Love You, Miss You, Mean It
8 S2E8: Volunteers x Commodores
O rugido da multidão era ensurdecedor. Luzes fortes iluminavam o gramado, criando sombras que se moviam como espectros sobre os jogadores. Ethan respirou fundo dentro do túnel de entrada, o cheiro da pólvora dos rojões perfumava o ar gelado, enquanto uma suave garoa caía trazendo o peso de cada expectativa, cada sonho depositado naquele jogo.
Era a noite mais importante de sua carreira universitária. Uma vitória poderia abrir portas para o profissionalismo, mas havia algo que apertava seu peito de uma forma diferente. Hannah. Ela poderia estar ali? Ele não sabia. Sua exposição ainda estaria acontecendo? Ou talvez tivesse terminado a tempo de ela assistir ao jogo? A incerteza o corroía, mas mais uma vez o rapaz piscou, respirou e colocou seu capacete para entrar em campo.
Pisar naquele gramado tinha um tom poético, as gotículas da fina garoa faziam um pontilhado no ar, as luzes coloridas da torcida, os cânticos e gritos, a forma com que a grama se dobrava sob as chuteiras, tudo isso parecia estar escrito em algum tipo de epopeia. O apito do árbitro soou. Nada disso importava agora, não de verdade.
O primeiro drive começou com tensão, com a posse de bola pela universidade de Ethan, os Volunteers. A defesa dos Commodores veio forte, e antes mesmo que pudesse soltar a bola, o jovem número 84 sentiu o impacto seco de um defensor o derrubando contra o gramado. O ar saiu de seus pulmões em um baque doloroso, um sinal de alerta se ligou em seu cérebro. Ele se levantou devagar, o capacete pressionando sua testa, o gosto amargo de sangue na boca.
Na jogada seguinte, tentou um passe rápido, mas a pressão veio de novo. Um linebacker atravessou a linha e o acertou em cheio no esterno, mandando-o de volta ao chão. A dor irradiou por suas costelas, e ele sentiu um latejar incômodo no ombro ao se erguer, alguma coisa não estava normal. A multidão ao redor explodia em sons, mas ele mal conseguia distinguir vozes. Era como se estivesse preso dentro de uma bolha de dor e exaustão, tudo sendo engolido por um momento de vertigem.
"Levanta, Carter!" a voz do treinador explodiu em seu capacete, fazendo-o piscar forte algumas vezes. "Eles querem te quebrar. Não deixe."
Ele cuspiu no gramado e voltou ao huddle. "Mais uma, vamos acertar essa."
O segundo quarto trouxe um pequeno respiro. Em uma terceira descida para oito jardas, ele pegou o snap e varreu o campo com os olhos. Nenhum recebedor estava livre. A pressão veio rápida. Instintivamente, ele correu. O mundo ao redor se dissolveu enquanto ele deslizava entre os defensores, sentindo o vento cortante contra o rosto. Um tackle o pegou pela cintura, mas ele girou no impacto, mantendo-se de pé, avançando mais alguns metros antes de ser derrubado fora do campo.
Ele ofegava, os pulmões queimando, as costelas protestando e o ombro direito não parecia estar funcionando como deveria. Mas o primeiro down era deles.
Enquanto se sentava no banco para a entrada da defesa do time, a mente de Carter divagou, perdendo de vista o que estava acontecendo diante de seus olhos. Ele se perguntava se Hannah estaria assistindo. Se ela ainda se importava. Se estava torcendo ou se sequer lembrava que aquele jogo existia. O pensamento o incomodava mais do que qualquer dor física.
No terceiro quarto, a dor não era mais um incômodo passageiro—ela era um peso permanente, cravado em seus músculos e ossos. Cada respiração era uma brasa viva queimando entre suas costelas. Ele tomou mais dois sacks, um deles o deixando tonto por alguns segundos e definitivamente devia estar com uma costela fraturada ou com o ombro fora do lugar. Ele não sabia dizer com exatidão onde estava o problema. Seus passes ficaram mais erráticos, suas pernas mais pesadas. Ele se perguntava se ainda conseguia aguentar.
E se Hannah estivesse vendo isso? – O pensamento insistia em retornar.
O último quarto começou com um placar desfavorável: 21 a 17 para o time adversário. Dois minutos no cronômetro. Um último drive. Um dos colegas de time segurou o capacete de Ethan e bateu no seu próprio. “Vamos lá Carter, se não aguentar correr, nós vamos por você, mas você precisa acertar o passe!”
Ele se posicionou na linha de scrimmage, os joelhos doloridos, os músculos enrijecidos. O barulho da torcida parecia distante. Tudo se resumia àquele momento. A jogada foi cantada. O snap veio rápido e após isso tudo ficou como se em câmera lenta. Ethan recuou, os olhos analisando cada movimento na defesa. Sentiu o pé de apoio escorregar um pouco na grama molhada, o ombro direito cada vez mais pesado e ele soube: Não teria forças para lançar aquela bola.
A pressão chegou de novo. Ele sentiu o instinto de fugir, mas não podia. Não dessa vez. Seu braço bom estava morto. Ele cerrou os dentes e, sem pensar, fez o impensável—puxou o braço esquerdo para trás. A dor explodiu, cada nervo gritando em protesto. Mas a bola já estava no ar, onde oscilava levemente, como se hesitasse no ar. Lenta demais. Alta demais. Longe demais.
Se Hannah estivesse ali, ele não queria que o visse quebrado, derrotado. Não queria que levasse consigo a imagem de um Ethan vencido.
