Love Me Harder
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Notas iniciais
Davi retira os óculos, repousando-os sobre a grande mesa escura. Olha para a hora no canto inferior do computador. Já passa das cinco da tarde. Nem viu o tempo passar. Como sempre acontece agora.
Levantando-se da moderna cadeira de espaldar alto, ele suspira, cansado pelas longas horas de trabalho. Aproximando-se das janelas, afasta a persiana para espiar o fim de tarde lá fora.
Tudo igual. Nada lhe chama a atenção como antes. Afastando-se, ele caminha pela sala que nunca pensou que chegaria a ocupar nas atuais circunstâncias.
“Davi, você é o único em quem eu confio” a súplica de Pamela foi a grande responsável por aceitar esta missão.
Mas não só.
A razão principal para ter aceitado foi Megan.
“Sem você, Davi, a Marra está perdida. Pode ser a única coisa boa que Jonas deixou para nossa filha. E eu preciso da sua ajuda para que isso também não se acabe.”
Como ele poderia ter se negado a esse pedido de Pamela? Principalmente carregando a culpa da partida inesperada de Megan.
Dois meses. Dois longos e tortuosos meses. Ele ainda se lembra de receber a ligação de Pamela na manhã seguinte ao sumiço dela. Estava bem acordado depois de um pesadelo, a cabeça doendo, imaginando mil lugares onde Megan poderia estar. Nenhum deles esboçava o cenário que se descortinou depois daquela ligação.
“Alô, Davi. Estou ligando para dizer que não precisamos mais procurar por Megan. Ela deixou uma carta durante a madrugada. Ela foi embora do Brazil.”
“Como… como assim? Ela foi embora?”
“Sim, ela se foi. Não disse para onde, mas logo vou saber. Ela prometeu dar notícias quando julgar a hora.”
Ele ainda guarda na mente a voz cansada e arrastada de Pamela durante aquela ligação. Arrasada, na verdade. Ainda carrega a lembrança, reforçando seu complexo de culpa. Especialmente porque até hoje não chegou a dizer à Pamela que tem certeza de ser a verdadeira razão da partida de Megan.
Então o mínimo o que pôde fazer foi aceitar, semanas depois, o pedido de Pamela para assumir o comando da Marra. No começo, ainda tentou resistir. Argumentar que não podia, que tinha a Brazuca para tocar com Ernesto, especialmente agora que não contariam mais com Megan. Mas Pamela ainda tentou convencê-lo ao oferecer a oportunidade de tornar sua startup uma afiliada da Marra.
Por motivos óbvios, Davi não queria. A Marra representava simplesmente tudo que era contra suas ideias e valores. Porém, Pamela usou mais um argumento que o desarmou.
“Você é o futuro, Davi. A Marra é o passado. O que eu quero é preservar o império que Jonas construiu, mas muito mais do que isso. Quero que esse império comece um novo tempo. Com novos ideais. Com novas caras. E quem melhor do que você pra isso?”
Ele se lembra perfeitamente das palavras que disse a Jonas quando pediu demissão. O tempo mostraria quem era o passado e quem era o futuro.
Dito e feito. Não demorou muito para o tempo dizer quem estava com a razão. Pena que numa tal circunstância. Às custas de seu relacionamento com Megan. Da distância. Da dor.
“Com licença, Boss.”
A voz de Murphy o arranca dos pensamentos. Davi encara o assistente que acaba de entrar na sala.
“Pois não, Murphy?”
“Trouxe os contratos que o Boss ficou de assinar.”
Davi já nem se preocupa mais em dizer a ele para não chamá-lo de ‘Boss’ (isso o lembra terrivelmente de Jonas), é inútil.
“Certo, obrigado” agradece ao assistente assim que ele coloca as pastas sobre a mesa.
“Se me permite, Boss… acho que está na hora de fazer uma pausa para uma pequena refeição. Não come nada desde às 12:35. Se quiser, posso providenciar um lanche, pedir ao Nacho que traga aqui na sua sala.”
“Não precisa, Murphy. Obrigado” Davi dispensa. “Eu só vou terminar de ler uns emails e vou embora.”
