Love You, Miss You, Mean It
18 S2E18: T-Shirt
O sol filtrava-se por entre as cortinas do quarto de hotel, espalhando tons dourados pelo espaço. O ar ainda carregava vestígios da noite anterior, um misto de perfume floral adocicado e algo amadeirado que se misturava às lembranças de toques e sorrisos. O calor sob os lençóis, a respiração tranquila ao lado – tudo parecia um sonho que Ethan não queria que terminasse. Ele abriu os olhos devagar, encontrando Hannah ainda adormecida, os cabelos bagunçados espalhados sobre o travesseiro, a respiração calma. O lençol caía descuidadamente por seu corpo, revelando a curva de seu ombro. Ele se permitiu observá-la por alguns instantes, gravando cada detalhe como se tentasse capturar aquele momento para sempre.
O peso das horas anteriores ainda estava no ar. Flashbacks se desenrolavam em sua mente – o momento em que ela abriu a porta, os olhos brilhando com uma mistura de surpresa e desejo; os dedos trêmulos desfazendo os botões da camisa dele; o som abafado da cidade do lado de fora, distante, insignificante diante do que acontecia entre eles. Ethan lembrava da risada de Hannah enquanto tentavam, sem sucesso, encontrar o controle do ar-condicionado entre beijos e roupas descartadas pelo caminho. Lembrava da forma como ela puxou sua camisa sobre o próprio corpo depois, brincando com as mangas compridas demais para ela.
Hannah se mexeu, murmurando algo incompreensível antes de abrir os olhos devagar. Um sorriso preguiçoso surgiu em seus lábios e ela se moveu preguiçosamente, aninhando-se mais perto de Ethan.
— Já tá me encarando de novo? — murmurou, a voz rouca de sono.
— É difícil resistir — ele respondeu, deslizando a ponta dos dedos pelo braço descoberto dela. — Além disso, você fica bonita demais assim, de manhã.
Ela riu baixinho, escondendo o rosto contra o travesseiro por um instante antes de finalmente encará-lo.
— Antes que eu esqueça... — disse ela, mordendo o lábio de leve. — Posso pegar algumas camisetas suas?
Ethan arqueou uma sobrancelha, divertido.
— Algumas?
— Sim, no plural. — Ela sorriu. — Preciso de algo seu comigo, e você tem camisetas de sobra, além de que elas ficam melhorem em mim.
— Como não tenho como discordar disso, então acho que vai ter que passar no meu apartamento para pegá-las. — Ele inclinou-se para beijá-la suavemente, com um sorriso divertido. — Você sabe onde me encontrar.
Hannah segurou o rosto dele por um instante, os olhos dançando sobre os dele, como se estivesse pesando tudo o que sentia naquele momento.
— Então acho que eu passo lá mais tarde — disse ela, baixinho — Talvez fique para jantar, se você me receber bem.
O momento foi interrompido pelo estômago de Hannah roncando, fazendo os dois rirem. Ethan pegou o telefone do quarto e olhou para ela.
— Café da manhã no quarto? Ou quer sair?
— No quarto. — Ela se aconchegou contra ele. — Não quero dividir meu tempo com você com mais ninguém.
Minutos depois, a bandeja com panquecas, ovos e café chegou. Sentados na cama, dividiram a comida entre conversas leves e olhares que diziam mais do que palavras. Havia uma doçura ali, um instante em que o mundo parecia distante.
Mas o relógio não parava.
Enquanto Hannah calçava os sapatos, Ethan observou-a em silêncio, lutando contra a sensação de que o tempo com ela nunca era suficiente.
— Nos vemos mais tarde? — ela perguntou, a mão na maçaneta.
— No meu apartamento. — Ele hesitou por um segundo antes de puxá-la para um último beijo. — Estarei esperando.
Hannah sorriu e saiu. Ethan ficou ali, a porta ainda entreaberta, sentindo o perfume dela no ar e contando os minutos até vê-la de novo.
O despertador de celular soou, alto como uma trombeta: Estava atrasado para o treino.
(...)
O sol da manhã brilhava sobre o campo, refletindo no capacete dos jogadores dos Raiders enquanto eles se preparavam para o último treino antes da concentração. O clima era leve, mas a tensão do jogo que se aproximava ainda pairava no ar. Ethan Carter puxou as luvas de treino, ajustando o grip antes de se posicionar para os passes. Ele sentia o cansaço da noite acumulado na musculatura, mas nada que atrapalhasse a rotina. Não aquele cansaço.
— Último antes da concentração, senhores! — a voz do técnico ecoou pelo campo. — Quero precisão, quero foco, mas não quero ninguém saindo daqui hoje se arrastando. Guardem a agressividade para o dia do jogo!
