Love and Blood

6 Capítulo Cinco


Notas iniciais
"- Correção, Belikov. Estou solteira. Por opção, diga-se de passagem. Mas não estou, necessariamente, sozinha. São dois estados completamente diferentes."

POV Dimitri Belikov


Teríamos uma tarde ocupada. As primeiras fotos foram fáceis e rápidas, pois eram informais e não exigiam muito.

Pelo menos em partes. Ficar tão próximo de Rose me deixava um pouco incomodado. Já me era estranho ter que conviver com ela, ficar segurando-a e beijando-a era ainda pior. Um formigamento percorria meu corpo e pele, como se tivesse sido exposto a uma corrente elétrica ou alguma coisa desse tipo.

Como estávamos esperando, marcaram um novo encontro no dia seguinte. Iríamos de manhã e seguiríamos até a noite, pois dessa vez as fotos seriam do casamento.

Casamento. Minha mãe vivia perguntando quando eu lhe daria uma nora e netos. Eu sempre lhe respondi que não encontrava a mulher certa pra mim. Ironicamente, eu estava me casando com a mulher mais errada. Pelo menos era o que eu repetia a mim mesmo, que Rose não era a mulher certa para mim. Funcionava, por enquanto.

Vesti-me com uma camisa branca de botões, calça e sapatos sociais pretos e um terno preto feito sob medida. O blazer era aberto e confortável, o que deixava boa parte da camisa a mostra e me dava um estilo bem ‘jovial’ e elegante. Meus cabelos estavam soltos e, após estar completamente arrumado, decidi dar uma volta pelo local.

Passei por Mason e Eddie e logo percebi que estavam conversando sobre Rose. Senti-me interessado em descobrir mais coisas sobre ela e decidi me juntar a eles, atitude esta que antes parecia normal e convidativa e que agora só fazia com que meu arrependimento e aborrecimento aumentassem.

– Não entendo porque a Rose nunca quis nada. Tudo bem que a gente nunca namorou no duro, mas já ficamos algumas vezes e já deixei bem claro das minhas intenções com ela. Mas ela nunca me deixou ir muito além, me interrompia quase como uma mocinha virgem. Não é como se ela nunca tivesse feito... Bem, pelo menos eu acho que ela fez. A garota tem vinte e um e é uma deusa, onde quer que a gente saia, sempre atrai muitos olhares. Com certeza ela deve ter feito... Pelo menos com o namorado dela, o único que teve.

– E mesmo assim, não vejo como isso possa ser da sua conta. – Eddie respondeu com um sorriso no rosto e inclinou a cabeça em comprimento para mim – Belikov.

– Hey, Dimitri, estamos aqui comentando sobre a rainha da agência, a incomparável Rosemarie Hathaway! Sorte a sua que vai casar com ela, mesmo que isto não seja de fato algo real... Só Deus sabe o quanto eu queria que ela me desse uma chance...

Eu sabia que Mason era apaixonado por ela e confesso que isto me incomodava um pouco, mas não me preocupava, pois sabia que a Rose só o via como um grande amigo. Entretanto, por mais que soubesse das verdadeiras intenções de Mason, suas palavras conseguiram despertar um sentimento muito forte dentro de mim.

– Quanto tempo faz que vocês a conhecem? – trabalhamos juntos por três meses e tudo que Ashford falava dela era de sua magnificência. – Se conheceram na Agência?

– Que nada. Rose e eu nos conhecemos crianças. Sabe como é, meu avó trabalhava aqui, a mãe dela também. Eddie eu conheci aqui. Mas agora nós três somos tipo os três mosqueteiros. Aê, Dimitri, você pode ser o D'artagnan, que tal?

Não me dei o trabalho de responder, e admito que talvez eu tenha sido frio demais ao lançar um olhar sério para ele, que o fez encolher. Mason às vezes falava demais, mas era um bom rapaz e me admirava, como um exemplo a ser seguido. Seu pior defeito era essa sua obsessão por Rose. Quando ela não estava presente, ele só sabia falar nela. Então, quando ela estava conosco, parecia um cachorrinho pervertido: ao mesmo tempo em que fazia tudo que ela pedia, parecia que a despia com os olhos. Repugnante.

