Notas iniciais
Segundo capítulo chegando, pessoal. Muito obrigada pela recepção à esta nova história. Vamo que vamo em mais uma jornada em forma de fanfic! Apertem os cintos e boa leitura ;)

Depois de mais de duas horas rodando a Gambiarra e arredores a procura de Megan, sem qualquer sinal dela em nenhuma parte, Davi se sente exausto de frustração. De remorso.

E ele simplesmente não consegue deixar de se culpar pelo sumiço dela. Pamela disse que Megan tinha saído transtornada da Marra, e, de fato, ela chegou angustiada para desabafar com ele naquela tarde. E o que fez? Jogou mais peso em cima dela. Disse coisas que, agora, pensando melhor, não deveria ter dito.

E ele se sente péssimo por isso. Horrível. Agora Megan sumiu sem deixar rastro e ele sente que a culpa é toda sua. Não devia ter dito a ela sobre seu beijo com Manuela. Podia ter evitado tudo isso. Mas caiu na armadilha de ser sincero quando Megan o acusou de esconder coisas dela. Afinal, ele estava mesmo escondendo. Além do que, conhecia-se bem o suficiente para saber que não conseguiria guardar aquilo por muito mais tempo. Uma hora ou outra teria que contar a verdade.

Mas por que teve que ser agora? Justo agora? Com ela ainda tão frágil por causa do pai, abalada pelos últimos acontecimentos que estavam virando a vida dela de cabeça para baixo?

“Droga!” ele esmurra o portão de casa com raiva e sem coragem de entrar.

Não devia ter contado a ela sobre seu beijo com Manuela. Mas já não estava suportando o peso de esconder isso. Megan não merecia ser enganada assim e ele já tinha escondido coisas dela antes. Como o caso de Jonas e Verônica. Como a sua investigação pessoal ao homem que, fosse o que fosse, era o único pai que Megan conhecia.

Parabéns, Davi. Pra quem nunca quis machucar a garota, você fez um trabalho de mestre. Mestre dos canalhas!

Chutando uma pedra no caminho, Davi deixa o ar escapar dos pulmões num suspiro pesado. Corre a mão pelos cabelos, sentindo o suor no rosto quente pelas horas de caminhada e aflição. Tudo em vão. Volta para casa sem Megan. Sem tranquilidade. Carregado de culpa.

“Droga!” ele pragueja.

Apertando a grade entre os dedos, inspira. A parte mais difícil vem agora. Ter que falar com Pamela. Avisar que não encontrou a filha dela.

“Onde é que você se meteu, Megan?” ele sussurra, arrasado.

Apertando um punho contra a têmpora latejante, Davi suspira. Fecha os olhos e morde os lábios com força. Tanta que só se dá conta do quanto ao sentir o gosto quente e amargo de sangue na língua.

“Merda!” ele xinga, limpando o lábio inferior com o polegar.

Chutando o portão, atravessa o pequeno caminho até a garagem. Abre a porta sem qualquer cuidado, o corpo cansado e tenso se jogando no sofá. Precisa ligar para Pamela. Na última meia hora eles estiveram se comunicando pelo celular e o desespero da mãe de Megan era crescente.

Puxando o telefone do bolso, ele aperta o número gravado na agenda. Após os dois primeiros toques, a voz aflita de Pamela atende.

“Alô?! Megan?”

Com certeza ela sequer olhou para a tela antes de atender.

Davi tem que puxar o ar para conseguir falar. “Não é a Megan, Pamela. Sou eu, Davi.”

“Davi! Oh Dear God, me diga que você a encontrou. Ela está com você?”

Ele aperta os olhos com a mão, tentando conter outro suspiro frustrado.

“Não, infelizmente eu não encontrei a Megan. Procurei em todos os lugares que eu sei que ela gosta de ir, rodei a Gambiarra inteira e até alguns pontos fora daqui. Mas nem sinal dela.”

Oh, no! Onde estará a minha filha? A minha baby girl, Davi?”

“Eu sei que a situação é preocupante. Mas vamos esperar mais um pouco. Você sabe como a Megan é, Pamela. Ela pode ter ido simplesmente por aí, a alguma boate ou um barzinho.”

“Era” Pamela corrige a frase anterior de Davi. “Megan era irresponsável e badaleira, mas desde que te conheceu a minha filha mudou. E isso é o que mais me preocupa agora porque, se ela não está com você, eu não faço a mínima ideia de onde ela possa estar.”

Davi sente o estômago embrulhar.

“Eu sinto muito, Pamela. Eu queria muito te ligar pra dizer que encontrei a Megan. O melhor a fazer agora é ir descansar e esperar. Se ela não aparecer até o dia clarear, então pensamos em outras possibilidades.”

