Love Me Harder
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Notas iniciais
Os olhos de Megan se abrem devagar, focando o ambiente em volta. Enquanto fazem registro do entorno, ela sente o corpo leve e gostosamente descansado. E o calor que a envolve pela cintura a faz sorrir, ao mesmo tempo em que uma fisgada faz seu coração se apertar.
Seus olhos encontram o rosto adormecido dele. Davi. Bem de leve, ela se atreve a deslizar as pontas dos dedos sobre a barba mal feita, arrepiando-se ante a sensação. E o momento se torna agridoce. Especialmente por saber que deve ser a última vez que o toca assim.
Antes que o aperto em sua garganta se torne demais para suportar, Megan respira fundo, deixando a mão se afastar. Com cuidado, levanta a mão que Davi mantém em sua cintura, escapando feito gata do sofá.
Vai recolhendo suas peças de roupa uma a uma no chão, revivendo a cada uma delas as imagens de horas atrás. Ela se veste, olhando para a figura adormecida no sofá, pensando em como foi bom ter uma última vez com ele. Aquela foi a última noite deles, a despedida.
Pegando a bolsa sobre a cadeira, Megan inspira, tentando conter as emoções. Talvez tenha errado em seu diagnóstico. Talvez morango e laranja não seja uma mistura que combine tanto assim.
Rindo de si mesma, ela passa a mão no rosto para secar uma lágrima que escapa, teimosa. Davi se mexe e ela prende a respiração por um breve instante. Mas logo o vê afundar as mãos debaixo do travesseiro, ainda mergulhado num sono profundo. Sentindo o coração bater compassado de novo, ela se deixa aproximar alguns passos do sofá.
Se ao menos ele a tivesse amado um dia como ela o amou… se ao menos ela tivesse feito alguma diferença na vida dele como ele fez na sua…
Queria muito que ele tivesse pedido a ela para ficar, dito que a amava… mas isso é só ilusão. E ela não vive mais de migalhas de esperança.
Não adianta chorar pelo que não foi, Megan Lily, ela se repreende em pensamento.
Levando a mão ao rosto para secar outra lágrima furtiva, ela enche o peito de ar e o coração de coragem. A mão caindo sobre o braço do sofá, os dedos deslizam pela superfície gasta e macia, seus olhos percorrem o corpo de Davi em despedida.
“Goodbye, Davi Reis…” ela sussurra, levando a mão aos lábios e soprando um beijo suave antes de se virar para a porta, deixando aquele lugar onde foi tão feliz pela última vez.
*
Davi desperta com a sensação de ter perdido alguma coisa. Piscando, olha em volta. A luminária continua acesa, mas o sol que entra pelas janelas já é a iluminação mais forte do ambiente.
Passando a mão pelo rosto, ele se dá conta de que dormiu por horas e provavelmente está despertando agora de um pesadelo do qual nem consegue se lembrar. Menos mal.
Espreguiçando-se, ele se dá conta de que o outro lado do sofá-cama está vazio. Seus olhos piscam novamente, tentando entrar melhor em foco. Ele se lembra perfeitamente de ter dormido com Megan em seus braços. Virando o rosto e olhando em volta, não vê o menor sinal dela.
Seu coração dispara. Puxando o edredom de cima do corpo, desliza as pernas para fora do sofá e se levanta, a procura de traços dela em algum lugar. Mas não há uma peça de roupa sequer no chão ou na cadeira, onde quer que seja. Mas ainda sente o perfume dela no ar.
“Megan?”
Vestindo a calça jogada no chão e a camisa amassada, ele sai pela lateral, na esperança de encontrá-la no quintal. Nada. Com um suspiro, vai até o portão. Sem sinal do carro dela estacionado. Ela se foi. Ela foi embora no meio da noite.
É então que a lembrança o atinge forte como um golpe no estômago…
Tenho que pegar um voo amanhã cedo...
“Droga!” ele pragueja baixinho, correndo de volta ao quarto para calçar os sapatos.
Enquanto amarra os cadarços, seu pensamento corre a mil por hora. Não podia ter dormido tão pesado. Como não a escutou sair? Como não acordou a tempo de impedir que ela fosse?
Olhando rapidamente para o relógio em cima da mesa do computador, Davi sente o ar pesado em seu peito. 6:03 da manhã. Ela não disse a que horas partia… será que ainda tem tempo?
Decidido, Davi sai em disparada. Talvez ele ainda consiga alcançá-la antes dela partir.
*
Megan fecha o zíper da mala vermelha, colocando-a no chão. Suspira, olhando em volta.
“Bye, quarto” murmura para as paredes.
Puxando a alça de sua mala, Megan a arrasta consigo porta afora. Sua mãe a espera na sala, os olhos cheios de lágrimas mal contidas.
“Oh, honey…” Pamela tenta segurar o choro “Vou sentir tanto a sua falta.”
Megan oferece um sorriso triste. “Não é como se eu fosse pra China pra sempre, mom! Só vou pra California e você pode ir me ver quando quiser.”
“Claro que vou” Pamela se aproxima, fungando enquanto abre os braços e a aperta com carinho. “Não vou deixar a minha baby girl sozinha por tanto tempo. Assim que puder, estou embarcando pra ficar um tempo com você.”
“Eu vou amar, mom” Megan, que até então tinha conseguido manter a fachada, se desfaz em lágrimas nos braços da mãe.
“Dont´cry, my baby girl. Não chore” Pamela beija os cabelos loiros da filha, afagando suas costas. “Isso não é uma despedida, mas um até breve.”
As duas se afastam e Pamela seca o rosto de Megan, que sorri.
