Love Song
6 Parte VI
Notas iniciais
Cumprimentei a organizadora do jantar e iniciei meu trabalho. Esse era um dos grandes... apesar de ser um jantar restrito, era em um restaurante bem requintado e os participantes eram todos empresários de alto escalão. Se eu fizesse um bom trabalho aqui, poderia receber mais indicações.
Mesmo preocupado com as meninas e com o que poderia estar acontecendo na casa de Laura, me concentrei em fazer boas fotografias sem incomodar os clientes. Estava correndo tudo muito bem. O evento se estendeu por quase 40 minutos além do combinado, mas quando recebi o envelope com o dinheiro e uma sacola parda com porções da comida que estava no menu de hoje, fiquei bem satisfeito. Teríamos uma ótima refeição amanhã!
Mais 30 depois e eu estava parado em frente a casa de Laura. Já era bem tarde, quase meia noite, estava morto de vergonha de entrar ali novamente. Não queria incomodar a Sr.ª Thomas, então liguei para o celular de Laura – sim, ela gravou o número dela no meu celular e eu disse que era inútil, pois não usaria – Bem, estou usando agora. Ela me atendeu no 2º toque e logo vi as luzes da varanda acenderem.
Ela já havia trocado de roupa, vestia um pijama de bichinhos e estava com os cabelos soltos. Continuava tão linda quanto estava na festa. Quase me bati por pensar isso.
“Oi, Dom! Que bom que voltou, suas irmãs estavam preocupadas com você.” Ela disse levemente corada e com uma cara de quem queria perguntar coisas.
“Olá, Laura. O evento acabou passando um pouco do horário combinado... espero que as meninas não tenham incomodado ou causado problemas.”
“Ah, não seja bobo, elas são uns amores. Vamos, entre.” Ela abriu mais o portão e sinalizou para que eu entrasse. Passei as mãos nos cabelos, encabulado.
“Ah não, obrigada, já incomodamos demais por um dia inteiro, só chame as pirralhas por favor e a gente já vai indo...”
“Que besteira, foi incômodo nenhum... as crianças se divertiram juntas.”
“Acredito, as meninas adoram ter coleguinhas pra brincar, mas realmente precisamos ir... está bem tarde.”
“Tudo bem, então... elas estão meio sonolentas, acho que de qualquer forma, você vai precisar entrar pra pegá-las. Quer que eu chame um taxi pra você?”
Aquela pergunta fez todo sentido e ao mesmo tempo me pegou desprevenido. Eu planejava ir pra casa de ônibus, não era tão longe, a viagem seria curta e mais barata. Mas não era tão seguro com as duas pequenas nesse horário... táxi era a opção mais segura, mas ao mesmo tempo me faria gastar mais do que o planejado pra hoje. Droga, onde eu estava com a cabeça?
Laura percebeu quando eu hesitei e acho que entendeu tudo, pois quando eu abri a boca pra responder a sua pergunta, ela me interrompeu dizendo “tudo bem, Dom, eu chamo e outro dia você me paga... é mais fácil e seguro pra você levar as meninas agora.” E não me deixou questionar.
Não era a situação mais confortável, senti como se estivesse aceitando caridade e isso me deixava meio envergonhado, mas agora não estava em posição de questionar muita coisa.
Entrei na casa e me deparei com as três garotinhas agarradas no sofá, dormindo pesado, exaustas do dia de festa e brincadeiras. Era impossível não sorrir. Minhas meninas tiveram um dia feliz e isso fazia tudo valer a pena. Não importava mais se eu tinha vergonha, se eu estava sempre estocando comida e carregando marmitinhas dos eventos em que eu trabalhava. Eu não importava. Eu já estava contaminado, meu coração já era ferrado. Mas elas eram inocentes e mereciam só o melhor.
Laura me olhava curiosa enquanto me ajudava a separar as garotas. Eu sabia que ela estava se segurando muito pra não me encher de perguntas e eu agradecia por isso. Não queria responder perguntas.
Logo o carro chegou, agradeci a Laura por cuidar das meninas e por ter providenciado nosso transporte. Ela me abraçou e me deu um beijinho rápido na bochecha, ficando extremamente vermelha logo depois. Eu sei que não fiquei diferente, senti meu pescoço e rosto esquentarem muito. Ignorei sua reação – e a minha – peguei as meninas e fomos embora.
Nosso trajeto foi bem rápido, logo estávamos em casa. Por sorte, nossos pais nem estavam em casa, então foi tudo bem mais tranquilo.
Alice e Aurora estavam tão cansadas que eu troquei suas roupas pelos pijamas e elas mal se mexeram. Ajeitei as duas na cama e fui tomar um banho. Me sentia exausto. O dia foi cheio de situações inusitadas. Aconteceram várias coisas que eu não esperava e não soube lidar.
Sempre me orgulhei de ser maduro e esperto o suficiente pra me virar e sair de qualquer situação embaraçosa, mas hoje eu não fui nada. Sem saber de nada e provavelmente sem intenção, Laura dominou todo o meu dia, decidiu coisas por mim e de certa forma, ao cuidar das garotas, ela cuidou de mim também. Pensar sobre isso me causava sensações com as quais eu não estava preparado pra lidar.
Antes de ir dormir, vi uma mensagem dela no meu celular, perguntando se chegamos em casa bem e se estava tudo certo. Não respondi. Não posso perder o foco agora. Com a mente a mil, deitei com as minhas meninas e apaguei.
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