Love as Sakura | 爱如樱

19 第17章 Verdades não ditas


Quando Chao Ya acordou, Pian Feng estava debruçado sobre a cama, provavelmente havia ficado vigiando seu sono sem descanso a noite inteira. A cantora já se sentia uma pouco melhor, ainda que seu corpo não cooperasse muito, suas energias estavam revigoradas. Não havia mais qualquer sinal de Ka Suo ou Huang Tuo e ela se perguntou em que momento dormiu.

Seus movimentos acordaram Pian Feng. Ele esfregou os olhos, sonolento, e se deu conta que já era de manhã. Antes, ele e Chao Ya estavam em posições diferentes, ela era uma princesa, futura rainha do trono da música xamânica, ele não passava de um guerreiro ainda que fosse o último da sua tribo. Contudo, essas divergências de hierarquia haviam terminado, agora eles estavam no mesmo nível, ambos eram soldados na guerra de Ka Suo tentando se manter vivos.

— Como se sente? — Ele quis saber alongando os músculos doloridos pela má posição.

— Estou bem, pare de agir como se eu fosse quebrar a qualquer momento. — Resmungou enquanto ajeitava os cabelos dele.

— Bom, você está bem mais quebrável agora, se quer saber. — Provocou. — Vou preparar algo para você.

Ele levantou e estava prestes a sair quando a voz dela o parou.

— Encontrei com Liao Jian.

Pian Feng fechou os olhos tentando não fechar as mãos em punho para não denunciar a dor em seu coração. Em algum lugar dentro de si ele nutria um fio de esperança que, com todas as mudanças naquela vida, as coisas pudessem ser diferentes, mas Chao Ya sempre o veria como um amigo. O sentimento que fizera nascer no coração dela morrera quando ele alçou voo para longe ao dar ouvidos às crueldades da mãe dela. Engolindo o nó em sua garganta, ele se esforçou para que sua voz soasse firme.

— Que bom, espero que tenham se resolvido.

— Nós não...

— Por favor, Chao Ya, eu não quero ouvir. — Deu alguns passos até a porta. — Fiz um esforço muito grande para deixar todos os meus erros enterrados no passado, mas ainda sou assombrado pelas consequências das minhas escolhas toda vez que olho pra você. Tem ideia do quanto isso machuca?

— Eu não o escolhi. — Ela levantou e virou-o para encará-la. — Pian Feng, tudo ainda está tão confuso agora, mas não existem mais barreiras.

— Não faça isso. — Ele se afastou. — Não me dê esperanças para que eu fique me torturando ainda mais todos os dias. Quando isso tudo acabar, se conseguirmos sobreviver, você sabe para que lado vai. Não serei eu a ficar no seu caminho. Vamos apenas continuar como estamos, sem cobranças e sem pressão.

— Está dizendo que não sente mais nada por mim?! — Bradou. — Que não importa o fim você nem ao menos vai me dar uma chance de escolher? Para que então...

Ele a calou com um beijo. No passado, Pian Feng nunca pôde se atrever a tal gesto, mas ali não havia obstáculos, hierarquia, nem uma família para se interpor entre eles. Naquele agora ele podia amá-la mesmo sabendo que não devia. Chao Ya, mesmo surpresa, retribuiu o gesto de carinho enlaçando o pescoço dele com seus braços, os dedos afundando nos cabelos dele. Alguns minutos depois, Pian Feng se afastou, sem ar.

— Não me provoque. — Advertiu-a.

E soltando as mãos dela saiu sentindo todo seu corpo em chamas. Fechando a porta atrás de si ele respirou fundo, surpreso com a ousadia de seu ato e, sobretudo, com a retribuição dela. Chao Ya caiu sentada na cama, os dedos tocando os lábios no que seria seu primeiro beijo em quatro mil anos, o coração estava disparado e o rosto quente, sem saber se a felicidade que sentia era real ou também uma causa de sentimentos adormecidos com a morte e com o tempo.

※ ※ ※

Huang Tuo foi acordado pelo despertador às oito e quinze, mas desligou-o e voltou a aconchegar-se na cama. Ainda sonolento, ele abriu novamente os olhos para se certificar que era mesmo Yue Shen que estava aninhada em seus braços, toda a noite anterior parecia um sonho, mas vê-la ali, como uma flor selvagem e deslumbrante abraçando seu tronco despido, era algo que mesmo desperto lhe custava acreditar. Cuidadosamente, ele passou os dedos pelo rosto dela, com medo que fosse uma alucinação e, sobretudo, temendo a reação dela quando acordasse.

Conhecia o gênio de Yue Shen, ela era quase invulnerável, apesar de ele saber que aquilo era uma camada protetora. Aparecer na casa dele no meio da madrugada sensível daquela maneira certamente a faria acordar como um animal ferido, atacando toda a possível ameaça que o cercasse. Por isso, ele queria aproveitar cada pequeno momento doce do seu semblante adormecido e pacífico. A voz dela dizendo que o amava na noite anterior ainda soava como uma canção que se repetia indefinidamente na sua cabeça, ele mal pudera acreditar no que ouvira e, ainda agora, queria poder ouvir outra vez.

Valera a pena todos os anos de espera por aquele momento sublime. Se precisasse dar a vida por ela de novo não hesitaria, porque Yue Shen era o seu mundo. Tornara-se seu mundo desde o primeiro minuto em que a vira. Havia sido um longo caminho até ali, o futuro era cheio de incertezas, mas ele desejava esquecer por um momento o mundo que estava por um fio e se concentrar naquele que dormia ternamente em seus braços. Envolveu-a puxando-a mais para junto de si, o calor de seus corpos se fundindo, depositou um beijo carinhoso na cabeça dela sorvendo o cheiro de lavanda e frutas vermelhas. Um sorriso de plena felicidade se formou nos lábios de Huang Tuo, nem mesmo a aura assassina dela quando acordasse seria capaz de destruir o júbilo que ele sentia.

