying Kong Shi estava absorto na narrativa de Yan Da. Ele pensou que, se ela se dedicasse, poderia ser uma excelente autora de histórias. Seu relato era preciso, tinha emoções na dose certa e, mesmo quando seus sentimentos extravasavam enquanto rememorava aqueles momentos, ela se mantinha coesa e clara. O coração do príncipe do gelo estava cheio de uma mistura de ciúmes, revolta e frustração. Ver Yan Da com a alma despida na sua frente daquela maneira era mais forte do que ele imaginava que seria. Tudo que ele mais desejava era poder arrancar dela todas aquelas cicatrizes e trazer para seu próprio coração.

Mas também estava ali o amargor do vinagre. Quanto mais ele ouvia sobre Peng Yan, mais sentia seu sangue ferver ainda que fosse muito ridículo estar com ciúmes de uma pessoa morta e, ainda mais, uma criança de dez anos! No que ele se transformara? Talvez Nietzche tivesse razão quando disse que "Há sempre alguma loucura no amor. Mas também há sempre alguma razão na loucura." Ele freou o pensamento tão logo lhe ocorreu. "Como assim amor?" Pensou. Estava se deixando levar pelo tornado de emoções que a história dela lhe trazia.

A porta do apartamento apitou anunciando que alguém colocara a senha correta na trava eletrônica e, alguns segundos depois, Ka Suo apareceu na sala de estar. Ele demonstrou certa surpresa ao ver a cena do irmão sentado ao lado de Yan Da com um bolo de chocolate intocado diante de ambos e um bule de chá pela metade. Reprimiu o sorrisinho que queria abrir espaço em seus lábios e cumprimentou a convidada com cordialidade.

— Meng xiaojie, muito prazer em vê-la se recuperando bem.

— Zhang xiansheng. — Ela anuiu.

— Ge, chegou cedo. — Shi sorriu. — Já comeu?

— Sim, não se preocupe comigo, tenho algumas coisas para resolver e ficarei preso no escritório por um bom tempo. — Salientou as últimas palavras em um tom provocativo.

Shi lhe lançou um olhar de advertência e Ka Suo se apressou a ir para o escritório do irmão colocando a mão sobre a boca para conter a risada prestes a explodir.

— Acho melhor eu ir. — Disse Yan Da.

— Não, por favor, descanse mais um pouco. — Pediu ele. — Tenho certeza que Pian Feng vai avisar quando o jantar estiver pronto. Meu irmão realmente não vai ouvir nada, não se preocupe, quando ele entra no escritório a realidade fica do outro lado da porta.

Ela se lembrou que não havia checado se havia mensagens novas no celular. Quando a tela acendeu, não havia nada. Pian Feng era sempre muito meticuloso na cozinha, especialmente quando sabia que teria convidados para provar sua comida, não havia espaço para erros. Yan Da voltou a se acomodar no sofá e Shi ajeitou mais travesseiros, colocou mais chá na xícara de Yan Da, decidiram levar o bolo para casa dela quando fossem jantar. Acomodando-se na cadeira, esperou que ela continuasse sua história sem apressá-la para isso.

Por um lado, Shi entendia como Scott Fitzgerald se sentia quando escreveu "Puxe sua cadeira para perto da borda de um precipício e eu lhe contarei uma história." Traduzia bem suas próprias emoções enquanto ouvia Yan Da, se ela tivesse lhe dito aquelas palavras antes de começar a lhe contar sobre Peng Yan não teria encontrado citação mais pertinente. Ele via que aquilo era difícil para ela e exigia muito de si lhe contar tudo, lembrar era doloroso, ainda mais em um dia tão significativo quanto aquele, o que só aumentava seu respeito ao ouvir com a máxima atenção e guardar cada palavra dita no coração.

Conhecer aquela parcela da vida de Yan Da o estava ajudando a entendê-la melhor, compreender suas ações e escolhas, mesmo em tão pouco tempo — e incapaz de explicar aquela força que o puxava na direção dela — Shi não podia controlar o desejo incontrolável de saber tudo sobre ela, todas as faces escondidas no seu coração, entretanto, o mundo descolorido de Yan Da o estava atingindo de uma maneira que ele não era capaz de colocar em palavras, aliado ao vinagre que ele bebia por causa de Peng Yan, era preciso todo o seu autocontrole para não puxar Yan Da para seus braços sob a promessa de nunca mais permitir que ela saísse um centímetro para longe dele ou que derramasse mais uma lágrima que não fosse de felicidade.

De sua parte, Yan Da sentia certo alívio — intrisecamente ligado ao receio — de poder tirar tudo aquilo do seu coração. Nem mesmo Pian Feng sabia da história com tantos detalhes como ela estava contando a Shi, mesmo os avisos na sua mente soando sinais de alerta ela respirou fundo se preparando para continuar sua narrativa. As coisas eram diferentes agora, ela não permitiria que nada acontecesse com Shi, não importava as consequências daquilo para si mesma. Com sorte, se repetisse aquilo varias vezes na sua mente, acreditaria que era verdade e que, no fim da história, Shi ainda escolheria ficar.

Tal como Peng Peng...

— Mesmo estado uma série à minha frente — continuou ela após uma pausa —Peng Peng me acompanhou durante todos os anos da escola...

Notas:

*Xiǎo wǔ [小五] — ao pé da letra seria "pequena 5". Na China é comum especialmente dentro da família, classificar as pessoas por número do mais velho para o mais novo. No caso, a Yan Da chamaria o Hu Bing de Yi Ge [一哥] que seria primeiro imrão mais velho ao pé da letra ou, como é mais comum, Da Ge [大哥] que traduzindo seria grande irmão. O mesmo é comum também com tios, "segundo tio", "terceiro tio" e assim por diante.

* Zou ba [走吧] — Vamos

*Fūrén [夫人] — Senhora

*Citação de Oliver Twist — Charles Dickens