O tempo parou.

Foi um instante, um lapso, mas o suficiente para Ethan esquecer onde estava, o que estava fazendo e até mesmo porque tinha entrado naquele bar em primeiro lugar. O copo que girava lentamente entre seus dedos ficou imóvel. O som abafado das conversas ao redor se dissolveu em um zumbido distante. Tudo o que restava era ela.

Hannah.

Cinco anos. Quase cinco anos sem vê-la, sem ouvi-la, sem sentir aquele olhar sobre si. Mas ali estava ela, como se o tempo tivesse dado uma volta completa para trazê-los de volta ao mesmo ponto. O mesmo olhar inquisitivo, a mesma presença marcante, o mesmo ar de algo que ele não soube deixar ir embora de sua vida.

O ar entre eles ficou denso, pesado. Ethan sentiu o peito apertar, uma confusão de emoções se chocando dentro dele. Havia tantas coisas para dizer, tantas perguntas, tantas palavras engolidas ao longo dos anos.

Mas nada saiu.

Foi Hannah quem quebrou o silêncio primeiro. A voz dela era a mesma, mas carregava um peso diferente agora. Mais madura, talvez. Mais vivida.

— Carter.

Ele piscou, a respiração voltando de repente, como se tivesse sido puxado de volta à realidade. O bartender, que até então observava a cena com um meio sorriso, deu um passo discreto para longe, como se soubesse que aquele momento pertencia apenas a eles.

Ethan abriu a boca e tornou a fechá-la. Passou a mão pelo rosto, tentando organizar os próprios pensamentos antes de finalmente responder.

— Lawson. — Ele balançou a cabeça, ainda assimilando. — Eu... Uau.

Ela inclinou a cabeça levemente, cruzando os braços diante do corpo. A sombra de um sorriso surgiu novamente e a voz provocativa e bem-humorada que ecoou por tantas vezes na mente dele tornou a soar:

— Uau? — Ela repetiu, um vestígio de um sorriso cada vez mais evidente nos lábios. — Cinco anos e tudo o que você tem a dizer é "Uau"?

Ele soltou um suspiro, encostando o cotovelo no balcão e apoiando a testa na mão por um instante, antes de encará-la de novo.

— Eu tinha outras opções. Mas não queria começar com um palavrão.

Hannah soltou uma risada curta, mas algo a deteve. Depois de tudo, ainda tinham essa intimidade? Ela desviou o olhar por um segundo, como se tentasse decidir o que fazer a seguir. Então, voltou a encará-lo, os olhos verdes com um brilho que parecia um misto de preocupação e ansiedade.

— Você está bem, Ethan?

Ele se pegou rindo, mas dessa vez havia algo amargo na sua voz.

— Honestamente? Não sei. — Ele tomou um gole da cerveja, ainda sem desviar os olhos dela. — E você? O que diabos está fazendo aqui? Quer um autógrafo?

Hannah hesitou, mordendo levemente o lábio inferior antes de responder.

— Exposição de fotografia. Fiquei sabendo de um evento aqui e... Bem, achei que valia a pena. — Ela deu um meio sorriso. — E você? Só mais uma noite bebendo e reclamando da vida para um bartender paciente? Pensei que devia estar... sei lá, treinando?

Ethan soltou uma risada curta, balançando a cabeça.

— Algo assim. Mas devo dizer que a companhia melhorou de repente.

Ela ergueu uma sobrancelha, divertida. Surpreendendo-o ao puxar um banco ao lado para sentar-se.

— Dessa vez não soou irônico.

Ele desviou o olhar:

— Nunca pensei que te veria por aqui — disse, a voz baixa, quase rouca.

Hannah inclinou a cabeça levemente, um sorriso persistente no canto dos lábios.

— Nem eu. Vegas nunca esteve nos meus planos.

Ele deu de ombros, um pequeno sorriso surgindo, tomando coragem para sustentar o olhar dela.

— Você não mudou muito — comentou ele. — Ainda tem essa mania de aparecer do nada e bagunçar tudo.

Hannah fingiu considerar aquilo, levando o copo dele aos lábios antes de responder. Se perguntando quando diabos ela havia pegado aquele copo?

— Acho que isso diz mais sobre você do que sobre mim. Eu só entrei em um bar.

Ethan riu, mais solto desta vez, e balançou a cabeça.