– Rose sempre foi meio molecona, sabe? – interveio Eddie como se nada tivesse acontecido. – Nunca teve medo de dizer o que pensa ou do que as pessoas poderiam pensar dela. Mas de uns tempos pra cá ela, anda se isolando mais. Bem, ela começou com isso depois do acidente. Só que anda piorando. É como se ela... quisesse esconder alguma coisa, ou fugisse de tudo. Não sei bem como explicar.

– Todo final de semana a gente saía à noite. – emendou Mason – Aí ela começou a dar desculpas, começou a dar bolos. Agora se quisermos que ela saia com a gente é preciso ter um bom motivo e muita insistência.

– É, Dimitri, ela era toda festeira. Pode perguntar a Mia. Se tivesse festa, Rose estava lá. E ainda sim dava conta de trabalhar no outro dia.

Interessante. Vira e mexe, principalmente à noite, Rose se tranca no escritório. Às vezes por horas e, quando sai, parece exausta, como se tivesse trabalhado demais. É sempre esquiva quando lhe perguntam sobre o que estava fazendo. Será que esse era o motivo pelo sumiço dela, seja lá o que ela faz lá dentro?

– Não sabe de nada, Dimitri? – perguntou Eddie, parecendo verdadeiramente preocupado – Vocês estão morando juntos há alguns dias, não viu nada estranho ou algo assim?

– Não, mas posso dar uma sondada. Mas não se preocupem, não deve ser nada demais.

– Aposto que deve ser um namorado. – reclamou Mason torcendo o nariz – Deve ser um daqueles bem chatos e rígidos, sabe? Também, né, não é pra menos. Com uma garota como ela, não admiro que sinta ciúmes da gente.

– Ashford, não começa!

– Não me chama de Ashford, Castile.

Qualquer tensão que havia ali se esvaiu completamente quando o fotógrafo nos chamou para entrar na sala onde seriam as primeiras fotos do casamento.

A sala não era muito grande e parecia uma recepção de um casamento de verdade, com as flores em tons variados de lilás e os tecidos brancos. Rose ainda não estava ali, e me avisaram que primeiro seria as fotos do noivo.

– Não estou muito confortável com isso.

– Belikov, são só algumas fotos de casamento. – disse-me o fotógrafo, parecendo divertido — Só tem que sorrir e parecer feliz.

Sorrir e parecer feliz. Fácil falar, já que você vai ficar do lado oposto da câmera.

Odeio quando as pessoas começam a me encarar. É desconfortável. Todo mundo olhando com expectativa, como se você fosse um tipo de experimento científico. E sem contar que as mulheres me olhavam com interesse além do profissional, e isso também me incomodava, o que era um pouco estranho já que eu gostava quando a Rose me olhava desse jeito.

Ela parecia ver além de um ‘pedaço de carne’. Era sempre a mesma coisa: primeiro seu olhar era de admiração, quase podia vê-la segurar o ar quando seus olhos me olhavam de cima a baixo. E então ela mudava completamente. Era como se ela visse dentro de mim e tentasse me decifrar. Ela via além da beleza física e isso é incomum nos dias de hoje, ainda mais nos jovens.

– Tudo bem, tudo bem... isso não vai dar certo. – reclamou o fotógrafo, que me lembrei chamar Jhon – Vamos passar para as fotos do casal. Afinal, é um casamento, não é? Não um editorial de moda...

Ele mandou alguém ir chamar Rose e Eddie veio para meu lado com um sorriso estimulante, mostrando assim seu apoio.

– Calma, Belikov. As câmeras não são bombas, não precisa ficar todo sério.

– Não gosto de tirar fotos. Pelo menos não... assim. Tudo isso é uma mentira, Eddie. Odeio mentir, sei que é necessário e sei que é nosso trabalho, então faço e não reclamo, faço até muito bem. Mas eu não me sinto confortável nisso tudo.

Não havia resposta para isso. Eu sabia mentir e atuar muito bem, mas não me deixava mais a vontade. O que me confortava era que, no final, a justiça seria feita, e o mal seria vencido. E eu teria ajudado nisso.

Eddie encolheu os ombros e torceu a boca num sorriso resignado do tipo ‘é, fazer o que?’. Deu um tapinha amigável em meu ombro e então parou, como se congelado olhando para um ponto além de mim. Intrigado, virei o rosto para a porta e, quando eu a vi, foi como se meu mundo tivesse parado.

Deslumbrante não é suficiente, simplesmente não conseguiria descrevê-la fielmente.

