Love as Sakura | 爱如樱

17 第15章 Aproximação


Chao Ya atravessou as portas giratórias da ZhangYing. Estava indo embora após ser informada que Ka Suo havia saído há pouco tempo. Quando alcançou a calçada para esperar que seu carro fosse trazido, Liao Jian apareceu trajando um terno italiano sob medida e uma maleta da Vuitton. Ele era um homem corpulento e alto que poderia parecer intimidado à primeira vista, mas ela conhecia bem seu coração gentil e seu afiado senso de justiça.

Ele parou a alguns passos dela, os dois pareciam desconfortáveis na presença um do outro sem ter mais ninguém por perto para desviar a atenção. Ainda não haviam tido tempo de conversar, ela havia sido colocada ao lado de Pian Feng e imaginava que Ka Suo tivesse suas razões para aquela escolha.

— Veio ver o senhor Zhang? — Indagou ela com um sorriso discreto.

— Ah, sim, tenho o resultado de algo que ele me pediu. — Respondeu ele.

— Ele não está. — Informou. — A secretária disse que não sabe quando ele saiu, mas parece já ter algum tempo.

— Oh, nesse caso melhor voltar então.

Ele a cumprimentou com um aceno e fez menção de ir embora, mas acabou virando na direção dela de novo.

— Você quer tomar um café?

Os dois usaram o carro de Chao Ya que chegara pouco depois que Liao Jian fizera aquela pergunta. Durante o trajeto até a cafeteria nenhum dos dois disse nada, havia muitas perguntas pairando no ar e as coisas não ditas era como uma parede entre eles. No passado, Chao Ya havia feito sua escolha e arcara com as consequências da mesma, mas agora tudo parecia tão frágil e sem importância, não havia sequer a certeza de um futuro com escolhas a serem feitas.

Ela estacionou na cafeteria que costumava frequentar, afastada do centro por causa da sua popularidade, mas aconchegante e com um bom serviço. O lugar era decorado no estilo dos anos 20, as cadeiras revestidas de couro vermelho com toalhas de linho bege, uma máquina de vinil no fundo tocando alguma música que Chao Ya não reconheceu de imediato, paredes decoradas com pôsteres antigos e uma cristaleira exibindo alguns itens que só podiam ser vistos em museus e fotos de livro de história.

Um garçom os guiou até uma mesa discreta nos fundos, por ser uma frequentadora assídua do lugar, Chao Ya já não precisava mais pedir por discrição e anonimato. Liao Jian aprovou o local com um aceno de cabeça discreto enquanto observava cada detalhe de uma época que não viveu. Era um pouco estranho estar ali, de todos eles, ele era um dos que não conseguia chamar aquele mundo de lar. Sentia falta de casa, dos campos nevados e homens prontos para a batalha, de correr com cavalos pelas montanhas e da sopa de barriga de porco que sua irmã fazia.

Falta da vida que nunca lhe pertenceu.

— Não sei se conseguiria sobreviver em um mundo sem torta de chocolate. — Comentou Chao Ya tirando-o dos seus devaneios. — Levarei uma fatia para a princesa.

— Desde que cheguei aqui ainda não consigo ver esse lugar como uma casa.

— Dado o nosso estado antes de chegar até aqui, bem, posso dizer que estamos melhores agora. — Ela sorriu.

— Chao Ya, quando vamos conversar de verdade sobre as coisas entre nós?

A expressão dela se tornou séria.

— Por que precisamos falar sobre isso? — Quis saber. — Tudo está no passado. Não temos mais uma família para nos empurrar para um compromisso arranjado, nossa lealdade é para com sua majestade e as altezas. Mal sabemos se vamos conseguir continuar aqui.

