O amanhecer em Las Vegas não chegava devagar. Ele explodia.

Os primeiros raios de sol batiam contra os prédios espelhados, refletindo luz dourada em ângulos inesperados, como se a cidade se recusasse a perder o brilho da noite. O neon ainda piscava em alguns letreiros teimosos, tentando manter viva a ilusão de um tempo que nunca parava. Mas a manhã já começava a se impor. O céu, antes um breu profundo, tingia-se de tons rosados e lilases que desbotavam em azul à medida que as nuvens finas se estendiam pelo horizonte.

Nas ruas, a transição era quase imperceptível. O silêncio rarefeito da madrugada dava lugar ao som crescente dos motores, dos passos apressados, das portas de lojas se abrindo com um rangido metálico. O ar ainda carregava a poeira da noite anterior, misturada ao cheiro de café fresco das padarias que retomavam o fluxo de clientes. Turistas, cambaleantes de cansaço ou embriaguez, seguiam de volta para seus hotéis, enquanto trabalhadores emergiam para um novo turno. Era um ecossistema em constante movimento, onde cada pessoa fazia parte de uma engrenagem invisível que mantinha a cidade viva.

Apesar da euforia de um novo dia, haviam duas pessoas que ainda reviviam os acontecimentos da noite anterior:

Ethan entrou em seu apartamento e trancou a porta atrás de si, soltando um longo suspiro. O ar ali dentro parecia pesado, carregado de uma solidão diferente daquela que ele já conhecia. Tirou a jaqueta e jogou sobre a poltrona, passando a mão pelos cabelos antes de se jogar no sofá. O silêncio do lugar contrastava com a vibração da cidade lá fora, e por um momento, ele ficou apenas ali, encarando o teto, tentando organizar os pensamentos. Mas era inútil. A noite ainda estava nele — na forma como Hannah o olhara, no som da risada dela misturado ao ronco do motor, no gosto de nostalgia que não queria sair de sua boca.

Do outro lado da cidade, Hannah chutou os sapatos para um canto do quarto de hotel e se jogou na cama sem nem se preocupar em apagar as luzes. O colchão macio afundou sob seu corpo cansado, mas sua mente ainda pulsava, revivendo cada detalhe das últimas horas. O vento frio do deserto, o brilho dos olhos de Ethan, a sensação de que estavam testando os limites de algo que nunca realmente terminou. Fechou os olhos e inspirou fundo, tentando desacelerar o peito, tentando convencer a si mesma de que aquilo não mudava nada. Mas sabia que estava mentindo.

Lá fora, Vegas seguia em frente. Mas para Ethan e Hannah, aquela noite ainda não tinha terminado.

Ethan acordou sobressaltado, o som estridente cortando seu sono curto e confuso. Piscou algumas vezes, sentindo a cabeça pesada, o corpo protestando contra a falta de descanso adequado. A lembrança da noite anterior veio de uma vez, como um clarão, mas ele não teve tempo para se perder nela.

Treino. Rotina. Disciplina.

Levantou-se, passou as mãos pelo rosto e inspirou fundo antes de vestir a camisa e os shorts do time. Já no vestiário, o burburinho dos outros jogadores parecia mais alto que o normal, ou talvez fosse só ele que ainda não tinha se ajustado completamente ao dia.

O campo o esperava.

Nos primeiros minutos, a exaustão parecia pesar sobre seus ombros. Mas então, algo mudou. O ritmo das jogadas começou a fluir, seus passes estavam mais certeiros, sua leitura do jogo mais rápida. A bola saia de suas mãos com precisão, e seus companheiros começaram a notar.

— Carter tá inspirado hoje — um dos wide receivers comentou, depois de pegar um passe perfeito na lateral.

O técnico cruzou os braços e observou. Ainda não era o melhor desempenho de Ethan, mas havia algo diferente. Uma leveza nos movimentos, uma confiança sutil que não passava despercebida.

— Mantém esse ritmo, Carter! — gritou o treinador. — Quero ver você fazer isso nos jogos!