— Você sempre teve respostas para tudo — O semblante de riso dele foi reduzindo para uma meia tristeza — Você sumiu — comentou, sem desviar o olhar.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Eu sumi? Engraçado. Eu podia jurar que era você quem estava sempre em outro estado, outra cidade, com seus jogos e o time.

Ele suspirou, balançando a cabeça.

— Então é isso? Vamos jogar esse jogo? A culpa, as ironias, as meias verdades? Eu devo começar te lembrando de Nova York?

Hannah cruzou os braços, sentindo seu coração acelerado contra as costelas. Não era raiva. Não exatamente. Era saudade disfarçada, era dor disfarçada, a briga que nunca tiveram a oportunidade de ter.

— Eu não estou jogando nada, Ethan. Só estou aqui. Assim como você — Ela se virou totalmente para encará-lo — E foi você quem quis começar com as acusações. Você sabe o que de fato aconteceu.

Ethan passou a língua pelos lábios, pensativo. A perna tremia de agitação. Depois olhou para o bartender.

— Mais uma. E um para ela também.

O homem trouxe mais uma garrafa e um copo extra.

— E agora? — Ela perguntou, a voz mais baixa. — O que a gente faz com isso?

— Podemos começar apenas bebendo. — As palavras saíram com um tom de ironia, apesar de não ser a intenção.

Ethan segurou o olhar dela por um longo momento, sentindo um frio estranho percorrer sua espinha. Ele deslizou os olhos para a sandália delicada nos pés dela e depois de volta para o rosto da garota, o canto da boca se curvando com um toque de nostalgia.

— Pelo menos, dessa vez, não prendeu o salto na lama. — Sua voz carregava um tom quase cúmplice.

Hannah piscou, surpresa pela lembrança, antes de rir suavemente.

— Você nunca esqueceu disso?

— Como esquecer? Tive que te carregar até a caminhonete naquela noite. Foi aquela noite...

Ela balançou a cabeça, um brilho divertido nos olhos.

— Eu nunca quis que aquela noite terminasse.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Eu também não.

O momento pairou entre os dois, e Hannah percebeu o que estava acontecendo. O tempo entre eles não havia apagado certas coisas. Sequer as havia enfraquecido.

— Você ainda dorme com uma câmera ao lado da cama? — perguntou Ethan, com um tom um pouco mais divertido, um meio sorriso ao mencionar a lembrança.

Hannah riu, revirando os olhos.

— Só quando estou trabalhando. E você? Ainda fala sozinho antes dos jogos?

Ele fingiu indignação.

— Isso era concentração.

— Claro que era. — Ela tomou um gole da bebida, os olhos brilhando com uma provocação silenciosa, enquanto cruzava uma perna sobre a outra, levantando o copo como se brindasse. — Assim como quebrar um controle de videogame quando perdia para sua namorada. De novo e de novo.

Ethan colocou a mão sobre o peito, teatral.

— Está pegando pesado agora.

A conversa pareceu suavizar seguindo esse ritmo, uma dança entre passado e presente, provocação e sinceridade. Mas em algum momento, o tom mudou sutilmente. O olhar de Ethan ficou mais intenso, e Hannah sentiu o peso daquela conexão se insinuando entre os dois.

— Não achei que sentiria sua falta, por tanto tempo — murmurou ele, quase como um pensamento em voz alta.

Hannah ficou em silêncio por um momento, o coração acelerando. Poderia fingir que não ouviu, mudar de assunto, manter o clima mais leve entre eles. Mas ao invés disso, apenas respondeu, num tom mais suave:

— Nem eu.

Por um instante, tudo ao redor pareceu desaparecer. Não era mais um bar em Vegas, nem dois estranhos que haviam seguido caminhos separados. Eram eles, de novo, como se ainda estivessem sentados na velha F150 de Ethan, dirigindo pela noite entre a cidade e o campo.

A noite se estendia, e assim como naquela primeira noite, nenhuma despedida parecia suficiente, não queriam correr o risco de deixar um ao outro ir embora novamente. No fim, sair juntos do bar foi quase natural. Não houve convite explícito, nem decisão verbalizada. Apenas uma sincronia que os guiou para fora, lado a lado, como se fosse a única opção possível.

(...)

O vento quente da noite os envolveu quando cruzaram a porta do bar. Hannah puxou o blazer um pouco mais para perto do corpo, e Ethan notou o gesto. Olhou para ela de cima a baixo, um meio sorriso se formando.

