"É primavera e, adormecido, não percebo o alvorecer.

Por toda a parte ouvem-se os passarinhos.

Durante a noite, ouvi o barulho do vento e da chuva.

Quem sabe quantas flores terão caído?"*

Shi leu o poema novamente como se as palavras pudessem transportá-lo para outro lugar. Pensou no que Chao Ya lhe falara a respeito de Li Bai, ele não tinha uma preferência particular por poetas em específico, ainda que gostasse da poesia de Bai, o romantismo boêmio de sua obra não combinava muito com ele, preferia Meng Haoran com sua poesia voltada para natureza e a contemplação do belo, muitas vezes despercebida pela maioria das pessoas. Além do mais, a melancolia entre as linhas era sentida por ele como um reflexo de si mesmo.

Ele deixou o livro de lado quando Ka Suo chegou à sala. Desde que voltara do apartamento de Yan Da, Shi estava tão absorto em seus próprios pensamentos que sequer lembrara do fato de seu irmão lhe ter dito que passaria uma temporada com ele. Percebeu algo no olhar de Ka Suo que o deixou preocupado, em geral, ele era como a água de uma nascente, transparente e límpido, por isso, quando qualquer coisa perturbava sua tranquilidade ficava muito aparente.

— Ge, tudo bem? Você parece preocupado.

— Oh, não é nada sério, apenas algumas chateações no trabalho. — Forçou um sorriso. — Como a senhorita Meng está?

— Muito bem. Recebeu alta hoje e vai terminar a recuperação em casa. Tem algumas poucas restrições pelas próximas semanas, mas sua recuperação está progredindo.

— Fico feliz em ouvir isso, me deixe saber quando ela começará na empresa.

— Ge, que há de errado? Não posso mesmo te ajudar?

— Você já me ajuda imensamente, Shi. — Ele sorriu. — Enquanto você for feliz, não haverá problema com o qual não consiga lidar.

Shi fez uma careta.

— Você sempre faz isso. — Reclamou. — Eu também me preocupo com você, sabia?

— Claro que eu sei, se continuar assim vai conseguir cabelos brancos antes de mim. — Caminhou até o mais jovem bagunçando-lhe os cabelos. — Tenho algo para você.

Shi ergueu a sobrancelha enquanto o irmão sentava-se ao seu lado. Ka Suo não era de dar presentes fora de datas comemorativas — e ele se lembrava com precisão todos os aniversários da família -, não era aniversário de Shi e o verão ainda estava chegando. Por que ele lhe daria um presente? Viu com alguma curiosidade quando Ka Suo colocou em sua mão uma pequena caixinha de veludo azul marinho, quase fez uma piada sobre casamentos, mas perdeu o fôlego quando viu a corrente, era discreta, elegante e as pequenas pedrinhas entre os elos cintilavam refletindo a luz.

— Uau, ge, qual a ocasião?

— Nada, apenas vi e achei que combinava com você. — Ele esboçou um sorriso fraternal. — Me promete que usará sempre?

— Claro! Obrigado! — Shi o abraçou.

Ka Suo fechou os olhos aproveitando o momento enquanto apertava seu irmão com força naquele abraço. Não importava o que acontecesse, ele faria de tudo para que Shi encontrasse a felicidade que merecia. Mesmo que estivesse preocupado com Lian Ji, tentava dizer a si mesmo que aquele era outro mundo, um em que ela não tinha o poder de controlar a vida e o destino de ninguém, ali ele seria capaz de derrota-la, sem mais sacrifícios daqueles que ele amava, sem roda do destino, sem maldição. Com delicadeza, ele prendeu a corrente delicada em volta do pescoço do irmão e respirou aliviado.

Por enquanto, os sonhos de Shi estavam seguros.

※ ※ ※

Para conforto de Yan Da, Chao Ya se mudou para o quarto de hóspedes e Pian Feng foi para um hotel. Durante o jantar, o clima entre a cantora e o agente parecia tão constrangedor que Yan Da se perguntava qual teria sido a natureza da discussão, eles evitavam contato visual e não dirigiam a palavra um ao outro, deixando-a em uma situação bastante complicada. Ela foi contra a partida de Pian Feng, mas o agente insistiu dizendo que se sentiria melhor daquela maneira e que viria visita-la bem cedo no dia seguinte. Yan Da se perguntava como Chao Ya cumpriria sua agenda no próximo mês se continuasse brigada com o agente daquela forma, mas decidiu não intervir.

Quando ele foi embora, a cantora pareceu entristecida, mas não tocou no assunto com Yan Da e esta respeitou o silêncio da amiga. Era raro Chao Ya ficar tanto tempo daquela maneira em casa, as turnês e compromissos sempre a mantinham viajando, por isso, queria aproveitar cada segundo da companhia da amiga. Como era próprio da sua natureza, a musicista logo tratou de fingir que nada havia acontecido e tentou animar Yan Da. Indo até a cozinha, ela fez um suco de morango com amoras e colocou dentro a poção feita por Huang Tuo, levando em seguida para a amiga.