Os jogadores responderam com um grito coletivo, e o treino começou. Ethan recebeu a bola e recuou alguns passos, analisando as rotas dos recebedores. Seus olhos encontraram o wide receiver principal cortando pelo meio, e ele lançou um passe perfeito, que cortou o ar antes de cair direto nas mãos do colega.
— Isso aí, Carter! Se conseguir fazer isso domingo, talvez a gente tenha chance! — brincou um dos assistentes técnicos, arrancando risadas do grupo. Jatos de água das garrafinhas voaram em direção ao número 84, como parte do clima descontraído.
O treino seguiu sem maiores problemas, intercalando jogadas ensaiadas e ajustes táticos. Ethan estava concentrado, mas sua mente ocasionalmente vagava. Flashbacks da noite anterior surgiam como fragmentos: Hannah deitada ao lado dele, a forma como ela ria de suas brincadeiras, o pedido casual para buscar camisetas. No plural. Aquilo havia ficado na cabeça dele mais do que deveria, mas já havia providenciado uma surpresa para a noite.
Enquanto pegava uma garrafa d'água, um dos jogadores mais próximos do que Carter chamaria de um amigo, Malik, se aproximou com um sorriso conhecedor.
— Então, como foi a ‘exposição de arte’ ontem? — perguntou, enfatizando a última parte, fazendo aspas com os dedos.
Ethan arqueou a sobrancelha e tomou um gole d'água antes de responder, tentando não sorrir.
— Primeiramente, era uma exposição de arte de verdade. E foi boa.
— Boa? É só isso que vai me dar? — Malik riu, chamando a atenção dos jogadores mais próximos. — Cara, a gente já entendeu que você sempre diz que vai ‘prestigiar o trabalho dela’, mas ontem parecia diferente. Sei lá, senti que não era só isso.
Ethan hesitou. Ele nunca mencionara aquilo como um encontro. Mas, no fundo, sabia que foi exatamente isso que aconteceu. Ele desviou o olhar, quase não conseguindo disfarçar o riso, e jogou a garrafa para Malik.
— Você pensa demais, Sherlock.
— Ah, claro. E você pensa de menos, caro Watson — retrucou Malik em meio à uma gargalhada, pegando a garrafa no ar. — Mas tudo bem. Só não esquece que tem jogo domingo, e a gente precisa do nosso QB inteiro. E fazendo lançamentos igual fez com essa garrafa.
Ethan riu e balançou a cabeça, voltando para o campo para o último set de jogadas. Ele sabia que Malik estava certo. Algo dentro dele havia mudado.
(...)
O calor de Las Vegas era menos sufocante naquele início de noite, mas o asfalto ainda guardava o resquício do sol do dia. Ethan estacionou a caminhonete na garagem subterrânea do prédio e subiu apressado para o térreo, ainda vestindo o uniforme de treino. Assim que saiu do elevador, avistou Hannah encostada na parede do saguão, os braços cruzados e um meio sorriso nos lábios.
— Você está atrasado — disse ela, levantando a sobrancelha.
Ele olhou para o relógio e bufou. — Dez minutos.
— Quinze. Mas quem está contando? — Ela deu de ombros, saindo da parede e puxando a alça da mochila sobre o ombro. — Vamos subir ou você vai me deixar esperando mais um pouco? Não tenho pressa, afinal estou oficialmente de férias.
— Culpa do trânsito. Ou talvez dos garotos me enchendo o saco sobre ontem à noite — respondeu ele, rindo, finalmente alcançando-a.
O abraço veio fácil, rápido, e o beijo também — curto, mas cheio da intimidade, seguido do entrelaço dos dedos, onde Ethan a conduziu gentilmente para que ela o seguisse até o elevador. Durante a subida, ele a observou pelo reflexo metálico das portas. Hannah parecia relaxada, como se estivesse realmente de férias. De fato, agora estava livre por três dias, sem compromissos ou exposições para organizar, então não iria argumentar sobre isso, resolveu deixa-la aproveitar em paz.
Assim que a porta se abriu, ele a conduziu até seu apartamento e destrancou a porta. O espaço era moderno e bem decorado, mas carregava um ar desordenado. Alguns livros e papéis estavam espalhados pela mesa da sala, e uma jaqueta jogada no encosto do sofá denunciava a pressa com que ele saíra mais cedo. Hannah entrou devagar, girando, analisando tudo ao redor, como se mapeasse cada detalhe.
— Não é exatamente como eu imaginava — disse ela, tirando os sapatos e andando descalça pelo chão de madeira escura.
— E como você imaginava? — perguntou Ethan, jogando as chaves em uma bandeja na mesinha de entrada.
— Mais bagunçado — respondeu, rindo.
