Love You, Miss You, Mean It

19 S2E19: Concentration


O quarto parecia maior sem ele ali.

Hannah acordou com o som abafado da cidade respirando sob o céu cinza, uma luz pálida entrando pelas frestas da cortina. A cama ainda guardava o calor da noite, os lençóis amarrotados contavam histórias que ela ainda não tinha coragem de encarar com os olhos abertos. Aos poucos se sentou, olhando mais uma vez ao redor e captando mais detalhes do enorme quarto, enquanto não podia deixar de sorrir ao pensar no apertado quarto da universidade que dividia com uma de suas amigas. Parecia ter ficado há mil anos atrás, mas foi na mesma época em que tudo começou com Ethan.

O quarterback tinha saído cedo, com certo cuidado pra não acordar Hannah. Uma mensagem no criado — “Concentração hoje, não quis te acordar. Te vejo na arquibancada amanhã à noite, pequena. 84.

P.S: Deixei café da manhã na cozinha, aproveite” — e um beijo na testa que ela mal se lembrava. No fim, sequer ouviu a porta se fechar.

Espreguiçou-se devagar, como se cada movimento pudesse desmanchar aquele fio invisível que ainda a ligava a ele. Se virou preguiçosamente até a beirada da cama e abriu a cortina de vez com um puxão lento, observando a cidade acordar sem precisar se levantar. Lá fora, bandeiras tremulavam sob o restante das luzes de neon, camisetas dos Raiders se multiplicavam nas calçadas e nos cafés.

Amanhã era dia de jogo. Era dia de decisão. Para ele, para o time... e talvez, de algum jeito, também para ela.

Mas no mundo de Hannah, ainda era um dia de espera.

Ela demorou a sair da inércia da cama, mas não havia motivos para pressa. Arrastou os pés pelo chão de madeira fria, sentindo o contraste com o calor do corpo ainda sonolento. Vestia uma camiseta surrada de banda, dessas que viajava dobrada no fundo da mala, e uma calça de moletom que pegou emprestada do armário dele — larga demais, cheirando a sabão e a algo que era só Ethan.

Na cozinha, encontrou o carinho escondido nos detalhes. Sobre o balcão, uma bandeja improvisada: suco de laranja recém-espremido numa garrafa térmica, dois muffins de blueberry dentro de um guardanapo dobrado com pressa, e um bilhete colado na xícara de café. “Sem açúcar, como você gosta. Vai dar tudo certo.”

Ele lembrava. Ele sempre lembrou. E isso arrancou um sorriso ainda meio sonolento dela.

Sentou-se no banco alto da ilha, com as pernas dobradas e a xícara entre as mãos. A cada gole, o gosto quente misturado ao silêncio preenchia um pouco do vazio que ele deixara nas primeiras horas do dia.

À sua frente, um mural de fotos coladas com ímãs na porta da geladeira: trechos da vida dele. Ethan criança com o uniforme laranja da primeira equipe de flag football. Ethan adolescente, sorrindo com um troféu maior que ele. Um retrato preto e branco dos pais em uma estrada do interior — o pai no volante, a mãe com os pés no painel, rindo de algo que o tempo talvez já tivesse apagado. E, num canto mais discreto, uma polaroid deles dois — tirada num desses dias em que o tempo parecia menos apressado.

Ela pegou a foto para olhar mais de perto, lembrando de quando ainda tinha aquela câmera polaroid. Sentiu o coração se apertar, pensando que ele havia guardado com tanto cuidado e que, talvez, aquela foto tenha assistido tantas das noites em que seu amado passara na companhia das garrafas de cerveja e copos de whisky.

Hannah encostou a testa na borda fria da caneca, deixando os olhos passearem pelo apartamento, cada canto com um pouco dele e, agora, um pouco dela também. Las Vegas não parecia mais tão ruim, ou intimidadora.

A cabeça começava a sussurrar coisas demais. Sobre o futuro, sobre os próximos dias. Sobre tudo o que ainda não tinham dito um ao outro.

Tinha prometido a si mesma que não se deixaria criar expectativas. Mas o problema de estar de volta era justamente lembrar como era ter esperança.

Mas por ora, ela só queria terminar o café com calma. Antes que o dia a engolisse por inteiro — afinal, um dia sem programação, mas sem a companhia de Ethan, seria um desafio.

