Love You, Miss You, Mean It

12 S2E12: Sad Girl Summer (pt. 1)


*Quatro anos e meio atrás*

A galeria estava cheia. As luzes estrategicamente posicionadas destacavam cada fotografia pendurada nas paredes brancas impecáveis. Hannah circulava pelo espaço, cumprimentando visitantes e ouvindo elogios sobre seu trabalho, mas sua mente estava distante. Ela segurava uma taça de vinho branco, sem realmente saborear o líquido, enquanto tentava absorver tudo ao seu redor. Era sua primeira grande exposição solo e, no papel, deveria estar radiante. Mas algo dentro dela parecia deslocado.

As imagens contavam histórias que ela capturou ao longo dos últimos anos—retratos de estradas esquecidas, silhuetas contra pores do sol alaranjados, momentos de simplicidade congelados no tempo. Suas fotos sempre foram sobre capturar a essência bruta da vida, sem maquiagem, sem pretensão. Mas ali, no ambiente refinado da galeria, cercada por críticos e investidores, ela se perguntava se ainda reconhecia a garota que começou tudo aquilo.

Olhando ao redor, percebeu o quanto tinha mudado. O vestido preto elegante que vestia era uma escolha cuidadosa, bem diferente das camisetas largas e jeans surrados que costumava usar quando ainda ia ao campus da faculdade, antes de conseguir essa oportunidade de estágio. O salto incomodava seus pés acostumados a botas gastas, e a conversa refinada ao seu redor não parecia pertencer ao mundo de onde veio. Hannah sempre soube que crescer exigia sacrifícios, mas nunca pensou que um deles seria se sentir uma estranha em sua própria pele.

Seu olhar caiu sobre uma das fotos mais antigas da exposição—uma estrada de terra cortando um campo dourado sob um céu azul infinito. Ela se lembrou exatamente do dia em que tirou aquela foto. Estava no banco do passageiro da caminhonete de Ethan, as janelas abaixadas, o vento quente bagunçando seus cabelos enquanto ele aumentava o volume do rádio. Foi um daqueles momentos em que a vida parecia simples, em que o presente era tudo o que importava.

O tempo passou, e ela percorreu um caminho que a levou para longe dali. Trabalhou duro para se estabelecer no meio artístico, enfrentando rejeições, questionando se estava no caminho certo e, finalmente chegando em sua primeira grande chance. Apesar da sensação de conquista, de vitória ao chegar até ali e ver seu nome em letras douradas sob cada fotografia, seu estômago ainda revirava ao lembrar da notícia sobre o jogo que estava acontecendo naquele momento. Ela sabia o peso que havia naquele jogo: Era a sua universidade, o garoto por quem se apaixonara, a cidade que a acolheu, seus amigos.

Hannah engoliu em seco e secou uma lágrima antes que a mesma quisesse escorrer. Ela não sabia nem como diria para sua família que não poderia voltar para se graduar, que após o estágio já tinha um contrato para trabalhar e que a empresa a auxiliaria a se formar à distância. Talvez estar nessa cidade, tão próxima e tão longe, fosse o mais perto que iria chegar da Universidade do Tennessee em um bom tempo.

— Fascinante como você captura a vastidão e a solidão da estrada — disse uma voz masculina ao seu lado. Hannah se virou e encontrou um homem de meia-idade, vestindo um terno cinza impecável. — Há uma melancolia na composição. Nostalgia, talvez?

Ela forçou um sorriso, assentindo.

— Sim, algo assim — respondeu, sem saber exatamente o que queria dizer.

— Eu gostaria de adquirir essa peça. Acho que ficaria perfeita no meu escritório — ele comentou, dando um gole em seu vinho.

Hannah assentiu novamente, sentindo uma mistura estranha de satisfação e desconforto. Aquela foto era um pedaço dela, e agora pertenceria a alguém que jamais entenderia o momento que ela capturava. Mas esse era o preço de transformar sua arte em profissão, certo?

Com uma desculpa educada, ela se afastou da conversa e seguiu até um canto mais afastado da galeria. Encostou-se contra a parede e puxou o celular da bolsa. A tela se iluminou com as notificações de mensagens e redes sociais, mas seus olhos foram direto para o placar do jogo. Seu peito apertou ao ver que estava acirrado. Ela quase mandou uma mensagem para uma amiga perguntando como estava o clima no estádio, mas hesitou. Talvez pudesse pegar o pós-jogo, afinal a exposição não ia até tão tarde.

Respirando fundo, ela bloqueou o celular e olhou para a cidade além das janelas da galeria. Estava ali, vivendo o sonho pelo qual trabalhou tanto. Então por que sentia que uma parte de si ainda estava em outro lugar?

Foi então que uma das assistentes da galeria se aproximou apressada.

— Hannah, desculpa interromper, mas precisamos de você. Um dos investidores quer discutir uma possível parceria, e o diretor da galeria quer que você esteja presente.

Ela hesitou por um momento, sua cabeça ainda vagando pelo campo de futebol da universidade. Mas sabia que não podia recusar. Esse tipo de oportunidade não surgia todo dia.

