Notas iniciais
Mais uma vez, desculpem o sumiço. A verdade é que eu estava numa fase de bloqueio total, não estava conseguindo escrever nem lista de supermercado xD (não riam porque é sério!). Até tinha começado a escrever esse capítulo muito tempo atrás, mas parecia que não ia acabar nunca porque fiquei bloqueada no meio do trabalho. Mas, bem, enfim saiu. E aqui está o resultado. Se alguém aí ainda estiver disposto a ler... obrigada pela paciência!

Megan joga o corpo sobre a cama macia, a cabeça girando por trás dos olhos cerrados. Ainda sente na boca o gosto do champanhe… o gosto de Davi. Que ela não achava que um dia fosse voltar a provar. Mas aqui está, delirando com o efeito da bebida e daquele beijo no estacionamento.

Sua mão toca os lábios, ainda inchados, seus dedos passeando de leve sobre a pele sensível. A sensação ainda é vívida. Quente. A boca de Davi na sua, devorando, sugando, beijando… queimando seu corpo e sua mente.

Em questão de segundos ele conseguiu nublar seu raciocínio, seu bom senso. A resistência que pensava ter adquirido nesses últimos meses.

“Fraca” ela murmura, abrindo os olhos e encarando o teto do quarto.

E sua maior fraqueza foi pensar que já estava pronta para resistir a ele.

Duas batidas leves na porta a arrancam dos próprios pensamentos. Megan leva os olhos até a superfície de madeira.

“Está aberta!”

“Posso entrar, ma chérie?”

Of course, grandma. Claro” Megan senta sobre o colchão.

Berenice entra no ambiente, puxando o robe de seda que veste por cima da longa camisola branca.

Megan ajeita os cabelos atrás da orelha. “Pensei que ainda estivesse na festa com a mom, grandma. Como vocês duas foram juntas, pensei que voltariam juntas também.”

“Eu queria ficar para acompanhá-la, mas Pamela me disse que não era preciso. Então pedi ao Edmilson que me trouxesse e depois voltasse para ficar à disposição da sua mãe.”

“Ah, okay” Megan passa a mão pelo cabelo, ainda certa de que está parecendo uma rata despenteada.

“E então?” Berenice senta na beirada da cama, encarando a neta com um pequeno sorriso. “Como foi a noite para você, minha pequena papillon?”

Megan não consegue mentir para a avó. Nesses últimos tempos de convivência estreita, uma coisa se tornou bem clara: não consegue mentir olhando para os olhos de Berenice.

“Foi… um pouco agitada” ela diz, tentando não revelar demais.

Oh, eu vejo” Berenice observa, sagaz.

Megan sente o rosto queimar ante o olhar da avó. Tem plena consciência de que seu visual é o pior possível — constatou isso em sua imagem refletida no espelho retrovisor do carro que a trouxe para casa.

Grandma, eu…” ela tenta se explicar, mas a avó é mais rápida e a interrompe antes que tenha a chance.

“Não se preocupe, Megan Lily. Sua avó é velha, mas justamente por isso já viveu muito. E viveu muitas coisas” Berenice oferece um sorriso apimentado, fazendo a neta rir. “Eu vi que você estava muito bem acompanhada na festa.”

Bruno. Megan se lembra da cara de decepção do acompanhante quando frustou suas expectativas ao não beijá-lo. E, fatalmente, seus pensamentos voltam à origem de tudo: Davi.

“Megan Lily?”

A voz de Berenice faz Megan perceber que voou para longe por um breve instante. Ela pisca, encarando a avó. “Bruno é um cara legal. Bonito. Interessante.”

“Mas…?” Berenice ergue uma sobrancelha.

“Mas…” Megan, sinceramente, não sabe o que responder. Diante de todas essas qualidades, seria perfeitamente compreensível, e até esperado, que não houvesse nenhum mas na história.

Parecendo ler seus pensamentos mais ocultos, Berenice é quem dá a resposta. “Mas ele não é Davi Reis, certo?”

Megan sente o rosto arder mais intensamente. Sente raiva de si mesma por ser tão transparente. Se sua avó percebe isso, com certeza Davi, neste exato momento, deve ter certeza de que ela está a seus pés.

Grandma, eu não posso mentir pra você. O Davi ainda mexe comigo” Megan abaixa o olhar, sentindo-se envergonha pela confissão. Berenice, porém, com uma mão delicada, ergue seu queixo, forçando-a a encará-la como lhe ensinou a fazer com todos e em todas as situações. “Mas eu não posso, e nem quero, deixar que esse poder que ele ainda exerce sobre mim controle a minha vida. Você sabe disso.”

“Sim, eu sei. E admiro você por isso, ma chérie. E sei como não é fácil superar certos sentimentos. Mas sei que lutar à força contra eles nunca é o caminho.”