Liao Jian ficou em silêncio enquanto contemplava o rosto irritado de Chao Ya. No passado, era certo que as famílias de ambos concordaram em um compromisso e, durante muito tempo, os dois não concordaram com a ideia, ela por estar apaixonada por Pian Feng, seu melhor amigo, ele por não desejar se casar ainda. Contudo, a convivência entre os dois, com o afastamento de Pian Feng, culminou em um sentimento sincero de amizade que evoluiu para amor. Liao Jian tinha esperança de construir um futuro ao lado da herdeira da tribo de música xamânica, aprendera a amar cada detalhe de Chao Ya e era-lhe muito doloroso ouvi-la dizer que toda a história que construíram estava no passado.

— Você ainda tem sentimentos por ele, é isso? — Quis saber. — Sua majestade os colocou na mesma tarefa juntos e você descobriu que o ama mais que a mim?

— Liao Jian, isso não tem nada a ver com Pian Feng. — Ela lhe direcionou um olhar duro. — Você não vê? Nós somos sombras de um passado remoto, a qualquer momento podemos desaparecer tão depressa quanto ressurgimos.

— E se der certo? — Sua voz tinha uma nota de desespero. — Se pudermos ficar, o que acontece?

Chao Ya suspirou, recostando-se na cadeira. Ela não negava que nutria sentimentos por Liao Jian, toda a história que construíram juntos e os sentimentos que gradualmente cresceram em seus corações, ainda que estivessem enterrados em um passado que parecia demasiado distante, vivia em seu coração e sua memória. Contudo, também não negava que carregava em seu coração um afeto por Pian Feng e isso ainda não estava muito claro, ela não podia mesurar seus sentimentos. A verdade era que Chao Ya tinha medo. Desde que chegara àquela realidade encarava tudo como uma nova chance, ainda que seu futuro fosse incerto, queria abraçar aquela oportunidade e focar em si mesma, em construir um futuro que não dependesse de outrem, mas do seu próprio esforço e espaço. No momento, focava-se em cuidar da princesa, amolecer seu coração para resolver as pendências de uma vida que ainda mantinha cativa na mágoa, na solidão e no medo. Mas se tudo aquilo acabasse e ela tivesse a chance de continuar existindo, não queria mais se arrepender ao olhar para trás, deixaria aquele passado de lutas e perdas enterrado junto com a cidade Ren da Neve.

— Se der certo — ela olhou para Liao Jian — então veremos se o que sentimos é nosso ou resquício de uma vida enterrada sob a neve de uma cidade que nunca existiu.

※ ※ ※

Lan Shang olhou o vitral colorido onde era apresentado o nascimento de Vênus de Botticelli. Observando com um pouco mais de atenção, julgou que o vitral não condizia muito com o movimento renascentista uma vez que as ondulações do vidro colorido deformavam um pouco os traços teoricamente perfeitos da musa do pintor, mas de longe, o aspecto caleidoscópio que produzia refletindo a luz solar, era bonito.

Nada mais na enorme sala ostentava uma beleza que se sobressaísse como o vitral. As paredes vermelhas com quadros enfileirados que iam do romantismo ao impressionismo — e cujos autores ela desconhecia — lhe pareciam enfadonhas, tanto quanto os móveis de madeira nobre. À frente do vitral, uma grande mesa antiga estava posicionada, era um móvel tão bem conservado que parecia novo, uma estante repleta de livros ocupava a parede direita ao lado da mesa, perto dela um vaso de cerâmica exibia uma bonita planta.

A alguns passos da mesa, um tapete persa estendia-se no chão e sobre ele um conjunto de sofás de couro com almofadas vermelhas, a mesa de centro com algumas revistas de moda e negócios, uma poltrona reclinável de couro e duas luminárias de pé. Ao lado da porta, um aparador exibia potes de biscoito, bala e uma garrafa térmica. Um pequeno conjunto de cerâmica chinesa datado da dinastia Zhou era exibido em uma cristaleira e o cabide de casacos do outro lado da porta finalizava a decoração da sala.

— Você tem o que eu pedi? — A voz vinda da pessoa atrás da mesa, cuja cadeira estava virada para o vitral e impedia Lan Shang de ver seu rosto, soou seca.