— Claro — respondeu, endireitando os ombros e guardando o celular na bolsa. Com um último olhar para a cidade lá fora, ela seguiu a assistente para uma sala reservada, onde a noite, e talvez seu destino, tomariam um rumo inesperado.

(...)

*Quatro anos atrás*

As luzes neon piscavam em tons de azul e vermelho sobre o bar de madeira rústica, enquanto a banda ao vivo tocava uma versão animada de um clássico country. O honky-tonk estava lotado naquela noite de verão, o chão de madeira vibrando sob as botas de quem dançava sem preocupação. O cheiro de cerveja misturava-se ao perfume doce das garotas que riam e brindavam, aproveitando a energia contagiante da noite. No meio da multidão, Hannah tentava entrar no clima, mas seu coração ainda pesava.

— Você prometeu, Han! — disse Lauren, puxando-a pela mão em direção à pista de dança. — Hoje não é noite de choro.

Hannah revirou os olhos, mas não resistiu quando a amiga lhe entregou um shot de tequila e ergueu o copo com um sorriso encorajador.

— Essa é por você — Lauren declarou. — Por seguir em frente e finalmente largar aquele encosto!

— Ele não era tão ruim… — Hannah começou, mas a amiga a cortou com um olhar afiado.

— Han, ele odiava suas fotos. Dizia que era um "hobby" e que você deveria arrumar um trabalho de verdade. Isso já é motivo suficiente pra gente comemorar que ele ficou no passado!

Hannah suspirou, sabendo que Lauren estava certa. Os meses com Ryan tinham sido um ciclo de pequenas frustrações que, acumuladas, se tornaram insuportáveis. Ele não entendia sua paixão, criticava seu tempo gasto em exposições e, no final, a fazia se sentir culpada por querer mais do que ele podia oferecer.

Ela engoliu o shot, sentindo a queimação quente descendo pela garganta. A música ficou mais alta, ou talvez ela só estivesse começando a se permitir sentir a noite. Lauren girou Hannah pela pista, puxando-a para perto quando a banda iniciou um refrão contagiante. Os pés dela se moveram sem esforço, lembrando-se de velhas noites de dança na faculdade, quando as coisas eram mais simples.

De repente, um grupo de rapazes se aproximou, claramente interessados em se juntar à diversão. Um deles, alto e com um sorriso fácil, ofereceu a mão para Hannah.

— Vamos ver se você sabe dançar, moça.

Ela hesitou por um segundo, mas, ao olhar para Lauren, viu a amiga assentir com entusiasmo. "Por que não?", pensou. Era hora de seguir em frente. Segurou a mão estendida e deixou-se levar pelo ritmo animado.

Enquanto girava sob as luzes coloridas, sentiu algo mudar dentro dela. Ainda doía, mas pela primeira vez em muito tempo, havia espaço para outra coisa além da saudade. Talvez Lauren estivesse certa. Aquela não era uma noite para lamentar.

Hannah se recostou contra o balcão, rindo enquanto Madison e Lauren tentavam convencer o bartender a dar rodadas grátis de tequila. O neon piscava refletindo nos copos, e o calor do verão deixava a pele delas levemente brilhante.

— Ok, meninas, valendo — Lauren anunciou, ajeitando a alça do vestido justo. — Quem conseguir mais drinks grátis até a meia-noite ganha.

— E o que a vencedora leva? — Hannah perguntou, arqueando uma sobrancelha.

Madison, já meio alta, ergueu o dedo como se estivesse prestes a fazer uma declaração importante.

— O orgulho de ser irresistível. E um café pago amanhã de manhã, porque com certeza a gente vai precisar.

Hannah riu, pegando a taça de margarita que um cara ao lado dela acabara de oferecer.

— Então já estou na frente.

— Não vale! — Lauren protestou. — Isso foi sem esforço.

— É talento natural — Hannah brincou, piscando para ela.

Elas se espalharam pelo bar, cada uma testando sua própria estratégia. Madison dançava perto do grupo de rapazes com camisas abertas, jogando o cabelo e lançando olhares sugestivos. Lauren preferia a abordagem direta, rindo alto e jogando charme. Hannah, por outro lado, apenas se divertia. Apesar de tentar fazer o melhor daquela noite, não se sentia no clima para tantos flertes, principalmente após o término recente.

Um jogo de futebol americano passava em uma micro televisão, atrás do balcão onde os garçons buscavam as bebidas. Hannah tentou dar uma espiadela, mas a sensação de desconforto e nostalgia que começou a invadi-la a impediu de prosseguir.

O relógio já batia 00h e as meninas se reuniram, cada uma com sua conta dos drinks. Não haviam conseguido tanta coisa, mas havia sido divertido. Quando Hannah estava pronta para realizar um último brinde, sentindo que a missão da noite havia sido cumprida, o garçom trouxe uma rodada de shots de um grupo misterioso do outro lado do bar.

— Agora sim estamos no jogo! — Madison comemorou, pegando o copo.

Elas ergueram os shots, brindando antes de virá-los de uma vez. O líquido desceu queimando, mas a risada abafou qualquer reclamação.

— Como tá se sentindo agora? — Lauren perguntou a Hannah, cutucando-a de leve.

Hannah sorriu, sentindo a leveza do momento retornando.

— Como alguém que não tem motivos para um verão de tristezas.