Love as Sakura | 爱如樱
18 第16章 Perdas e Ganhos
4 mil anos atrás
Yue Shen atravessou um dos largos campos cheios de corpos empunhando sua espada cuja lâmina gotejava sangue rubro. Suas botas não distinguiam o chão dos corpos mutilados dos soldados do fogo, um talho sangrava em seu rosto, mas sob o vento cortante e a fumaça asfixiante do campo de batalha ela parecia não sentir nada. Li Tian Ji estava a alguns metros a frente, não havia um só fio do seu cabelo escuro fora do lugar, ele movia as mãos com tédio enquanto atacava os soldados do gelo sem piedade ou esforço, depois da batalha contra Yuan Ji — a quem descobriu-se ser Lian Ji — ela nunca vira tamanho poder espiritual antes.
Claro que, como uma criação de Lian Ji, era de se esperar que ele fosse dotado de um poder extraordinário. Yue Shen não acreditara quando a cruel Lian Ji concedera a Ka Suo a chance de reaver o irmão, a noiva e a mulher que ele amava, naquela época, 150 anos atrás, ela o alertara que aquele era um plano ardiloso e ele precisava ficar atento, mas o bondoso rei do gelo tendia a acreditar que todos tinham um coração generoso como o dele, ali estava o resultado da sua inocência.
Chao Ya havia tombado junto com Die Che excluindo completamente a tribo de música xamânica. Yue Shen havia visto o sonho que fora deixado por um dos soldados do gelo antes de morrer a Ka Suo relatando as mortes delas. Ainda que não fosse muito próxima da musicista, ela tinha certa simpatia por ela e, sobretudo, pelo fato de estarem do mesmo lado. De algum modo, Chao Ya lhe lembrava um pouco sua irmã mais velha, Yue Zhao, que outrora estivera prometida em casamento à Huang Tuo. O contrato, contudo, fora cancelado por ela ao ver que o príncipe da tribo xamã não retribuía seus sentimentos, mas nutria um amor forte por Yue Shen que, sabendo dos sentimentos de Yue Zhao, o recusava.
Quando Yue Zhao foi atacada e ficou à beira da morte, Yue Shen se de conta que todo o seu esforço em dar as costas para a cura e se especializar em ataque e assassinato não serviriam de nada para ela uma vez que era incapaz de salvar a pessoa por quem fizera tais escolhas. Ainda que Huang Tuo tenha conseguido curá-la, Yue Zhao teve uma vida curta e nunca conheceu o sonhado amor além daquele sentimento unilateral pelo chefe da tribo xamã. As duas tribos tinham uma relação muito próxima, mesmo Huang Tuo sendo muito mais velho que ambas, no momento em que ele pôs os olhos no rosto de Yue Shen, Yue Zhao sabia que havia perdido a batalha.
E assim, morreu sozinha poucos anos depois.
Yue Shen era incapaz de se ressentir do rei da tribo xamã, mas tampouco conseguia aceitar os sentimentos dele — ou mesmo entendê-los. E apenas tarde demais pôde se dar conta que os retribuía.
Ela apertou o cabo da espada com força enquanto caminhava na direção do inimigo, em alguma parte de si, a guerreira sabia que não venceria, mas cumpriria seu destino no campo de batalha até o último minuto. Li Tian Ji virou os olhos dourados na sua direção e ela atacou, o ar tornando-se denso com o miasma que emanava de cada golpe, ele, no entanto, não foi atingido e, quando revidou, Yue Shen esperou uma morte que nunca veio, ao abrir os olhos percebeu o escudo dourado em torno de si, o poder de Li Tian Ji ricocheteou de volta para ele atirando-o muito longe. Surpresa, ela olhou para o lado e viu a imagem de Huang Tuo, imponente e brilhante, concentrado em manter a energia fluindo até ela.
Desde que o vira pela primeira vez, centenas de anos atrás, Yue Shen nunca o vira tão sério ou compenetrado daquela maneira. Ele era sempre sorridente, carismático, sociável, sua aura brilhante e divertida contagiava todos à sua volta. Em parte ela se fazia acreditar que a disparidade de suas naturezas era o que a fazia manter-se longe dele, mas no fundo sabia que só não queria admitir os sentimentos dentro do seu coração uma vez que a irmã também os tinha.
— Gànshénme?!* — Ela gritou irritada para o curandeiro que apenas sorriu. — Volte agora, essa luta não é sua!
— Você está errada de novo, criança. — Contrapôs. — Suas batalhas sempre serão minhas batalhas.
Antes que Yue Shen pudesse responder, Li Tian Ji voltou com o dobro de ira para eles, ela o atacou e Huang Tuo bloqueou o golpe na direção dela, fazendo-o ricochetear para o atacante novamente, contudo dessa vez ele desviou, a assassina estava ciente que o curandeiro usava todo o encantamento de cura nela e não se protegia, "Que idiota imprudente!" pensou enquanto corria na direção dele para impedir que o ataque de Li Tian Ji o afetasse, como imaginou, a proteção do curandeiro a protegeu e, com seu corpo, ela o protegeu de ser morto.
— Pare de cometer atos estúpidos e volte para sua majestade! — Bradou tentando se concentrar no seu oponente e manter a impassividade.