— Aqui, vai ajudar a melhorar a sua pele e te dar um pouco mais de energia. Beba tudo.

Yan Da pegou o copo sem qualquer desconfiança e tomou a metade em um gole.

— Jiejie, preciso que me faça um favor. — Seu tom de voz ficou baixo.

— Claro, querida, do que você precisa? É só me dizer.

— Amanhã, pode ir ao cemitério levar algumas flores por mim? — Pediu. — O doutor Huang me disse para evitar sair e fazer esforços pelas próximas semanas, mas é o aniversário de morte... — Interrompeu-se, sentindo a voz embargar.

— Do Peng Peng, não é? — Chao Ya segurou a mão da amiga apertando-as com carinho. — Claro que vou, meu anjo, não se preocupe.

— Obrigada, jie.

Pegando novamente o copo que havia colocado sobre a mesa de centro, Yan Da sorveu o resto do suco preparado pela amiga afim de evitar seu olhar analítico e as próprias lágrimas que ameaçavam cair. Sempre era difícil lembrar sobre Peng Peng, uma ferida antiga ainda aberta e sem prazo para cicatrizar. Parecia não haver nada a fazer sobre aquilo. Chao Ya sentia-se sempre impotente diante de situações como aquela, não sabia como consolar Yan Da, especialmente pelo fato de sequer conhecer a fundo a história dela com Peng Peng, sobre o assunto apenas lhe contaram a respeito das circunstâncias da cruel morte do jovem sob circunstâncias que apenas Pian Feng conhecia e tanto ele quanto Yan Da se recusavam a falar sobre.

Havia a dúvida sobre os sentimentos de Yan Da por Peng Peng, por vezes, Chao Ya julgava serem amigos muito próximos, mas em outros momentos era como se a amiga nutrisse um amor secreto pelo jovem rapaz falecido, entretanto, isso era outra coisa guardada a sete chaves pela jovem princesa e nem mesmo Pian Feng, conhecendo-a a tanto tempo, sabia a resposta do enigma. Em uma tentativa de animar um pouco sua protegida, Chao Ya lembrou da corrente dada por Ka Suo e forjada por Xing Jiu a fim de proteger os sonhos dela, evitando que Lian Ji os invadisse novamente para manipulá-la, considerou aquele um bom momento para entrega-lo.

— Oh, quase esqueci, te trouxe algo da minha turnê no Japão! — Sorriu animada, indo até o quarto de hóspedes para onde Pian Feng havia levado suas coisas antes de deixar o apartamento. Ela veio dançando de volta para a sala trazendo nas mãos a caixinha de veludo azul. — Me lembrei de você no instante que vi!

Yan Da sorriu. Sempre que Chao Ya voltava de viagem, fosse a passeio ou em alguma turnê, ela lhe trazia um mimo de algum lugar do mundo. Apesar de pertencer a uma família abastada, Yan Da não viajava muito por causa do trabalho que lhe consumia boa parte do tempo, suas férias eram frequentemente reduzidas por causa da irresponsabilidade e incompetência de Shuo Gang sempre arrumando encrencas e problemas para ela ter de resolver. Por vezes, Yan Da acreditava que viera ao mundo para ser bode expiatório dele.

Ao abrir a caixinha com cuidado, ela se deparou com a joia. Era de prata pura e muito delicada, os contornos do singelo coração em chamas e a pedrinha lilás que o preenchia era ao mesmo tempo delicada e aderia um toque de força à peça. Yan Da nunca tinha recebido um presente tão bonito — apesar de amar cada mimo que a cantora lhe trazia.

— Vai proteger você. — Contou. — Eu o levei em um dos maiores templos de Tóquio para abençoar, então prometa que nunca vai tirá-lo.

— É lindo, jiejie! — Ela passou os dedos sobre a peça. — Prometo que vou usá-lo sempre, obrigada!

As duas se abraçaram — Chao Ya tomando muito cuidado para não machucar a enferma — e Yan Da mal conteve a emoção, naquele momento ter os amigos ao seu lado era tudo que ela precisava, o sentimento do mundo destruindo-se em caos aliado ao aniversário de morte do seu melhor amigo estava sendo pesado demais para ela. Deliciada pela alegria no rosto de Yan Da, Chao Ya prendeu o colar em volta do pescoço dela, a prata acentuando ainda mais sua pele acetinada, os dedos delgados da princesa do fogo tocaram o pingente de coração e ela agradeceu novamente permitindo-se mergulhar naquele momento de tranquilidade.

