Love Song
2 Parte II
Notas iniciais
Depois dos acontecimentos da manhã com Laura, as aulas passaram que mal percebi. Tenho estado meio no piloto automático ultimamente, eu sei, mas estou cansado. Exausto.
Quando o sinal toca, já tenho minhas coisas guardadas e saio correndo da escola. Depois da aula, tenho um trabalho de meio período do outro lado da cidade. Sem tempo e dinheiro para uma refeição de verdade, vou comendo meus biscoitos de sempre. É o suficiente pra mim.
Trabalho em um estúdio de Pintura e Fotografia. Quem diria, não é mesmo? O esquisitão ama as artes. Sou apaixonado por fotografia e a minha facilidade em manusear os equipamentos e aprender a editar as imagens me rendeu esse emprego.
Não ganho muito lá, sou só um assistente em um estúdio pequeno, mas é suficiente para as meninas e eu. O estúdio paga minha condução de ida e volta, um lanche durante o expediente e o salário. Quando o mês é bom, consigo uns bicos de fotógrafo amador e isso me soma uma graninha extra.
A tarde passa rápido também. Faço a limpeza de todos os equipamentos, separo o material que vai ser usado no dia seguinte, atualizo a agenda e faço edições básicas em algumas imagens. Na área da pintura eu nem entro, lá tem outro assistente.
Logo chega minha hora de ir embora e eu corro pra buscar minhas garotas na escolinha. Agradeço as escolas públicas de tempo integral, ter onde deixar as meninas durante o dia é um alívio imenso. As duas pimentinhas, Aurora e Alice, estão me esperando no parquinho, como sempre. Elas amam esse lugar. Tem comida, amiguinhos, atividades legais e brincadeiras. Quando estou saindo com elas, a professora nos alcança. Ela me conhece, claro, sou sempre eu quem trago e busco as meninas.
“Ei, Dom. Tem um minuto para uma conversa rápida sobre as garotas?”
“Claro, tenho sim! Me esperem no parquinho, princesas.” Não fomos muito longe dali, só atravessamos a área onde ficam os brinquedos e nos sentamos nos bancos que ficam ali. O espaço colorido e agradável me lembra de quando eu mesmo era uma criança e tudo era mais fácil.
“Dom, sei que você já explicou que seus pais são muito ocupados, estão sempre trabalhando e não podem vir à escola, mas é no mínimo estranho que nenhum dos dois nunca possa vir aqui.”
“Eu sei Sr.ª Torres, mas meus pais trabalham muito, é realmente difícil para eles conseguirem acompanhar nossa vida escolar. As meninas não tem arranjado confusão por aqui, não é mesmo? Eles só virão se for algo grave, de restante eu mesmo posso resolver.” Recitei com maestria meu discurso, muito bem ensaiado para esse tipo de situação.
“Confio na sua responsabilidade, Dom, mas você é um adolescente e precisa de cuidados tanto quanto suas irmãs. Precisamos ter um adulto realmente responsável por vocês.”
Eu queria dizer a ela sobre a nossa vida e pedir ajuda. Quem sabe ela não traria boas soluções para nossa família? Mas eu tinha medo. Muito medo do que poderia acontecer a todos nós caso alguém soubesse.
“Tudo bem, Sr.ª Torres, vou dizer aos meus pais que vocês precisam de um deles aqui para conversar sobre as gêmeas. Muito obrigado.”
Encerrada a conversa, chamei minhas irmãs e seguimos para casa. Não morávamos longe da escolinha delas, então sempre íamos andando. Nosso trajeto era sempre alegre e muito divertido. Íamos brincando e contando histórias, imaginando vários cenários e várias aventuras. O meu maior objetivo era mantê-las seguras e felizes, e nesses momentos, rindo e brincando com as duas, eu me sentia muito feliz também. Esse era o único amor que eu conhecia e precisava. Não queria mais nada e nem ninguém.
Fale com o autor