— Ainda não.

— Como espera se casar com Ka Suo se não consegue nem mesmo cumprir uma tarefa tão simples? — As palavras duras seguiram-se do som de algo batendo no chão de madeira. — Sabe o peso e as responsabilidades de uma dama da posição que você ocupará ao lado dele?

Sim, eu já vivi uma posição muito pior. Pensou ela.

— Sinto muito. — Desculpou-se em tom servil.

— Se desculpar não muda as coisas, não é mesmo? — O tom grave e incisivo fez Lan Shang se encolher. — Vá agora, traga o que pedi.

Ela fez uma reverência e deixou o cômodo sentindo uma espécie singular de medo, mas era tarde demais para refazer suas escolhas. Atravessando o corredor encarpetado, a sereia permitiu que uma lágrima solitária escorresse pelo seu rosto, os saltos provocavam um som surdo conforme batiam no carpete vermelho, ela olhou para trás outra vez como se esperasse estar sendo seguida, mas não havia ninguém.

Lan Shang nunca via o rosto daquela pessoa, mas tinha a impressão de reconhecer o tom da sua voz. Contudo, era incapaz de lembrar onde já a tinha ouvido antes, sempre que deixava a ostentosa sala parecia que suas memórias do que acontecera lá dentro reiniciavam. Não sabia em que tinha se metido, mas não era bom e ela não podia mais voltar atrás.

※ ※ ※

Yan Da...

A voz de Shi soava como um eco no vazio, mas quando Yan Da acordou já era começo de tarde e Ying Kong Shi havia saído. Ao seu lado, Chao Ya parecia sorumbática enquanto olhava para a parede como se não estivesse naquela realidade. Olhando em volta como se pudesse encontrá-lo em algum lugar no quarto, ela sentiu um buraco abrindo no seu coração, ainda lembrava as palavras dele antes de adormecer, mas não tinha certeza de como deveria encará-las. Ela já havia perdido o coração uma vez, não sabia se conseguiria reergue-lo mais uma vez.

Se fechasse os olhos naquele momento poderia visualizá-lo com nitidez na sua mente, mas sempre que o fazia sentia uma dor aguda e afastava o pensamento. Era muito paradoxal sentir-se atraída por alguém que lhe causava um temor tão profundo e ao mesmo tempo que sentia uma angústia intensa, Yan Da não conseguia ficar muito tempo longe dele. Havia se acostumado com a sua presença, mesmo que as conversas entre eles fossem parcas, ela apreciava sua companhia e tocava-lhe o coração a forma como ele cuidava dela, sempre com tanta dedicação e carinho.

Virando o rosto novamente para Chao Ya — que ainda não havia se dado conta do fato de ela ter acordado — Yan Da sentiu-se inquieta, como uma sensação de déjà vu, vislumbrou a amiga com cabelos compridos decorados com delicadas flores, um hanfu de cores claras esvoaçando no vento glacial, a cítara acomodada em seus braços enquanto as notas dançavam no ar, uma lágrima descia pelo seu rosto quebrando-se no chão de gelo, partindo-se como seu coração. Num instante, a neve pálida a sua volta vestia-se de vermelho vivo, corpos espalhavam-se por todos os lados, o peito da musicista abria-se em uma ferida chamuscada tingindo de rubro e negro o tecido delicado, a música cessava para sempre e nunca mais.

A cabeça de Yan Da parecia estar se partindo ao meio, um zumbido agudo e crescente a cercava, algo quente escorreu pelo seu nariz e ela sentiu a boca encher-se de um gosto ferroso e amargo, olhando para baixo um bocado de sangue caiu no lençol branco do hospital, ela levou as duas mãos à cabeça incapaz de emitir qualquer som, alheia até mesmo a agulha em sua mão direita. Mas o som não diminuía, tornava-se mais agudo, mais alto, mais doloroso. A sensação dos tímpanos explodindo aumentava a frequência cardíaca engolindo-a em um torpor catatônico.