※ ※ ※

Lan Shang estremeceu quando as mãos da pessoa atrás da cortina bateram sobre a mesa de madeira com tanta força que o chão estremeceu. Ela estava em uma sala no estilo da dinastia Tang, paredes nuas, uma cortina vermelha diáfana separava a mesa atrás da qual a figura se encontrava e uma estante cheia de livros antigos. Uma janela pequena ficava ao lado da sereia, além da almofada onde ela estava sentada, não havia qualquer outro móvel na sala do seu lado.

— Por que estou sendo bloqueada?! Isso não pode estar certo.

— Xing Jiu deve estar interferindo, eu o vi entrando no carro de Ka Suo. — Explicou a sereia.

— Aquele maldito astrólogo, eu devia tê-lo matado antes!

— Trouxe o que me pediu. — Lan Shang passou o lenço por baixo da cortina vermelha sem se atrever a espiar por baixo da mesma.

— Ah, a lágrima ancestral, finalmente! — A figura pegou o lenço e desembrulhou a joia. — Você pode ir agora, mandei prepararem um cômodo para você.

A sereia não disse mais nada. Ficou em pé e virou-se para deixar a saleta, um tremor subiu pela sua espinha, tinha certeza que conhecia aquela voz, mas não lembrava onde antes a tinha ouvido. Meneando a cabeça, ela fechou a porta atrás de si e respirou fundo, estava um passo mais perto de conseguir o que desejava, mas não tinha certeza do preço a pagar por aquela escolha.

※ ※ ※

Yan Da acordou com as batidas na porta. Esfregando os olhos ela se espreguiçou e ouviu a voz de Pian Feng do lado de fora. Lentamente, ela levantou e caminhou até o banheiro, prendeu os cabelos em um coque alto e tomou um banho rápido. Havia tido uma abençoada noite sem pesadelos, era a primeira vez em muito tempo, talvez Chao Ya estivesse certa e o colar servisse mesmo de alguma proteção.

Chao Ya.

Olhando o relógio sobre o criado mudo, deduziu que aquela altura a cantora já deveria estar no cemitério. O céu do lado de fora da janela era brilhante e Yan Da não pôde deixar de pensar no quão injusto aquilo era. Uma parte da sua alma desejava que o dia acinzentasse como seu coração estava naquele momento. Suspirando, ela colocou um vestido preto simples e manteve o coque no cabelo saindo com cautela do quarto. Qual não foi sua surpresa ao encontrar Ying Kong Shi, trajado em um terno risca de giz sob medida, sentado na sua sala de estar.

— Bom dia! — Ele sorriu ao vê-la e ficou de pé.

— Não imaginei que viesse tão cedo. — Yan Da forçou um sorriso. — Estou feliz em vê-lo.

— Quis passar aqui antes de ir para empresa. Se sente melhor, parece um pouco abatida. — Havia preocupação em seu semblante bonito.

— Estou bem, me recuperando com tranquilidade. — Acalmou-o.

— Oh, Da'er você acordou! — Pian Feng veio para a sala trazendo um vaso com lindas rosas vermelhas. — Antes que pergunte, é um presente dele.

Pian Feng aproximou as flores para que Yan Da não precisasse se inclinar, ela aspirou o perfume suave com os olhos fechados. A flor da paixão. Apenas quando o amigo limpou a garganta ela se afastou das rosas e se acomodou na poltrona tentando em vão não corar. Shi tornou a pensar que ela era a mulher mais adorável já vista por seus olhos. Pian Feng acomodou o jarro sobre a mesa de centro e deixou os dois a sós com a desculpa de ir preparar o café da manhã para ela.

— Obrigada, Ying Kong Shi. — Disse baixinho. — Elas são lindas.

— Não por isso. — Ele sorriu sem jeito. — Quer que eu te traga alguma coisa quando voltar do trabalho? Tenho planos de vir vê-la. — Indagou.

— Oh, não precisa se incomodar com isso. — Declinou. — Venha para o jantar, Chao Ya e eu adoraremos companhia.

— Será um prazer. A propósito, é um lindo colar.

Yan Da tocou o pingente.

— Foi um presente da jiejie.

— Combina muito contigo. Vejo você mais tarde então. Se precisar de qualquer coisa, não hesite em me ligar, creio que tem o meu cartão. — Ele sorriu. — E não será incômodo algum.

Ele pediu que ela não se levantasse e gritou um até logo para Pian Feng na cozinha. Yan Da contemplou as flores no vaso por um longo tempo se questionando sobre aquelas sensações estranhas que Shi despertava com sua presença. O alerta no fundo da sua mente continuava lhe mandando ficar longe dele, mas por mais que dissesse a si mesma para rechaça-lo, a força atraindo-a na direção dele era maior. Aquilo era muito confuso.