Yue Shen se mexeu apertando-o mais, piscando os olhos incomodados com a claridade, ela tentou focar a visão e contemplou primeiro o peito largo do médico, depois seu rosto sereno. Ele não disse nada, embora ela imaginasse que havia qualquer provocação pronta para ser solta, era da natureza de Huang Tuo, antes ele era um tolo lento que mal conseguia entender uma indireta, agora, entretanto, seu amadurecimento — mesmo parcial — mostrava uma evolução que ela gostava. Uma parte de Yue Shen se sentia constrangida, deixou-se ver vulnerável, demonstrou todas as suas fraquezas diante dele e expôs suas inseguranças, contudo ele não a diminuiu, mas abraçou sua dor como se fosse dele e contornou cada pequeno obstáculo que ela interpôs entre eles.

Na noite anterior, Huang Tuo não foi apenas apaixonado e intenso, mas atencioso, cuidadoso e consciente de cada mínimo pedido ou gesto que ela fazia. Ele conseguia compreender as palavras que ela não dizia e por si só isso já era algo pelo qual Yue Shen poderia amá-lo ainda mais. Afastou para o lado a timidez pela sua nudez, surpreendendo-se em como se sentia confortável ao lado dele, em como aquele simples fato parecia tão certo. Sentiu-se uma tola por tê-lo feito esperar tanto tempo. Havia certa apreensão no rosto do médico, como se esperasse uma reação diferente da parte dela, não podia culpa-lo, demonstrara sua impassividade tantas vezes que era de se esperar que ele julgasse sua reação como violenta. Reprimindo uma risada, Yue Shen acariciou o rosto dele e inclinou o corpo para beijá-lo.

Huang Tuo quase não podia acreditar. Sem gritos, sem acusações, sem espadas na garganta, sem olhar impassível. Ao invés disso, um beijo. Ele começava a se perguntar se aquela era mesmo Yue Shen.

— Eh... você... — Hesitou temendo irritá-la.

— Me lembro de cada pequeno detalhe. — Completou, adivinhando a pergunta. — Não estava bêbada. Tenho alta tolerância a álcool, a propósito.

— Então...

— Ainda estou irritada com você. — Sua expressão ficou séria. — Não vou te perdoar facilmente pelo que fez quando morreu na minha frente.

— Yue Shen...

— Mas isso não muda o fato de que eu te amo. — Interrompeu-o ganhando a total atenção de um surpreso e feliz Huang Tuo. — E lembrar aquela dor só me fez perceber que eu estava sendo idiota por perder tempo com medo ao invés de ficar ao seu lado.

— Diga isso de novo, por favor. — Os olhos dele estavam marejados enquanto sorria.

Yue Shen o abraçou com mais força e passou os dedos suavemente pelo rosto dele, segurando a lágrima que escorreu, um sorriso terno se formou em seus lábios.

— Eu te amo, Huang Tuo. — Declarou. — Amei você no passado, mesmo nas vezes que disse que era impossível fazê-lo. Amo você agora, mesmo temendo os dias que virão e, se não houver um amanhã para nós, vou amar você no nada ou em quantas outras vidas eu tiver.

Se aquilo era uma ilusão, Huang Tuo não queria acordar nunca mais. Apertando os braços com delicadeza em torno do corpo de Yue Shen, ele a beijou com avidez, se afogando naquele sentimento enfim libertado. No criado mudo, o celular tocando foi ignorado, o universo fora do quarto deixou de existir e só havia ela e aquela felicidade inenarrável que ambos sentiam.

※ ※ ※

Shi ajudou Yan Da a disciplinar os cabelos. Estava ficando realmente eficiente na tarefa, desde o incidente Chao Ya ainda não havia aparecido no hospital, de modo que ele pedira a Ka Suo que lhe trouxesse algumas roupas e objetos de higiene pessoal para que não precisasse se ausentar e deixá-la sozinha. Ela estava um pouco mais comunicativa, ainda que houvesse certa barreira entre eles, o que era normal, Shi estava satisfeito com cada pequeno avanço que conseguira.

— Você não está entediado preso comigo o dia todo? — Perguntou enquanto ele finalizava o coque.

— Dificilmente eu me entediaria com a senhorita.

Yan Da fez uma careta.

— Já não tínhamos resolvido esse problema do tratamento?

— Desculpe. — Shi deu uma risada. — Sempre parece que estou passando dos limites quando a chamo pelo nome.

— Bem, uma vez que eu consenti não creio que seja uma ousadia, não é? — Sorriu ela. — Ficou ótimo, obrigada.

— É sempre um prazer. — Um sorriso bobo pintou seu rosto, ele começou a guardar as coisas. — Então, o que gostaria para o café da manhã, Yan Da?

— Alta, seria excelente. — Suspirou ela. — Estou ficando impaciente aqui dentro, não gosto de hospitais tanto quanto odeio agulhas.

— Sei que deve ser difícil, mas a senho... você está indo muito bem. Huang Tuo se atrasou hoje, deve dar uma previsão da sua alta.

— Vou dar uma festa quando sair daqui, espero que você vá.

— Não perderia por nada.

Ela sorriu. Shi saiu por um momento para providenciar o café da manhã de ambos, Yan Da não estava com mais nenhuma restrição alimentar de modo que ele podia comprar coisas que ela gostasse de comer. A recuperação dela ia muito bem, ainda haviam alguns episódios em que a fobia de agulhas atacava, mas ele a ajudava a contornar o problema com paciência e os métodos que Huang Tuo lhe ensinara.

Estava voltando para o hospital quando encontrou o médico chegando com duas horas de atraso para seu turno. A expressão brilhante no rosto dele parecia ainda maior que o habitual, e seus passos flutuavam, mas Shi não conseguia identificar o que mais estava diferente nele.

— Hoje você é o epítome da felicidade ou o quê? — Indagou quando conseguiu alcançá-lo. — Parece que dormiu no meio de flores*.