— Meng xiaojie? O que está acontecendo? Meng xiaojie?

Shi apressou-se em apertar o botão da emergência enquanto segurava com delicadeza os braços de Yan Da e tentava fazê-la olhar para ele, um fio de sangue escorria pelo seu nariz, o queixo gotejava o líquido rubro e viscoso, o coração dele batia agitado sem saber o que estava acontecendo, ela não parecia ouvi-lo, como se estivesse presa em algum lugar distante na sua mente. Não importava o quanto ele chamasse, ela não atendia.

Huang Tuo chegou poucos minutos depois que ele apertou o botão acompanhado de duas enfermeiras, ele se precipitou até Yan Da tentando fazê-la reagir, mas era inútil. Chao Ya apareceu pouco depois e levou um susto quando viu a cena, ela se juntou a Shi que contou o que havia acontecido, a expressão séria de Huang Tuo não ajudava nenhum deles a se acalmar, o médico mandou que todos saíssem, incluindo as enfermeiras, Shi e Chao Ya ficaram no corredor, envoltos em medo e tensão. Ele não conseguia entender o que estava acontecendo, seria o mesmo problema que ela tivera da outra vez e quase a levara à morte?

Antes que pudesse prever ou impedir, Chao Ya voltou para o quarto e fechou a porta impedindo-o de entrar, ouviu Huang Tuo murmurar alguma coisa, então uma música suave veio de lá de dentro. Shi ficou confuso, assustado, queria entrar e saber o que estava havendo, as enfermeiras se entreolharam tão desnorteadas quanto ele, Pian Feng chegou alguns minutos depois e reconheceu a música que vinha do quarto, sua expressão se tornou grave, ele olhou para Shi e perguntou o que havia acontecido, ao que o jovem príncipe respondeu de pronto vendo o rosto dele se converter em uma máscara tétrica. Em algum lugar da sua mente, Shi reconheceu as notas que vinham do quarto de Yan Da, mas era incapaz de identificar onde as ouvira. Se Huang Tuo permitia a estada da cantora dentro do quarto, aquele som deveria estar surtindo algum efeito positivo.

Chao Ya usou tanta energia para tocar as notas da cítara que seus dedos sangraram. A energia que rodeava Yan Da era tão forte que a oprimia. Huang Tuo tentava equilibrar a energia interna da princesa do fogo e, ao contrário da musicista, parecia bem melhor. A cantora colocou uma alta dose de energia espiritual nas notas e, aliado ao trabalho do médico, Yan da ia se estabilizando devagar. Huang Tuo colocou dois dedos na testa da princesa quando notou que ela recobrava a noção da realidade e, em poucos segundos, ela adormeceu.

A musicista largou o instrumento besuntado de sangue e caiu sem forças no chão, o médico correu até ela e, com um movimento de mão, Chao Ya fez o instrumento desaparecer. Huang Tuo segurou a mão dela com delicadeza e usou sua magia para curar a pele dilacerada, mas a cantora estava esgotada, ele a ajudou a sentar e abriu a porta para encarar um Shi aturdido, um Pian Feng comiserado e duas enfermeiras curiosas.

— Pian Feng, leve Chao Ya para casa. — Ordenou ele.

O agente da cantora se apressou em entrar e, tomando-a nos braços mesmo sob os protestos da mesma, saiu em disparada pelo corredor. Antes que Shi pudesse perguntar como estava o estado de Yan Da, o médico orientou que uma das enfermeiras trouxesse lençóis limpos e dispensou a outra mandando o jovem príncipe entrar. Shi foi direto até a cama da princesa e inspecionou-a, além da languidez, ela parecia normal. Adormecida em sono profundo como se nunca tivesse acontecido nada ruim. O médico, por sua vez, mostrava sinais de cansaço severo e sua expressão normalmente iluminada mostrava conspícuos sinais de lividez.

