Notas iniciais
Não, eu não fui abduzida por alienígenas nem saí de férias para o Havaí (quem dera!)... foi só a minha enrolação/falta de tempo pra escrever mesmo. Desculpem deixar vocês tanto tempo sem atualização, tentarei compensar nos próximos capítulos ;) #Enjoy

O burburinho das conversas e a música poderiam ser os responsáveis pela desconcentração de Davi. Mas é outra coisa que está dispersando sua atenção a todo o momento.

Megan Marra.

A jovem linda e loira que seus olhos não conseguem perder de vista, mesmo enquanto conversa com um dos acionistas.

“O que acha, Davi?”

“Hã? Ah, desculpa, Marcos. Eu voei um pouco” ele pisca algumas vezes, voltando a atenção ao homem ao seu lado.

O olhar de Marcos acompanha a direção para a qual Davi estava olhando segundos antes. “Uau! Aquela é a Megan Marra, não é? Agora entendi porque a sua concentração voou.”

“Não é nada disso” Davi tenta negar o óbvio, o olhar caindo outra vez em Megan e seu acompanhante — é inevitável, eles não se separaram desde que chegou, rindo e conversando animadamente. Só queria saber o quê.

“Vocês não terminaram bem, não é?” Davi torna a olhar para Marcos, que rapidamente emenda, “Eu não tenho nada a ver com a sua vida privada, desculpe.”

Davi balança a cabeça, tomando mais um gole de champanhe. “Tudo bem. Todo mundo sabe que a gente terminou e ela saiu do país depois disso.”

“Pois é, por isso fiquei surpreso com a volta repentina dela.”

Eu também, Davi murmura em pensamento, os olhos fixos em Megan. A forma tão natural como as ondas douradas balançam nas costas expostas pelo decote do vestido enquanto ela diz alguma coisa para o sujeito que está com ela, arrancando dele uma risada.

A voz de Marcos chega aos seus ouvidos, piorando a dor aguda que está começando a surgir em suas têmporas. “Como ela está mudada, não acha? Parece que voltou ainda mais cheia de atitude.”

“É…” Davi murmura, deixando a taça sobre uma mesa logo ao lado.

Nesse exato momento, Megan se vira e o olhar dela cai sobre Davi. Por um breve instante, ele sente uma onda de calor atingir seu corpo, a pulsação disparando.

A conexão de seus olhares dura pouco… como se nem o tivesse visto, Megan torna a virar o rosto para o sujeito que está com ela. Sorrindo. Aceitando uma nova taça de champanhe que ele retira da bandeja do garçom que passa pelos dois e estende gentilmente para ela.

Davi não sabe se é a forma como a mão delicada dela toca brevemente a do rapaz enquanto pega a taça, ou a maneira como os lábios rosados murmuram delicadamente um agradecimento que fazem sua cabeça latejar.

“Tô vendo o Aurélio por ali, Davi. Vou trocar uma palavrinha com ele, tudo bem?”

“Pode ir” Davi desvia os olhos para Marcos e, no instante em que o acionista se retira, volta a olhar para o lado de Megan… que desapareceu.

*

Megan sente o ar fresco da noite tocar sua pele, uma sensação gostosa e bem vinda. No terraço da Marra, a luz da lua proporciona uma iluminação natural que, somada a algumas luminárias, dá um ar de sofisticada poesia ao lugar.

“Você é divertidíssima, Megan.”

Ela olha para seu acompanhante, tentando sustentar um sorriso. “Thanks, Bruno.”

“Não tem que me agradecer por falar a verdade. Você é divertida. E linda. E uma ótima e agradável companhia” o jovem empresário dá um sorriso charmoso, erguendo a taça que segura na mão, sugerindo um brinde.

Megan faz o mesmo. Os dois batem de leve os cristais.

“A termos nos conhecido hoje.”

Sure. Claro” Megan meneia a cabeça antes de beber.

Bruno faz o mesmo, voltando a estampar um sorriso assim que termina seu gole. Ele a encara sem hesitar. Ela sabe muito bem o que esse olhar significa. Desejo. Admiração. Se fossem outros tempos, ela sem dúvida nenhuma não esperaria ele dar o primeiro passo. Afinal, Bruno é bonito. Atraente. Sedutor.