— Não é tão quente como o Tennessee, não? — comentou, divertido.

Hannah revirou os olhos.

— Nada é como o Tennessee. E você sabe.

Ele riu, balançando a cabeça.

— Não. Mas, não é tão ruim, tem de tudo por aqui.

— E o que precisa além de estradas, música e cerveja? — retrucou ela, cruzando os braços. — Não foi um rádio e um violão que te renderam um beijo uns anos atrás?

— Foi. — Ele fez uma pausa, observando-a. — Mas não me importaria de repetir a cena, se fosse o caso.

Hannah segurou o olhar dele por um instante, e a tensão entre os dois se tornou quase tangível. O que quer que fosse aquilo crescendo entre eles, não era apenas nostalgia. Era algo que nunca tinha desaparecido completamente.

Ethan tirou as chaves do bolso, girando-as entre os dedos antes de acenar com a cabeça na direção da caminhonete estacionada perto do meio-fio.

— Vamos? Eu te levo.

Ela hesitou por um breve momento, mas então sorriu, caminhando ao lado dele sem discutir.

— Pelo menos nisso você manteve o bom gosto, apesar de eu achar um pouco chique demais para você — Ela parecia se divertir — Aquela F150 parecia fazer mais seu estilo.

— Eu sinto falta daquela caminhonete, apesar dela quase ter me matado algumas vezes — Ele riu alto, enquanto abria a porta para que Hannah entrasse.

Ethan girou a chave na ignição, e o motor da caminhonete rugiu suavemente antes de se acomodar em um ronco grave. A cidade ainda pulsava do lado de fora, mas dentro do carro, tudo parecia suspenso no tempo. Assim que ele puxou o câmbio para a ré, os primeiros acordes de uma música familiar começaram a tocar no rádio. Sem hesitar, ele girou o botão para mudar de estação.

— Ei! — Hannah protestou, franzindo o cenho. — Por que você fez isso?

— Fiz o quê? — ele desviou o olhar rapidamente para ela, como se não soubesse exatamente do que ela estava falando.

— Você sabe. — Ela cruzou os braços, fazendo uma espécie de birra — Muda de volta.

Ethan apertou os lábios, hesitando por um momento, mas então girou o botão novamente, deixando a música retornar. Ele relaxou no banco, os dedos batendo levemente no volante conforme a batida da música. Hannah parecia satisfeita, recostada contra o assento, observando a paisagem desfilar pela janela.

Enquanto dirigia ele captou, sem querer, o olhar de Hannah. Ela não desviou o olhar quando os olhos deles se encontraram. Por um instante, parecia que estavam de volta no passado, cruzando estradas de terra, despreocupados, sem a carga dos anos que se passaram.

Hannah quebrou o silêncio primeiro:

— Você já pensou... em como teria sido?

Ethan apertou levemente o volante, desviando o olhar por um momento antes de voltar a encará-la.

— O quê? — perguntou, embora já soubesse a resposta.

— Se tivéssemos tentado diferente. Se tivéssemos feito as coisas de outro jeito.

Ele soltou um suspiro leve, seus olhos alternando entre a estrada e o reflexo dela no espelho.

— O tempo todo.

Hannah assentiu lentamente, o olhar fixo na escuridão lá fora. A música ainda tocava, falando sobre velocidade, sobre parar, sobre não precisar ir a lugar algum para que a noite valesse a pena. Ethan percebeu que suas mãos estavam firmes no volante, mas não era por causa da estrada. Era por causa dela, sentada ali ao lado dele, como se os últimos cinco anos tivessem sido um lapso no tempo.

— E então? — ela perguntou, sua voz mais baixa agora. — Como você acha que teria sido?

Ele sorriu, mas era um sorriso carregado de lembranças.

— Provavelmente como sempre foi. Bagunçado. Intenso. Com você me obrigando a deixar uma música decente tocando no rádio.

Ela riu suavemente.

— Então pelo menos algo que nunca muda.

Hannah abaixou o vidro e o vento quente da noite entrou, carregando o cheiro distante de asfalto e gasolina. Ethan reduziu um pouco a velocidade, sem pressa de chegar. Hannah percebeu, e um sorriso quase cúmplice surgiu em seus lábios.

— Você passou do meu hotel.