Pian Feng apareceu na sala de estar com uma expressão séria. Yan Da sabia da desconfiança que ele tinha em relação a Shi e suas intenções — e ela achava aquilo muito irônico uma vez que ela entrara na ZhangYing para prejudica-lo -, mas mesmo desconfiado ele parecia oferecer um estranho apoio ao jovem herdeiro, algo ininteligível para ela. Claro que o agente de Chao Ya via as coisas à sua própria maneira e era completamente ignorante quanto aos sentimentos reais dela.

— Da'er, você quer mesmo acreditar que não existe nenhuma faísca perigosa entre você e aquele Ying? — Ele sentou de frente para ela.

— Pian ge, você pensa demais. — Revirou os olhos.

— Ele gosta de você. — Alertou. — Ou pelo menos tem algum interesse maior do que só amizade.

— Você sabe o que essas flores significam? — Apontou para o vaso. — As rosas vermelhas representam o amor, mas também a paixão. Quando alguém dá rosas vermelhas não significa apenas que quer ou ama essa pessoa, mas também que a deseja de uma forma intensa.

— Não sabia que você era versado em flores. — Ironizou Yan Da.

— Tenha cuidado, não quero ver você se machucar.

— Corações que não amam não podem ser quebrados, Pian ge. — Ela sorriu. — Pare de pensar demais.

Ele suspirou, preocupado. Por mais que Pian Feng desejasse que as coisas entre eles se resolvessem para que todos continuassem vivendo, ele se preocupava com Yan Da, ela sofrera em demasia no passado, era injusto que tivesse voltado para aquela realidade com quase os mesmos problemas de antes, excetuando seu amor unilateral pelo príncipe do gelo, em alguma parte do coração dela, a dor de sua morte nos braços de Ying Kong Shi sem ao menos saber se era amada ainda existia. Ela perdera o melhor amigo, a confiança em si mesma, nunca teve realmente o amor de uma família. Ainda que soubesse a sua missão ali, o guerreiro da tribo do espírito do vento se importava com os sentimentos da pessoa a quem protegia.

Com cuidado, ajudou Yan Da a levantar e caminhar até a sala de jantar onde havia posto a mesa para que ela comesse algo leve no café da manhã. A conversa entre eles foi encerrada e ele pensava nas palavras dela. A princesa do fogo voltara sem acreditar no amor, mas em algum lugar do seu coração o sentimento por Ying Kong Shi ainda existia, a força do destino que outrora os uniu estava viva e em curso, ela não sabia disso, é claro, mas amá-lo era inevitável ele apenas esperava que ser ferida por ele não fosse uma opção dessa vez.

※ ※ ※

Ying Kong Shi deixou o prédio do condomínio com o carro, sentia um incômodo no fundo da sua mente, mas não sabia o causador daquilo. Ele estava preocupado com Yan Da, ela parecia lânguida e sorumbática, Pian Feng havia lhe dito a razão logo que atendera a porta.

— Ah, você veio. — Afastou-se para ele poder entrar. — Ela ainda está dormindo, mas pode esperar na sala, está mesmo na hora de acordá-la.

Havia certa animosidade na voz dele, não fosse a clara preferência dele por homens, o jovem príncipe ficaria preocupado com ele vivendo sob o mesmo teto de Yan Da e sendo tão superprotetor.

— Antes que me esqueça. — Ele se virou e Shi parou de andar. — Não é um dia muito bom para visitas prolongadas, hoje é aniversário da morte de alguém muito importante da minha fadinha, ela sempre fica deprimida nesse dia.

Peng Peng. Alguma coisa na forma como Pian Feng disse "alguém muito importante" causou um incômodo tão grande em Shi quanto o fato de ele chama-la de "minha fadinha". A essa altura, por mais absurdo que parecesse, o jovem príncipe do gelo admitia que estava bebendo vinagre por causa de Yan Da. Ele, que nunca havia se interessado por mulher nenhuma, encontrara-a a algumas semanas e, do nada, estava mergulhado naquela situação. Era um absurdo. Shi desconfiava não apenas Huang Tuo, mas Ka Suo nunca o deixaria em paz se tomasse conhecimento daquele fato.

Seus dedos apertaram o volante com força. Qual era o seu problema? Que espécie de direito ele achava ter sobre Yan Da para estar agindo como um marido ciumento? Meneou a cabeça e freou quando quase avançou um sinal vermelho. Uma coisa de cada vez, ele tinha de se controlar. Bem no instante onde parou para respirar profundamente, sentiu o impacto de um carro batendo no seu. Lá se ia sua paz interior. Ele soltou uma imprecação e tirou o cinto de segurança saindo do carro dizendo mentalmente a si mesmo para não chamar atenção indesejada.