Mas, estranhamente, isso tudo não está lhe despertando nada. Enquanto estavam no salão de festas, era tudo muito seguro. Ela sabia onde estava pisando. E saber que Davi estava ali tornava tudo ainda mais instigante. Tinha consciência de que ele a observava e queria exatamente que ele a visse, linda e animada ao lado de outro cara. Um que estava lhe dedicando total atenção desde o começo da festa.

Agora, porém, longe do barulho, dos convidados… de Davi… tudo parece menos interessante. Até mesmo a hipótese de ter um cara lindo e interessante ao seu lado.

“Megan” a voz de Bruno a arranca dos pensamentos. “Tudo bem?”

Ela pisca, olhando para o acompanhante. “Sim.”

“Você parecia tão longe daqui” Bruno observa. “Uma moeda pelos seus pensamentos” ele brinca, retirando uma do bolso e virando-o entre os dedos diante de seus olhos.

Ela não consegue deixar de rir. “Nada de mais. Só estava me lembrando da festa.”

“Você quer voltar pra lá?”

Ela contempla a ideia por um instante. Mas não. Talvez seja melhor deixar as coisas exatamente como estão.

“Não, aqui fora está ótimo” ela responde.

Bruno sorri. “Eu concordo.”

A brisa sopra os cabelos de Megan. Ela sente o arrepio nos braços e nas pernas expostas pelo vestido. Talvez, creditando isso ao fato de estarem a sós, Bruno avança com a inegável intenção de beijá-la.


*

Davi agradece internamente ao sentir o ar fresco da noite assim que pisa no terraço. O barulho e o calor da festa se tornaram sufocantes. Abrindo os dois botões de cima da camisa, retira o blazer e o joga sobre um banco de madeira.

A quem está querendo enganar? Foi a presença de Megan naquele salão o que realmente o fez sufocar. A responsável pela irritante dor de cabeça que está sentindo agora.

Tornar a vê-la mexeu com ele… Megan sempre foi linda. Mas estava especialmente perfeita essa noite. E ter que vê-la acompanhada de outro sujeito e tão animada com a companhia não era algo para o qual Davi se estava preparado.

Não estava pronto para o reaparecimento dela. Muito menos para a distância que ela está impondo agora. O preço está sendo alto.

Davi teve que fazer um enorme esforço para conseguir manter uma conversa com os representantes do investidor internacional no começo da festa. Sorte sua que Pamela estava bem atenta e acabou segurando as pontas sempre que deu uma escorregada, sua atenção sempre voltando para o lado de Megan e do misterioso acompanhante.

“Merda!” o suspiro escapa de Davi, que fecha os olhos e corre as mãos pelo cabelo.

Por que as coisas têm que ser tão difíceis? No mundo perfeito da sua imaginação, quando visse Megan novamente os dois sentariam para conversar, ele se explicaria a ela, pediria perdão e teria ao menos um sorriso como resposta. Mas até agora, mal conseguiu chegar perto dela.

Talvez esteja com muita pressa, afinal, ela só chegou ao país ontem. Mas é compreensível, já que está há dois meses se matando de culpa por dentro. Desejando, mais do que tudo, uma redenção por seus pecados.

Tentando se acalmar, ele caminha alguns passos, aproximando-se de algumas árvores.

“Não, aqui fora está ótimo.”

Ele escuta a voz dela. Seu coração dispara.

“Megan?” murmura baixinho, dando mais alguns passos e tendo uma visão privilegiada que preferia nunca ter encarado.

“Eu concordo” o sujeito sorri, começando a fechar a distância entre os dois.

Davi sente o coração esmagado. Escutando apenas o som da própria pulsação acelerada ecoando em seus ouvidos, ele se afasta antes que seja visto. Incapaz de ficar para testemunhar a cena. Covarde.

Seu maxilar se aperta, ele puxa o ar pelas narinas, tentando não pensar enquanto seus passos duros o levam para longe dali.


*


“Viu como é gostoso morango com laranja?”

“Eu esqueci, vou ter que provar de novo.”

A lembrança a assalta, fazendo-a recuar.

No, Bruno” ela pousa a mão sobre o peito do rapaz.

Sem graça, ele se afasta. “Desculpa, Megan. Pensei que…”

Megan se sente uma perfeita estúpida. Sabe que está sendo idiota. Faz dois meses que rompeu com Davi e ele com certeza foi procurar consolo na nerdestina depois disso. Enquanto ela não conseguiu ficar com ninguém mais. Estava muito focada em dar um rumo a sua vida para pensar em qualquer outra coisa.