Yue Shen sabia que, no momento que Li Tian Ji soubesse que Huang Tuo era importante o usaria como alvo para que ela se distraísse. Passou os dedos pela lâmina da espada convocando todo o tipo de veneno que habitava o seu sangue e atacou, conseguiu acertar a criação de Lian Ji, mas não foi o bastante, apesar de ter se ferido, Li Tian Ji parecia não sentir qualquer tipo de dor ou demonstrava fraqueza, era uma verdadeira aberração.
Quanto mais ele tentava feri-la, mais seus golpes voltavam-se contra ele graças ao encanto de Huang Tuo — que ainda se recusava a ir embora. Yue Shen estava preocupada, não parecia ter muitas chances de vencer aquela batalha. Enviou um sinal para um dos guardas do gelo, com a ajuda de Ka Suo talvez tivesse melhor sorte. O rosto de Li Tian Ji continuava uma máscara de gelo e impiedade, antes que ela pudesse impedir, ele direcionou toda sua força contra o curandeiro, Huang Tuo foi atirado muito longe perdendo-se no firmamento.
— Huang Tuo!
Ela gritou, lágrimas quentes de desespero caindo pelo seu rosto, aquele curandeiro teimoso se foi com o mesmo sorriso brilhante nos lábios, como ele podia fazer aquilo com ela? Por quê? Yue Shen sentiu seu coração se partindo, o desespero agindo como o pior dos venenos que vivia no seu sangue, os ataques de Li Tian Ji continuavam ferozes, mas não lhe atingiam, o encanto permanecia como o último vestígio que Huang Tuo existiu naquela terra glacial. A dor de Yue Shen converteu-se em fúria, ela ergueu os olhos para Li Tian Ji e invocou os mil venenos que se acumularam nas palmas das suas mãos, ela passou a mão na lâmina da espada e começou a caminhar até ele.
O príncipe do fogo se defendeu das primeiras investidas, mas não contava que a ira deixaria Yue Shen tão poderosa, ela encontrou uma brecha na defesa dele e bem no momento que ia destruí-lo algo tirou-lhe a espada da mão, a arma voou alguns metros para o lado e, surpresa, a assassina percebeu que quem a impedira de matar seu inimigo era ninguém menos que Ka Suo. A confusão dominou sua mente, mas a palavra seguinte proferida do rei do gelo tiraram todas as suas dúvidas:
— Shi.
Shi wanzi? Yue Shen olhou novamente para o impiedoso Li Tian Ji se perguntando se Ka Suo não estaria sentindo tanta dor e culpa que passara a alucinar. Apesar do príncipe Shi não ter sido conhecido por sua popularidade entre o povo, ele era benevolente, de alguma forma Yue Shen podia entendê-lo, ela era boa em esconder o que sentia e conseguia imaginar que tipo de vida a segunda alteza do gelo devia levar para agir daquela maneira. Ao contrário dele, Li Tian Ji era frio, impiedoso, cruel. Não importava por qual ângulo olhasse, Ka Suo parecia louco em todos eles. Aquele monstro desumano tinha destruído a vida de Huang Tuo e tudo que ela queria era matá-lo.
Os dedos apertaram o cabo da espada com mais força, as lágrimas ainda caindo pelo seu rosto sem que pudesse conter, ela se pôs de pé pronta para perguntar a Ka Suo o que ele estava fazendo chamando aquele assassino de Shi quando, sem que nenhum deles esperasse, Li Tian Ji atacou o rei do gelo com ferocidade, um sorriso malévolo brincando no seu rosto. Mais soldados do exército do fogo se acumularam no local de modo que ela não pôde ajudar Ka Suo, enquanto estava ocupada lutando, o governante do gelo abriu um portal e puxou o assassino de Huang Tuo para outro lugar. Yue Shen estava dividida entre se defender ou se deixar atingir para se unir a Huang Tuo, uma fúria cega se juntava à dor que lhe destruía por dentro, com um grito alto e desesperado, ela expeliu uma grande quantidade de veneno para todos os lados atingindo os soldados desavisados que caíam em agonia e, logo, não emitiam mais nenhum som.
Seus olhos vasculhavam os céus em busca de algum sinal do curandeiro, mas não havia nada além da fumaça espessa que cobria o mundo de cinza, Yue Shen percorreu os vastos campos em busca do corpo de Huang Tuo, de qualquer sinal de que ele estava... vivo ou morto. Não saber era pior do que se confrontar com um cenário ruim. Mas não encontrou nada além de corpos de soldados do fogo e do gelo que dividiam o chão mesclado de sangue rubro e prateado. Ela gritou por ele, chamou seu nome até as cordas vocais não serem capazes de emitir mais qualquer som, mas não ouviu qualquer resposta.
"Yue Shen, me perdoe por não poder te proteger mais."
Caindo de joelhos, Yue Shen chorou como nunca antes, nem mesmo quando sua irmã morreu ela sentiu uma dor tão profunda. Os "e se" se confundiam com os "por quês" na sua mente e ela continuava repetindo o nome dele sem som, como um mantra, o encantamento dele vivo nela como uma lembrança acusadora de tudo que ela nunca se permitiu.
Yue Shen abriu os olhos sem conseguir respirar direito. Sentando-se na cama com algum esforço, olhou em volta pelo apartamento onde vivia, não havia sinal de corpos mutilados ou fumaça negra nos céus, só o ar condicionado que não a impedia de estar coberta de suor, os parcos móveis escuros e o painel de armas na parede. O coração dela batia com tanta força que, ela desconfiava, arrebentaria seu peito a qualquer momento. As lágrimas vertiam e por mais que ela tentasse recobrar seu autocontrole o nervosismo dentro de si era implacável.