Ela estava toda de branco, literalmente. O vestido era um tom perolado, tomara que caia com um decote em formato de coração e o busto drapeado. Sua cintura era definida e a saia caia levemente rodada até o limitei do chão. Logo abaixo do busto havia uma fina faixa de renda enfeitada com pequenas pérolas. Aliás, o vestido inteiro era enfeitado com pérolas. A cauda é um tecido a parte, que caí da parte de trás da cintura e arrasta mais ou menos um metro no chão.

Seus cabelos estavam soltos, levemente ondulados com cachos nas pontas, e caiam até quase a metade das costas. Sua cor escura, quase tão negra quanto a noite, contrastava com as flores brancas e delicadas – que pareciam congeladas — que o prendiam parcialmente na lateral do lado esquerdo. Parecia que havia gotas de orvalho nelas, assim como em todo o seu cabelo, onde pequenos pontos brilhantes enfeitavam seu comprimento.

A maquiagem, como tudo nela, inspirava leveza e perfeição. Os olhos estavam delineados, parecendo ainda maiores, e o seu tom de chocolate derretido se destacava com a sombra levemente esfumaçada. Havia uma espécie de degrade perfeito, indo do marrom escuro do lado externo ao bege no canto do olho. Suas maçãs estavam levemente coradas, mas não sabia se era natural ou resultado da maquiagem. E os lábios, aqueles lábios quentes e macios que pareciam botões de rosa, faziam jus ao seu nome em um vermelho opaco.

Seus olhos encontraram os meus e me senti... bem. Não sei como explicar, mas era uma sensação boa e quase pacífica. Diferente de quando eu ia a Igreja. Era algo mais... pleno. Não conseguia desviar o olhar e ela parecia tão entretida quanto eu. Como se ninguém mais estivesse na sala além de nós dois.

O xingamento de Mason me tirou do transe e novamente aquele sentimento forte e desconhecido me esquentou por dentro, ainda pior, quando voltei meu olhar para ele. Ele não desviava o olhar e a olhava com desejo evidente. Como ele ousava olhar para ela daquela forma?

Respirei fundo e fechei as mãos em punho para manter meu autocontrole o máximo possível. Não precisava de uma cena justo agora.

Rose veio para perto de mim e parecia visivelmente nervosa e tão desconfortável quando eu. Apenas em sentir seu perfume e seu calor ao meu lado foi o suficiente para me acalmar.

– Irei repetir o que disse pra Mia. – disse-me ela aos sussurros – ainda acho isso muito exagerado. Usasse photoshop, ou era só dizermos que ainda estávamos de mudança. Que mal há nisso?

– Perfeição. É isso que Hans quer. – respondi sem conseguir evitar sorrir – Vamos dar a ele. É só por dois dias. Depois estamos por nossa conta.

Ela bufou.

– Vamos logo acabar com isso. Esse vestido é lindo, mas pinica. Quanto antes sairmos daqui, mais chances temos em permanecermos sãos.

Tive vontade de rir, mas não eram hora nem local apropriado, embora concordasse com ela. Limitei-me a sorrir de canto. Um sorriso controlado de apoio.

– Hathaway – chamou o fotógrafo preparando a câmera – sorria e pareça autêntica, okay? Sei que é a primeira vez que faz isso, mas não há nada com que se preocupar, a não ser relaxar e se divertir.

– Fácil você dizer isso. Só tem que apertar esse botão. – seu tom foi alto o suficiente para que Hans ouvisse e desse um olhar de reprovação – O que? É a verdade.

Enlacei sua cintura e a puxei um pouco para mim, em uma pose para a foto.

– Rose, ficar resmungando e retrucando não vai facilitar as coisas. – murmurei para ela, abaixando a cabeça em sua direção. – Se Hans invocar, prende a gente aqui o dia inteiro. É isso que você quer?

– Não.

– Então apenas sorria. Afinal... – meu tom de voz brincalhão, tão raro, a fez erguer a cabeça para me olhar e estava tão linda com aquela expressão contrariada que sorri para ela – É o nosso casamento. E você está incrível neste vestido que pinica.

Não era minha intenção elogia-la. Ainda mais na frente de todos. Mas saiu. Rose tinha esse incrível e incomodo efeito sobre mim que não sabia se deveria me irritar ou rir disso. Se já tinha dificuldades em mentir, mentir ou omitir para ela era ainda pior, quase impossível. Sem contar que tinha seus olhos. Aqueles grandes olhos de chocolate que pareciam ver o que eu escondia atrás da mais grossa parede de minha alma.