— O mundo está cheio de flores, mas apenas uma é necessária ao meu coração. — Respondeu Huang Tuo com o mesmo sorriso extasiado.

— Pare de sorrir assim ou vou acabar ficando cego!

— Ying Kong Shi, você pode ser mais insensível? — Censurou-o. — Não importa, nem mesmo você vai conseguir estragar o meu dia.

— Uau, quem é a mulher que foi capaz de te dobrar desse jeito? — Ele deu um sorriso provocador.

— Te conto quando crescer! — Alfinetou o médico saindo na frente e acenando um adeus para o amigo.

Shi deu uma risada baixa enquanto voltava para o quarto de Yan Da carregando as sacolas com comida. Ela fez perguntas sobre Chao Ya e Pian Feng mais uma vez, e ele voltou a dizer que não tinha notícias deles desde o incidente no hospital — que ele tampouco podia explicar direito. Sentia que ela estava preocupada e pediria a Huang Tuo que buscasse notícias dos dois.

— Você não vai ter problemas no trabalho ficando aqui comigo durante tanto tempo? — Questionou enquanto ele colocava os pratos na mesinha móvel.

— Ka Suo está cuidando de tudo para mim, não haverá qualquer problema. A maior parte das minhas atividades pode ser feita pelo computador.

— Sinto muito causar todo esse transtorno.

— Yan Da, você não é nenhum problema para mim. — Afirmou convictamente. — Ao contrário, me sinto feliz em poder cuidar de você.

Ela baixou a cabeça sentindo o rosto queimar. Por que ele ficava dizendo aquelas coisas de maneira tão direta? Por vezes, era como se Ying Kong Shi esquecesse as regras da sociedade. Yan Da gostava da companhia dele, mas estava sendo cautelosa. Primeiro porque não queria que o ocorrido com Peng Peng se repetisse, ainda que ele e Shi estivessem em posições diferentes, Shuo Gang era ardiloso o bastante para tentar repetir a façanha. Segundo porque ainda havia uma parte dela que lhe pedia prudência. Um receio insistente que colocava freios sempre que Shi tentava ultrapassar uma linha.

Ademais, eles tinham muitas coisas em comum. Gostavam de alguns mesmos livros, comidas e séries de TV. Yan Da preferia praticar ioga enquanto Shi era faixa preta em jiu-jitsu. Ambos preferiam ficar em casa, mas enquanto ela colecionava podcasts, ele preferia documentários e jogos de MMORPG — e ela se interessou por esse último hobby. Apesar da relação dele com os pais não ser tão ruim quanto a sua, Yan Da descobriu que Shi também não concordava em muitas coisas que os pais decidiam, especialmente em relação ao irmão. Por isso, preferia morar sozinho.

Ela não lhe contou muitos detalhes da sua relação com Huo Yi, mas não teve como esconder seu péssimo relacionamento com Shuo Gang depois do que ele vira em frente à ZhangYing.

— Três dos meus irmãos são casados e vivem suas próprias vidas longe daqui. Dois deles moram na Europa. — Contou. — De todos, Hu Bing ge é o único que não me despreza ou me vê como um objeto. Ele era mais próximo da minha mãe, talvez por isso não tenha aprendido com meu pai a menosprezar as mulheres.

— Imagino que o casamento da sua mãe tenha sido difícil. — Observou ele com cautela.

— Acho que a tristeza a matou antes do câncer. — Yan Da ficou em silêncio por um instante, imaginando se não estaria contando demais. — Shuo Gang é o mais jovem dos filhos homens, eu fui a única menina quando meu pai esperava outro "varão", e como Shuo Gang idolatra nosso pai, os desgostos dele são seus desgostos, por isso ele sempre me viu como um alvo para descarregar suas frustrações e para usar como bem lhe aprouvesse.

A mão de Shi se fechou em punho. Ele tinha irmãs e não podia sequer imaginar um homem as tratando daquela maneira, quanto mais ele ou Ka Suo. Era um completo absurdo. Mas, infelizmente, havia muitos que ainda mantinham aquele tipo de pensamento antiquado mesmo em uma sociedade tão avançada. Lembrou-se do dia em que segurara o pulso de Shuo Gang quando ele estava prestes a agredi-la, a vontade que sentiu de torcer o membro até ouvir o osso quebrando, por sorte, a presença de Yan Da o manteve no controle de suas emoções, a última coisa que precisava era assustá-la com mais violência. Entretanto, ele podia sentir que havia coisas que ela não estava lhe contando.

— Eu sei, você deve estar se perguntando por que eu me sujeito a isso, não é? — Um sorriso amargo se formou nos lábios dela. — Sair de casa foi uma batalha, mas se eu não tivesse me mudado acho que teria enlouquecido ou me matado. Entretanto, pelo bem ou pelo mal, eles são a única família que eu tenho... sinto como se perder o vínculo com eles fosse estar realmente perdida no mundo. Quero acreditar que, do seu jeito estranho, meu pai sente algum afeto por mim.

— Sinto muito. — Shi conteve sua vontade de segurar a mão dela. — Você não devia passar por isso.

— Nem todo mundo tem sorte na vida, não é? — Deu de ombros. — De alguma forma, pelo menos eu tenho a Chao Ya e o Pian Feng comigo, eles são meio que minha família substituta.

— Agora tem a mim também. — Ele sorriu. — Pode acreditar que o que for preciso fazer por você eu farei sem hesitação.

Vou protegê-la. Essas palavras, contudo, ficaram presas no seu coração. Shi sentia que externa-las seria atravessar uma linha que Yan Da ainda não lhe permitira cruzar. Ela não lhe respondeu, baixando os olhos, concentrou-se na comida e ele fez o mesmo para lhe dar algum espaço. Pelo pouco que conheceu de Yan Da, ele sabia a importância de respeitar o seu silêncio e sentir o peso das palavras não ditas.