— Luna. — Era a voz de Xing Jiu. — Eu sei que você é a mais forte de todos nós, por isso precisa se erguer, o rei precisa de você.
— É uma maldição... — Ela respondeu, os olhos presos no nada. — Ele me protegeu até o último momento, graças a isso não posso ser morta... — Um sorriso amargo arqueou-se em seus lábios. — Eu nem sequer posso me ferir... por que ele fez isso? Por que me condenou a viver?
— Huang Tuo não gostaria de ouvi-la falando desse jeito.
— Eu vou até Huan Xue Shan, preciso de uma lótus oculta, tenho que...
— Luna! — A voz de Xing Jiu soou mais severa, ele a segurou pelos ombros forçando-a a fitá-lo. — Tudo que você vai conseguir indo lá é ser morta por Lian Ji e colocando todo o esforço de Huang Tuo em vão!
— Você não entende? — Ela lhe lançou um olhar cortante. — É isso que eu quero. Quero ir para onde ele está.
A memória foi como a punhalada de misericórdia no peito de Yue Shen. Desde que chegara àquele mundo, ela não havia tido qualquer tipo de dor ou sentimentos amargos, a chance de um recomeço e a missão de proteger o príncipe Shi estava acima de qualquer outra coisa. Ela se limitava a ficar longe de Huang Tuo, não queria passar por aquela dor outra vez, sentir aquele desespero gelado percorrendo suas veias como nenhum dos venenos dentro dela era capaz de fazer. Sua mão fechou em punho contra o peito, ela bateu em si mesma com toda a força que tinha, mas a dor se recusava a ir embora.
Tropeçando, Yue Shen seguiu até o banheiro e tomou um banho gelado, a cabeça rodando em mil pensamentos e lembranças, colocou uma roupa preta confortável e os coldres com todas as armas que sempre levava consigo, prendeu os cabelos e finalizou com um sobretudo que mantinha as armas longe dos olhos curiosos. Como um ninja, ela se esgueirou para fora do apartamento e ganhou as ruas desertas, correndo como se sua vida dependesse disso. A noite estrelada brindou-a com uma lua cheia que espargia sua luz prateada como um holofote. Ela seguiu correndo até a avenida central onde desacelerou para não chamar atenção.
Mesmo àquela hora da madrugada havia um movimento considerável na rua, o trânsito embora não estivesse frenético ainda era intenso, transeuntes passeavam despreocupadamente sob as luzes amarelas e brancas que vinham de todos os lados, o ar fresco acariciava o rosto de Yue Shen conforme ela escolhia as vias menos movimentadas e lutava para manter a mente limpa. Cerca de quarenta minutos depois, ela entrou em um bairro residencial, casas elegantes e espaçosas se enfileiravam exibindo fachadas ostensivas e jardins bem cuidados. Em um deles, o canteiro de lírios e rosas azuis chamava atenção, ela respirou fundo e seguiu pelo caminho de pedras que levava até o alpendre, parou diante da porta preta com uma aldrava dourada e bateu.
※ ※ ※
Ying Kong Shi não conseguia dormir. Virou a mesma página do livro pela quarta vez na última meia hora enquanto observava Yan Da dormir sob efeito dos remédios. Huang Tuo não faria plantão aquela noite, de modo que ele não tinha com quem conversar. A euforia da conversa que havia tido com ela horas atrás ainda fluía pelo seu sangue, não podia negar que a recompensa por todo o esforço que fizera para se aproximar dela era muito maior do que esperava.
Entretanto, nem tudo era sinal de vitória. Apesar do pequeno passo que deram, Yan Da ainda não confiava nele e não permitia que ele se aproximasse mais do que o necessário. Shi claramente estava satisfeito por hora, tinha a chance de estar próximo dela e não falharia ou a decepcionaria. Deixando o livro de lado sobre a mesa, ele caminhou até a poltrona ao lado da cama dela e viu quando uma lágrima caiu pela sua têmpora, se perguntou que tipo de sonho ela estaria tendo para chorar. Seria Peng Peng outra vez? Mais do que nunca, Shi queria saber quem era esse homem e o que havia acontecido com eles.
Delicadamente, segurou a mão dela acariciando a pele delicada com seus dedos, Yan Da soltou um gemido baixo e, no instante que a segunda lágrima escorreu, Shi a amparou com os dedos, nesse momento foi arrastado para longe.
— Por que eu me importaria com quem envenenou você? — Li Tian Ji perguntou.
Yan Da se virou dizendo a si mesma que engolisse as lágrimas, não importava se ele era a versão real de Shi ou apenas o lado que ele reprimira durante todos aqueles anos como príncipe do gelo, a verdade era que fosse em que versão ele estivesse, sempre sabia o jeito certo de feri-la. Não choraria por ele. Nunca mais.
— É verdade, por que se importaria? — Ela respirou fundo e ficou diante dele. — Só quero te alertar de uma coisa, não me importo se vai me dar ouvidos ou não, mas não seja imprudente nas suas ações. Se sentir alguma espécie de aviso te mandando parar, ouça. Você pode acabar se arrependendo depois.
Sem dar espaço para que ele respondesse, ela foi embora. O ataque à Cidade Ren já havia começado, soldados do fogo espalhavam-se como uma mancha cancerígena pelas ruas de prédios brancos e prateados. Sob a ponte do castelo, Ka Suo defendia a entrada de Snowblade, a lâmina azul de sua espada brilhando em vermelho, Yan Da sabia que não demoraria muito para seu pai aparecer ali. Precisava encontrar uma maneira de despertar a consciência de Ying Kong Shi ou aquela guerra nunca teria fim.