Estava prestes a ver o dano causado pelo impacto quando alguém surgiu ao seu lado e o empurrou com força sobre o veículo ao lado dele bem no momento em que o carro de trás ia passar por cima dele. Shi ficou em choque, o coração batendo acelerado, olhando em volta ele buscava a pessoa que acabara de salvar sua vida, mas tudo que conseguiu ver foi uma silhueta de preto se perdendo entre o mar de carros à sua volta. Os veículos à volta começaram a buzinar para que ele saísse, trêmulo, Shi voltou para o seu carro e tirou-o para o meio fio. Respirando fundo para recobrar a calma, ele disse a si mesmo que não estava enlouquecendo, fora real.

Abriu a porta do veículo e deu a volta para ver a consequência do impacto na traseira, mas não havia um único amassado. O jovem levou a mão em punho à boca tentando ordenar os pensamentos.

O carro estava mesmo intacto.

Não havia nada.

※ ※ ※

Chao Ya colocou o buquê de flores diante da lápide e ficou de pé. Entre os túmulos, a grama se misturava com as ervas daninhas, ainda estava longe do próximo Qing Ming* e os sinais de manutenção já apareciam nos túmulos por todo lugar. Ela encarou as inscrições no meio da pedra escura com uma mistura de tristeza e comiseração, ela sabia um pouco do que havia acontecido com aquele jovem, quatro mil anos atrás, por causa de Pian Feng, contudo, não fazia ideia do horror que ele tinha enfrentado naquela realidade e sentia que perguntar era tocar numa ferida aberta de Yan Da. Ela não tinha esse direito.

PENG YAN

◊ 07.04.1993

✞26.08.2014

— Se ao menos ela soubesse... — murmurou consigo mesma. — Sinto muito por não ter sido Yan Da que veio te ver esse ano. Espero que esteja bem, seja lá onde você estiver. Ela ainda chora a sua falta, Peng Yan, sei que no fundo do seu coração ela sempre se culpou por tudo que aconteceu com você, nas duas vezes. Sinto muito que você tenha tido uma vida tão triste.

Duas vezes.

— Cuide dela, Peng Yan... e nos ajude a fazer o mesmo.

A cantora ainda se demorou um pouco ali antes de finalmente dar as costas e ir embora. Havia tantas coisas passando pela sua mente, naquele momento ela só queria ser capaz de parar de pensar. A sensação dos lábios de Pian Feng remanescia, incendiando todas as células do seu corpo com a simples lembrança. Mas por outro lado havia Liao Jian, esperando uma resposta que ela não se sentia capaz de dar. O único desejo e Chao Ya naquele instante era seguir com a sua própria vida, realizar as coisas que, antes, não era capaz pela sua posição, pelas imposições feitas por sua família e, sobretudo, pela época na qual vivia.

Mas mesmo diante disso não podia mentir para si mesma.

Já tinha algum tempo que pensava naquilo. Mesmo tendo alcançado tudo que almejara, Chao Ya não se sentia satisfeita com a sua vida, havia algo faltando, uma decisão que ela não conseguia tomar. E não estava pronta para fazê-lo agora. Quando pensava em Yan da e no seu sortilégio de amor, ela se sentia, de algum modo, confortada por sua situação não ser tão drástica, no fundo do seu coração, sabia que já tinha feito uma escolha, mas era covarde demais para admitir isso em voz alta e com ações.

Ao alcançar seu carro, a cantora olhou a hora no painel e se deu conta que não demorara tanto quando desejava. Assim, decidiu ir até um café do qual gostava muito perder algum tempo, não queria chegar na casa da amiga e encontrar com Pian Feng, não ainda. Era impossível evitar o agente para sempre, ele já havia lhe enviado vinte mensagens sobre os compromissos aos quais ela não podia faltar, mas enquanto tivesse essa escolha, Chao Ya não se importava em ser covarde e se esconder. Estava prestes a dar a partida quando seu telefone tocou mais uma vez e o nome de Liao Jian apareceu no display, ela ficou olhando o aparelho chamar um longo tempo até cair na caixa de mensagem e depois desligar, quando clicou para receber o recado gravado havia apenas três palavras na voz rouca do antigo guardião do norte: "Sinto sua falta".

※ ※ ※

Yan Da voltou para o quarto assim que Pian Feng saiu. Ele pediu que ela telefonasse a cada dez minutos até Chao Ya voltar para casa, se ela não o fizesse, ele voltaria correndo para o apartamento julgando que algo errado havia acontecido. Em parte, aquele tratamento superprotetor parecia um pouco desnecessário, mas quando pensava na sua clara tentativa de assassinato entendia a reação dos amigos.

Contudo, por mais que a questão merecesse atenção e lhe deixasse inquieta, naquele dia ela não queria pensar nisso. Aquele dia era apenas de Peng Peng e Yan Da se permitiria sofrê-lo como todos os anos, era a única coisa que podia fazer para apaziguar sua culpa pelo que acontecera. Acomodou-se na cama e abriu a gaveta do criado mudo tirando uma caixa de madeira trabalhada, seu nome estava gravado na tampa. Ela ainda lembrava como a conseguira.