Huang Tuo apareceu quando eles tinham terminado o café da manhã. O rosto ainda brilhando em uma felicidade que ele não conseguiria esconder nem se tentasse. Sua aura era tão contagiante que até mesmo Yan Da sorriu quando ele entrou no quarto e começou a examiná-la, Shi estava mais que curioso para saber quem conseguira deixá-lo daquela maneira. Mesmo o médico por diversas vezes conversando como um Casanova, Shi sabia que o coração de Huang Tuo nunca tinha pertencido a ninguém. Desde que o conhecera, muitos anos antes, ele sempre parecia esperar por alguém.

Muito bonito, fazia sucesso entre todas as garotas, chegando mesmo a competir com Ka Suo pelo posto de mais bonito da escola. Ainda assim, nunca investiu em nenhum relacionamento, se mantinha sozinho em uma silenciosa espera que seu irmão parecia compreender. Vê-lo daquela maneira, como se tivesse descoberto o segredo da vida, dava a certeza que havia encontrado a pessoa que procurava e Shi estava ávido para descobrir que tipo de pessoa tinha ganhado graça aos olhos do médico. Gostava muito de Huang Tuo, aquém das provocações, o tinha como um segundo irmão mais velho, o carinho que nutria por ele era suficiente para já considerar como uma irmã a pessoa capaz de despertar nele uma felicidade tão genuína.

— Huang yīshēng parece muito feliz hoje. — Observou Yan Da em um tom provocativo. — Ainda mais que o habitual.

— Ah, certamente o jardim dele floresceu ontem à noite. — Alfinetou Shi.

— Oh, mesmo? — Ela sorriu. — Então não pode deixar de nos apresentar à sua namorada!

Duì le! — Concordou Shi, sem perder a oportunidade de retribuir as provocações do médico. — Nós certamente queremos conhecer a mulher que deixou nosso médico favorito tão feliz!

—Hǎo, hǎo, hǎo, hǎo, seus dois encrenqueiros. — Huang Tuo sorriu. — Convidá-la-ei na primeira oportunidade.

— Só não traga o aeroporto que está arrastando por ela junto. — Disse Shi dando uma risada.

— Brevemente você também cantará para as paredes, Ying Kong Shi! — O médico bagunçou o cabelo dele de modo fraternal. — Estarei ansioso por isso, pode apostar!

Yan Da deu uma boa risada, para deleite de Shi e Huang Tuo. Diante da diminuição considerável do desconforto nas costelas e da cicatrização perfeita da incisão da cirurgia, o médico decidiu dar alta para que ela terminasse a recuperação em casa, contudo, a ferida ainda não estava cem por cento cicatrizada por dentro então ela precisava ser cautelosa, além do mais devia evitar movimentos bruscos e manter o máximo repouso possível por pelo menos mais três semanas.

Mesmo frustrada pelas restrições, Yan Da agradeceu por poder sair do hospital e, sobretudo, por finalmente poder se livrar daquelas agulhas. O médico saiu para assinar alguns documentos e autorizar a alta, prometendo voltar o mais breve possível para retirar o cateter. Uma ansiedade angustiada começou a tomar conta de Yan Da, seus olhos se voltaram para a agulha em sua mão e a sensação do ar indo embora veio lentamente, ela fechou os olhos tentando se afastar dos pensamentos que forçavam entrada na sua mente.

Sangue.

Escuridão.

Goteira.

— Shh... vai acabar logo. — A voz prometeu.

Então a dor.

— Yan Da?

A voz de Shi soou como um eco distante enquanto ela tentava bloquear as memórias. Yan Da ergueu os olhos na direção dele, havia uma preocupação intensa no rosto dele, Shi parecia desejar tocá-la, mas não se atrevia. Ela ergueu a mão trêmula na direção dele e Shi a segurou com firmeza, acariciando-a com os dedos, a mente de Yan Da oscilava entre as memórias e a realidade, em alguns momentos, o rosto angustiado de Shi aparecia, em outros era a escuridão pontilhada de luz, o frio, os sons abafados, os gemidos de agonia.

Shi disse a si mesmo para não entrar em pânico, ela precisava de alguém firme em quem se ancorar e não de uma pessoa tão instável quanto. Ele levantou e se aproximou mais, ignorando as convenções sociais, e a abraçou, acariciando a cabeça dela, Yan Da foi recuperando o ritmo de respiração gradualmente enquanto ele murmurava palavras de conforto, o coração dela ia se reconectando com o momento presente.

Huang Tuo chegou no momento em que os dois se afastavam, Shi com um rosto vermelho e Yan Da com olhos vermelhos. Ele ergueu uma sobrancelha para o jovem amigo que negou com a cabeça isentando-se da culpa pela qual era acusado. O médico se aproximou de sua paciente vendo o esforço da mesma em aparentar normalidade.

— Tudo bem?

— Sim, eu só fiquei um pouco nervosa com a agulha. — Ela sorriu.

— Vou tirar isso pra você, certo? — Huang Tuo segurou a mão dela com delicadeza. — Não fique nervosa, prometo que não vai sentir nada.

Shi viu que o pedido do médico não seria atendido, apenas pensar no objeto já fazia Yan Da sentir náuseas. Ele precisava de uma maneira de distrair a atenção dela. Uma troca de olhares com Huang Tuo foi o bastante para saber que o médico apoiava a ideia, assim, ele tomou coragem e se aproximou novamente dela, Yan Da o olhou confusa, Shi sentiu todo seu rosto queimar, mas se abaixou um pouco, inclinando-se na direção dela como se fosse beijá-la, os olhos de Yan Da foram capturados pelos dele e ela se viu chocada, o coração esmurrando a caixa torácica, ele segurou seu rosto entre as mãos e ela sentiu a pulsação latejar nos seus ouvidos.

Huang Tuo tentou ser o mais rápido possível enquanto se esforçava muito para não rir da situação em que o amigo se colocara. Ele tirou os adesivos que prendiam o cateter e puxou a agulha com delicadeza para não machucar Yan Da, colocou um adesivo sobre o orifício deixado pelo objeto e sorriu.