“Como não?” Megan estranha a observação da avó.

“Quando você decide esquecer alguém, não adianta forçar o que sente para fora de si. Você deve vir em primeiro lugar. Deve pensar em sua pessoa, cuidar-se, amar-se. Depois… aí, sim, depois tudo chega no lugar naturalmente.”

Megan consegue apenas sorrir ante as sábias palavras da avó, que lhe dá um beijo suave na testa antes de se levantar da cama e sair em direção à porta. Mas, antes que Berenice a alcance, tem tempo de dizer as palavras “Thank you, grandma.”

Berenice se volta rapidamente para soprar um beijo antes de fechar a porta atrás de si.

Repousando a cabeça sobre o travesseiro e encarando novamente o teto, Megan suspira, as mãos pousando sobre o ventre.

Ah, se sua avó ao menos soubesse o que tinha acontecido menos de uma hora atrás! Em como cedeu nos braços de Davi. Em como seu corpo ainda arde sob o efeito do beijo, dos toques dele em seu corpo.

Esquecer. Ela não acha que vai conseguir tão fácil.

*

Davi deixa o corpo se arrastar até o sofá.

Aquele beijo… ah, aquele beijo despertou tantas coisas. Um desejo que estava apenas latente, e bastou tê-la de novo por perto para que reacendesse com uma força até então desconhecida para ele.

Sempre tinha sentido atração por Megan, isso era inegável. Mas nada comparado ao que havia tomado conta de si meia hora atrás. Algo tão forte e tão incontrolável.

Beijá-la de novo foi como abrir uma comporta que havia sido fechada tempos atrás, libertando águas pesadas demais para suportar. Tanta coisa que ele acreditava ter ficado para trás, num passado não tão distante.

Bastou tocá-la de novo para que tudo voltasse, e, desta vez, com ainda mais intensidade. O cheiro, o gosto dela… fizeram-no lembrar-se de como era bom quando estavam juntos. De como, apesar de todas as diferenças entre eles, seus corpos sempre se entenderam muito bem. Havia um encaixe, um acordo silencioso. Algo que os fazia funcionar como um só quando se tocavam.

Davi fecha os olhos, tentando descansar. As imagens que vêm à sua mente, no entanto, não o permitem. A pele clara e macia de Megan. Seu perfume doce, seu gosto...

A reação que as lembranças provocam é sentida mais do que depressa por seu corpo, o sangue correndo para a região mais sensível, produzindo uma fisgada inconfundível em sua virilha.

“Merda!” ele pragueja por baixo de um suspiro.

E, pelo visto, as lembranças não vão sumir tão cedo. No mesmo sofá onde está agora, os dois tiveram tantos momentos bons juntos. Tantas noites de paixão...

“Assim não, Megan” ele gemeu, encolhendo o ombro enquanto ela mordiscava o lóbulo de sua orelha.

“Why not?” ela liberou uma risadinha rouca, a ponta da língua contornando o mesmo ponto que havia acabado de morder.

“Porque assim… eu não respondo por mim” ele a puxou para o colo na mesma hora.

Megan soltou um gritinho de surpresa, aterrisando sobre ele, os dois ficando cara a cara.

Ele olhou para os olhos dela, iluminados pela luz da rua que entrava pelos vidros em cima da velha porta de garagem. As duas grandes esferas estavam escurecidas de desejo, brilhantes. Concentradas apenas nele.

Algo nele, dentro dele, tremeu naquele instante. Mas ele ignorou. Passando a mão para afastar o cabelo dela do rosto, seus dedos tocaram a pele macia do rosto no caminho, sentindo a textura suave, o calor.

Suas respirações roçavam o rosto um do outro. E levou apenas alguns segundos antes que suas bocas se tocassem, desafiando uma a outra.

E daí por diante, foi um emaranhado de pernas, mãos e braços. Uma dança de membros e sentidos. E calor. Sempre calor. E ele se sentindo mais vivo do que nunca.

“Ah!” Davi geme, sentindo o espasmo percorrer todo seu corpo enquanto sua mão se afasta do ponto mais rígido de seu corpo, a sensação de libertação o atingindo em cheio. “Merda!” ele geme baixinho.

O que um beijo foi capaz de provocar?

O que a mera presença dela fez com seu auto-controle?

O que sua vida sem Megan se tornou?

*

Dois dias depois...

Ela evitou pisar na Marra o máximo que pôde. Mas estava de volta ao Brasil para isso. Não podia deixar de fazer o que tinha vindo fazer. Seus interesses nos negócios estavam acima de tudo. Acima de suas fraquezas. Acima de Davi.

Respirando fundo, ela ajeita o blazer branco que veste por cima do vestidinho preto.

“Quinto andar, Miss Marra.” O ascensorita informa polidamente que já chegaram ao destino.

Thanks” ela agradece polidamente, saindo do elevador.