“Não, tudo bem” ela fecha os olhos por um segundo e balança a cabeça, voltando a olhar para Bruno. “É só… eu não estou…”

“Tudo bem, não precisa me explicar” ele ergue um dedo, tocando o rosto dela. “Eu me precipitei. Achei que… bom, deixa pra lá. Você quer voltar para a festa?”

“Na verdade, eu prefiro ir embora” ela suspira.

“Está bem. Eu posso acompanhar você…”

No, thanks, Bruno” ela o corta. “Desculpe, eu não queria que a noite terminasse assim, mas não estou muito legal. Acho que bebi demais, não estou mais tão acostumada.”

“Mais uma razão pra que eu te acompanhe.”

No, no. Eu agradeço, mas não é preciso” ela se apressa em dizer, sentindo-se a cada segundo mais desconfortável com a situação. “Foi um prazer conhecer você. A gente se fala qualquer dia desses, ok?” ela se estica para deixar um rápido beijo no rosto do rapaz.

“Boa noite.”

Zonza, ainda com a taça de champanhe na mão, Megan corre em direção à saída que dá para o elevador. Sua viagem até o estacionamento é feita entre mil pensamentos confusos. Por que está fugindo assim de uma coisa que antes era tão natural em sua vida? Por que está se sentindo tão perturbada… tão fora de lugar?

Fechando os olhos, apoia as costas contra a parede fria do elevador. Respira fundo, tentando se acalmar. Sua cabeça ainda está zonza. Deve ser o efeito da bebida. Desde que chegou só colocou dois canapés na boca. As três taças de champanhe devem ter subido mais rápido pela falta de comida.

Ao ouvir o barulho característico indicando que o elevador chegou ao destino, ela abre os olhos e se afasta da parede. Coloca os pés para fora, pisando no estacionamento. O barulho dos saltos batendo no concreto ecoam no espaço cheio de carros e em seus ouvidos.

“As chaves. Minha bolsa. Shit!” ela pragueja, lembrando de ter deixado o acessório em cima da mesa, no salão de festas.

Girando nos saltos com a intenção de voltar ao elevador, ela esbarra em algo firme, a taça em sua mão virando e derramando o resto do champanhe. Antes que as desculpas escapem dos lábios, seus olhos encontram… os dele.


*

A cabeça de Davi lateja. Com ainda mais insistência. Olhar para ela agora, tê-la bem a sua frente, não era algo que ele estava esperando acontecer. Muito pelo contrário. Megan ofega, afasta a mão molhada de champanhe e encara sua camisa, agora ensopada.

Sorry, Davi” ela murmura, ofegante.

“Não tem importância” ele responde, acompanhando o olhar dela para a própria roupa e percebendo que os três primeiros botões estão abertos.

“Eu… eu não vi você” ela torna a falar, a voz saindo um tanto falha.

Voltando a olhar para ela, Davi a percebe momentaneamente sem graça. Atrapalhada, até. Um vislumbre da sua velha Megan. Os olhos dela sobem para seu rosto com alguma dificuldade, ele nota. E não consegue evitar o contentamento interno. Ainda causa efeito sobre ela.

Seus olhares tornam a se encontrar. E volta tanta coisa à memória… momentos juntos... sorrisos... beijos… Será que na mente dela também passa o mesmo filme?...

*

Megan não consegue desviar o olhar. Por instantes, é como voltar no tempo. Àquele tempo em que seu mundo girava em torno de Davi… quando simplesmente estar perto dele a fazia sentir-se viva… inteira… àquele mesmo tempo em que sua felicidade ou seu sofrimento dependiam de apenas um gesto dele.

“Não” ela ofega, rompendo o contato visual enquanto apoia as mãos sobre o peito de Davi… um erro.

Um erro fatal, pois, se a intenção era se afastar, o tiro sai pela culatra. E um choque elétrico atinge sua espinha quando a mão dele lhe segura o pulso.

“Megan…” Davi ofega, forçando-a a olhar para ele novamente.

Os olhos dela sobem, centímetro a centímetro, da parte exposta do peito até o rosto dele. E o calor a consome por inteiro.