— Prontinho. — Ele escondeu a agulha da visão dela. Shi se afastou. — Viu só, nem doeu.

— O-o-obrigada, Huang yīshēng. — Balbuciou Yan Da tentando voltar para a realidade, olhando a mão sem a agulha e com o pequeno curativo ela se sentiu aliviada, moveu os dedos rígidos sentindo a mão formigar.

— Fiquem à vontade, não vou mais atrapalhar. — Alfinetou o médico.

Antes que Shi o ameaçasse ele deixou o quarto.

Yan Da queria perguntar o que ele tinha tentado fazer minutos atrás, mas as palavras pareciam presas na garganta, incapazes de encontrar caminho para sair. Colocou as mãos no rosto numa tentativa de esfriar a pele quente, não sabia se queria estapear Ying Kong Shi por ele ter chegado tão perto ou por não ter avançado. Contudo, tinha de agradecê-lo, graças ao choque ela não se dera conta do momento que Huang Tuo livrou-a da odiosa agulha. Shi pigarreou, evitando olhar para ela.

— Eu... hmm, sinto muito por agora. — Desculpou-se. — Só queria distraí-la para que não ficasse nervosa.

Pelo menos com a agulha eu não fiquei, de fato. Pensou Yan Da.

— Oh, claro, eu... hmm... obrigada. — Sua voz fraquejou por um momento e ela se repreendeu mentalmente.

— Vou deixá-la se trocar, venho lhe ajudar a arrumar suas coisas e em seguida a levo para casa.

— Não precisa se incomodar.

— Não é nenhum incômodo, moramos no mesmo prédio, afinal. — Ele sorriu timidamente. — E quero me certificar que você chegará bem e terá tudo que precisa à mão.

Ele saiu do quarto e Yan Da suspirou, estava feliz por finalmente poder sair do hospital, mas parte de si sentiria saudade de Huang Tuo e do tempo que compartilhou com Ying Kong Shi, ainda que nunca fosse admitir que se acostumara a presença dele, não vê-lo todo dia seria triste. Ela sentiria muito mais falta do que dizia para si mesma.

Deu uma última olhada no quarto do hospital, tudo aquilo parecia irreal. Algumas semanas atrás ela quase fora atropelada por Ying Kong Shi, depois, seus pesadelos começaram a se tornar piores e aparecer mesmo quando ela estava acordada, agora uma pessoa havia tentado matá-la, tinha medo de especular o que viria a seguir. Em cada canto que olhava podia ver Shi, sentado lendo um livro, trabalhando no computador enquanto apertava a ponte do nariz e comprimia os olhos cansados, ao lado da cama dela dormindo de mau jeito na poltrona. Era difícil entender o que ele estava tentando conseguir se aproximando dela daquela forma, mas ainda que sentisse certo abalo no seu coração, ela não cederia.

Shi carregou a pequena bagagem dela para o carro enquanto a ajudava a andar com todo cuidado para que ela não se machucasse. Huang Tuo os acompanhou até a entrada do hospital para onde pediu que o carro de Shi fosse levado de modo que Yan Da não precisasse descer escadas.

— Leve-a em segurança para casa. — Pediu o médico quando Yan Da entrou. — Lembre que ela ainda não pode sofrer grandes emoções, guarde a paixão ardente para algumas semanas mais tarde.

— Huang Tuo, eu te juro que ainda vai chegar o momento onde serei eu a tirar o seu couro. — Prometeu.

Huang Tuo apenas deu uma risada baixa e deu tapinhas acolhedores no ombro de Shi. O jovem príncipe do gelo podia até negar, mas adorava aquele médico intrometido. Quando ele tomou seu assento no banco do motorista percebeu que Yan Da estava sorumbática, para não obstruir o fluxo de carros, ele dirigiu até a saída do edifício e então parou no meio fio.

— Algo errado? — Perguntou. — Está sentindo dor?

— Oh, não, estou bem. — Ela forçou um sorriso.

— Você parece um pouco triste. — Observou.

— Só estava pensando demais. — Ela voltou o rosto para a janela. — Você vai me visitar até eu me recuperar?

Se estivesse dirigindo, nesse momento era provável que Shi freasse bruscamente devido a surpresa que golpeou seu coração. Ela estava preocupada em não vê-lo de novo? Ele fez o possível para não sair do carro e dar pulos e gritos de felicidade e, por um momento, pensou que era como Huang Tuo se sentia naquele dia. Pigarreando para recobrar seu autocontrole, ele sorriu, mas por dentro tudo nele gritava, pulava e dava cambalhotas.

— Eu posso?

Maldição, eu não devia ser tão óbvia. Reclamou consigo mesma.

— Bem, acho que é o que os amigos fazem, não é? — Contornou.

— Que bom que você não enjoou de mim. — Ele deu uma risada baixa.

Yan Da virou-se para ele, sua expressão estava mais leve, ela parecia ter ficado feliz com a resposta que recebera.

— Você é uma companhia melhor do que se julga. — Admitiu.

— Esteja certa que eu vou visitá-la todos os dias.

※ ※ ※

Lan Shang hesitou antes de abrir a porta. Sabia que havia pelo menos dez razões para não cometer o crime que estava prestes a fazer, mas seu coração se recusava a pesar as consequências. Um coração ferido frequentemente tende a se tornar irracional. Olhando mais uma vez para checar que não havia ninguém por perto, ela abriu a porta de carvalho e entrou no quarto da avó.

Pesadas cortinas de veludo azul cobriam as janelas altas mergulhando o cômodo em escuridão. Fechando a porta atrás de si, ela olhou com atenção todo o quarto, as paredes cobertas com papel em estilo vintage, a cama king size com dossel ornado de tecidos azuis e brancos, tudo ali tinha um ar aristocrático como a vida que sua avó cultivava antes de tudo desaparecer. Por vezes, Lan Shang se perguntava a razão de Ka Suo tê-las trazido para aquele mundo, estava claro que ele não se importava com ela.