— Você! — Chamou um dos soldados. — Onde meu pai está mantendo as mulheres de Ka Suo?
— Gongzhu eu não posso...
— Está me contrariando?! — Ela segurou o cabo do chicote e o homem se encolheu.
— Seu servo não ousa. — Respondeu curvando-se. — Elas estão na encosta de neve.
Sem esperar mais, ela correu até a encosta de neve, não havia perigo de ser surpreendida por Shuo Gang que, àquela altura, devia estar ocupado se achando o último general do império do fogo. Havia guardas por todos os lados, Yan Da não conseguiu passar por eles, sabia que só respondiam ao pai e ao irmão, ele não conseguiria chegar até Li Luo e Lan Shang, mas precisava leva-las até Ka Suo, se ele não tivesse mais que se conter para protege-las, Shi teria uma chance.
Usando seu chicote, ela derrubou todos eles e soltou as duas mulheres. De início, Lan Shang se recusou a segui-la, mas Li Luo lhe alertou que ela estava do lado delas. Yan Da queria contrapô-la e dizer que estava do lado de Shi, não do delas ou de qualquer outra pessoa. Aquela guerra não tinha sentido e mesmo que ela não desejasse se voltar contra sua família, era a única forma de manter Shi a salvo e a única chance de despertar sua consciência.
Mas era tarde demais. Quando chegaram de volta à Snowblade, Ka Suo já havia desaparecido e não havia qualquer sinal de Li Tian Ji. Yan Da sentiu um frio subir pela sua espinha e não tinha nada a ver com o clima glacial da Cidade Ren. Lembrou-se onde uma vez a alma de Shi se partira, imaginou que, para um confronto, Ka Suo tentaria leva-lo de volta até lá como uma forma de reviver suas memórias. Esperava poder chegar lá antes do seu pai.
O declive das cerejeiras era o lugar mais bonito da Cidade Ren. Naquele momento, entretanto, a aura obscura que pairava como um miasma sobre o local não era nada bonita. Os cabelos prateados de Shi voavam com o vento enquanto ele estava ajoelhado na neve, em seus braços pendia o corpo de Ka Suo atravessado com sua espada. Atrás dela, Li Luo e Lan Shang gritaram. Yan Da deu alguns passos na direção dele, mas parou quando Shi ergueu a lâmina azul de sua espada na direção dela.
— Você sabia o tempo todo? — Perguntou ele, a voz baixa e incisiva. Ela não respondeu. — Por isso me deu aquele conselho, não foi?
— Ying Kong Shi...
— Em nome de tudo que eu te devo, vou te deixar ir hoje. — Disse ele, impassível. — Mas se você entrar no meu caminho outra vez, Yan Da, eu juro que destruo você.
Ele apertou o cabo da espada com tanta força que os nós dos dedos ficaram sem cor. Deixando o corpo do irmão no chão, ela viu quando ele lhe deu as costas e desapareceu em um portal. As lágrimas que Yan Da estava prendendo desde mais cedo escaparam como um rio nesse momento, por que ele agia como se ela o tivesse traído quando tudo que ela fizera fora ajudá-lo? Ele sempre a veria como uma inimiga?
Shi puxou uma grande quantidade de ar quando abriu os olhos após ser expulso do... aquele era o sonho de Yan Da? Como era possível? Olhando o rosto dela, viu que ainda chorava em um sono inquieto. O coração do segundo príncipe do gelo batia agitado dentro do peito e, olhando em volta, ele se deu conta da terceira presença no quarto, a figura tinha o mesmo sorriso enigmático das outras vezes, ele levantou prestes a perguntar quem era, mas a pessoa desapareceu como poeira no ar.
※ ※ ※
Huang Tuo apareceu na porta com uma expressão sonolenta, uma camisa de algodão que acentuava seus músculos e calças azuis do mesmo tecido. Ele pareceu surpreso ao ver Yue Shen parada como um soldado ferido à porta, maior foi o choque ao perceber que ela chorava. Yue Shen que nunca chorava estava às lágrimas diante dele. O sono foi embora, empurrado pelo alerta máximo que endureceu todo seu corpo, ele largou a porta e olhou a rua vazia atrás dela, estava prestes a perguntar o que havia acontecido quando, inesperadamente, ela o abraçou. Ele ficou tão confuso e surpreso que cambaleou para dentro com o peso dela, empurrou a porta que fechou com um baque.
— Zěnmele?* — Perguntou, preocupado, sem saber se a abraçava de volta ou permanecia como um poste. — Yue Shen?
As lágrimas copiosas dela molhavam sua camisa, desconcertado, Huang Tuo delicadamente acariciou sua cabeça murmurando palavras de conforto. Yue Shen não era uma pessoa emotiva, sua natureza era muito prática, ele sabia que se fosse qualquer problema com o rei ou o príncipe do gelo ela teria reagido de forma violenta e letal como costumava, para estar naquele estado de desespero o problema deveria estar, de alguma forma, relacionado consigo mesma. Ele sabia que ela era do tipo que mantinha tudo dentro de si, era aquela que protegia os outros, mas negligenciava a si mesma.