— Huang Tuo, diga a verdade para mim, o que está acontecendo com ela?

— Não entre em pânico, ela está bem. — Ele forçou um sorriso. — Vou fazer alguns exames para ver como estão os ferimentos internos, mas por hora podemos dizer apenas que a mente dela está instável, quando mais tranquila ela se mantiver melhor será.

Shi virou o rosto na direção da mulher inconsciente, contra que espécie de fantasma ela estava lutando? Ele conseguiria lutar ao lado dela? As perguntas rondavam sua mente agitada fazendo-o pender entre o desespero e a apreensão.

— Vamos lá, pare de fazer essa cara, parece que eu acabei de sentencia-la à morte! — Censurou o médico ao ver a expressão estranha do amigo. — Fique aqui com ela, não deve demorar para que acorde, preciso repor minhas energias.

Sem que Shi pudesse ao menos protestar, o médico deu-lhe um tapinha no ombro e deixou o quarto. Ele deu a volta na cama e segurou a mão de Yan Da contemplando seu sono, uma lágrima quente escorreu pela têmpora dela e Shi se perguntou com o que ela estava sonhando. Talvez estivesse vendo Peng Peng em seus sonhos dolorosos e cheios de saudade. Ele não pôde deixar de sentir certo incômodo quando avaliou essa possibilidade.

"Não é possível, Ying Kong Shi, você não pode estar bebendo vinagre* por alguém que conheceu a algumas semanas!"

Ele meneou a cabeça afastando o pensamento. Muitas perguntas sem resposta se acumulavam na sua mente deixando-o cada vez mais ansioso. O que havia acontecido à Chao Ya? Por que Huang Tuo parecia tão esgotado? Que tipo de problemas Yan Da estava enfrentando para sofrer aquele tipo de reação? E, sobretudo, tocando a mão dela agora, por que não via mais nada? Era em momentos como esse que normalmente os sonhos lúcidos vinham, mas não havia nada.

— O que, pelos céus, está acontecendo? — Murmurou para si mesmo.

※ ※ ※

— Falsa?

Ka Suo segurou os documentos que Liao Jian lhe oferecera e lançou um olhar confuso para Xing Jiu.

— Sim, meu rei. O proprietário da placa não pode ser encontrado em nenhum local do país, os detetives acreditam que o carro pode ser roubado ou que a placa foi alterada para a de outro país. — Explicou o advogado.

— Como um veículo assim fica circulando pela cidade sem que ninguém o pare?

— Os policiais de trânsito não prestam atenção a menos que algo suspeito surja.

— Voltamos à estaca zero. — Largou os papéis sobre a mesa de centro, frustrado. — Não temos como encontrar a mulher atrás desse maldito volante!

— Nenhum comprador foi identificado por aqui, eles estão trabalhando nas demais cidades, mas é um processo lento.

— Daqui para lá Lian Ji pode acabar com metade desse mundo. — Ele apertou a ponte do nariz tentando manter a calma.

— Não podemos nos desesperar, meu rei. — Orientou Xing Jiu. — Isso só nos impedirá de enxergar o que é realmente importante. Há outras formas de Lian Ji se mostrar, vou procurar nos livros antigos um modo de identifica-la.

Ka Suo fechou as mãos em punho sentindo a onda de poder circular pelo seu corpo, foi com muito esforço que não congelou nada diante dos dois companheiros. Mais uma vez, sentia-se impotente, só que dessa vez não havia espaço para falhas, ele precisava proteger Shi a qualquer preço ou nenhum deles poderia ter esperanças de um futuro.

