Love Song
4 Parte IV
Notas iniciais
Quando percebi que Aurora e Alice estavam realmente dormindo, me levantei com cuidado e fui cuidar de outras coisas. Primeiro fui até o armário buscar a comida que havia trazido pros meus pais. Todos os dias na volta pra casa eu passava em um restaurante e comprava uma porção de comida. Peguei a embalagem, ainda lacrada, e levei até o quarto deles. Eu não ousava entrar nesse quarto há muito tempo. Abria a porta apenas o suficiente para passar o recipiente com a comida e fechava novamente. Eu nem sei se eles comiam, mas sempre deixava lá, era uma forma de tentar cuidar deles apesar de tudo.
Ainda eram 21:40, estava cedo para que eu fosse dormir. Resolvi pegar minha câmera e tirar algumas fotos do céu à noite, estava bonito hoje, mas ainda era pouco para ocupar minha cabeça como eu gostaria. Me sentia inquieto. Queria sair e dar uma volta, mas não tinha coragem de deixar as crianças sozinhas em casa. Andei pelo quintal mesmo, precisava gastar um pouco de energia.
Minha cabeça ainda latejava um pouco e por algum motivo, enquanto andava, me lembrei de Laura. Ela era tão bonita e alegre, falante. Pensar nela me deu vontade de vê-la e falar com ela de novo. Mas era idiotice, eu sabia. Eu queria fazer amigos, me divertir, ser um adolescente normal. Mas eu sabia que não poderia. Eu não era um adolescente normal. Quem gostaria de ser amigo do estranho? O que eu tenho a oferecer além de problemas? Eu sou ninguém. Tudo o que eu tenho são aquelas duas garotinhas dormindo e uma câmera de segunda mão.
Desistindo do quintal, resolvi entrar em casa e tomar um banho, talvez me ajudasse a relaxar um pouco. Enquanto me despia no banheiro vi meu rosto no espelho, um hematoma estava começando a se formar. Não podia fazer nada com isso, afinal. Tomei meu banho de uma vez e aproveitei que ainda estava sem sono para dar uma olhada nas fotos que havia feito. Queria revelar algumas e montar um portfólio. Ter algumas para mostrar às pessoas poderia me arranjar mais trabalhos. Algumas fotos tinham lá sua qualidade, apesar da minha câmera não ser das melhores. Pensaria depois no que fazer, talvez o pessoal do estúdio não se importasse de eu usar o laboratório de lá para revelar algumas fotos.
Ainda sem sono, adiantei alguns trabalhos da escola e estudei um pouco. Nem sempre tenho paciência para ficar nas aulas, estudar em casa me ajuda a manter as notas. Quando finalmente me dei por vencido, já passava das 2h da manhã. Agora sim, poderia deitar e dormir.
O restante da semana passou como um borrão. Eu mal prestava atenção no que acontecia ao meu redor, exceto quando Laura me abordava na escola. Ela fazia questão de me encontrar todos os dias apenas para dizer um oi e desejar bom dia. No único dia em que ela não conseguiu falar comigo, me acenou um tchauzinho na sala de aula, enquanto eu saía.
Já era sábado e eu tinha muitas coisas a resolver. Consegui dois trabalhos de fotógrafo para hoje e não sabia onde deixaria as meninas. O primeiro era uma festa infantil, que começaria as 15h e o outro era um evento em um restaurante no centro da cidade.
A Sr.ª Dias, que ficava com elas para eu trabalhar nos fins de semana, estava fora visitando parentes. Tentei babás, mas todas que consegui falar só aceitavam trabalhar na casa da criança e eu precisava justamente tirar as minhas crianças de casa. Sem saber o que fazer desta vez e muito envergonhado, liguei para dona da festa das 15h.
“Sr.ª Thomas, bom dia! Como vai? Sou Dominic, farei as fotos da sua festa mais tarde...”
“Ah, olá Dominic, como vai? Precisa de alguma informação para mais tarde?”
“Na verdade, Sr.ª Thomas, estou com um problema e talvez a senhora possa me ajudar. Tenho 2 irmãs pequenas, meus pais viajaram a trabalho e eu estou responsável por elas. Não consegui alguém para ficar com elas hoje, então gostaria de saber se poderia leva-las comigo. Elas são bem comportadas e não participariam da festa, só ficariam me esperando em algum local da casa. Caso não seja possível, posso sugerir um outro fotógrafo para atender sua festa.”
“O que é isso, rapaz, jamais me incomodaria! Chamamos tantas crianças pra essa festa que eu nem saberia se viessem algumas a mais – disse ela rindo — Fique tranquilo e pode trazer as duas.”
“Muito obrigado, senhora, nem sei como posso agradecer! Muito obrigado mesmo!
“Fique tranquilo. Faça fotos bem bonitas e estará tudo certo.”
“Certo. Obrigado, mais uma vez. Nos vemos mais tarde.”
Fiquei aliviado por poder levar as duas. O evento da noite era mais fácil. Como seria em um restaurante fechado, eu poderia deixa-las na área de funcionários. Não vou contar ainda, senão a euforia das duas por irem a uma festa vai ser muito difícil de conter.
Ainda era cedo, então levei as duas para brincar um pouco na pracinha perto de casa.
As 14h em ponto estávamos prontos para sair. Nossos pais não estavam em casa, devem ter saído antes de a gente chegar da rua. Arrumei as duas menininhas com os melhores e únicos vestidos que tinham para festa e fiz tranças em seus cabelos. Sim, eu sei fazer tranças e de vários tipos, aprendi desde que comecei a leva-las para escola. Estavam lindas em seus vestidinhos cor de rosa, idênticas. Arrumadas iguais assim, elas confundiam todo mundo.
Fomos de ônibus até o local da festa, a casa da família. Uma bem grande por sinal. Toda a entrada estava decorada, então qualquer um que passasse pela rua saber que estava acontecendo uma festa ali. Um funcionário no portão recebia as pessoas que chegavam. Me identifiquei e avisei que tinha a autorização da dona da festa para entrar com minhas irmãs. Não tivemos problemas, ela realmente escreveu uma observação na lista de entrada, confirmando a autorização.
A festa seria nos fundos da casa, onde havia um quintal enorme. Os convidados ainda não haviam chegado e só funcionários estavam no local, terminando de preparar os últimos detalhes. Era um aniversário de 6 aninhos para uma garotinha. Logo uma senhora muito elegante veio me cumprimentar:
“Olá, Dominic! Vejo que trouxe mesmo as suas irmãs, são meninas encantadoras!”
“Como vai, Sr.ª Thomas? Espero mesmo que não seja um problema ter trazido as duas. Parabéns pela decoração, está linda. E a senhora também está muito bonita.” Disse a ela usando toda minha educação e deixando um beijo respeitoso na mão que ela havia entendido para me cumprimentar.
“Imagina, não há problema algum. Pode me chamar apenas de Helena. Logo os convidados devem começar a chegar, então já vou lhe dizendo algumas coisas que gostaria de ver nas fotos depois.” E foi me explicando tudo que ela julgava importante ser registrado.
Deixei as meninas sentadas em uma mesa mais afastada junto com a minha mochila e comecei a fotografar o local e a decoração, para depois focar apenas nos convidados e na família.
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