Rose sorriu de canto, e um leve rubor corou suas bochechas.

– Obrigada, camarada.

– Okay, vocês dois. Dá para parar de conversar? – exclamou Jhon, irritado – Querem fotos decentes ou não? Não dá pra fazer um álbum de casamento bonito e rico com vocês saindo falando.

Reprimi um suspiro irritado. Já estava incomodo o suficiente apenas tendo uma Rose linda e cheirosa em meus braços para ter um fotógrafo em meu pé. Era hora de deixar de lado meus sentimentos – apesar de não sentir algo por Rose – e ser um agente profissional, com prazos a cumprir.



– Nunca mais na minha vida irei tirar fotos.

A sessão de fotos do casamento durou duas horas e meia, mais ou menos. Jhon era muito perfeccionista e queria que tudo ficasse o mais autentico possível. Chegou a tal ponto que eu realmente pensei que ele iria pedir a Hans uma Igreja cheia de figurantes para termos tudo realista.

– Esse Julio me deixou traumatizada. – reclamou Rose enquanto a acompanhava para onde ficávamos as salas onde trocávamos de roupa.

– Jhon. – corrigi inutilmente.

– Quem ele pensa que é? – continuou como se eu tivesse ficado quieto – Fica criticando a cada foto que tiramos. O vestido não tá bom. O ângulo está errado. O olhar está vago. Porra, é um casamento de mentira. Se convencer Victor e os sócios dele, pra mim está ótimo.

– Ele só está fazendo o trabalho dele, Rose. – argumentei – Quer que tudo saia...

– Perfeito. – ela me interrompeu, completando-me – É. Eu sei. Mas, veja bem camarada, ele sabe que este é um casamento arranjado. Então para ele nada do que fizermos será perfeito.

Era um ponto que não tinha pensando. Uma vez que se saiba que alguém mente, a mentira contada não se parecerá com a verdade.

– Veja pelo lado bom, Rose – disse Mia pela primeira vez – Agora pode tirar esse vestido e maquiagem. Pelo que ouvi o sapo falar, serão algumas fotos aleatórias agora. Sabe, tipo foto que se tem em carteira e tudo o mais.

– Graças a Deus! – exclamou indo até o seu ‘camarim’ e fechando a porta.

Mia riu e revirou os olhos, indo em direção à saída.

– Dimitri, vou trocar uma ideia logo ali com o Eddie, sim? É rapidinho, já volto.

Pelo sorrisinho e o rubor em suas faces, tive a impressão que ela queria trocar mais do que apenas uma ideia.

– Mia. – Rose chamou-a de dentro do camarim dois minutos após a porta ter se fechado – Mia? Está aí?

Ela abriu a porta e espiou para fora. Seu rosto estava quase limpo da maquiagem.

– Ela saiu. – respondi – Precisa de alguma coisa?

Rose mordeu o lábio, hesitando por um momento antes de abrir mais a porta.

– Pode me ajudar com o vestido, por favor?

Tudo bem, não era isso que eu tinha mente. Mas não deixei transparecer meu leve incomodo enquanto me levantava do sofá e ia até o seu cômodo privado.

Lá dentro tinha uma arara cheia de roupas diferentes. Muitos sapatos em uma estante e uma penteadeira com vários e vários kits de maquiagem, escovas, pentes, e toda uma parafernália que as mulheres usam nos cabelos. Não conseguia ver Rose usando nada daquilo. Ela era prática, simples. Ou os usavam presos em um rabo de cavalo alto, ou um coque, ou eles estavam soltos. No máximo usava uma presilha ou faixa escura para impedir que mechas caíssem no rosto enquanto fazia algo.

– Fui soltar o laço e acabei fazendo um nó.

Rose se virou, ficando de costas para mim, apontando para o nó feito com a faixa que passava abaixo de seu busto.

– Como você fez isso? – indaguei tentando desata-lo.

– Puxando a ponta errada. – explicou apoiando-se na cadeira para não desequilibrar – Mulheres queimaram sutiãs e ainda assim continuamos presas nessas drogas.

Antes que pudesse me conter, eu ri de sua observação.