Uma vez, ele tivera que enfrentá-la, os venenos letais de Yue Shen quase o mataram, mas ele não desistiu, ainda que soubesse que ela podia facilmente matá-lo. "Eu não tenho medo algum de morrer... com o que realmente me preocupo é com a culpa que você poderá sentir quando eu me for. Luna, sua criança tola, nunca culparia você, se eu tiver que morrer por alguém, que seja pelas suas mãos." Pensando bem, ele não se orgulhava muito daquelas palavras, mas não se arrependia de tê-las dito, eram a verdade do seu coração. O aperto de Yue Shen no seu corpo era tão forte que Huang Tuo começava a se esforçar para manter a respiração consistente, ainda assim não a afastou, deixou que ela chorasse até se acalmar.
Quando finalmente o pranto cessou, Yue Shen caiu em um profundo silêncio, Huang Tuo a levou até sua sala e a acomodou no sofá maior. Indo para a cozinha, ainda cheio de dúvidas e confusão, preparou um chá de lavanda e levou até ela, não queria fazer perguntas porque sabia haver poucas chances de obter respostas, Yue Shen era muito orgulhosa e ser vista em um momento como aquele provavelmente a deixara se sentindo vulnerável. Ele não queria arriscar que ela fosse embora naquele estado de modo que pôs a xícara diante dela em silêncio e se sentou na poltrona ao lado do sofá.
— Você é um idiota. — Disse ela depois de um longo tempo. Pegou a xícara e tomou um gole.
— Um idiota bem capacitado. — Ele sorriu. — Não me diga que surgiu aqui no meio da noite apenas para me tecer elogios.
Quando ela ergueu o olhar aquoso a direção dele, Huang Tuo percebeu que não era hora para brincar.
— Yue Shen, você está me deixando nervoso. O que aconteceu, é algo que pode me dizer?
— Por que fez isso comigo? — Seu tom era acusatório.
— Eu... fiz? — Ele ergueu uma sobrancelha sem entender. — Hmm, poderia me dizer exatamente o que eu fiz?
Em resposta, Yue Shen puxou um punhal de um dos bolsos do sobretudo e apunhalou a si mesma, aterrorizado diante do gesto, Huang Tuo ergueu-se para tentar impedi-la bem a tempo de ver que o punhal fora lançado longe antes mesmo de tocar sua pele. Um campo de força brilhava dourado em torno dela, ele não imaginava que, mesmo tantos anos depois, o encanto de proteção ainda permanecesse, voltando a sentar, ele entendeu o que ela queria dizer.
Semanas atrás, em uma de suas primeiras conversas reais desde que chegaram ali, ele achara que Yue Shen era cruel por deixá-lo esperando, por se manter fria depois de tudo que eles haviam passado. Mas, vendo-a naquele momento, as lágrimas cristalinas caindo lentas pelo seu rosto cinzelado, ele sentia-se um criminoso intimidando alguém. Um sorriso triste se formou em seu rosto, para ela estar ali lhe fazendo aquela pergunta, significava que havia reavido suas memórias por completo. Nem todos eles, ao retornarem, tinham tido a sorte — ou o azar — de lembrar de tudo que aconteceu. Chao Ya não recordava como morreu, tampouco Liao Jian, embora se lembrassem de boa parte da vida que tiveram antes.
— Nós da tribo xamânica não somos mais que estudiosos especializados. — Respondeu depois de um momento. — Mas como um príncipe, precisei aprender a lutar, embora admita que não era muito talentoso. Contudo, no que sempre fui realmente bom foi em curar.
— Ainda é. — Reforçou ela.
— Curar é a única coisa na qual nunca me permiti falhar, Yue Shen. Foi a única maneira que encontrei de proteger você. — Ele ergueu o olhar para ela. — Melhor que ninguém você sabe o que é querer proteger alguém que ama, afinal, deu as costas à magia branca em nome desse sentimento.
— E o que te fez pensar que me manter viva seria um presente? — A voz dela vacilou. — Viver em um mundo onde você não existia era mesmo a melhor saída? Acreditou mesmo que depois de ver você morrer diante dos meus olhos eu poderia seguir em frente e ser feliz?!
— Yue Shen...
— Quão egoísta você é ou quão forte você me julga para decidir isso?! — Ela se pôs de pé. — Que direito você tinha de me salvar e não proteger a si mesmo também? Quem você pensa que é para arrancar meu coração e depois leva-lo com você pra onde eu não pudesse te achar?! Tem alguma ideia do inferno que foi a minha vida procurando por você sem pausa, me recusando a acreditar que você não existia mais?!
— Yue Shen... — Huang Tuo levantou também, tentando acalmá-la, mas parecia impossível.
— Por sua causa eu sequer pude te seguir! Eu não podia me machucar, mas esse encanto que me protegia era a pior forma de me ferir, porque ele me lembrava todo maldito dia que eu não tinha mais você! — Alterada, ela voltara a chorar, uma mistura de mágoa e desespero. — Você teve a coragem de me deixar aquele sonho idiota me pedindo para continuar sua vida e ser feliz! Como se atreve?! Quem você pensa que é?!
Percebendo que seria quase impossível fazê-la recobrar a razão, Huang Tuo deixou de lado todos os seus alertas de prudência e avançou até ela calando-a com seus lábios. De início, Yue Shen foi tomada pelo espanto, mas quando as mãos de Huang Tuo soltaram um pouco do aperto em seus braços e subiram delicadas para o seu rosto, ela envolveu os braços em volta do seu pescoço e o beijou avidamente, deixando para trás o desespero, o medo de perdê-lo, a dor de cada dia que respirou sem tê-lo ao seu lado.