※ ※ ※

Pian Feng colocou Chao Ya no banco do passageiro e prendeu o cinto de segurança, a cantora havia parado de protestar quando se deu conta que o agente não lhe dava ouvidos. A tez lívida da musicista deixava-o tão desconfortável que ele sequer conseguia olhar para ela. Durante o caminho até o apartamento de Yan Da nenhum deles disse coisa alguma, Pian Feng sabia que Chao Ya havia usado pelo menos um terço da sua energia espiritual para trazer a mente da princesa do fogo de volta usando a música dos espíritos. Qualquer integrante da tribo de música xamânica precisava de uma preparação de pelo menos dois meses antes de executar a peça, especialmente se fosse usar energia para algum fim medicinal.

Ele estava irritado. Ainda que houvesse sido por uma causa necessária, não podia deixar de considerar imprudência por parte da cantora. Ao contrário de Huang Tuo, Yue Shen e Xing Jiu, ele, Chao Ya e Liao Jian não voltaram com todos os seus poderes restaurados, apenas uma parcela considerável que os forçava a ser cautelosos com o uso. Quando parava para pensar no risco que ela correra ao usar uma música tão poderosa com uma energia que ela praticamente não dispunha, todo seu corpo tencionava. Sabia que Chao Ya não era fraca, em seu auge ela conseguiu derrotar exércitos inteiros com algumas poucas notas, seu poder espiritual era o maior da tribo de música xamânica, mas esse tempo havia ficado para trás, precisavam ser prudentes agora.

Parando diante do condomínio, ele ajudou a cantora a sair do veículo e insistiu em carrega-la até o apartamento. Chao Ya estava esgotada demais para protestar e, no percurso, acabou cochilando um pouco. Pian Feng a colocou sobre a cama com cuidado esperando que Huang Tuo não demorasse a alcançá-los.

— O que acha que está fazendo? — Repreendeu-a. — Se quer morrer não precisa fazer da maneira mais difícil.

Gōngzhǔ... — Começou ela, com a voz fraca.

— Preocupe-se consigo mesma primeiro! — Brigou. — Huang Tuo podia lidar com o problema, por que, em nome dos céus, você precisava se meter?! Acalmar um espírito, ainda mais um inconsciente, como o da princesa com o seu nível espiritual no momento poderia te aniquilar!

— Pare de gritar, minha cabeça dói. — Protestou, fechando os olhos.

— Acha que Liao Jian faria diferente se soubesse disso? Talvez eu deva chama-lo para colocar de volta o juízo que fugiu da sua cabeça, quem sabe a ele você escute.

— Pian Feng... — Ela segurou a mão dele vendo que seus olhos enchiam de lágrimas. — Sinto muito, eu só...

— Esqueceu que não é mais a rainha da tribo de música xamânica. — Completou ele. — Chao Ya, precisamos proteger a princesa, mas temos de nos proteger primeiro para isso. Não estamos na linha de frente aqui, nossa época de guerrear com tudo que tínhamos acabou.

— Eu sei que em outros tempos Yan Da foi contra os seus para salvar a segunda alteza, mesmo agora ela continua sofrendo injustiças quando merecia a felicidade... não posso apenas virar as costas quando ela precisa de ajuda.

— Se você morrer será uma pessoa a menos para mantê-la a salvo, não se dá conta?!

— Ele está certo.

Pian Feng virou o rosto e Chao Ya olhou na direção da porta para ver Huang Tuo, ainda de jaleco, com um olhar grave maculando seu rosto sempre alegre e brilhante. A cantora soltou uma lufada de ar contendo a vontade de revirar os olhos, odiava ser tratada como uma donzela indefesa.

— Huang dì*, não dê corda para essa água mal humorada. — Reclamou.

— Aya, Chao jiě! — O médico se aproximou da cama com uma carranca infantil. — Ele está certo dessa vez, como não posso ficar do lado dele? Foi muita imprudência sua tocar a música dos espíritos!

— Se não conseguíssemos acalmá-la ela podia...

— Eu sei. — O médico sorriu tocando a mão dela. — Claro que eu não permitiria isso, seria difícil, mas conseguiria estabilizá-la.