Como acontece desde seu retorno, as pessoas em volta não deixam de olhá-la. Megan ainda se pergunta se o fazem admiradas pela sua leve mudança de postura e visual, ou porque nenhuma delas consegue acreditar que esteja na empresa mas não a passeio.

Ela simplesmente ignora os olhares curiosos e segue em frente. Seus saltos ecoam no piso enquanto vai se dirigindo à sala de reuniões dos acionistas. Olhando rapidamente para o relógio de pulso, confirma a hora. Dez e quinze.

“Ele já devia estar aqui…” murmura baixinho, procurando o rosto conhecido do advogado da avó.

Nem sinal dele. Impaciente, Megan torna a olhar o relógio, perfeitamente ciente de que apenas o ponteiro que marca os segundos se moveu, mas incapaz de se conter. Mordendo o lábio inferior, contempla entrar na sala mesmo desassistida.

Quando está prestes a retomar a caminhada, uma figura chama sua atenção. Alto, trajando um terno de corte italiano, os cabelos negros muito bem aparados, a figura masculina a avista e, de repente, abre um sorriso.

Curiosa, Megan espera o rapaz se aproximar.

“Você deve ser Miss Marra” a voz grave é, ao mesmo tempo, suave, e o sotaque norte-americano não passa despercebido. O sujeito estende a mão amistosamente. “Sou Ricky Jones. Filho do Dr. Robert Jones.”

Oh” Megan é pega de surpresa; estende a mão para cumprimentá-lo. “Nice to meet you. Prazer. Estou esperando seu pai, ficamos de nos encontrar aqui no saguão do quinto andar para entrarmos juntos na reunião de acionistas.”

Recolhendo a mão, o jovem segura as alças da pasta executiva de couro.

“Sinto muito, meu pai teve alguns problemas de última hora em Paris, não houve tempo hábil de avisar. Como eu já estava a caminho da América do Sul, ele me pediu que viesse representá-lo.”

Megan olha desconfiada para o rapaz. Apesar da pinta de profissional e da elegância, ele parece novo demais.

Parecendo ler seus pensamentos, ele sorri. “Não se preocupe. Eu também sou advogado. Quer ver minha licença profissional?”

Oh, no, no” Megan sente o rosto queimar de vergonha. “Não é preciso.”

“Acredito que já estamos atrasados” ele observa.

“Sim, estamos” ela diz, dando-se conta de que não pode mais esperar para entrar na sala. “Melhor irmos. É por aqui” ela aponta na direção da grande porta escura.

Please” Ricky faz sinal para que ela vá na frente.

Com um rápido sorriso de agradecimento, Megan toma a dianteira. Sem bater, abre a imponente porta da sala e todas as cabeças à mesa se viram para vê-la entrar.

Good morning, senhoras e senhores.”

Seus olhos caem sobre o rosto dele quase de imediato. A expressão surpresa de Davi por vê-la ali é nítida. Assim como ele, nenhum dos outros acionistas parece disfarçar. Nenhum deles esperava essa interrupção, muito menos vindo dela.

Tratando de ignorar os olhares que tem sobre si, especialmente o de Davi, Megan aponta para seu acompanhante. “Este é Mister Ricky Jones, advogado, meu atual representante legal para assuntos relacionados à Marra.”

O jovem advogado faz um meneio de cabeça em sinal de cumprimento aos presentes. Megan, então, dirige-se à únicas cadeiras vagas na mesa — que ficam justamente à frente de Davi.

Mordendo a língua, ela caminha até os lugares disponíveis com Jones em sua cola.

*

“É uma oportunidade extremamente importante. O lançamento desse novo produto pode ajudar a melhorar ainda mais a situação da Marra.”

Davi recita as palavras automaticamente, muito mais do que as sente. Sabe que se trata de uma reunião importante e todo seu foco deveria estar nisso. No entanto, seus olhos, a todo tempo, acabam voltando ao par a sua frente.

É inevitável sentir curiosidade. Ela disse que o sujeito é seu advogado. Mas, tão jovem? Um cara que visivelmente parece mais um modelo saído de revista do que qualquer outra coisa.

Ele está incomodado, não sabe bem o porquê. Mas, tratando de não deixar transparecer, continua a explicação sobre o novo MarraPad, somente para ser interrompido pelo sujeitinho.

“As novidades incorporadas no produto são realmente notáveis” o rapaz ajeita a gravata enquanto fala, despertando ainda mais incômodo em Davi. “A comercialização internacional do produto é o que me preocupa.”

“E preocupa por quê?” Davi o desafia com o olhar e o queixo erguido. “Não sabia que advogados entendiam disso também.”