Ela não repetiria o mesmo erro outra vez. Se deu conta de que o maior arrependimento que tivera quando ele se fora foi o fato de nunca ter se permitido amá-lo, a memória de sua irmã suprimindo seus sentimentos mesmo depois que ela partira, a inutilidade de afastá-lo para, no fim, restar apenas a lembrança e os questionamentos do que poderia ter sido diferente. Ela o protegeria dessa vez, ninguém o tiraria dela e eles viveriam a segunda chance que receberam sem qualquer barreira. Os dedos dela se enterraram nos sedosos cabelos escuros dele, mesmo que não desse certo e eles deixassem de existir, cada minuto ao lado dele seria aproveitado ao máximo e partiriam juntos sem arrependimento.
— Essa é a sua resposta? — Ele perguntou, ofegante, quando se afastaram em busca de ar, um sorriso travesso brincando em seus lábios. Ele passou um dedo pelo rosto dela secando as lágrimas que ainda caíam.
— Bì zuǐ!*
Pressionou seus lábios mais uma vez contra os dele, entrelaçando suas pernas na cintura do médico, as lágrimas de toda uma vida fundindo-se com suas bocas que se procuravam com cada vez mais sede. Huang Tuo apoiou as costas dela com a mão, o braço firme em torno da sua cintura, não fosse o calor do seu corpo e o perfume inebriante de Yue Shen ele acreditaria que estava sonhando. Um a um ele foi desatando os coldres do corpo dela, o sobretudo havia ficado em algum lugar no caminho até o quarto, em nenhum momento ela se separou dele como se temesse que, a qualquer momento, ele poderia desaparecer no ar.
Yue Shen puxou a camisa dele pela cabeça, impaciente, queria sentir o calor do seu corpo, a vida pulsando em cada célula que o mantinha vivo, o batimento acelerado do seu coração. Huang Tuo beijou seu pescoço, o som da respiração se aprofundando, ela se agarrou a ele como uma terra árida ansiando por chuva após longos anos de seca, não podia voltar atrás e reverter o passado, mas queria viver todos aqueles anos em um único momento. Sua mão apertou a nuca dele voltou para sua boca sedenta, o colchão macio acariciou suas costas, todos os temores e dores de Yue Shen desapareceram e só restou a consciência enevoada do seu corpo em chamas.
Ela segurou o rosto dele com as duas mãos e os olhos brilhantes do médico a fitaram na baixa luz do quarto, os olhos de Yue Shen ficaram novamente nublados pelas lágrimas, dessa vez, contudo, eram lágrimas de felicidade. Ela o tinha de novo, era real. Ele lhe ofereceu um sorriso doce, o corpo apoiado sobre os braços para não fazer um peso demasiado sobre ela, sua mão passou delicadamente pelo rosto suave de Yue Shen que lhe acariciou a face brilhante.
— Huang Tuo, eu amo você. — Disse baixinho, a voz embargada. — Me perdoe ter demorado tanto tempo.
Antes que ele pudesse ter a chance de responder, a assassina colou os lábios nos dele outra vez e o mundo dentro do quarto afastou-se completamente da órbita daquela realidade cheia de incertezas. Só havia os dois, o calor, o êxtase e o agora.
※ ※ ※
15 mil anos atrás
Yan Da estava no campo de treinamento. A perna ferida latejava e o sangue quente escorria do talho na sua coxa, mas ela não parou. Mesmo quando a sua visão começou a ficar embaçada e os movimentos prejudicados pela oscilação da consciência, ela continuou lutando. Shuo Gang, à sua frente, deu um sorriso escarnecedor quando a atacou mais uma vez, mas o golpe foi bloqueado por alguma coisa que passou diante da princesa e desviou para longe.
— Sinto muito, diànxià!
O garoto, da mesma idade de Yan Da, apareceu e se curvou diante de Shuo Gang, ele tinha cabelos castanhos de um tom suave, não estava vestido como guerreiro de modo que ela deduziu não ser um soldado — o que não explicaria a presença dele no campo de treinamento — mas suas vestes eram muito ornamentadas para ser um criado como sua postura servil sugeria. Olhando para o lado, ela percebeu que o objeto que bloqueara o golpe contra ela era uma espada, mais precisamente um sabre.
— Quem é você? — Shuo Gang estava quase apunhalando o jovem de tanta fúria.
— Peng Yan, designado por sua majestade para acompanhar a Yan Da gōngzhǔ. — Disse o garoto.
— Como eu não ouvi nada sobre isso?
— Cheguei a algumas horas ao reino do fogo, alteza, venho como enviado da tribo do espírito do vento. Sua majestade, o rei do fogo, mantém uma boa relação com meu mestre, Pian Yu. Me destaquei como um bom soldado da tribo do espírito do vento e, por isso, fui trazido por sua majestade, rei do fogo, como guarda pessoal da jovem Yan Da gōngzhǔ.
Shuo Gang fez uma carranca que piorou ainda mais diante do sorriso frio de Yan Da. Murmurando uma imprecação ele deixou o campo de treinamento junto com seus homens e Yan Da fez um esforço para se manter de pé. Peng Yan se virou na direção dela bem no momento que sua visão escureceu e ela caiu.
