Love You, Miss You, Mean It

13 S2E13: Sad Girl Summer (pt. 2)


*Três anos e meio atrás*

O café estava movimentado naquela manhã, com o cheiro de grãos moídos se misturando ao leve aroma de baunilha do cappuccino de Hannah. Sentada em uma mesa próxima à janela, ela ajustava as configurações de luz em uma sequência de fotos no laptop. Sua última exposição havia sido bem recebida, e agora ela estava finalizando detalhes de uma nova série de imagens para apresentar em uma galeria em Austin. O trabalho a mantinha ocupada, focada, e era exatamente disso que precisava.

Pelo menos era o que ela achava, até que um movimento ao lado chamou sua atenção. A televisão no canto do café exibia um programa matinal de entretenimento, e uma imagem conhecida apareceu na tela. Hannah piscou, incerta se tinha visto direito, mas o nome que surgiu na legenda confirmou: Ethan Carter e Ashley Thompson: problemas no paraíso?

Seu estômago revirou, um reflexo involuntário ao ver a foto de Ethan ao lado da mulher com quem ele esteve nos últimos anos. O apresentador comentava sobre rumores de que o casal estaria enfrentando dificuldades, citando viagens constantes, agendas conflitantes e a pressão da mídia esportiva sobre Ethan, especialmente após uma sequência irregular nos Raiders. Algumas imagens recentes do casal em um evento pareciam forçadas, distantes. "Fontes próximas dizem que os dois já não são vistos juntos há semanas", o apresentador destacou antes de mudar para outra notícia.

Hannah desviou o olhar para a tela do laptop, mas a imagem de Ethan permanecia nítida em sua mente. Fazia anos que não tentava saber nada sobre ele. Sempre que o nome dele surgia, ela escolhia ignorar, seguir em frente. Mas agora, o passado tinha se intrometido sem aviso, e seu coração parecia não ter sido informado de que tudo aquilo deveria estar bem enterrado.

— Han? Tá tudo bem? — Lauren perguntou, sentando-se à frente dela com um copo de chá gelado na mão.

Hannah piscou, voltando ao presente, mas mal conseguindo esconder seu desconforto. — O quê? Ah, sim. Só me distraí.

Lauren seguiu seu olhar até a televisão, onde a notícia já havia mudado para um escândalo qualquer de Hollywood. Ela ergueu uma sobrancelha. — Você viu, né?

Hannah suspirou, passando a mão pelo cabelo. — Não significa nada. Só… estranho ver ele depois de tanto tempo. E eu não acredito que ele ficou tanto tempo com aquela patricinha, bom, não que eu me importe.

— Certo. E essa sua reação super tranquila quer dizer que você não está nem um pouco abalada — Lauren comentou com ironia, apoiando o queixo na mão. — Han, é normal. Ele foi importante pra você. E agora tá aí, com a vida dele escancarada na TV, parecendo que não tá bem. Dá um nó na cabeça mesmo. Quantas vezes ele não apareceu no noticiário nesses últimos anos? Dizem que ele tem um tanque à diesel no lugar do estômago... Sabe o que quero dizer?

— Eu não deveria me importar — Hannah murmurou, fechando o laptop e apoiando o rosto na palma da mãos esquerda, fechando os olhos. — Já faz tempo demais. E além disso, eu nem sei o que tá acontecendo de verdade.

Lauren apenas deu de ombros e revirou os olhos. — Olha, eu só acho que se alguma coisa ainda te incomoda, talvez valha a pena entender o porquê. Não tô dizendo pra você ir atrás dele ou algo assim, mas… se tem algo mal resolvido, às vezes é bom encarar. Ou... Procurar um psicólogo, como uma pessoa normal faria, sabe? Se não quiser esquecer seus problemas no divã, talvez uma psicóloga – Completou com uma meia risada.

Hannah riu sem humor. — Encarar o quê? A vida dele é completamente diferente da minha agora. Não tem mais nada ali.

— Se você diz — Lauren respondeu, mas o tom dela sugeria que não acreditava completamente.

Hannah mudou de assunto, tentando recuperar a concentração no trabalho. Mas ao longo do dia, as palavras de Lauren e a imagem de Ethan voltavam à sua mente em momentos aleatórios. No fundo, uma inquietação crescia, um sentimento indefinido que ela preferia não nomear.

(...)

*Um mês atrás*

Os últimos anos foram uma loucura. Tour de exposições por todo o território nacional, alguns pontos internacionais (a Escócia ganhou um lugar especial no coração da fotógrafa) e muito reconhecimento. Era hora de umas boas férias, viajar sem que fosse a trabalho e, quem sabe, finalmente escolher um lugar para sossegar da vida de hotéis e viagens. O home-office parecia ser uma opção, com a grande quantidade de fotos capturadas para serem editadas e colocadas em padrão para exposições e vendas.

Enquanto visitava seus pais no Tennessee, seu local favorito no mundo, Hannah recebeu um convite inesperado: uma amiga fotógrafa havia conseguido um espaço para expor em um evento em Las Vegas e a convidou para participar, para ajudar a alavancar o evento com algumas das fotos premiadas. Era uma oportunidade excelente, uma chance de expandir contatos e mostrar seu trabalho em um novo ambiente... Quem sabe um novo financiador para que não precisasse mais viajar tanto?

Mas algo mais a fez hesitar. Las Vegas. A cidade dos Raiders.

