Notas iniciais
Oi, pessoal! Peço desculpas pela demora em atualizar, mas passei por uns dias de desmotivação para escrever. Mas já estou de volta. O capítulo a seguir talvez fuja do esperado por muitos de vocês, mas tenham em mente que é só o começo de algo maior que virá nos próximos. Ok, chega de notas introdutórias. Boa leitura!

O vento sopra deliciosamente fresco pela janela da parte de trás do carro e ela saboreia o cheiro familiar de mar. Abrindo os olhos, Megan espia a paisagem do lado de fora. De volta à terra de onde um dia saiu sem saber se voltaria ou não.

“O Rio de Janeiro continua lindo!”

A voz de sua avó a faz virar o rosto para encará-la, sentada a seu lado, com um pequeno sorriso.

“Sabia que isso é uma letra de música?”

Berenice sorri. “Está um pouco diferente da última vez em que estive aqui… foi há muitos anos. Mas continua realmente lindo.”

Megan torna a virar o rosto para a janela aberta. “Sim, o Brazil é lindo. O Rio é lindo. Pena que em meio a tanta beleza eu não encontrei a felicidade.”

Ela sente o toque suave dos dedos da avó em sua mão que repousa no espaço entre as duas no banco do carro. É inevitável olhar de volta para Berenice, que se tornou uma fonte de forças para Megan nos últimos tempos.

Ma chérie, deixe as lembranças tristes onde elas devem ficar: no passado. Você está começando uma nova fase agora. E eu lhe garanto que a sua felicidade virá até você, esteja onde estiver.”

O sorriso que Berenice consegue arrancar de Megan é o mais sincero e mais cheio de sentido do que ela consegue se lembrar de dar em muito, muito tempo.

O carro avança, ganhando a região conhecida, e Megan aproveita para comentar amenidades com a avó sobre a paisagem privilegiada. Assim que o motorista se aproxima do estacionamento da Marra Brasil, os olhos analíticos de Berenice observam a fachada.

“É maior do que eu pensava.”

“Só não é tão grande quanto a Marra original, da California. Mas é bem grande, sim” Megan desafivela o cinto de segurança.

O motorista dá a volta para abrir a porta, primeiro para Berenice, mas Megan dispensa a cortesia e desce sozinha, sem esperar pelo tratamento VIP.

As poucas pessoas que se encontram na entrada da empresa, em sua maioria seguranças, olham admiradas a chegada das duas mulheres. Berenice dá o braço à neta, que a guia gentilmente para a entrada.

Hey, guys!” a loira saúda os conhecidos homens que fazem escolta na porta.

Eles meneiam a cabeça e respondem o cumprimento educadamente. Nenhum deles pergunta quem é a senhora que a acompanha, a semelhança evidente respondendo por si só.

Os olhares curiosos acompanham as duas à medida que vão atravessando o hall de entrada.

Berenice, então, questiona a decisão da visita não anunciada.

“Não teria sido melhor avisarmos a sua mãe sobre a nossa chegada?”

“Não, grandma. Eu quero fazer uma surpresa.”

E que surpresa! Sorrindo, Megan continua andando em frente com a avó até avistarem a cantina.

“Você não quer tomar alguma coisa, grandma? Enquanto isso eu posso ir procurar a minha mom e você não se cansa muito.”

“Me cansar, chérie?” Berenice ergue uma sobrancelha para a neta. “Passei horas dentro de um avião e depois dentro de um carro.”

Megan sorri, apertando delicadamente a mão da avó. “Tem razão. Mas tenho certeza de que você vai gostar do café daqui.”

“Humm, cafezinho brasileiro…” Berenice sente o aroma no ar no mesmo instante.

Exactly” Megan sorri. “Está justamente na hora em que sai o cafezinho da tarde aqui na Marra Brasil.”

Conduzindo a avó até uma simpática mesinha ao lado da janela, Megan nem tem tempo de se dirigir ao balcão.

Miss Marra!” a voz de Nacho a faz virar-se rapidamente para encontrá-lo sorridente e totalmente surpreso.