(...)

A cidade parecia vibrar num compasso diferente naquela manhã. Ou ela própria.

Hannah deixou a portaria do prédio com a câmera pendurada no pescoço e os fones ainda desligados. Queria ouvir os sons do lugar — buzinas, passos apressados, o chamado de vendedores nas esquinas. Las Vegas acordava com pressa, como se cada segundo fosse valioso demais pra se perder em silêncio.

Vestia um vestido de algodão claro, rodado e leve, daqueles que acompanhavam o vento com facilidade, e uma jaqueta jeans que ainda trazia o cheiro das viagens. Os cabelos estavam presos num coque improvisado, com algumas mechas soltas brincando com a brisa. Nos pés, tênis surrados que já tinham conhecido tantas cidades quanto ela própria.

O vento trazia um frio discreto, típico do fim do inverno, mas o sol já tentava abrir caminho entre as nuvens, refletindo nos letreiros e nos vidros dos carros. Nas fachadas dos bares e dos cassinos, pôsteres dos Raiders dividiam espaço com anúncios de shows, festas e promoções de última hora. Tudo pulsava como se a cidade inteira estivesse se aquecendo junto com o time.

Hannah caminhava devagar, deixando que os olhos escolhessem os enquadramentos: um torcedor com o rosto pintado de prata e preto tomando café sozinho num banco de praça; uma senhora recolhendo panfletos de apostas da calçada com a mesma paciência com que se varre uma varanda ao entardecer; duas crianças brincando com uma bola em frente a uma barbearia; um cachorro usando uma bandana do time que parecia rir com a língua de fora. Fotografou tudo com uma mistura de curiosidade e nostalgia. Era como se estivesse capturando pedaços de um cenário que, de repente, fazia parte da sua história também.

A mochila leve nas costas balançava com seus passos, mas o que mais pesava era o pensamento que carregava em silêncio desde o almoço do dia anterior. Um e-mail, curto e direto, confirmando a venda de três obras e um convite para expor em uma galeria fixa em Nashville. O suficiente para pagar as contas por um bom tempo. O suficiente para mudar tudo.

Não precisaria mais viver de trem em trem, de voo em voo, de hotel em hotel, caçando inspiração e matéria-prima. Pela primeira vez em anos, podia se dar ao luxo de trabalhar apenas com o que já havia captado. Podia criar raízes. Podia ter um lar.

Ela ainda não tinha contado a Ethan. Não sabia como. Parte dela queria que ele visse com os próprios olhos, que a enxergasse como a artista que sempre sonhou ser. A outra parte só queria esconder a notícia mais um pouco, guardá-la como um segredo bonito, uma surpresa a caminho. Um troféu para a vitória do dia seguinte — ou, na pior das hipóteses, uma consolação digna.

Parou diante de uma vitrine de discos antigos, o reflexo do próprio rosto misturado com capas coloridas de vinis empoeirados. Respirou fundo, os olhos fechados por um instante. Podia sentir a tensão se acumulando nas calçadas, nas vitrines, no ar. O jogo. A decisão. A vida — que se aproximava com passos largos, inevitáveis.

Mas por ora, bastava continuar andando. Um clique de cada vez.

E por ora, precisava estar lá. Por ele. Por ela. Como prometeram um ao outro.

(...)

O céu começava a mudar de cor quando Hannah voltou para o apartamento.

As nuvens, antes espessas e acinzentadas, agora se tingiam de laranja e rosa, como se a cidade também estivesse desacelerando aos poucos. O corredor do prédio estava silencioso, o som abafado dos elevadores e das portas se fechando era quase reconfortante. A chave girou com facilidade na fechadura. Dentro, tudo estava do mesmo jeito. Quente, calmo, com cheiro de casa.

Ela largou a mochila no canto da sala, tirou os tênis com um suspiro e foi direto para a cozinha, onde ainda restava metade do suco na garrafa térmica. Bebe um pouco em pé, apoiada no balcão, enquanto pensava no quanto tinha andado naquele dia — e no quanto fotografara.