Ethan assentiu, recuperando o fôlego entre as jogadas. Não sabia exatamente o que estava diferente, só sabia que algo dentro dele parecia ter se reorganizado.

Enquanto tirava o capacete e caminhava para o vestiário, o telefone vibrou em seu armário. Pegou o aparelho, a testa franzindo ao ler a mensagem na tela:

"Espero que esse ainda seja o seu número. Bom dia. Dormiu bem?"

Ele levantou as sobrancelhas e tentou disfarçar o sorriso que naturalmente queria despontar de seus lábios. Olhou para os lados antes de digitar de volta:

“Não sei se bem é a melhor descrição, mas o suficiente para treinar. Café?”

Surpreendentemente, diferente do que ocorria cinco anos no passado, a mensagem foi visualizada na hora, com os pontinhos da digitação aparecendo em seguida:

“Tenho uma reunião com a organização da exposição. Almoço?”

Ele soltou o ar, que nem percebeu ter prendido.

“Perfeito, assim não preciso matar o restante do treino. Risos”

Um emoji de risos veio como resposta, junto com a chamada do técnico pra uma exaustiva reunião tática.

Ethan soltou um suspiro antes de guardar o celular e pegar uma toalha para secar o suor que ainda escorria pelo rosto. Sentia o peso do treino nos músculos, mas, pela primeira vez em muito tempo, não sentia aquela exaustão arrastada que costumava acompanhá-lo nos últimos meses. Talvez fosse o efeito residual da noite anterior, ou talvez fosse só o fato de que, de alguma forma, ele não se sentia tão sozinho quanto antes.

A reunião tática se arrastou por quase uma hora. O técnico esmiuçava cada jogada, cada erro, cada detalhe que poderia ser melhorado. Ethan ouvia, absorvia, mas sua mente ainda pairava em outros lugares. Hannah. O nome dela era um eco persistente, misturado às vozes dos treinadores e ao barulho da caneta do assistente rabiscando anotações na prancheta.

— Carter, tá comigo? — a voz firme do técnico o trouxe de volta.

Ethan piscou, endireitando a postura.

— Sim, senhor.

O técnico estreitou os olhos, avaliando.

— Você treinou bem hoje. Mas não adianta nada se a cabeça estiver em outro lugar quando precisar estar aqui.

Ele assentiu.

— Sim, senhor.

— Bom. Agora some daqui e volte amanhã melhor ainda.

Ethan não precisou de mais incentivo. Tomou um banho rápido, vestiu uma camisa limpa e saiu do centro de treinamento com passos apressados. O sol do meio-dia estava alto no céu quando entrou no carro e seguiu em direção ao restaurante onde encontraria Hannah.

Do outro lado da cidade, Hannah fechava o caderno de anotações depois de mais uma reunião com a organização da exposição. As conversas tinham sido produtivas, mas ela se pegava conferindo o celular mais vezes do que o normal, antecipando a hora do encontro. Quando recebeu a mensagem de Ethan confirmando que estava a caminho, sorriu de leve e guardou os papéis na bolsa.

Minutos depois, os dois estavam sentados frente a frente em uma mesa de canto de um restaurante de vidro e madeira, afastado do burburinho turístico de Vegas. A luz natural entrava pelos grandes janelões, iluminando as feições de Ethan de um jeito que Hannah não se lembrava de ter visto antes.

— Então… — ele começou, girando distraidamente o copo entre os dedos. — Você dormiu bem?

Ela riu, cruzando os braços sobre a mesa.

— Melhor do que você, pelo jeito.

Ethan soltou um riso pelo nariz, balançando a cabeça.

— Isso não é difícil.

Um silêncio confortável se instalou entre os dois, até que Hannah inclinou a cabeça de leve, observando-o com curiosidade.

— O que foi? — ele perguntou.

— Nada. — Ela sorriu. — Só… você parece diferente hoje.

Ethan arqueou uma sobrancelha.

— Diferente como?