Como hospitais e necrotérios. Ou procurar a polícia para registrar o desaparecimento. Ele não quer nem mesmo pensar nisso, mas é o caminho a seguir se não tiverem sinal dela dentro de mais algumas horas. E isso faz seu sangue gelar.

Oh, Davi! Onde estará a minha menina?” a voz chorosa de Pamela lhe corta o coração.

Engolindo o nó na garganta, ele se esforça em manter a aparente calma.

“Eu sei que é difícil, mas tenta dormir um pouco, Pamela. Com a cabeça fria a gente vai pensar melhor. E quem sabe quando você acordar a Megan já esteja em casa?”

“Os angels te ouçam, Davi” Pamela suspira. “Obrigada pelo apoio, dear.”

“Não precisa me agradecer. Eu me preocupo de verdade com a Megan. Muito.”

“Que bom que a minha filha tem você. Goodnight, Davi.”

“Boa noite” ele murmura, desligando o celular e absorvendo o peso da declaração que acaba de ouvir.

Mal sabe Pamela que a filha sumiu justamente depois de uma discussão com ele. E isso torna sua responsabilidade e sua preocupação ainda maiores. Não vai se perdoar nunca se alguma coisa acontecer com ela.

“Maldição!”

Chutando os sapatos e arrancando a jaqueta, ele tenta não pensar no pior. Precisa descansar. Precisa se acalmar para pensar melhor. Com cabeça fria e ponderação. E, como dizem, notícia ruim corre depressa. Onde quer que esteja, Megan deve estar bem, ou, do contrário, já estariam sabendo. Ele assim espera.

Encostando a cabeça numa almofada, Davi suspira, encarando o teto do quarto escuro. Os pensamentos desordenados ainda rondam sua mente por alguns minutos, mas o cansaço acaba vencendo seu corpo. Com o braço sobre os olhos, ele se sente deslizar lentamente para o mundo escuro do sono.

Minutos, ou horas depois, as cores começam a ressurgir.

Uma luz pálida. Uma silhueta.

Cabelos longos, claros.

“Megan?”

Ele tenta focalizar melhor a visão. Ela vai entrando lentamente em foco.

São os mesmos olhos. Grandes. Escuros.

Mas não são mais brilhantes.

Opacos. Apagados. Olhos vazios. Sem vida.

Davi se aproxima, estende a mão para tocá-la. E o que sente é frio. Um frio que sobe por seu braço, atinge seu coração.

“Megan!”

Ele chama por ela. Sem resposta. Sacode os ombros dela. Sem vida. Completamente sem calor.

“Não… MEGAN!!!!”

O desespero toma conta de todo seu ser, suga o ar de seus pulmões.

Arfando, Davi desperta, confuso. Seu corpo salta no sofá, os olhos piscando até se ajustarem à luz do sol que banha seu quarto.

Percebendo que foi um pesadelo, ele suspira, passa as mãos pelo rosto suado. Mesmo constatando que não passou de um sonho ruim, a sensação ainda persiste, vívida demais.

Apoiando a cabeça no encosto do sofá, Davi sente a respiração voltando ao normal aos poucos. Porém, embora consiga respirar agora e perceba que a imagem de Megan sem vida não era real, longe de sentir alívio, ele sente um peso ainda maior no peito.

“Megan… cadê você?”

*

Ela desperta assustada. Piscando, Megan olha para os lados e, só então, percebe onde está. Dentro do avião. Olhando pela janela, para o céu com poucas nuvens finas, ela suspira, as mãos deslizando pelos braços do assento. Parecem feitas de algodão, como quando era pequena e dizia isso ao seu dad, que apenas ria e confirmava que sim, as nuvens eram feitas de algodão.

Doce ilusão.

Assim como sua vida toda até aqui. Uma ilusão.

Ela tenta varrer os pensamentos tristes da cabeça. Mas acaba se lembrando da carta que deixou para a mãe antes de sair de casa sem ser vista no meio da madrugada…

Dear mom,

é hora de alçar voo. Literalmente. Cansei de lutar lutas que não são minhas. De esperar coisas que não são para mim. Decidi assumir as rédeas da minha própria vida agora. Não me espere voltar, pois não sei quando nem se volto algum dia para o Brazil. Não fique triste. Apesar de estar chateada com você pela nomeação daquela nerdestina trapaceira para gerir nossos negócios, você continua sendo minha mom, ao contrário do traidor do meu ex dad. Cuide-se. Eu mandarei notícias quando julgar necessário. Até lá, não se preocupe. Estarei bem. Melhor do que estava antes.

Love,
Megan Lily

Ainda olhando para as nuvens tênues passando enquanto o avião percorre o céu azul, ela se pergunta por que levou tanto tempo para tomar essa decisão.