Ganhando determinação através da mágoa, ela tentou descobrir onde a avó guardava aquilo que procurava. O tesouro da tribo das sereias. Se forçando a pensar, Lan Shang descartou a ideia de locais óbvios como cofres e armários, algo daquele porte — e emanando energia mágica — seria mantido em um lugar onde apenas ela tivesse acesso. A sereia não era muito inteligente, mesmo com todos os seus esforços, não conseguia decifrar o enigma.

Tal como alguns dos que foram trazidos para aquele mundo, Lan Shang não tinha em mãos todas as suas habilidades, de modo que o uso do seu poder era limitado — além do mais, o clã das sereias não era dotado de muitas habilidades de todo modo. Ela fechou os olhos e concentrou seu parco poder no centro da testa tentando se comunicar com o artefato, se ele emanava energia mágica e pertencia ao seu clã, teoricamente ela deveria ser capaz de localizá-lo.

A parede acima da cama da avó emitiu um brilho azulado e a sereia sorriu. Correndo até o móvel, ela subiu na cama e tateou a parede em busca de um compartimento secreto, havia uma parte oca sob o papel de parede, Lan Shang buscou o mecanismo para abrir e encontrou, atrás da cabeceira, um pequeno botão, pressionando, um pequeno quadrado se destacou na madeira, ela puxou para revelar uma caixa de prata cravejada de joias e conchas. Olhando o relógio na parede, ela percebeu que não havia muito tempo, então se apressou em abrir a caixinha e pegar o que havia dentro, uma única peça.

Deixando tudo exatamente como encontrou, a sereia deixou o quarto da avó e foi para o seu próprio, envolvendo a joia em um lenço e colocando-a dentro de sua bolsa. Arrumou roupas em uma valise e documentos, não poderia permanecer ali, quando a avó descobrisse o que ela fez estaria perdida para sempre — e ela mesma não sabia por quanto tempo aquela pessoa a manteria viva. Não importava, desde que tivesse Ka Suo.

Tentando não ser vista pelos criados, ela desceu pela escada lateral da varanda do seu quarto e usou um carro que não chamasse muito a atenção. Pelo retrovisor, Lan Shang viu a casa onde crescera ficando menor até desaparecer para sempre, mas estranhamente aquilo não doía no seu coração.

Não era sua casa, afinal.

Com um sorriso amargo ela encarou o fato de não ter verdadeiramente um lar. Não havia lugar no mundo para ela, para nenhum deles, a vida atual era uma expiação e a antiga uma ilusão, será que um dia ela encontraria as verdades não ditas sobre o mundo que nunca conheceu.

※ ※ ※

Shi ajudou Yan Da desde o momento que saíram do carro até o elevador. Havia um silêncio pacífico entre eles, as palavras e perguntas não verbalizadas pairavam no ar, mas não eram desconfortáveis, ainda que nenhum deles conhecesse o outro bem o bastante para captá-las na ausência de som quebrada pelo zumbido do elevador. Ele estava vibrante que ela quisesse vê-lo outra vez, ela estava feliz por ele prometer visita-la.

Entretanto, o clima pesado a atingiu como um soco no estômago quando ele abriu a porta do apartamento dela e encarou Pian Feng encolhido sobre o sofá da sala com uma expressão estranha. Tudo que Yan Da sabia era que Chao Ya havia ficado doente e por isso Huang Tuo a mandara para casa sob os cuidados de Pian Feng. A julgar pela expressão dele, ela não parecia ter melhorado.

— Pian ge, o que aconteceu, jiejie está pior? — Quis saber ela enquanto Shi a ajudava a se acomodar em uma poltrona com mais almofadas do que ela realmente precisava.

— Da'er, por que não me disse que voltava hoje? Eu teria ido te buscar. — Ele forçou um sorriso.

Shi, percebendo a tensão, achou melhor deixar que Yan Da conversasse com o amigo — não que isso o agradasse muito — e levou as coisas dela para o quarto.

— Você brigou com a jiejie? — Indagou, séria.

— Mais ou menos. — Suspirou. — É complicado, Da'er.

— Qual parte, a que você gosta dela e não diz abertamente ou você fingir ser gay pra conseguir agenciá-la desde a faculdade? — Yan Da ergueu a sobrancelha.

— Eu sou um idiota...

— Pian ge, não diga isso. Chao Ya sempre foi dona de si mesma, mas não muito boa em lidar com sentimentos. Acho que ela deve ter sido uma rainha na vida passada, às vezes ela age como uma monarca mandona.

A expressão de Pian Feng era puro choque quando ele ergueu o olhar para Yan Da como se ela tivesse dito algo extraordinário. Ela não entendeu a razão do espanto.

— O quê? Não concorda? Logo você que vive recebendo as ordens mais absurdas dela. — Deu uma risada leve.

— Isso que você disse, da vida passada, acha mesmo que ela foi uma rainha? — Pian Feng tentou ser cauteloso com a pergunta.

Yan Da ergueu a sobrancelha sem saber onde o amigo queria chegar.

— Não sei, não sou uma xamã. — Deu de ombros. — Só falei pelo jeito dela, não porque eu saiba o que ela foi na vida passada, pode ter sido um gato no egito também, quem sabe?

Algo nele pareceu aliviado quando ela disse isso e Yan Da percebeu que ele havia mudado o rumo da conversa. Pian Feng não era o tipo que discutia, por isso sua convivência com Chao Ya era tão pacífica, em geral ele apenas acatava as ordens dela e, quando muito, a aconselhava a fazer diferente — mas poucas vezes ela lhe dava ouvidos. Para ele estar agindo daquela maneira, a briga devia ter sido séria.

Conhecendo o gênio da amiga, ela pensava que eles se reconciliariam em alguns dias, ainda assim doía ver o amigo tão triste, especialmente por gostar daquela forma de Chao Ya a tanto tempo e não receber qualquer esperança. Mas a melhor coisa que podia fazer pelos dois era dar apoio permitindo que resolvessem seus problemas por si mesmos.