“É bom mesmo encerrar o expediente, Boss. Tem trabalhado muito, e, desculpe a observação, mas está com a aparência péssima ultimamente. Quero dizer, está com a aparência cansada, sorry.”
Davi suspira, rindo. Não é nenhuma mentira, afinal. E ele sabe. Mas o trabalho se tornou o seu refúgio nos últimos meses.
“Eu vou tentar, Murphy. Agradeço a preocupação.”
“É sincera, Boss” o indiano meneia a cabeça. “Vou me retirar, com licença.”
Os olhos de Davi acompanham a saída de Murphy. Ele tem se mostrado um ajudante valioso. E leal. Não foi à toa que Jonas o manteve sempre por perto.
Sentando-se novamente por trás da mesa da presidência, Davi suspira. Não era assim que queria que as coisas tivessem acontecido. Não foi isso o que planejou. Mas aqui está. Por Megan.
“Davi, dear, posso entrar?”
Ele ergue os olhos para a porta novamente.
“Desde quando você precisa pedir permissão, Pamela?”
“Eu não gosto de atrapalhar. Excuse me.”
“Você não atrapalha, por favor.”
“Obrigada” Pamela sorri, puxando a cadeira logo em frente a ele. “Eu vim saber em que perna estão as coisas para o fechamento daquela negociação importante.”
Davi nem pensa em corrigi-la quanto ao uso errado da expressão que ela acaba de mencionar. Apenas esboça um sorriso cansado.
“Está tudo encaminhado, Pamela. O Murphy acabou de deixar os contratos aqui na mesa” com um gesto, ele indica as pastas.
“Oh, this is great! Que ótimo!” Pamela sorri, satisfeita. “Então agora só preciso me preocupar com os preparativos da grande festa para oficializar o negócio com os empresários.”
“Exato” ele mais uma vez tenta sorrir, sem muito sucesso.
“O melhor de tudo é que isso vai trazer bons frutos não só para a Marra, ampliando as vendas na América Latina, mas vai ser positivo também para a Brazuca, pois vai impulsionar a divulgação e a produção do Júnior, rompendo fronteiras. E tudo graças à sua competência e ao seu empenho!”
Ele tenta se animar com a conquista. De fato, é um passo importante não apenas para o reerguimento da Marra, como também por dar impulso e visibilidade internacional à filiada Brazuca… mas Davi simplesmente não consegue sentir uma felicidade plena.
Pamela continua a sorrir. “Eu estou muito feliz e agradecida a você, Davi” ela estende as mãos sobre a mesa para tocar as dele. O olhar de Davi acompanha o movimento. “Para que a minha alegria fosse completa, só faltava ter a minha filha aqui comigo.”
As palavras de Pamela produzem uma sensação de peso no peito de Davi. Ele se atreve a encará-la e fazer a pergunta que, vez ou outra, sempre faz.
“Você tem notícias da Megan?”
Pamela suspira, afastando as mãos e jogando o corpo contra o encosto da cadeira.
“Na verdade já faz algumas semanas que ela não se comunica. Mas, pela nossa última conversa, ela está bem.”
Davi percebe que, mais uma vez, não vai conseguir arrancar de Pamela o paradeiro de Megan.
A ex senhora Marra o encara com um olhar de desculpa.
“Sinto muito, Davi. Mas a condição imposta por minha filha para continuar mantendo contato comigo é não lhe dizer onde ela está.”
“Eu entendo” ele diz, forçando um sorriso que está longe de ser sincero. Sabe que não está em condições de exigir nada. “Ela ainda tem muita raiva de mim, né?”
Davi aperta os lábios, desviando o olhar, sem coragem de encarar Pamela.
“Ela saiu daqui muito chateada com todos nós, Davi. Megan não se conformou com o fato de eu ter chamado Manuela para assumir a presidência da Marra naquele meu momento de desespero. E com você por ter me entendido e apoiado a nomeação de Manuela.”
Davi repousa os cotovelos sobre a mesa, passando as mãos pelos cabelos.
“E acabamos os dois estando errados, não é, Pamela?”
A mulher a sua frente dá um sorriso triste.