Passou a manhã e parte da tarde pelas ruas do centro, registrando o contraste entre a euforia da cidade e as pausas humanas escondidas ali: um homem dormindo sob o toldo de uma loja fechada, a expressão tensa de um motorista preso no trânsito, os olhos esperançosos de uma garçonete que falava do jogo como quem fala de um sonho pessoal. Cada clique parecia mais urgente do que o anterior, como se algo grande estivesse prestes a acontecer — e ela precisava guardar todos os detalhes antes que o mundo virasse de novo.

Depois de um banho demorado, vestiu um short largo e uma camiseta velha dele — a mesma que costumava usar nas noites em que o visitava em Knoxville. Pegou o celular e se jogou no sofá, o corpo pedindo descanso, mas a cabeça ainda cheia de ruídos.

Havia uma mensagem de Ethan, enviada cerca de uma hora antes.

[Ethan]

“Café da tarde sem graça sem você aqui. Time tá focado, mas o clima tá estranho. Silêncio demais. Acho que todo mundo sabe o peso de amanhã. Já já vamos pra última reunião do dia. Me manda foto sua se tiver acordada. Beijo, pequena.”

Hannah sorriu e tirou uma selfie deitada no sofá, cabelos úmidos e a camiseta dele amassada nos ombros.

[Hannah]

“O silêncio daqui também é estranho. Mas tô contigo. Um clique de cada vez, lembra? ❤️”

Não demorou para ele responder.

[Ethan]

“Amanhã é o maior clique de todos, então. Quero ver você na arquibancada. Camiseta dos Raiders ou a minha?”

[Hannah]

“A sua. Sempre a sua.”

Ela digitou, apagou, escreveu de novo. Pensou em contar sobre Nashville. Mas não era hora. Não ainda.

[Hannah]

“Vai lá. Se concentra. A cidade inteira vai estar de olho amanhã. Mas eu só vou estar olhando pra você.”

[Ethan]

“Você sempre sabe o que dizer. Boa noite, pequena. Sonha comigo.”

[Hannah]

“Sonho toda noite.”

Encostou o celular no peito por um instante, como se fosse possível ouvir o eco da voz dele dali. Depois, o colocou sobre a mesinha e apagou as luzes da sala, deixando apenas a cidade iluminada pela janela.

No quarto, ajeitou a câmera na prateleira, do lado da mochila. Amanhã ela levaria apenas o essencial — cartão de memória vazio, bateria cheia, coração aberto.

Amanhã era dia de jogo.

E de todos os dias, era o único que ela não queria que passasse rápido.

(...)

A noite estava silenciosa demais, mesmo com os colegas de time espalhados pelos quartos ao redor. Ethan encarava o teto do quarto de hotel, os fones nos ouvidos sem música nenhuma, apenas abafando o mundo. A última reunião tinha terminado fazia pouco, e cada palavra dos técnicos ainda ecoava na mente como se estivessem tentando transformar nervos em confiança.

O celular vibrava sobre o criado. Ele não queria olhar, não queria perder a concentração. Mas olhou.

Notificação: e-mail de contato profissional. Assunto: Proposta preliminar – Tennessee Titans.

Sentou-se devagar, o coração batendo no ritmo errado, a visão pareceu turvar um pouco, sentindo a adrenalina subir como se fosse levar um sack. Leu a mensagem uma, duas vezes. Era direta, mas cheia de camadas. Falava em reconstrução, em planos para a próxima temporada. Em espaço no elenco. Em um quarterback que conhecia o coração do estado — e que podia ajudar a reconectar o time com sua torcida.

No rodapé, uma frase simples: “Às vezes, voltar pra casa é o passo mais corajoso. Estamos de olho em você amanhã.”

Ethan encostou o telefone no queixo e fechou os olhos por um momento, uma das pernas balançando violentamente. Nashville. Era como se o universo inteiro estivesse tentando alinhar as peças. Hannah. O time. A cidade onde tudo começara.

Mas nada daquilo importaria se ele não entregasse tudo no campo, amanhã à noite. Ele sentiu um peso momentaneamente cair sobre si, o peso dos últimos cinco anos, do tempo sem Hannah, da possibilidade de voltarem juntos para o Tennessee, de defender seu time do coração.

E ali, no silêncio do quarto de hotel, sem o barulho dos gritos da torcida ou o peso da armadura, ele sussurrou pra si mesmo:

— Só mais um jogo. Só mais um acerto.