— Conseguiu curá-la? — Pian Feng quis saber e Huang Tuo meneou a cabeça.

— Há feridas que nem mesmo eu posso curar. — Um sorriso triste formou-se em seus lábios. — Mas ela está bem. Eu trouxe algo que pode ajudar a retardar o avanço das memórias dela, se continuar assim ela pode acabar danificando sua alma. Encontre uma forma de ela tomar, consciente. Ainda que ela não saiba o que está bebendo, precisa querer ingerir por própria vontade ou não vai funcionar. Isso nos dará algum tempo a mais.

Ele começou a equilibrar a energia yin de Chao Ya, apesar de poder curá-la fisicamente, Huang Tuo não podia fazer muito pela energia que ela havia perdido, apenas Ka Suo seria capaz de repor. Conforme ele ia trabalhando, o rosto da musicista tomava um aspecto mais saudável e corado, acalmando o coração agitado de Pian Feng. Ka Suo chegou minutos depois, os três reunidos perceberam o semblante cansado de seu rei, mas nenhum deles se atreveu a perguntar o que o estava incomodando, o curso das coisas estava em progresso lento era normal que ele se preocupasse, mesmo para eles, cujo destino estava em pauta, a apreensão era real.

Mas não se podia forçar sentimentos.

Sob a supervisão severa de Huang Tuo, Ka Suo repôs a energia espiritual perdida de Chao Ya e lhe entregou o colar forjado por Xing Jiu destinado a Yan Da, o médico recomendou que a cantora descansasse pelos próximos dois dias.

※ ※ ※

— Você acha que um dia vamos conseguir fugir?

— Claro que sim! — Yan Da sorriu, animada. — Vou levar você para ver os quatro lagos sagrados.

— Yan Da, prometa que nunca vai esquecer de mim.

— Como eu poderia?

— Peng Peng...

Shi ergueu o rosto na direção da enferma quando ela começou a delirar em sonhos. Uma máscara de agonia torceu as feições suaves de Yan Da e ele apressou-se em tentar acordá-la.

— Meng xiaojie, acorde.

Após alguns minutos de insistência, Yan Da abriu os olhos assustada e encarou Shi, próximo demais a ela, seu coração batia rápido pelo medo e a tristeza, ela não notou as lágrimas caindo. Shi ficou paralisado por um momento, era como se seu coração batesse de novo depois de muito tempo, acelerando mais enquanto seus olhos estavam capturados pelos de Yan Da. A respiração agitada e falha de ambos se mesclava, ele sentia um desejo tão intenso de protegê-la e, ao mesmo tempo, era dominado pela sensação de impotência.

Instintivamente, seus dedos se moveram para o rosto dela e secaram as lágrimas que rolavam de seus belos e intensos olhos, a realidade foi sendo absorvida para um universo distante dali. Antes que ele pudesse prever, Yan Da se inclinou e encostou a cabeça contra seu corpo envolvendo os braços em volta dele, Shi sentou na cama ao lado dela e a abraçou com força permitindo que ela chorasse, dominado pela sensação de que aquele sentimento explodindo em seu peito já existia desde muito antes, suas mãos acariciavam os cabelos dela e o que ele mais queria era poder puxar toda aquela dor para si, ter o poder de impedir qualquer coisa no mundo de fazer Yan Da derramar mais uma lágrima.

Os dedos de Yan Da se prenderam com força na camisa dele enquanto ela soluçava. Baixinho, Shi murmurava que tudo ficaria bem, mas ela não se iludia mais com aquela promessa. Já perdera tanto e se sentia tão cansada. Tudo que queria era poder se perder naquele abraço, pelo menos por um momento se sentir segura, confiar que não estava mais exposta e vulnerável. Ela não se importou com as dores nas costelas ou com o que Shi pensaria a seu respeito e deixou para se preocupar com as perguntas dele depois, a única coisa que desejava naquele momento era acordar daquele pesadelo, voltar aos dias de sol em que podia correr no parque arborizado com Peng Peng, os dias em que sua vida não havia sido tragada pelo buraco negro da realidade.