Mister Jones está aqui para defender meus interesses na Marra, Mister President” Megan se coloca na conversa, fazendo os olhos de Davi se desviarem para ela. A frieza com que acaba de chamá-lo de presidente é como um soco no estômago. “O nome da Marra International foi muito arranhado nos últimos tempos por causa dos escândalos que todos aqui conhecem. Incluindo meu pai e a antiga presidente, Manuela Yanes.”

O nome da moça sai frio dos lábios de Megan, ele não deixa de notar. E a menção a sua ex-namorada produz uma espécie de acidez no fundo de sua garganta. Davi morde a bochecha, tentando afastar o gosto ruim. Em seguida, dirige o olhar ao advogadozinho enxerido.

“Estamos conseguindo recuperar aos poucos a fama da Marra Brasil, o que deve ajudar na recuperação da confiança dos investidores internacionais. Prova disso foi o acordo que acabamos de fechar recentemente.”

O rapaz cruza as mãos sobre a mesa. “Sim, mas esse acordo foi feito entre representantes da América Latina. Lá fora, especialmente nos Estados Unidos, o nome da Marra ainda está muito abalado.”

“Então, o que sugere, Dr. Jones?” um Dr. Sabe Tudo quase lhe escapa, mas Davi consegue contê-lo na boca.

“Não é minha especialidade, já que lido apenas com a parte legal desse tipo de transação, mas me atreveria a sugerir que fosse tentado um contato com algum representante de confiança na California. Isso traria mais confiança de outros investidores internacionais.”

Excellent idea!” Megan exclama, abrindo um sorriso. “Eu poderia indicar pelo menos um ou dois nomes de grandes empresários que estariam dispostos a apostar na Marra International. Minha família tem muitos contatos na California, tenho certeza de que isso não será problema.”

Perfect!” Jones sorri para Megan.

Davi testemunha a troca de olhares e sorrisos entre os dois, o estômago se apertando em um nó de raiva. Desde quando Megan se interessa pelos negócios da família? Agora chega de mala e cuia e trazendo um advogado a tiracolo para quê? Ela quer provar que ele não é suficientemente competente para fazer seu trabalho?

“Agradeço a dica do doutor e da Miss Marra” Davi faz questão de pronunciar as palavras com a mesma frieza que ele usou no Mister President, “Levaremos em conta na ocasião apropriada.”

Um dos acionistas ergue a mão e aproveita a brecha para falar. “Na verdade, eu acho uma ideia brilhante. Precisamos de todo tipo de apoio internacional. Só assim vamos recobrar a confiança dos investidores.”

“Também estou de acordo” outro acionista se manifesta.

Para desespero de Davi, logo todos na mesa estão confabulando em favor do que o doutorzinho gringo e Megan acabam de sugerir. Sentindo o rosto quente de raiva, ele decide dar a reunião por encerrada, dispensando os acionistas.

Megan e o advogado são uns dos primeiros a se levantarem para deixar a sala. Os olhos de Davi não a perdem de vista. Erguendo-se rapidamente da cadeira, faz menção de ir atrás dela. Os dois precisam conversar.

Boss, deseja que eu leve o seu café para sua sala?” Murphy vem andando em seu encalço.

“Não quero café nenhum” Davi dispensa, sem se dar conta da rispidez, mais preocupado em alcançar Megan antes que ela chegue à porta da sala.

Com a confusão de pessoas no caminho, ele quase a perde de vista. Ciente de que precisará chamá-la para impedir sua saída da sala, ele chega a abrir a boca, mas a voz morre ao ver que ela sorri para o advogado, que faz sinal para que ela saia na frente dele.

Enquanto espera dois dos acionistas que estão a sua frente passarem, Davi observa como o sujeito é atencioso com Megan e como ela parece gostar dessa atenção.

Como pode? Um sujeitinho prepotente e metido a entendedor de investimentos! Mal chegou e já quer dar palpites? O pior é que, para ser sincero, o cara não deu nenhum fora. Ao contrário. A ideia é muito boa. Na verdade, excelente. E se Megan conseguir mesmo o apoio que disse, tornará tudo mais fácil.

Finalmente alcançando a porta da sala de reuniões e saindo por ela, Davi percebe que a perdeu de vista. Olhando para um lado e para outro, ele ainda a procura. Sente a aproximação de Muprhy e já abre a boca para perguntar, “Você viu pra onde eles foram?”

Davi sabe que o assistente entendeu perfeitamente a quem se referiu.

“Acho que foram naquela direção, Boss” o indiano aponta para a direita.

Davi caminha na direção indicada, a ansiedade tomando conta de seus passos. Precisa falar com Megan. Como ela volta assim, abalando seu mundo e agindo como se nada estivesse acontecendo? Eles se beijaram duas noites atrás, por favor! O mínimo que ela lhe deve é uma conversa. E não um tratamento frio como Sr. Presidente.

Mr. President uma ova!” Davi murmura baixinho, por baixo da respiração.