Peng Yan torceu o pano cheio de sangue e mergulhou em água limpa que logo se converteu em vermelho vivo. Na cama, Yan Da se remexia inquieta por causa da febre. Ele amassou algumas ervas e fez um emplastro para prender na coxa dela, o ferimento não era muito profundo, mas mesmo ele concordava que Shuo Gang jogara sujo e ferira a irmã de forma desnecessária em um treinamento. A perda de sangue era um problema, ele precisaria fazê-la comer algo nutritivo para se recuperar, mas dado o gênio da princesa do fogo, sua missão não seria tão simples.
— Você não deveria ser tão imprudente, sabia? — Murmurou ele enquanto prendia a tira de tecido no ferimento. — Coragem e estupidez não são equivalentes.
Com um suspiro ele acomodou as cobertas sobre o corpo febril e deixou o quarto.
Levou algumas horas para que Yan Da recuperasse a consciência. Ao poucos, a névoa do torpor ia deixando sua mente para acomodar as lembranças do que aconteceu antes de ela apagar. O rosto do garoto ainda estava vívido na sua mente, mas ela não acreditou nem um pouco na história que ele contou. Olhando em volta, viu que estava sozinha no quarto, mas a perna estava enfaixada com um emplastro de ervas, mas não havia qualquer sinal de criados ou de um estranho. Ela teria perdido tanto sangue que acabara sonhando com tudo aquilo? Estava prestes a tentar se sentar quando Peng Yan entrou no quarto trazendo uma bandeja de madeira.
— Ah, acordou. — Ele apressou-se em ajudá-la e ajeitar os travesseiros nas suas costas para que ficasse confortável. — Como se sente?
— Estou bem. — Retrucou observando os movimentos dele. — Quem é você? De verdade.
— Sou quem afirmei ser e nada além disso. — Ele sorriu.
— Meu pai nunca teve nenhum tipo de relação amigável com Pian Yu. — Retrucou Yan Da. — Não desde que ele apoiou Lin Chao como o governante dos reinos.
— Eu sou a prova que eles estão procurando viver pacificamente. — A expressão tranquila de Peng Yan era inesperadamente reconfortante. — Pode-se dizer que eu fui uma espécie de presente.
— Não sei por que meu pai daria você para mim. — Cruzou os braços, desconfiada. — Ele nunca me deu qualquer tipo de recompensa por nada.
— Fui treinado por anos pelo guardião do norte Liao Que, tive o mesmo tipo de treinamento que seu filho Liao Jian, também passei alguns anos aprendendo na tribo xamânica de modo que tenho habilidades de cura. O fato de pertencer à tribo do espírito do vento, que não é mais tão grande quanto antes, torna-me um bom presente de pacificação.
— E o que você acha de ser tratado como uma coisa? — Ergueu a sobrancelha.
Peng Yan pareceu pensar por um tempo, apesar de ter relutado em atender a solicitação do pai, um general muito respeitado em sua tribo, era praticamente ser vendido como um escravo e ele não tinha qualquer simpatia pelo rei do fogo, Huo Yi, um tirano cruel e ganancioso. Contudo, teve a chance de, semanas antes, ter um vislumbre da princesa mais jovem do reino, Yan Da era interessante ao contrário dos seus irmãos que eram como cópias do pai, ela era forte, precisava se esforçar para se sobressair, mas, sobretudo, era muito sozinha. Por isso, quando seu pai sugeriu-o como um bom guarda e servo da jovem princesa e o rei do fogo aceitou a sugestão, ele não se opôs.
— Vossa alteza não parece o tipo de pessoa que me trataria como uma coisa. — O sorriso dele era doce. — Talvez seu pai saiba sobre o tratamento pouco lisonjeiro que seu irmão anda tendo para com a princesa, por isso me designou para guarda-la. Não posso reclamar da minha incumbência, farei o meu melhor para servi-la.
Yan Da não viu qualquer sinal de falsidade nas palavras e gestos dele. Assim, quando Peng Yan lhe trouxe os pratos que havia preparado, ela não fez objeções e comeu tudo em silêncio.
Peng Yan não era apenas inteligente e habilidoso, mas se mostrou paciente e muito fiel à princesa. No começo, Yan Da ficou relutante em confiar nele, tratou-o como espião do pai e do irmão, depois como um possível espião da tribo do gelo, mas ele soube contornar cada dúvida no seu coração sem força-la em nenhum momento. Aos poucos, foi quebrando o muro de inseguranças e solidão que a princesa do fogo tinha em torno de si, suportando as mudanças de Yan Da e aconselhando-a sempre que ela lhe pedia.
Em algum tempo, Peng Yan se tornou a sombra da princesa, seu confidente, melhor amigo e porto seguro. Yan Da nunca o tratava como um servo, embora ele insistisse em tratá-la como a princesa que era. O sorriso brilhante e carismático do jovem era o alento que ela precisava em dias de solidão quando sua família inteira parecia vê-la como um adorno sem importância. Peng Yan — a quem ela chamava de Peng Peng — converteu-se na razão de Yan Da continuar suportando a vida.
Com suas habilidades, ele se tornou mentor da princesa, ensinando-a a usar suas desvantagens ao seu favor e sua força com maior precisão, ela melhorou de forma notável chegando a derrotar Shuo Gang em vários treinos com pouca ou nenhuma dificuldade. Durante cinco mil anos, Yan Da foi feliz. Ela gostava de passar as horas livres no lago de fogo, especialmente por ser um lugar que ninguém da sua família frequentava, Peng Peng a acompanhava, silencioso e prestativo, tomando cuidados para que ela sempre estivesse confortável e assistida.
— Parte de mim queria ser livre como você. — Disse a ele certa vez. — Poder ir para qualquer lugar sempre que quisesse.