— Então, você e Ying Kong Shi...

— Não é nada disso! — Cortou.

— Se não é nada, por que está corada? — Alfinetou. — Além do mais, o que é toda aquela pose de marido preocupado dele?

— Pare com isso. — Ameaçou Yan Da. — Ele fez muito por mim, se não fosse por ele provavelmente eu não estaria aqui agora. Pelo menos posso deixá-lo tentar ser meu amigo já que ele mostrou que quer isso.

— Ah, ele quer ser bem mais que seu amigo, Da'er, está escrito na testa dele.

— Não acho que tenha espaço para tantas palavras assim. — Ironizou ela. — Você está pensando demais.

— Eu vi o jeito como ele te olha, também vi a maneira como você olha pra ele. — Pian Feng se aproximou mais segurando a mão dela. — Da'er, sabe que eu vou te apoiar no que você decidir, não sabe?

— Realmente não há nada, eu juro. — Ela sorriu apertando a mão dele. — Esse tipo de coisa é uma fraqueza para a qual eu não posso me dar ao luxo de pender. Além do mais, quando ele descobrir o que meu pai me forçou a fazer, acha mesmo que vamos continuar numa boa?

— Nós dois sabemos que você não vai fazer isso. — Bufou revirando os olhos. — Aproveite essa oportunidade para estabilizar sua carreira. Você não é um bem do seu pai.

— Está esquecendo a peça chave dos meus problemas. — Ela suspirou quando ele pareceu não entender. — Shuo Gang.

※ ※ ※

Ying Kong Shi se deparou com Chao Ya tão logo abriu a porta do quarto. A cantora estava encolhida sobre a cama parecendo infeliz. Desde que a conhecera, ele notara que havia uma espécie de ausência nela, como se Chao Ya passasse o tempo todo tentando convencer a si mesma que era feliz. A julgar pelo pouco que ouvira na sala enquanto se afastava, tinha algo a ver com seu agente, mesmo Shi acreditando que Pian Feng era gay não podia deixar de notar a forma como ele olhava para cantora, ou mesmo o modo como sua expressão estava transtornada quando a levou do hospital nos braços.

— Desculpe. — Pediu. — Não sabia que estava aqui, vim apenas deixar as coisas de Yan Da.

Yan Da? — Chao Ya ergueu a sobrancelha dando um sorriso diabólico. — O que eu perdi?

— Aparentemente ela não gosta muito de xiaojie. — Shi sabia que estava vermelho.

— Então te deu permissão para chama-la diretamente. — Completou a cantora. — Yan Da, Yan Da, estamos finalmente evoluindo.

— A senhorita está bem?

— Ora, ela é Yan Da e eu sou senhorita? — Provocou. — Acho que já chegou perto demais dela para ainda usar títulos comigo. Só Chao Ya está bom. E sim, estou bem.

— Isso é um fato ou apenas algo que já se repetiu tantas vezes que passou a acreditar? — O modo surpreso com que ela o olhou fez Shi se sentir inapropriado. — Sinto muito, não queria me meter.

— Tudo bem. — A cantora meneou a cabeça. — É só que...

— É complicado? — Arriscou ele com um sorriso. — Problemas geralmente são.

— Não preciso perguntar se já gostou de alguém, você parece um bobo atrapalhado perto da Yan mei. — Ela deu uma risadinha. — Em geral como você age quando não sabe o que é verdade ou mentira dentro de você?

Shi pensou um pouco e caminhou até uma cadeira que havia ao lado da janela, não tinha certeza em como deveria responder aquela pergunta quando ela evocava tantos outros questionamentos. Era difícil aconselhar quando não se sabia a natureza do problema.

— Isso vai depender de você mesma. — Acabou dizendo. — Verdades e mentiras são termos relativos, o que é verdade para uma pessoa pode não ser para outra. Se quer saber a dimensão do que sente por alguém pense em como seria sua vida sem essa pessoa, se conseguir viver bem com a ausência, apesar de não implicar que essa pessoa não tenha importância, pode indicar que a profundidade do seu sentimento não é suficiente para uma vida.

Chao Ya lutou para não derrubar o queixo.

— Ying Kong Shi, você é surpreendentemente sapiente. Quando via suas fotos naquelas revistas femininas imaginava que a coisa mais profunda que você sabia era Li Bai*.

Shi sorriu.

— Aquelas revistas mostram mais o que elas idealizam sobre mim do que quem eu sou de fato, acredite, não tenho metade das habilidades que elas afirmam, embora goste muito de Li Bai.

— Então você não é um Casanova super sexy destruidor de corações e consumidor da Dior? — Chao Ya fingiu desapontamento. — Com quem eu vou fantasiar agora?

— Tenho certeza que encontrará alguém melhor que eu. — Ele deu uma risada.

— Obrigada. — Falou de modo sincero. — Por cuidar da Yan mei e por me ajudar agora.

— Não por isso. — Ele anuiu. — Fico feliz por isso.

— Yan Da não é uma pessoa simples. — Contou Chao Ya. — Ela tem muitas feridas não cicatrizadas. Você é capaz de entender isso?

Shi não respondeu, apenas manteve o olhar fixo na cantora.

— Não sei se devia estar ajudando você ou não, mas saiba disso, Ying Kong Shi, ela usa uma máscara todos os dias para dizer que é forte e consegue fazer qualquer coisa, quando na verdade está muito assustada por dentro. Você não será capaz de alcançá-la com facilidade e com certeza não com palavras.

— Nós somos apenas amigos, Chao Ya. — Respondeu baixinho.

— Só não seja mais uma cicatriz no coração dela. — Pediu. — Se ajudar, ela gosta de vagalumes.

Chao Ya sorriu de modo conspirador e Shi baixou o rosto para esconder sua face em chamas. Vagalumes, pensou, é um bom lugar para começar.