Ela quase recusou. A ideia de estar tão perto, mesmo sem intenção de procurá-lo, parecia perigosa. Mas no final, o lado racional venceu. Isso era trabalho. E ela não ia deixar um fantasma do passado interferir em sua carreira.

Assim, algumas semanas depois, ela se viu descendo de um voo em Las Vegas, sem saber que o destino tinha planos próprios para aquela viagem.

O dia havia sido longo, mas produtivo. Hannah passou a manhã na montagem da exposição, ajustando iluminação, revisando posicionamentos e certificando-se de que cada detalhe estivesse como deveria. O espaço era elegante e moderno, com uma curadoria que misturava novos talentos e nomes já reconhecidos. Ver suas fotos ocupando aquele ambiente a encheu de satisfação, um lembrete de quão longe tinha chegado desde que começou.

À tarde, decidiu explorar um pouco a cidade. Las Vegas nunca havia sido um destino desejado, mas já que estava ali, por que não aproveitar? Caminhou sem pressa pelas ruas movimentadas, observando a extravagância de cada detalhe – os letreiros luminosos, os cassinos grandiosos, os turistas encantados com o brilho artificial ao redor. Em um café tranquilo, tirou um tempo para revisar e selecionar imagens no laptop, ajustando cores e detalhes que ainda precisavam de retoques.

O tempo passou rápido, e quando olhou para o relógio, percebeu que já era fim de tarde. A fome começava a dar sinais, e ela decidiu procurar um lugar menos turístico para jantar. Andou algumas quadras até encontrar um bar de esquina, com uma fachada discreta e janelas embaçadas pela diferença de temperatura entre o lado de fora e o ar-condicionado interno. O ambiente parecia agradável, nada muito badalado, perfeito para relaxar antes de voltar ao hotel.

Assim que entrou, foi recebida pelo som abafado de conversas e pelo cheiro de madeira e whisky. Caminhou até o fundo em direção ao balcão, quando antes de ver, ouviu:

— …Poderia estar em qualquer lugar do país, treinando, tentando melhorar meu jogo, tentando dormir pra mais um dia de trabalho. Mas, em vez disso, estou sentado nesse bar, sentindo saudades da minha velha F150 e contando minha vida pra um cara que só queria saber por que diabos eu estava bebendo sozinho

Hannah congelou, ouvindo a risada de uma segunda voz, mais relaxada.

— Bom, tenho que admitir que não esperava uma biografia completa. Mas vou te dizer uma coisa, cara... às vezes, a gente só precisa falar as coisas em voz alta pra entender melhor.

Virou levemente a cabeça, devagar, ainda escutando:

— Talvez. Ou talvez eu só precise de uma cerveja.

E ali estava ele. Ethan Carter, sentado alguns bancos à frente, conversando com o bartender. Ele girava um copo nas mãos, o olhar fixo em um ponto qualquer, enquanto falava.

O coração dela disparou. Não era possível. Ela se sentiu imobilizada, apenas conseguindo assistir ao bartender sacar outra garrafa e continuar seu diálogo terapêutico com Ethan:

— Essa é por minha conta. Mas, se quer um conselho de um estranho, talvez seja hora de largar essas drogas de carros Ford e investir em um Chevy.


Mil pensamentos passavam pela cabeça de Hannah: Las Vegas era enorme, ele poderia estar em qualquer outro lugar da cidade, e ainda assim, ali estavam os dois, separados por poucos metros. O coração dela parecia que iria explodir, uma mistura de emoções tomou conta de sua racionalidade, fazendo-a se virar totalmente para o quarterback, que estava praticamente de costas pra ela.

— Acho que já passou da hora pra isso — Disse Ethan, ao atendente — E agora? Agora eu estou aqui. Tentando lembrar porque tudo isso importava tanto. Tentando entender porque, depois de tudo, ainda me sinto metade de lá.

O destino, ao que parecia, ainda não tinha terminado seu jogo. Quase que involuntariamente, a garota respondeu antes de o bartender conseguir emitir qualquer vogal:

— É difícil deixar a cidade natal para trás.

Ela observou Carter se virar e erguer os olhos. O tempo o havia mudado, mas Hannah ainda enxergava traços do garoto que conheceu tantos anos atrás. O cabelo, um pouco mais comprido e desarrumado, caía sobre a testa, como se ele tivesse passado a mão nele muitas vezes ao longo da noite. A barba estava por fazer, começando a cobrir parte da mandíbula forte, diferente da barba feita que ele costumava manter nos tempos de faculdade.

Os olhos, aqueles mesmos olhos azuis intensos, estavam diferentes. Ainda carregavam o brilho feroz de quem nunca gostou de perder, mas havia algo mais ali agora—um peso, talvez. Pequenas sombras marcavam a pele abaixo deles, sinais de noites mal dormidas. O cansaço não o tornava menos imponente; na verdade, só ressaltava o contraste entre o homem que ela conheceu e o que estava diante dela agora.

Apesar disso, Ethan ainda tinha a postura de um quarterback. A camisa escura moldava o tronco definido, e os músculos nos antebraços denunciavam o trabalho duro que ele continuava colocando no próprio corpo. Mas havia algo desalinhado ali, como se a força física estivesse em desacordo com a exaustão que ele carregava por dentro.

Faziam quase cinco anos, mas não havia como fingirem ou fugirem, eles dois estavam ali.