Ela queria, desesperadamente, confiar com tudo de si em alguém.

Havia Chao Ya, é claro e Pian Feng, mas mesmo que eles fossem amigos a certo tempo, Yan Da não sentia que podia contar tudo a eles, não que tivesse algum temor de eles a traírem, mas tinha a incômoda sensação que ambos também escondiam algo dela. Não obstante, tampouco sentia que podia confiar em Shi, ainda que algo no fundo da sua mente lhe dissesse o contrário. Ela tinha medo. Sempre que fechava seus olhos eram os olhos deles, pintados de um intenso tom de anil, que a assombravam. A imagem dele continuava a povoar seus sonhos e pesadelos, como uma mensagem codificada do destino dizendo que ela encontrara o que procurava, sendo atraída para uma verdade escondida dentro de si e para a qual ele era a resposta.

Mas ela não estava pronta para abrir a caixa de Pandora.

Quando ela conseguiu recobrar um pouco a calma, Shi lhe ofereceu um copo com água e ajudou-a a se acomodar melhor na cama, com um lenço secou o rosto úmido dela e ajudou-a a disciplinar os cabelos. Por um longo tempo, Yan Da não disse nada e ele tampouco insistiu que ela falasse ou bombardeou-a de perguntas, algo pelo qual ela agradeceu no fundo do seu coração. Havia uma razão para a força que a empurrava na direção dele, desde o plano idiota do seu irmão mais velho até aqueles sucessivos encontros e a forma como ele sempre parecia estar perto quando ela precisava. Sentia que Shi queria algo dela, mas não era capaz de pensar no que.

— Obrigada. — Disse finalmente.

— Não fiz nada que mereça seu agradecimento, Meng xiaojie. — Ele sorriu. — Fico feliz em ajudá-la. Se posso fazer isso apenas lhe oferecendo conforto, não precisa pedir uma segunda vez.

— Ainda não entendo por que está fazendo tudo isso, você não precisa me ajudar.

— É onde entra a escolha, não preciso, mas quero. — Contrapôs. — Admito que há algo na senhorita que me intriga, mas não desejo nada além de poder ser seu amigo.

— Não tenho muita sorte com amigos... — Um sorriso amargo se formou no rosto dela. — Tenho medo que o senhor acabe tendo o mesmo destino que os outros que tentaram.

— A senhorita vai descobrir que eu sou bastante resiliente.

— Yan Da. — Disse ela.

— O quê? — Shi lançou-lhe um olhar confuso e surpreso.

— Pode me chamar de Yan Da. — Permitiu. — Me sinto uma velha encalhada quando você me chama de senhorita.

A risada sincera de Shi a divertiu, mas o lampejo de surpresa e incredulidade ainda remanescia no seu semblante. Era um passo um tanto ousado, talvez, mas ela realmente não gostava de ser chamada de senhorita — salvo pessoas muito estranhas ou ocasiões em que não tivesse escolha — e, de alguma forma, devia muito a ele.

Shi precisou de muito autocontrole para não levantar da cadeira e pular dando gritos dentro do quarto. Era um avanço realmente considerável ter permissão de chama-la pelo primeiro nome, isso o fazia sentir mais próximo a ela. Naquele momento ele era tomado pelo sentimento que tudo finalmente daria certo. Se ela era seu destino ele não sabia, mas estava disposto a reescrever a própria história para que ela fosse a personagem principal.

— Yan Da. — Disse ele com um sorriso tímido.

— Ying Kong Shi. — Sorriu ela se dando uma última chance de se preencher.

*Beber vinagre — Sentir ciúmes

*Dì [弟] — Só relembrando, é irmão mais novo. Aqui, Chao Ya usa como uma forma de relembrar que ela é mais velha que Huang Tuo, mas também como uma forma de carinho.