Hola, Nachito!” Megan abre os braços para o velho amigo.

Ele a abraça e se afasta, ainda com a expressão de surpresa no rosto.

“Mas que sorpresa! Quando foi que llegó?”

“Faz mais ou menos…” Megan espia o relógio de pulso “...uma hora.”

“Mas que sorpresa” Nacho torna a repetir, ainda sem acreditar.

“Mas não diga nada a minha mom, eu quero fazer uma surpresa pra ela, hein? Aliás, ela está por aqui, não está?”

“Sim, ela veio à Marra hoy, como, aliás, ela vem todos os dias. Deve estar na sala de reuniões, eles tinham uma marcada com os acionistas.”

“Então eu vou até lá encontrar com ela. Pode fazer companhia à minha adorável grandma, Berenice?” Megan se vira para apresentar a avó.

“Muito prazer, madame” Nacho pega educadamente a mão de Berenice e lhe dá um rápido beijo.

“O prazer é meu, jovem” a senhora sorri.

“Sirva um cafezinho pra grandma, no capricho, ok?” Megan dá uma piscadela, virando-se para Berenice. “Eu vou deixá-la em ótima companhia. Vou fazer uma surpresa para mom e logo venho lhe buscar.”

“Certo, ma chérie” Berenice sopra um beijo para a neta, que retribui o gesto antes de se afastar.

Os olhos dos funcionários da Marra seguem Megan da mesma forma que os anteriores — surpresos e curiosos. Ela mantém o sorriso o tempo todo, saudando algum ou outro mais conhecido com um meneio de cabeça.

Dentro de pouco tempo ela está atravessando a porta da sala de reuniões. Para sua decepção, a grande mesa está vazia. Os olhos de Megan percorrem o ambiente, procurando por algum sinal da mãe.

Quando ela pensa em sair e procurar por Pamela em outro lugar, virando-se para sair da sala, seu corpo se choca contra uma presença maciça.

Oh, sorry…” ela se desculpa, erguendo os olhos.

E, mesmo pensando que estava preparada para este momento, agora que está diante dele, Megan descobre que estava redondamente enganada.


*

“Desculp-” Davi nem tem tempo de terminar.

Seus olhos caem sobre a figura que ele menos esperava ver. E ele mal consegue acreditar que a tem diante de si.

Seu coração nunca bateu tão depressa. Tão descompassado.

“Megan?”

Davi não consegue reconhecer a própria voz, soa tão distante e insegura. Tem medo até mesmo de piscar e, se for um sonho, desaparecer como fumaça diante dos seus olhos.

Mas é real. Ela ajeita uma mecha de cabelo atrás da orelha, olha para ele aparentemente assustada — mas só dura uma fração de segundo — então ela ergue o queixo e desaparece por completo qualquer resquício da garota de que ele se lembra ter conhecido.

“Oi, Davi. Você viu a minha mom?”

Megan o encara como se eles tivessem deixado de se ver ontem. E não como se estivessem sem se ver há dois longos meses.

Sem graça, Davi pigarreia. “Ela estava aqui agora há pouco, tivemos uma reunião que acabou há menos de dez minutos.”

“Então eu vou procurar por ela…”

Ele não planeja, mas sua mão voa para o braço dela antes que posso vê-la atravessar a porta. E é como um choque elétrico atravessando seu corpo.

Os olhos de Megan caem sobre a mão possessiva que a retém. Constrangido, ele a liberta.

“Você… eu não sabia que você tinha voltado. Quando foi que chegou?”

Embora Megan não o encare, Davi não consegue deixar de olhar para ela. Como está mudada. Não tanto fisicamente, mas a postura… é outra. Ele ainda não sabe identificar direito o que é… talvez sejam as roupas menos escuras, mais elegantes. A maquiagem mais suave. Os cabelos continuam longos e loiros, só que agora ondulados.

“Cheguei hoje mesmo. Nem avisei a mom que vinha, por isso estou aqui. Vou atrás dela.”