Nove anos atrás

Yan Da não estava feliz com a proximidade do seu aniversário de dezessete anos. Odiava aniversários porque lhe faziam lembrar a sua mãe. Desde que Meng Xi Yu deixara aquele mundo, tudo começou a dar errado para Yan Da, seu pai passou a tratá-la com mais indiferença, Shuo Gang se tornou se limites e mesmo Hu Bing, seu único aliado além da mãe, casou-se e foi embora deixando-a sozinha.

Huo Yi sequer lembrava que tinha uma filha, muito menos que esta estaria se tornando uma jovem adulta dentro de um ano. Mas certamente Shuo Gang não perderia a chance de tornar o dia dela insuportável. Se ao menos ela tivesse um lugar para se esconder, mas ele sabia bem onde ela gostava de ir, ainda mais quando tentava fugir dele, então todos os seus esconderijos eram óbvios.

Ela saíra da sala da sua orientadora a alguns minutos atrás. A professora mostrara-se preocupada com o comportamento dela e a repentina queda de suas notas. Yan Da sempre se sentia deprimida nos dias que antecediam seu aniversário, esperando as brincadeiras de mau gosto do irmão mais velho e o descaso completo do pai, sendo deixada no fim do dia com a lembrança do sorriso caloroso da mãe e do modo como ela costumava fazer seu dia ser especial. Sua professora tinha razão em se sentir preocupada, era o último ano do ensino médio, se Yan Da desejava cursar uma boa faculdade não podia ter manchas no seu currículo escolar — notas baixas e antissocialidade não eram muito recomendáveis.

Mas o que ela podia fazer? Temia conquistar amigos e torna-los um alvo de Shuo Gang. A única pessoa que parecia não entender aquele tipo de perigo era Peng Yan. Soltando uma lufada de ar, Yan Da sentou em um dos bancos no pátio externo da escola, sob uma bela ameixeira cujas flores esbranquiçadas exalavam um aroma agradável no ar. Fechando os olhos, ela se permitiu esquecer o dia seguinte e o que viria com ele. Quando os abriu novamente, havia uma delicada caixa de madeira diante dos seu rosto, os ideogramas do seu nome talhados com elegância na tampa. Yan Da inclinou a cabeça para trás a fim de ver quem era e, como esperava, Peng Peng estava com um sorriso radiante atrás dela.

— Vamos lá, não é tão ruim ter 17 anos, você já é elegível para namorar um cara idiota nessa idade. — Disse ele sentando ao lado dela.

— O que acha que está fazendo? — Yan Da franziu o cenho tentando parecer irritada.

— Comemorando seu aniversário? — Ele ergueu a sobrancelha, meio confuso. — Sim, sim, eu sei que você não gosta, mas esse ano vai ser diferente, eu prometo.

— Você vai mandar Shuo Gang num programa espacial e explodir a nave dele no meio do caminho? — Fez uma careta. — Por que, fora isso não tem como fugir dele amanhã, todos os meus esconderijos não são mais secretos.

— Exato, por isso vamos para o meu! — Declarou, animado. — Já tenho tudo pronto, a única coisa que você precisa é trazer uma roupa extra e, claro, não faltar a aula.

Ela estreitou os olhos para ele, Peng Peng era sempre assim, não tinha medo de nada e vivia sempre com positividade, mesmo tendo enfrentado uma vida muito difícil. Talvez aquele fosse o segredo, as pessoas que mais sofriam eram as que mais conseguiam ser felizes por valorizar cada sorriso e momento de alegria. Era uma das coisas que mais amava nele, Peng Peng lhe lembrava de encarar a vida com mais positividade, ele lhe dava uma razão para acordar todos os dias e agradecer por isso.

Porque ele existia.

Porque estava na sua vida.

A lágrima caiu sobre a tampa e apenas aí Yan Da se deu conta que chorava. Sentia uma saudade tão profunda de Peng Peng, mais parecia uma parte dentro dela faltando, vazia, incapaz de ser preenchida novamente. Mas pior era a culpa corroendo sua alma, a certeza devastadora de ser a causa da morte dele, não fosse sua amiga, Peng Peng nunca teria se tornado um alvo, nunca seria considerado um modo de atingi-la. Não fosse por ser amigo dela, ele nunca teria tido aquele destino tão cruel.

Yan Da se odiava.

Nunca devia ter permitido a aproximação dele. Tinha de ter sido firme desde o começo e impedido que ele conquistasse sua confiança, seu afeto, sua admiração, sua simpatia. Deveria tê-lo mantido longe como sempre manteve todo mundo. Assim nenhum dos dois jamais se machucaria.

