Eu sabia o que nos esperava em casa. Nossos pais chapados, caídos em algum canto da casa. Por isso, as meninas e eu tínhamos uma regra de ouro: eu entrava em casa primeiro e elas me esperavam quietinhas, sentadas na calçada, para entrar só quando eu as buscasse. Assim fizemos.

Ao entrar em casa pude perceber que hoje não seria fácil. Eles estavam acordados, mas não sóbrios. O cheiro de álcool e cigarro estava sufocante. Cambaleantes, os dois praguejam e se agrediam. Minha garganta fechou ao ver a cena. Tentando separar os dois, acabei levando um soco no olho esquerdo. Mesmo alterado, meu pai ainda era um homem forte e o soco não foi fraco. Minha cabeça latejou imediatamente, mas não podia deixar tudo assim. Forcei um pouco a barra e consegui fazer com eles prestassem um pouco de atenção em mim.

“As crianças estão lá fora, vão entrar daqui a pouco. Vocês querem que elas vejam vocês desse jeito? Entrem no quarto, pelo menos.”

Tudo que recebi em resposta foi uma risada histérica da minha mãe, que perguntou quem eu era e o porquê de eu estar mandando na casa dela. Era deprimente vê-los nesse estado. Meu pai nem falava, acho que sua mente estava tão nublada que ele nem conseguia. Então só puxou minha mãe pelo braço e entrou com ela no quarto.

Não perdi mais tempo depois disso. Engoli o nó na garganta e qualquer coisa que eu pudesse estar sentindo com tudo aquilo e me ocupei em correr e ajeitar o caminho para entrar com as meninas.

Não dou muito tempo para que elas fiquem na sala ou na cozinha, nós sempre vamos direto para o quarto. Era o maior cômodo da casa e me apropriei dele assim que percebi que poderia ser o nosso refúgio. Tínhamos o nosso próprio banheiro, um armário que guardava bem nossas poucas roupas, um aparelho de som e uma TV pequena. A decoração ficou por conta de Alice e Aurora, que de vez em quando adicionavam uma obra de canetinha ou giz de cera nas paredes. Toda distração era importante para manter as duas coisinhas fora desse mundo de merda que a gente vivia.

A escolinha oferecia uma refeição reforçada antes da saída e as pestinhas sempre a aproveitavam bem, então só precisava me preocupar com o que elas comeriam antes de dormir. Consegui renovar nosso estoque de Leite, Aveia e Açúcar com uns freelas que fiz semana passada então o menu hoje seria mingau. Era fácil, rápido e elas gostavam.

“Chef Dom preparou um delicioso mingau de aveia para as duas princesas deste reino, concedam-me a honra, senhoritas.” Disse risonho e cheio de floreios. Alice e Aurora não perderam tempo, pegando cada uma sua tijelinha.

“Isso está uma maravilha!” Disse Aurora de boca cheia. Era a mais gulosinha. Enquanto Alice era um pouco mais chatinha pra comer.

“Queria que fosse mingau com raspinhas de chocolate, faz tempo que não comemos chocolate.” Disse Alice cutucando o mingau com a pontinha da colher.

Era culpa minha, eu sei, usei raspas de chocolate uma vez e elas piraram. Foi divertido, mas não dá pra repetir sempre.

“Princesas, estamos sem estoque de chocolate no reino, perdoem o Chef Dom. Assim que possível, providenciarei uma deliciosa sobremesa cheia de chocolate.”

“Bobinho hahahaha.” Disseram as duas rindo da minha interpretação.

“Chega de conversinha senhoritas, terminem o mingau que está quase na hora de dormir.”

Enquanto elas terminavam de comer, separei suas toalhas e pijamas. Eu as acostumei a dormir cedo, então logo depois do lanchinho da noite nós lemos alguma coisa ou assistimos um pouquinho de TV e em poucos minutos elas dormem que nem duas pedrinhas.

Banhadas e com os dentes escovados, deitei com as duas em nossa cama. Elas sempre seguravam a mão uma da outra para dormir. Aconchegadas e cobertas, me pediram pra contar de novo a história da nossa grande aventura.

Era uma história boba que eu inventei para mim mesmo, do momento em que finalmente poderíamos sair de casa, só nós três e começar uma nova vida em outro lugar.

Notas finais
Obrigada por lerem até aqui! Gostou do capítulo? Não? Deixe um comentário com o que gostou e/ou o que acha que pode ser melhorado. Estou Totalmente aberta a sugestões!