※ ※ ※

15 mil anos atrás

Yan Da sentiu seu corpo congelar. Peng Peng nunca iria embora sem se despedir, apesar de ela ter lhe dito que ele era livre para partir, não queria acreditar que ele faria aquilo com ela. Mais que ninguém, Peng Peng conhecia a importância que tinha na vida dela, era seu mentor, seu único amigo.

Deixando seu quarto, ela começou a questionar todos os guardas do reino do fogo, mas eles não lhe diziam nada útil mesmo sob severas ameaças. Era como se Peng Yan tivesse desaparecido no ar e só havia duas pessoas em todo o reino do fogo capazes de fazer aquele tipo de coisa: Shuo Gang e seu pai. Era muito óbvio quem tinha sido o autor.

Ela correu até o irmão mais velho engolindo os nós dolorosos que se formavam em sua garganta, que tipo de crueldade Shuo Gang teria feito à Peng Peng para ele ir embora, ou pior, para onde o teria mandado? Sabia que nada mudaria se contasse o caso a Huo Yi, ele não a ajudaria e Yan Da não era o tipo de garota que usa o pai para se defender, ela podia fazer isso sozinha. Se fosse preciso matar Shuo Gang para obter Peng Peng de volta ela faria.

— Shuo Gang! — Gritou, furiosa. — Onde está Peng Yan?!

— Ora, aquele seu cachorro fiel deixou a coleira para trás? — Ele esboçou um sorriso gélido e sombrio. — Talvez ele apenas tenha se cansado de você, não seria uma novidade, não é?

— O que você fez com ele?

— Por que acha que fiz alguma coisa? Não tenho qualquer interesse nos seus escravos, Yan Da, tenho coisas mais importantes para fazer.

— Importantes? — Ela riu com escárnio. — Quando você fez algo realmente importante? Se meus irmãos mais velhos não estivessem mortos, papai já teria absorvido você!

Ele se pôs de pé como um predador e cobriu a distância que os separava, Yan Da cerrou os dentes para não demonstrar qualquer medo. O rosto de Shuo Gang grudou-se ao seu ao ponto de ela sentir o hálito alcoolizado do irmão, ele era odioso. Segurando o pescoço dela com força, ele sibilou cada palavra de forma dura.

— Aquela águia imprestável partiu nessa manhã, talvez tenha se dado conta que cuidar de você era uma perda de tempo ou que essa coisa nojenta que você sente por ele não vai dar em nada além de uma morte muito dolorosa. — Ele apertou mais a garganta dela e Yan Da lutou para respirar, mas seus olhos faiscavam. — Você nunca vai ser amada por ninguém, Yan da, quanto antes aprender isso, menos tempo vai perder. Alguém como você não pode ter amigos, tudo que interessa é o poder que você consegue.

Largando-a com força, ela caiu no chão com as marcas vermelhas de dedo em volta do pescoço dolorido, ergueu um olhar mortal para o irmão, se pôs de pé e cuspiu no rosto dele deixando o cômodo antes que ele conseguisse se limpar.

Enquanto saía do reino do fogo e corria pelas florestas além, ela chamava o nome de Peng Peng sem obter qualquer resposta, lágrimas quentes desciam como ácido cortando seu rosto. Era mentira de Shuo Gang, Peng Peng nunca a abandonaria. Parando em meio a floresta, ela tentou se orientar, a tribo do espírito do vento ficava a oeste de Snowblade, Yan Da tentou se guiar usando o império de neve como guia, demoraria pelo menos vinte luas para alcançar o lugar.

Ela implorava no seu coração que Peng Yan estivesse bem. Mesmo que ele tivesse ido embora, se o visse bem e seguindo sua vida, ela conseguiria suportar aquela dor.

Mas ele não havia voltado para sua tribo.

Durante sete mil anos, Yan Da procurou por Peng Peng em todos os recantos do reino imortal e no reino mortal. Mas não havia qualquer vestígio da existência dele. Por vezes, em noites insones, ela se perguntava se ele havia realmente existido, se em sua solidão ela não o havia inventado para deixar de se sentir sozinha.

"Quando se sentir pronta para descobrir como o mundo pode ser a partir dos seus próprios olhos, verá que o fascínio é maior do que ver apenas uma visão panorâmica de cima."

"Se eu fosse embora, você viria comigo?"

"Seria uma honra."

"Talvez tenha se dado conta que cuidar de você era uma perda de tempo ou que essa coisa nojenta que você sente por ele não vai dar em nada além de uma morte muito dolorosa."

Yan Da corria para se afastar dos seus próprios pensamentos conturbados. No céu, o sorriso de Peng Peng era um desenho entre as estrelas, o modo como ele lhe olhava e sabia dizer o que ela precisava ouvir. A promessa que fizeram de conhecer lugares ainda não explorados. Ela se tornara mais forte por ele, mas por quem poderia ser forte agora quando nada mais lhe restara? Ele não existia mais no mundo e ela não sentia que valia a pena ser forte por si mesma.

Quando voltou ao reino do fogo, derrotada, descobriu que Huo Yi havia destruído o clã do espírito do vento, apenas um soldado havia conseguido escapar vivo, Pian Feng, que se abrigada na tribo de música xamânica. A guerra para conquistar os reinos despertava, mas o coração de Yan Da — mesmo dizendo a si mesma para ser filial — não tinha qualquer força para guerrear. O sorriso cruel de Shuo Gang a perseguia como um pesadelo se alastrando nas sombras e foi apenas aí, quando a nuvem de dor se dispersou dando espaço para a lucidez, que ela se deu conta da verdade.

Peng Peng nunca havia ido embora.

Seu sangue nas mãos de Shuo Gang clamava por uma justiça que ela nunca poderia conceder. E as verdades não ditas entre eles continuariam como um segredo trancado no que restara do seu coração.

*Flores — essa é uma palavra que comumente se refere a mulheres, especialmente na Ásia antiga.

*Li Bai — 李白 (701-762— Um dos maiores poetas da literatura clássica chinesa.