Hannah deu de ombros.

— Mais leve.

Ele não respondeu de imediato, apenas olhou para ela por um instante antes de soltar um suspiro e se recostar na cadeira.

— Talvez eu só esteja tentando lembrar como é me sentir assim.

Ela sustentou o olhar dele por um segundo a mais do que deveria.

— Talvez seja um bom começo.

E, por algum motivo, Ethan sentiu que talvez ela estivesse certa.

O garçom se aproximou e colocou os pratos sobre a mesa. Ethan inclinou-se levemente para sentir o cheiro da comida antes de pegar os talheres.

— Você ainda pede o mesmo de sempre — Hannah comentou, olhando para o prato dele.

Ele deu de ombros, cortando um pedaço da carne.

— Por que mudar algo que já funciona?

Ela sorriu, balançando a cabeça.

— Algumas coisas só funcionam até pararem de funcionar.

Ethan ergueu os olhos para ela, avaliando o comentário.

— Você tá falando do jantar ou de outra coisa?

Hannah segurou o garfo no ar por um instante, depois riu, desviando o olhar para o próprio prato.

— Acho que pode servir para os dois.

O silêncio que veio depois não foi desconfortável, mas carregava um peso que os dois ainda estavam tentando decifrar. Ethan tomou um gole da água antes de se apoiar nos antebraços sobre a mesa.

— E a exposição? Como foi a reunião?

Hannah pegou um guardanapo, limpando um canto da boca antes de responder.

— Bem. Eles querem ajustar algumas coisas na disposição das fotos, mas no geral, estão satisfeitos com o que eu trouxe.

— Alguma chance de Vegas ser só o começo?

Ela brincou com o anel fino em seu dedo por um momento antes de responder.

— Talvez. Ainda tem muito a ser discutido, mas… sim, pode ser.

— Você quer isso?

Hannah ergueu os olhos para ele, como se estivesse considerando a resposta certa.

— Quero. Mas sabe como é… às vezes, quando você finalmente chega onde queria, percebe que não sabe mais o que vem depois.

Ethan assentiu, entendendo mais do que gostaria.

— Sei exatamente como é.

Os olhos dela se estreitaram levemente.

— Você tá falando do futebol ou de outra coisa?

Ele riu, balançando a cabeça.

— Acho que pode servir para os dois.

Dessa vez, Hannah sorriu de verdade, apoiando o queixo na mão enquanto o observava.

— Você sempre foi bom em devolver minhas frases contra mim.

— Uma das minhas poucas habilidades fora do campo.

O garçom passou por perto e Hannah aproveitou para pedir mais café. Ethan olhou de relance para o relógio no pulso, notando como o tempo parecia correr diferente ali.

— E depois daqui? Algum compromisso? — ele perguntou.

Ela negou com a cabeça.

— Só preciso dar uma passada na galeria pra confirmar alguns detalhes, mas nada urgente.

Ele girou o copo entre os dedos.

— Então… tem tempo pra dar uma volta?

Hannah inclinou a cabeça, analisando-o.

— Você tem treino de novo à tarde, não tem?

— Tenho. Mas nada que me impeça de dar uma escapada antes.

Ela fingiu ponderar por um momento antes de sorrir.

— Acho que posso abrir uma brecha na agenda.

Ethan sorriu de volta, e naquele instante, algo dentro dele se ajustou. Ele não sabia exatamente o que era, mas sabia que, pela primeira vez em muito tempo, ele queria descobrir.

O sol de Vegas refletia nas vitrines das lojas enquanto Ethan e Hannah caminhavam sem pressa por uma rua menos movimentada, longe do barulho dos cassinos e dos turistas em busca de sorte. O vento quente do deserto fazia o cabelo dela balançar, e Ethan, sem perceber, observava cada detalhe — o jeito como ela franzia levemente a testa ao olhar para o horizonte, o brilho nos olhos quando algo chamava sua atenção.

— Você lembra daquela noite? — Hannah quebrou o silêncio, ainda olhando à frente.