Abrindo a caixinha, ela tirou os resquícios dos vários momentos ao lado dele. As fotos do seu último aniversário ao lado dele e do ritual que Shuo Gang nunca descobriu, o canhoto dos ingressos da sua primeira ida ao cinema juntos. Fotos do primeiro show do EXO para o qual ele a levou — bem no lançamento do Overdose extended play — ainda que ela não gostasse da banda na época, mas, segundo ele, "adolescentes devem ouvir outros adolescentes". Mas logo ela parou de ouvir a banda quando os membros chineses começaram a sair. Tudo dentro daquela caixinha, incluindo as coisas que ela não tirara, eram uma prova para si mesma que Peng Peng não fora uma criação da sua mente solitária, que ele havia existido.

Mais um ano havia se passado, as memórias se tornavam nebulosas, Yan Da se dava conta que se recordava apenas vagamente do timbre da voz dele, da cor dos seus olhos, do calor da sua mão, da música da sua risada. Tudo ia evanescendo, menos a dor pungente no seu peito. A lembrança acusatória do último dia de Peng Peng naquele mundo. Ela desejava morrer também, no fundo do seu coração, a vontade de segui-lo ainda existia, as longas semanas de terapia não foram capazes de apaga-la.

Ela podia sentir. Estava ali. A escuridão. Aquela força crescendo dentro dela, contra a qual ela lutara por anos, fingindo que não estava lá. Mas Yan Da estava cansada, ela queria desistir, ceder a ela, aceita-la como parte de si. Não parecia fazer sentido continuar lutando, fugindo, para que ela continuava existindo? Peng Peng fora tirado dela, seu pai não se importava, Shuo Gang fazia tudo para destruí-la. Tudo tocado pelos seus dedos morria. Tudo amado por ela tinha fim. Ela não queria continuar vivendo naquele mundo sombrio.

Dizia para si mesma que havia Chao Ya, Pian Feng e agora também Huang Tuo e Ying Kong Shi. Antes de deixar o hospital, o médico havia passado no quarto dela em um momento no qual Shi não estava presente. Ele segurou a mão dela com carinho e lhe ofertou um daqueles sorrisos brilhantes.

— Espero que a senhorita fique bem de agora em diante, só quero vê-la no hospital para uma visita de rotina, entendido? — Yan Da assentiu e ele deu um tapinha leve na mão dela. — Pode me ligar se precisar de qualquer coisa, somos amigos agora, afinal, não é mesmo? A senhorita me aturou por tempo demais para se livrar de mim com facilidade, hum?

Uma risada insana escapou pela sua boca enquanto as lágrimas continuavam escorrendo. Finalmente o céu do lado de fora decidiu juntar-se a ela no pranto desesperador e o cinza chumbo cobriu o firmamento com raios fortes e trovões tão altos que parecia o centro da terra se partindo. Grossas gotas espancavam o vidro da janela, Yan Da pensou no médico, em Shi e nos seus amigos. Eles acreditavam nela, estavam ao seu lado, mas não haviam sido testemunhas do que os olhos dela haviam visto. De todo modo, aquela vida sombria era seu purgatório, a punição que merecia pela morte de Peng Peng. Ela não se importava com a morte ou o que fosse.

Não havia muito dela para salvar, de todo modo.

※ ※ ※

Chao Ya permitiu que uma lágrima escorresse pelo seu rosto enquanto olhava a chuva violenta pelo vidro da janela de sua cabine privativa no café. Poucas vezes em sua vida sentira tanto medo de si mesma. Por que era sempre tão difícil tomar decisões?

Sentia saudade da sua casa, mesmo que fosse um castelo de ilusões, era onde ela se lembrava de ter crescido, onde estavam os seus amigos, onde conhecera Pian Feng nos ecos de uma guerra que despertava. Fora onde oficializara o noivado com Liao Jian e onde aprendeu os primeiros acordes da cítara.

Tinha saudade da música que preenchia o ar e podia ser ouvida mesmo de longas distâncias, da aura poderosa e protetiva que envolvia toda a tribo acolhendo as pequenas criaturas em seu seio sem distinção. O cheiro suave e constante de uma primavera infinita. Saudade de cada momento guardado no seu coração e daqueles que foi incapaz de viver.

※ ※ ※

Com muita dificuldade, Shi estacionou o carro diante do prédio da ZhangYing, um funcionário veio até ele e abriu a porta, mas foi alvejado com um tiro que atravessou sua garganta, o sangue esguichou no vidro do carro deixando o jovem herdeiro em choque, ele abriu a porta para ver não um buraco de bala, mas uma flecha cravada na garganta do homem em agonia. Olhando em volta, Shi buscava o agressor enquanto as pessoas na frente da empresa entravam em pânico, uma segunda flecha cantou no ar e atingiu o peito de um segurança que vinha na direção dele.