A trajetória não era perfeita. Enquanto Ethan caía sob a marcação dos Commodores, a bola parecia subir mais do que devia, indo mais à frente do que deveria. Foram alguns segundos de um silêncio ensurdecedor, onde ecoavam apenas os passos dos jogadores.
O recebedor saltou, os dedos alcançando o couro marrom. A multidão prendeu o fôlego. E então... Touchdown.
A explosão de gritos, os abraços dos companheiros, os fogos de artifício. Ethan olhava para o céu meio nublado, estatelado no chão. Não havia visto a recepção e a conclusão da jogada, mas aqueles sons só podiam significar vitória.
Uma série de cabeças suadas começaram a tampar a luz dos refletores, gritando frases desconexas de vitória. Algumas mãos puxaram o rapaz e o lançaram para cima, sobre os ombros do time, junto com o recebedor, onde só conseguiam gritar e rir. Naquele momento não haviam dores ou pensamentos na mente de Ethan, apenas um alívio profundo e a sensação de que havia feito o melhor possível.
Seu olhar varreu a arquibancada, procurando. Mas era impossível distinguir rostos na multidão fervilhante. Estaria ela ali? Teria visto? Ele nunca saberia. E essa incerteza era um peso diferente no peito.
(...)
O vestiário era um caos de vozes e risadas, o vapor quente dos chuveiros se misturando ao cheiro de suor e grama molhada. Gritos de euforia ecoavam pelas paredes enquanto jogadores trocavam socos amigáveis nos ombros uns dos outros, comemorando a vitória. O uniforme de Ethan estava ensopado, colado ao corpo marcado por hematomas. A adrenalina ainda corria em seu sangue, mas agora misturada com um peso crescente. Cada movimento revelava dores que antes estavam mascaradas pelo jogo.
Ele se sentou no banco de madeira desgastado, puxando o capacete do armário e o segurando por um instante, apenas observando as marcas de impacto na superfície. Aquele jogo tinha sido uma batalha, talvez a mais difícil de sua carreira universitária.
Um fisioterapeuta se aproximou, ajoelhando-se ao lado dele. "Deixa eu dar uma olhada nessas costelas."
Ethan expirou longamente, inclinando-se um pouco para que o profissional pressionasse seu flanco com os dedos. A dor explodiu em sua lateral e ele travou o maxilar. "Tá tudo bem," resmungou, mas o olhar do fisioterapeuta disse o contrário.
"Vai precisar de gelo e de um exame," o homem afirmou, se levantando. "Mas hoje você merece comemorar. Belo jogo."
Ethan forçou um sorriso e acenou com a cabeça, mas sua mente estava em outro lugar.
Ele pegou o celular no armário, a tela iluminando suas feições cansadas. Nenhuma mensagem. Nenhuma notificação. Ele passou a mão pelos cabelos molhados de suor e deixou o celular de lado, tentando afastar a decepção. Talvez estivesse esperando algo que nunca viria.
Foi quando uma voz interrompeu seus pensamentos.
"Carter, tem uma pessoa que veio te ver."
Ethan piscou, o coração acelerando. Será que era ela? Talvez tivesse demorado para sair da exposição, talvez tivesse vindo. Ele levantou rápido demais, sentindo as costelas protestarem, mas ignorou a dor e seguiu para a saída do vestiário.
Ao abrir a porta, a luz fria do corredor iluminou a figura de um homem alto, vestido com um blazer escuro e uma expressão profissional no rosto. Nada de olhos castanhos suaves. Nada de câmera pendurada no pescoço. Apenas um aperto de mão firme e um sorriso calculado.
"Ethan Carter?" O homem ergueu uma sobrancelha. "Sou Michael Townsend, representante dos Raiders. Gostaria de conversar sobre sua próxima temporada."
Por um momento, Ethan sentiu sua mente ficar em branco. Aquilo deveria ser uma notícia incrível, certo? O sonho de todo jogador universitário. Mas o vazio em seu peito não desapareceu. Mesmo assim, ele forçou um sorriso e apertou a mão do homem. "Claro. Vamos conversar."
Depois de algumas palavras formais e uma promessa de contato futuro, Townsend se afastou pelo corredor, com o endereço de Ethan em mãos para enviar os documentos. Ethan ficou parado por um instante, tentando processar tudo, quando ouviu um riso suave atrás de si.
"Carter? Faz tempo."
Ele virou e encontrou uma garota loira encostada na parede, ela usava um casaco justo, jeans escuros e botas, com um sorriso curioso nos lábios. Seus olhos azuis tinham um brilho travesso e, por um segundo, a confusão se estampou no rosto de Ethan.
"Ashley?"
Ela riu novamente e inclinou a cabeça de lado. "Achei que não fosse lembrar de mim. Então, parabéns pela vitória. Podemos conversar?"
Ethan piscou, ainda absorvendo a reviravolta inesperada. Ele esperava Hannah. Mas, naquela noite, era Ashley que estava ali.
“Então...” Ela deu um passo à frente, olhando diretamente para ele. “Se não quiser conversar... Quer ir comemorar?”
Ethan respirou fundo. Sua mente estava dividida entre a euforia da vitória, a oportunidade profissional à sua frente e a ausência de quem ele realmente queria ver. Seu olhar se desviou momentaneamente para o estádio atrás de si, como se esperasse encontrar alguém ali.
Mas a noite não lhe trouxe respostas.
Ele voltou-se para Ashley, um pequeno sorriso indecifrável surgindo em seus lábios. “Talvez eu precise mesmo de uma bebida... E uma conversa não seria ruim”.
E assim, a noite seguiu seu rumo, sem certezas, sem promessas, apenas possibilidades pairando no ar.
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