– Estou conseguindo. Só um minutinho. Pronto, está livre, Rose.

– Ah, obrigada. – Rose virou-se e ainda estávamos muito próximos. Ela me encarou com um sorriso de leve. – Obrigada.

Rose me encarou e ficamos em silêncio, um perdido no olhar do outro. E, Deus, como queria beijá-la. Como queria prensá-la contra a parede e tomar seus lábios nos meus.

Queria, mas não deveria. Precisava me lembrar disso. Mas estava difícil. Muito difícil. Mal conseguia me lembrar de como se respirava com Rose olhando-me com seus olhos cheios de admiração.

Nossos rostos se aproximaram, e se Rose não parasse, Deus me ajude, eu não iria.

Então a porta se abriu de repente e a voz de Mia se fez ouvida.

– Ahn... eu interrompi alguma coisa? – indagou ela, olhando-nos maliciosamente. Eddie se postou atrás dela com curiosidade – Podemos voltar depois...

– Não é necessário. – intervi me afastando – Já estava de saída.

– Onde você estava, Mia? – Rose exigiu saber – Fiquei presa no vestido e você não estava em lugar algum.

Mia não acreditou completamente, estava visível em sua expressão, mas deixou passar.

– Tudo bem. – ela deu nos ombros e entrou no quarto – Já ajudou, Dimitri, obrigada, agora ela precisa trocar de roupa, se você não se importa. A não ser que queria ajuda-la a fazer isso também.

A provocação por baixo das palavras me atingiu em cheio, e sai com um acenar de cabeça, agindo como se o que tivesse dito não tivera real significado. Eddie parecia confuso. Provavelmente, não havia percebido que haviam interrompido um momento bem intimo entre Rose e eu. Diferentemente de Mia.

Antes de fechar a porta atrás de mim, ainda pude ouvir a loira dar uma risada baixa e o som do vestido caindo no chão me deixou tenso. Precisei de todo meu autocontrole para não virar e ver como era seu corpo sem roupas.

– Irei ignorar o que vi e não vou perguntar o porquê dessa cara decepcionada, Rosemarie Hathaway.

Ouvi a voz de Mia através da porta, soando divertida. Logo após Rose bufou.

– Cala a boca, Mia!



Já era mais de nove horas da noite quando voltamos ao apartamento. O dia havia sido muito mais que cansativo, com tantas fotos e detalhes a acertar.

Como se não bastasse, Hans havia nos passado uma tarefa para esta noite: construir nossa história. Tínhamos nossas histórias independentes, mas agora éramos casados e precisávamos ter uma história para nossa vida conjugal.

– Eu estou cansada, Dimitri. – resmungou ela de volta – Ficamos o dia inteiro naquele galpão trocando de roupas e tirando fotos como se fossemos a Barbie e o Ken. E ainda me pedem para pensar numa história. Sério, camarada, a única coisa que penso agora é num bom banho e na minha cama.

– Você pode ter um bom banho e uma cama assim que terminarmos isso aqui.

Ela bufou – percebi que ela fazia isso bastante – e escorregou um pouco no sofá. Ficaria com a coluna doendo se sentasse assim com frequência.

– Okay. Você é diretor técnico de uma Empresa que financia tecnologia ou eu sei lá.

– Financia e produz eletrônicos de alta tecnologia. Teoricamente. – corrigi. Ela revirou os olhos.

– Detalhes, detalhes. Então, eu faço estágio lá... Honestamente, não consigo me ver estudando um curso tão chato de administração. Mas de qualquer forma, eu acabando fazendo estagio lá e a gente se conhece por que... ora, sou a estagiária e você um dos diretores. É sua obrigação me conhecer.

– Tudo bem. – concordo esfregando as mãos no rosto – Eu te chamo para almoçar, porque somos dois adultos que trabalhamos e você é a novata da empresa.

– E descobrimos que nos damos muito bem. – Rose completou, sentando-se no chão. Então riu. – Apesar de constantemente discutirmos.

– Argumentarmos. – corrigi novamente – Mas sempre acabamos encontrando um bom senso. Um meio termo que agrade a ambos.

– Viramos amigos e começamos a andar juntos. Embora eu sentisse algo mais, mas temesse que não fosse correspondida ou que acabasse magoada de alguma forma.

– Mas você acaba confiando em mim, e eu te dou todas as razões para ficar comigo.

– Lindo, inteligente. Pena que seja tão mal humorado.