Shi ficou paralisado, sem saber se corria ou permanecia no lugar, o som de vidro quebrando anunciou uma flecha contra seu carro, ele se abaixou aterrorizado e sem entender o que estava acontecendo. Seriam as mesmas pessoas que tentaram matar Yan Da? O alarme do seu carro disparou ressoando um som agudo no local. Outro veículo veio e bateu com força contra seu carro afastando-o metros longe, depois evadiu do local, Shi rolou para o lado, confuso e com medo, qualquer pessoa que se aproximasse dele era alvejada com flechadas, um banho de sangue se formava à sua volta, os olhos esgazeados passeavam pelo local em busca do assassino, mas era incapaz de vê-lo. Ele se arrastou encostando-se em uma parede.

Xiǎoxīn!* — Alguém gritou e segurou no ar, bem diante do seu rosto, uma flecha que estava prestes a atingi-lo. Chocado, ele ergueu o olhar para ver seu salvador.

— Yue xiaojie?

Yue Shen estava com a mesma expressão impassível de sempre, mas emanava força em cada movimento. Ela lançou um único olhar em volta do prédio e quebrou a flecha ao meio com uma só mão. Ajudando Shi a levantar, sua voz soou autoritária e fria quando disse apenas:

— Venha comigo, depressa.

Ele não protestou. Ela colocou-o na frente e caminhou bem atrás dele, escoltando-o para dentro da empresa. Shi percebeu que ela não usava as elegantes roupas com as quais a conhecera na ocasião de sua reunião de negócios, agora Yue Shen vestia roupas pretas simples sob um sobretudo da mesma cor que descia até a dobra dos joelhos. Andava com firmeza e não disse uma única palavra no percurso até o elevador.

— Obrigado. — Shi pronunciou com a voz trêmula.

— Não por isso. Seu irmão está na empresa? — Ela permanecia tranquila como se não acabasse de sair de um... como se chamava um tiroteio de flechas?

— N-não sei... — Balbuciou. Baixando a cabeça, pensou consigo mesmo "Quem ainda usa flechas hoje em dia?"

— Ying xiansheng, mantenha-se dentro do perímetro da empresa, não saia sozinho e certifique-se de que conhece cada pequena pessoa que se aproximar do senhor.

— Yue xiaojie, o que está acontecendo?

— Isso não está óbvio? — Ela lhe lançou um olhar gélido. — Alguém tentou matá-lo.

— A senhorita está aqui para uma reunião com Ka Suo?

— Ouça bem, Ying xiansheng, porque só vou dizer isso uma vez, estou aqui para garantir que o senhor esteja sem buracos e com todos os ossos no lugar quando o fim do dia chegar, por isso facilite o meu trabalho e siga as orientações.

— Você não é do ramo da hotelaria?

Minha família é do ramo da hotelaria, eu nunca disse que seguiria os passos de nenhum deles. — Retrucou. — Seu irmão me contratou para manter a sua segurança, me mantive longe enquanto o senhor estava seguro, mas agora isso não é mais o caso, então colabore.

Shi estava estupefato. Ka Suo contratara um guarda-costas pra ele? Não que subestimasse as mulheres, mas quando viu Yue Shen pela primeira vez, mesmo com a aura intimidadora, ele nunca imaginaria que ela fosse uma guarda-costas — tanto quanto não imaginava alguém com coragem suficiente para contrariá-la. As portas do elevador abriram e ela o levou para a sua sala, inspecionou com cuidado todo o cômodo e, ao julgá-lo seguro, saiu com a promessa de que veria Ka Suo e retornaria em poucos minutos. Até lá, Shi deveria permanecer dentro da sala.

Uma onda de enjoo o abateu. O que no mundo está acontecendo?! Pegou o celular e ligou para Yan Da. Caixa postal. Estava prestes a usar a rediscagem quando veio a dor. Forte e violenta no seu peito. Shi levou a mão ao peito numa falha tentativa de abrandar, as imagens vieram com força na sua mente tirando-o da realidade.

Yan Da.

Neve.

Sangue.

Ele não sabia de onde vinha aquela sensação devastadora oprimindo o seu coração ao ponto do ar se tornar insuficiente. As lágrimas nublavam sua visão, algo apertava sua garganta. Shi caiu ajoelhado sem saber lidar com aqueles sentimentos conturbados, nunca antes fora acometido por nada parecido. Lembrava-se de alguém, desejava alguém, mas não conseguia alcançar. Suas unhas cravaram-se nas palmas enquanto ele compreendia que aquele desejo incontrolável e aquela dor opressora eram parte de algo que até então ele desconhecia.

Saudade.

Mas como se sentia saudade de alguém cuja memória era uma névoa no seucoração?

*Tradução do poema 春曉 [Alvorecer Primaveril] do autor Meng Haoran [孟浩然] — (689-740).

*Qing Ming [清明] — é um tradicional festival chinês para reverência aos mortos, realizado no início do mês de abril (dia 4). É também conhecido como o dia da limpeza dos túmulos.

*Xiǎoxīn [小心] — Cuidado