Ethan sabia exatamente de qual noite ela estava falando, mas fingiu não ter certeza.

— Qual delas?

Ela deu um meio sorriso.

— A que mudou tudo.

Ele inspirou fundo, passando a mão pela nuca.

— Como eu poderia esquecer?

Hannah assentiu, chutando uma pedrinha no chão antes de falar.

— Eu fiquei checando o horário depois da exposição, pensando se dava tempo de ir até o pós-jogo — ela admitiu. — Mas no fim, só voltei para casa e fiquei vendo os melhores momentos.

Ethan virou o rosto para encará-la.

— Sério?

— Sério. Vi seu passe com o braço trocado… e o quanto você apanhou naquele jogo.

Ele soltou um riso nasalado, balançando a cabeça.

— Aquela defesa era um pesadelo.

— Parecia. Mas seu passe foi brilhante. Você sempre fazia umas jogadas que pareciam impossíveis.

Ele deu de ombros.

— Só tentava manter a cabeça no jogo.

Hannah o observou por um instante antes de voltar a olhar para a rua.

— Você conseguiu. E eu… bom, eu vendi minha primeira foto naquela noite.

Ethan parou de andar por um instante, franzindo o cenho.

— Espera. Você vendeu uma foto naquela noite?

Ela assentiu.

— Sim. A primeira.

Ele piscou, processando a informação.

— Eu não sabia disso.

— Você também não soube de muita coisa — ela respondeu, a voz carregando um tom neutro, sem mágoa, apenas constatando um fato.

Ele passou a língua pelos lábios, assentindo lentamente.

— É… acho que não.

Um pequeno silêncio se instalou entre eles antes de Hannah soltar um suspiro leve.

— Mas foi naquela noite que eu percebi que podia levar isso a sério. Pela primeira vez, alguém pagou para ter algo que eu criei. E você, naquela mesma noite, estava brilhando no campo.

Ethan sorriu de canto.

— E olha onde a gente veio parar.

Hannah riu.

— É, olha só.

(...)

No final daquela tarde, sentados em um banco de madeira em um pequeno parque escondido entre os prédios da cidade, Ethan virou-se para Hannah, observando-a enquanto ela mexia no celular, verificando alguns e-mails.

— E então — ele começou, apoiando os antebraços nos joelhos —, quando e onde vai ser sua exposição?

Hannah ergueu os olhos para ele, surpresa pela pergunta.

— Na sexta-feira, no Bellagio.

Ethan soltou um assobio baixo.

— Chique.

Ela sorriu.

— Um pouco.

— Você está animada?

Hannah hesitou por um segundo antes de responder.

— Sim… e não.

— Por quê?

Ela suspirou, girando o celular entre os dedos.

— Porque toda vez que exponho algo, sinto que estou colocando um pedaço meu lá, à vista de todo mundo. É como se estivesse sendo julgada... E depois da exposição devo voltar pro Tennessee, pra ver meus pais.

Ethan assentiu, entendendo melhor do que imaginava, digerindo ainda a informação de que ela precisaria ir embora. De novo.

— Sei como é. A diferença é que, no meu caso, eles só me vaiam ou gritam meu nome — Apostou em uma verdade em tom de brincadeira, para mascarar o leve amargor que estava sentindo.

Ela riu.

— Talvez eu prefira isso.

— Duvido. Você sempre gostou da ideia de contar histórias com suas fotos. Agora tem um palco pra isso.

Hannah desviou o olhar para frente, um sorriso pequeno brincando nos lábios.

— É, eu tenho.

Ethan inclinou a cabeça, estudando-a por um instante.

— Quer que eu vá?

Ela mordeu o lábio inferior, ponderando a pergunta.

— Você quer ir?

— Quero.

O jeito direto com que ele respondeu a fez respirar fundo.

— Então vá.

Ethan sorriu.

— Eu vou.

E ali, sem precisar de mais nada, os dois entenderam que aquilo não era só sobre uma exposição.

Era sobre o que viria depois.