Rose piscou para mim, divertida.

– Atenha-se a história, por favor. – pedi – Sem brincadeiras, Rose.

– Hey, temos que construir uma história baseada em nós mesmos. Como somos e como nos relacionamos. Só estou falando o que acho. Não vou mentir, Dimitri, e não aja como se não soubesse: você é realmente lindo. E inteligente. As mulheres babam quando te veem. Ainda sim, você está sozinho. Tá sempre com essa cara séria e ar de James Bond. É um porre às vezes, sabia?

Honestamente, não sei se gosto de quando ela é totalmente honesta e diz o que pensa assim, sem pensar, ou se deveria me irritar.

– Olha, veja só, Hathaway. Você, toda espontânea e festeira, e também sozinha.

Rose sorriu de lado. Eu conhecia aquele sorriso. Ela sempre o dava quanto tinha uma resposta engraçadinha na ponta da língua, uma que calaria a voz daquele que estivesse discutindo.

– Correção, Belikov. Estou solteira. Por opção, diga-se de passagem. Mas não estou, necessariamente, sozinha. São dois estados completamente diferentes.

Ergui a mão em gesto de derrota, e resolvi não argumentar.

– Tudo bem então. Depois de todo esse seu discurso sobre quem eu sou, diga-me, por que então você se apaixonaria por mim?

– Por que eu descobri que é apenas uma fachada. Por trás dessa parede de seriedade e frieza há um homem de bom coração. Que quer ajudar as pessoas e fazer as coisas certas. Um homem que faz o que está ao seu alcance e além para que a justiça seja feita e as pessoas sejam felizes.

– E você descobriu isso tudo em apenas um almoço com ele? – continuei, ignorando o fato que Rose estava certa sobre mim, embora tivéssemos poucos dias de convivência.

Ela suspirou e me olhou com sorriso nos olhos que não me largavam.

– Não. Precisou de um pouquinho mais de tempo para conseguir decifra-lo. Mas uma vez que compreendi como ele... ‘funciona’, ficou muito fácil lê-lo e saber quem é.

– Acho que te subestimei, Rose. – murmurei e ela riu baixinho.

– Eu sei. As pessoas sempre se surpreendem comigo, elas sempre me subestimam. Sempre me veem como uma adolescente problemática, com necessidade patológica de atenção que não recebeu da família que tem tendência a se meter onde não se deve.

– Eu discordo. – O sorriso dela se desfez em surpresa – Nunca te vi como uma adolescente problemática, Rose. Você é uma mulher incrível, sabe? Uma agente com currículo invejável. Somos muito parecidos em uma coisa: estamos sempre pondo a felicidade dos outros a frente da nossa. Você é muito madura para sua idade. Ainda tão nova, porém já viveu o bastante...

Não sabia se sentia por ela. Vinte anos e já nesta vida. Eu tive uma escolha, mas e ela? Ela fora praticamente jogada nesta vida, sem tem chances de ver se era a que ela queria para ela ou não.

Rose havia sido recrutada por Hans com dezessete anos. Os Hathaway tem um nome dentro da Agência, e Rose seguiu os passos de seus antepassados. Antes disso, por causa de sua mãe, passou um ano no FBI em uma espécie de estágio até Hans conseguir sua transferência. Depois que houve o acidente, ela adquiriu um fogo que assustou até mesmo Hans. Ele preferiu aceita-la e tê-la sobre suas vistas que solta por ai, propensa a fazer alguma idiotice.

Hans, ao considerar minha proposta em tê-la como parceira, hesitou. Rose nunca antes atuara como infiltrada, não por tanto tempo. Ele tinha medo do que ela poderia fazer. Era boa demais, mas ao mesmo tempo temperamental. Mas ele tinha esperanças que, ao meu lado, ela conseguisse algum limite.

A questão aqui era se haveria limites entre nós.

Notas finais
Oiie gente! Então, acabei A Brave New World e agora poderei me dedicar à Love&Blood, embora eu já lhes diga que tenha duas fics projetadas pra virem. hahaha
Gostaram do cap? Deixem reviews! É sempre bom saber onde estou acertando e errando, para sempre melhorar! :D
Outra coisa: fiz uma fic trailer pra L&B hahahha Espero que gostem:
http://www.youtube.com/watch?v=eBMPjzNDONs&feature=youtu.be