“Espera” ele torna a tocar o braço dela, mas solta quase de imediato — não se sente digno de tocá-la. “Megan, eu… a gente não teve oportunidade de conversar desde que…”

Ma chérie!

Uma terceira voz, feminina, interrompe o momento.

Grandma” Megan se volta para a mulher que acaba de passar pela porta. “Mom não está aqui, eu já ia procurar por ela em outro lugar.”

“E quem é esse adorável rapaz, Megan Lily?” a senhora pergunta.

“Esse é Davi Reis, grandma” ela diz, sem sequer olhar para ele. “Davi, essa é minha avó, Berenice.”

“Muito prazer” ele estende a mão para a distinta senhora.

“O prazer é meu” Berenice responde ao cumprimento, apertando a mão de Davi, e a postura dela é a mesma que Megan teve ao ver que tinha trombado nele — erguer o queixo e assumir um olhar dono de si.

“Davi, dear, você por acaso viu aquele…” a entrada esbaforida de Pamela é interrompida. “Oh my God! Megan Lily!”

A dona da Parker TV se joga nos braços da filha de maneira dramática.

Hello, mom! É bom te ver também” Megan sorri, abraçando a mãe.

“Deixe eu olhar pra você” Pamela se afasta, tocando o rosto da filha. “Oh, Sweetie… você está belíssima!”

Thanks, mom. Você também está linda” Megan acaricia a bochecha da mãe.

“Mas que surpresa deliciosa! Você nem me disse que estava a caminho.”

“Foi essa a intenção: fazer uma surprise” Megan pisca de forma divertida. “E eu não vim só, mom. A grandma Berenice veio comigo.”

Só então Pamela percebe a presença da ex sogra. “Oh, Berenice! Como está, dear?”

“Muito bem, chérie” Berenice beija o rosto de Pamela e as duas se abraçam.

Well, suponho que vocês acabam de chegar, sim?”

“Sim, chérie. Megan Lily preferiu que viéssemos direto à Marra Brasil encontrar você.”

Oh, Sweetie” Pamela sorri, enternecida, acariciando o rosto da filha. “Bem, vocês duas devem estar exaustas. Por que não vamos logo pra casa, hã?”

Megan concorda. “Claro. O que eu tenho pra fazer aqui pode esperar.”

Davi, até então mero espectador da cena, se surpreende com as últimas palavras de Megan. O que será que ela quis dizer?

Tratando de deixar isso de lado, pelo menos por ora, e tentando ser útil, ele trata de se pronunciar. “Pamela, você queria alguma coisa comigo?”

“Ah, sim, Davi. Eu estava procurando aquela pasta onde coloquei o programa da festa de amanhã, você viu onde eu deixei?”

“Aqui” ele estende a pasta para ela. “Você esqueceu na mesa de reunião, eu ia justamente atrás de você pra entregar.”

Oh, thank you, dear” ela a recebe com um sorriso agradecido. “Bem, vou encerrar meu expediente por hoje e acompanhar Megan e Berenice até em casa, tudo bem?”

“Claro, perfeitamente” Davi meneia a cabeça, o olhar voltando a cair em Megan.

Ela, porém, parece ignorar sua presença.

Pamela entrelaça o braço ao de Megan. “Então vamos?”

Yeah. Let´s go” Megan sorri para a mãe e as duas vão deixando a sala, juntamente com Berenice.

A mulher mais velha, porém, ainda se volta para ele antes de sair. “Au revoir, meu rapaz.”

“Tchau” Davi responde, tão educadamente quanto ela.

Ele vê as três mulheres se afastarem. A sensação de vazio e inadequação fazendo eco no silêncio em seu interior. E não pelo fato de ter sido ignorado por Megan na saída. Isso doeu, sim. Mas foi o olhar dela quando o encarou bem antes de sair, frio e indiferente. Distante. Como ela nunca olhou para ele antes.

Seu consolo é saber que ela está de volta. Eles ainda terão a chance de conversar. E acertar muitas coisas.