— Liberdade é algo muito subjetivo. — Contrapôs Peng Peng.
— Você sabe que não está preso a mim, não é? — Yan Da sentou em uma rocha e olhou para ele. — Pode ir embora quando quiser. Nunca vi você como um escravo e não se mantem amigos presos contra vontade.
— Não estou ao lado de vossa alteza contra a vontade. — Apressou-se em dizer. — Só queria dizer que a verdadeira prisão é a que criamos na nossa mente. A princesa não está presa aqui, pode ir embora se quiser, mas uma parte de si acredita que foi acorrentada à sua família.
Um sorriso amargo se formou nos lábios de Yan Da.
— Eles nunca me deixariam ir. Para o meu pai eu sou uma peça de troca, para Shuo Gang eu sou diversão.
— Gōngzhǔ, sabia que para os pássaros aprenderem a voar eles precisam cair do próprio ninho? — Indagou. — É uma altura muito grande e por vezes eles ficam com medo, porque não podem confiar no vento e suas asas ainda são curtas demais, então, em um ato que para outros pode parecer cruel, suas mães os empurram dos ninhos e, com o medo, eles aprendem a planar para salvar a própria vida.
Peng Peng se pôs de pé e ergueu a mão para Yan Da. Ela relutou apenas por um momento antes de aceitar e surpreendeu-se quando ele libertou as longas e belas asas coloridas de penas compridas e delicadas, tomando-a nos braços, alçou voo ganhando os céus, era a primeira vez que Yan Da voava, mesmo sabendo que Peng Peng era dono de poderosas asas, ele nunca a tinha convidado para voar — nem mesmo ele o tinha feito desde que chegara ao reino de fogo.
Ele atravessou a camada negra do céu fumacento do palácio e levou-a para o anil refrescante a quilômetros longe. Eles planaram por lagos azuis e pelo belíssimo declive das cerejeiras do reino de gelo, viram as florestas do mundo mortal e o fascinante palácio das estrelas. Ela se surpreendeu por não ter medo em nenhum momento quando sua única proteção eram os braços de Peng Peng, naquele momento Yan Da queria que o tempo parasse, nunca se sentiu tão livre, leve e feliz. O passeio alado durou algumas horas e então ele voltou para o ponto de partida e colocou-a, cuidadosamente, sobre o local de onde a tirara.
— Mesmo eu precisei cair de uma grande altura para aprender a voar. — Sorriu. — Quando se sentir pronta para descobrir como o mundo pode ser a partir dos seus próprios olhos, verá que o fascínio é maior do que ver apenas uma visão panorâmica de cima.
— Se eu fosse embora, você viria comigo? — Ela não conseguiu esconder a esperança em sua voz.
— Seria uma honra. — Peng Peng lhe ofereceu o mais brilhante dos sorrisos.
Mal terminou de dizer essas palavras, sem tirar os olhos dela, sua mão segurou uma flecha bem antes de ela atingir o rosto de Yan Da. Assustada e irritada, a princesa se pôs de pé procurando quem se atrevera a tal audácia. A risada de Shuo Gang, entretanto, minou suas energias.
— Shuo Gang, o que pensa que está fazendo?!
— Apenas garantindo que o seu guarda costas está atento, irmãzinha. — O sarcasmo na voz dele deixou Yan Da enjoada. — Nosso pai não ficará nada feliz em saber do seu passeio romântico.
— Se está tão entediado por que não vai atrás de uma mulher no mundo mortal ao invés de ficar cuidado de assuntos que não te interessam?
— Não me interessam? — O rosto dele se tornou sombrio. — Você é um assunto que sempre me interessa, Yan Da, esqueceu a quem deve obediência e onde está sua lealdade?
— Se eu quebro regras assumo as consequências, não devo qualquer tipo de satisfação a você! — Cuspiu ela.
Quando Shuo Gang ergueu a mão pronto para estapeá-la, Peng Peng segurou-o firmemente pelo pulso abaixando a mão dele sem dificuldade. A flecha que ainda segurava na outra mão foi lançada certeira sobre um dos homens do irmão de Yan Da, atravessando sua garganta e derrubando-o no chão engasgado no próprio sangue.
— Não aconselho a fazer isso, diànxià. — A voz incisiva de Peng Peng soou clara e fria.
— Você tem mesmo um cão fiel, Yan Da. — O sorrido de Shuo Gang era pior que qualquer ameaça. — Aconselho que fique sempre atento, passarinho.
E puxando o braço com força, ele ordenou aos homens que o acompanhassem.
Yan Da cambaleou e Peng Peng segurou sua mão, mantendo-a de pé. Todo seu corpo tremia, nunca antes tivera razão para temer Shuo Gang, mas conhecia bem a natureza do irmão e sua facilidade em manipular o pai de ambos. Ele não era alguém a quem se devesse subestimar.
— Peng Peng... vamos embora. Em dois dias, vamos para bem longe daqui.
— O que vossa alteza desejar. — Ele fez um discreto carinho em sua mão tentando acalmá-la.
Mas não houve fuga alguma. Ainda no dia seguinte, quando Yan Da acordou, Peng Peng havia desaparecido sem deixar rastro e sem qualquer adeus.
*Gànshénme [干什么] — O que fazer; Aqui, no caso a tradução seria "O que está fazendo?"
*Zěnmele [怎么了] — O que aconteceu?
*Bì zuǐ [闭嘴] — Cale a boca!
Fale com o autor