“E Megan acabou estando certa desde o princípio. Manuela não era digna da nossa confiança. Ela provou isso em poucas semanas no cargo, logo que o pai se envolveu em novos negócios duvidosos. E ainda por cima atrapalhou o casamento dos seus tios.”
“Pela segunda vez ela escondeu provas de crimes que o pai dela cometeu. Você fez o certo, Pamela. Não podia ter mantido a Manuela a frente da Marra depois daquilo.”
“Eu pensei que ela seria de grande ajuda, mas, no final, Manuela provou ser mesmo uma pessoa fria, que não mede esforços para defender seus interesses pessoais.”
“O pior de tudo foi que ela sempre se orgulhou de ser profissional, mas misturou os interesses pessoais com muita facilidade. Primeiro, aceitou investigar o Jonas para se ver livre de um processo. Depois, em vez de denunciar o pai pelos golpes com o dinheiro dos músicos que ele estava patrocinando, inclusive o meu tio Dante, ela comprou uma passagem e mandou ele pra California. Eu, sinceramente, fui um otário de ainda ter acreditado nela.”
“Aquilo foi a gota d´água. Mal estávamos saindo de um escândalo com Jonas e logo sua sucessora se mostrou capaz de ajudar o pai criminoso a fugir da justiça.”
“O bom é que tudo isso já passou. Jonas está pagando pelos erros dele, Manuela deixou a Marra e foi para os Estados Unidos com o Arthur.”
“E você aceitou meu pedido e veio me ajudar a salvar o patrimônio da minha baby girl” Pamela abre um novo sorriso e torna a estender as mãos sobre a mesa para tocar as dele.
Davi engole em seco. Retribui o gesto desta vez, sentindo-se o maior dos canalhas. Por sua causa a filha dela não está aqui, onde deveria estar. Onde é seu lugar.
Mesmo se sentindo péssimo com a situação, ele continua acreditando que a única maneira de minimizar um pouco do que fez a Megan é estar onde está agora, fazendo o que está fazendo. Cuidando do que é dela por direito.
Mesmo que nunca mais torne a vê-la ou saber muito mais do que um Ela está bem de Pamela, se esse é o preço por sua estupidez, ele vai pagar até o fim.
*
Faz tempo que ela não se sente assim. Tão livre. Tão leve. Deixa o corpo cair sobre o largo e macio sofá. Observando o Rio Sena pela enorme janela da sala, solta um pequeno suspiro. Vai sentir saudade dessa paisagem.
Mas há outras coisas que a esperam. Importantes decisões a serem tomadas. Em outros tempos, seu lado frívolo lhe diria para ficar e aproveitar mais de Paris, que o dia de amanhã não importa. Porém, hoje, seu recém descoberto lado sequoia lhe diz que é hora de partir temporariamente e encarar o desafio.
Quando deixou o Brazil, sua mãe e tudo mais para trás, foi decidida a tomar as rédeas de sua própria vida nas mãos. A não se deixar mais ser conduzida pelos interesses de ninguém.
Foi uma jornada que nunca pensou que fosse um dia fazer. Mas que despertou dentro de si uma força que nem sabia possuir. Que a fez conhecer a si mesma — a Megan que não depende dos outros para existir. Que não é apenas uma Parker-Marra. Que não é apenas a filha ou a namorada de alguém. Mas a Megan Lily. Apenas.
Ainda contemplando a paisagem que foi sua companhia no último mês e meio, ela nem percebe a entrada de uma segunda figura na sala do luxuoso apartamento. Porém, logo o perfume doce e inconfundível invade o ar e a faz desviar os olhos para a recém chegada companhia.
Com um sorriso, a mulher mais velha toca as delicadas pérolas do colar que dá diversas voltas em torno do elegante pescoço, a estirpe evidente a qualquer um que entrasse neste minuto e olhasse para ela.
Com uma valise de couro na outra mão, a distinta senhora se aproxima do sofá.
“Está pronta para voltar, minha pequena pappilon?”
Sem hesitar, Megan ergue-se do sofá, os olhos tão decididos quanto sua voz ao proferir a resposta.
“Eu nasci pronta, grandma.”
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