O lugar era organizado, dentro do que se esperaria de um ser humano funcional que passou a ganhar muito dinheiro e podia pagar uma faxina ocasional. Havia certa personalidade: uma guitarra encostada no sofá, os porta-retratos esquecidos na estante, uma pilha de livros com marcador enfiado na metade. No canto da sala, uma bandeja com duas garrafas de uísque — uma quase vazia, outra com um dedo só. Hannah observou por um segundo e sua expressão dela mudou por um instante — não era julgamento, mas uma preocupação silenciosa, quase como se sentisse culpa.
— É... Tive umas noites longas — disse ele, notando o que ela via.
— Tudo bem, todos tivemos — respondeu ela, simples, mas com aquele tom de quem vê mais do que diz, recheado de compreensão. Aquele era o lado que ninguém podia ver, por trás da fama e do dinheiro.
Foram até a cozinha, onde Ethan abriu a geladeira.
— Tem ovos, panquecas congeladas e... ah, três sabores de sorvete. Almoço de atleta.
— A gente podia pedir alguma coisa. Tô de férias, lembra? — disse ela, se apoiando na bancada, o cabelo preso de qualquer jeito, o vestido leve acompanhando os passos.
— A senhorita quer café da manhã de hotel no conforto da minha casa? — brincou ele.
— Exatamente isso.
Enquanto ele fazia o pedido, Hannah andou até o corredor e sumiu por um momento na direção do quarto. Ethan ouviu o som de gavetas se abrindo.
— Ethan? — chamou ela — Você ainda tem aquela, né?
— Qual delas?
— Você sabe qual, Carter.
Ele sorriu, adentrando o quarto e indo até o armário lateral, tão discreto que ela nem percebeu a existência do móvel. Já sabia que ela pediria por aquilo. A camiseta estava separada, dobrada com cuidado. Um pouco desbotada, macia pelo uso e pelo tempo. O número 84 com as cores dos Volunteers, dos tempos de faculdade.
Ele entregou a peça a Hannah como se estivesse entregando um segredo, e ela a segurou como quem reencontra algo que achava perdido.
— Obrigada por ainda ter isso. E por saber que eu ia querer — falando em um tom quase sussurrado.
— Talvez eu nunca tenha deixado de te esperar voltar — disse ele, baixo.
Hannah apenas sorriu e vestiu a camiseta ali mesmo. A barra cobria quase toda a coxa, e a gola larga deixava um ombro à mostra. Ethan a puxou pela cintura, e o beijo veio — lento, sereno. Sem pressa.
Ao se separarem, após uma rápida olhada de canto, Hannah pegou uma das peças do armário e a ergueu, examinando a estampa gasta. — Acho que vou pegar essa. E essa também. — Separou mais duas e sorriu. — Agora oficialmente tenho roupas suas.
Ethan se aproximou e a abraçou pelas costas. — O que mais você quer roubar daqui?
Ela inclinou a cabeça, fingindo considerar a pergunta. — Ainda não decidi. Mas tenho três dias para pensar nisso.
Ele riu e passou o braço ao redor dela, puxando-a de volta para a sala, em direção ao sofá. — Três dias inteiros?
Hannah assentiu e, ao sentarem-se, encostou a cabeça no ombro dele. — Três dias sem compromissos, sem pressa.
Ethan apertou os lábios, sentindo o peso daquela afirmação. Era tempo suficiente para muita coisa, mas não era tempo suficiente para tudo que queria viver com ela.
— Então vamos aproveitar. — Sua voz saiu mais baixa, quase um sussurro.
Ela ergueu o rosto para ele, os olhos verdes brilhando como faiscassem e, naquele instante, nada mais importava.
…sem pressa. Só a gente e o tempo. Dá pra acreditar? — completou Hannah, suspirando, com a voz quase um sussurro.
Ethan a olhou de lado, aquele meio sorriso que ele usava quando não sabia como dizer o que sentia. — Dá. Mas ainda parece sonho.
O silêncio que se seguiu não foi incômodo. Foi leve, confortável. O tipo de silêncio que só existe entre duas pessoas que se conhecem há muito mais tempo do que os anos conseguem explicar. A TV ligada no mudo passava um jogo antigo da NCAA, e por um instante, Ethan pensou em como tudo parecia estar voltando pro lugar — como se algo dentro dele, que andava fora do eixo, estivesse finalmente alinhando de novo.
Ele não queria pensar no jogo de domingo, na pressão, nos gritos da torcida ou nas manchetes de segunda-feira. Não agora. Por enquanto, o mundo lá fora podia esperar. Ele tinha Hannah de novo. E, mesmo que só por três dias, isso era tudo o que ele precisava.
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