“Tem razão, mom.”
O que Pamela não sabe é que as lágrimas de Megan são por outra razão. Mas, para sua surpresa, a mãe parece saber, sim, do que se trata. Com carinho, Pam desliza a mão pelo rosto dela de novo.
“Tudo vai ficar bem, Sweetie. Como o seu grandpa dizia, se não está tudo bem é porque ainda não chegou no final da história.”
Pamela sorri, beijando a bochecha da filha, que inspira, tentando disfarçar a emoção.
No instante seguinte, Edmilson, o motorista da família, entra na sala, interrompendo a despedida de mãe e filha.
“Já podemos ir, madame?”
“Sim, Megan já está pronta, não é, baby girl?”
“Yeah” ela meneia a cabeça afirmativamente, recompondo-se.
Edmilson pega a mala e faz sinal para que Megan saia à sua frente. Pamela prefere não acompanhá-los para não fazer uma cena lacrimosa, apenas acena e sopra um beijo para a filha, que faz o mesmo antes de se retirar da sala.
Ao ver Megan cruzar a porta, o corpo de Pamela cai sobre o sofá, juntamente com as lágrimas.
*
Davi não pisava naquela casa havia um bom tempo. Mais exatamente, desde que terminou com ela. Ou melhor, que ela terminou com ele. Mas foi recebido pelos funcionários da segurança como sempre. Eles o deixaram passar sem qualquer impedimento, o que até o surpreendeu. Depois de tudo, pensou que, de repente, ela tivesse deixado ordens para que ele não passasse sem ser anunciado. Mais uma vez, Megan o surpreendia.
Ao entrar na sala ampla, avista Pamela sobre um dos sofás. Ela não o vê logo de cara, então ele se anuncia.
“Oi, Pamela.”
A mulher parece acordar de um transe, os olhos o encaram e, só depois de alguns segundos, parecem focalizá-lo.
“Davi!? Oh, hello… o que faz aqui?”
“Desculpe, eu ia pedir para o pessoal da segurança me anunciar, mas me deixaram passar sem fazer perguntas. Pensei que estava tudo bem.”
“Não, claro. Está tudo bem” Pamela ajeita a postura, passando rapidamente as mãos pelo rosto.
Só então Davi percebe que ela parece ter chorado. Antes que possa perguntar se está tudo bem, ela torna a falar.
“Você veio até aqui porque está precisando de alguma coisa? Aconteceu algo com a Marra que eu deva saber?”
“Não, não” Davi se apressa em responder. “Tá tudo bem.”
“Então…?” Pamela parece confusa.
“É que…” Davi não sabe muito bem como dizer, mas resolve ir direto ao ponto. “Eu quero falar com a Megan. Ela está?”
Pamela se levanta do sofá, a expressão cansada e pesarosa.
“Oh, Davi, ela se foi. Saiu faz uns vinte minutos para o aeroporto, está embarcando para a California.”
Ele deixa escapar um suspiro frustrado, as mãos puxando os cabelos com força.
“Não pode ser. Eu achei que dava tempo…” de repente, ergue a cabeça e torna a encarar Pamela, um último fio de esperança surgindo. “Sabe a que horas o voo dela sai?”
“Na verdade, não” Pamela só então parece se dar conta. “Eu creio que seja o próximo para San Francisco. Como eu disse, faz mais ou menos vinte minutos que Edmilson foi levá-la.”
Sem pensar, sem se despedir, Davi corre em disparada para a porta, repetindo como um mantra, “Tem que dar tempo, tem que dar tempo!”
*
O trânsito estava tranquilo àquela hora da manhã, de modo que o caminho até o aeroporto transcorreu sem demora. Pouco menos de uma hora depois e Megan está avançando para a sala de embarque.
Com sorte, encontra um lugar vazio numa das confortáveis poltronas do ambiente destinado aos passageiros da classe executiva. Ela deixa o corpo cair sobre a poltrona macia.
Olhando em redor, os demais passageiros que estão aguardando para embarcar parecem entretidos em seu próprio mundo com seus Marra Tablets, Marra Phones e um ou outro com um livro ou revista.
Ela, por sua vez, logo é transportada para o mundo dos pensamentos, das lembranças… mais especificamente da noite passada. Tentando deixar de lado essas recordações que a fazem querer chorar, levanta-se e caminha até a mesa onde ficam as bebidas quentes e alguns quitutes.
Servindo-se de uma xícara de café, Megan sopra a bebida antes de tomar um gole. Forte e quente. Como ela gosta. Olhando para os vidros que deixam ver a pista de decolagem, admira o céu azul e praticamente sem nuvens. Em poucas horas estará de volta a sua terra natal para tocar seus projetos. E para dar continuidade ao seu recomeço. Muita coisa vai ficar definitivamente para trás. Entre elas, Davi Reis.
Suspirando, leva a xícara de café novamente aos lábios, sorvendo mais um gole da bebida quente, que parece aquecê-la por dentro também. Seu peito em especial. E não é fácil afastar a imagem de Davi de sua memória, segurando seu rosto, beijando sua boca, acariciando seu corpo…
“For God´s sake!” ela murmura baixinho, cerrando os olhos.
Por que é tão difícil assim deixá-lo para trás? Esquecer essas lembranças pelo menos pelas próximas horas? Até chegar em casa e estar sozinha, livre para chorar e sentir a dor que pensou que conseguiria evitar ao decidir partir de novo?
Mas a lembrança de Davi é tão forte e parece tão impressa em sua mente que ela chega a escutar a voz dele, mesmo distante, abafada por um burburinho…
Abrindo os olhos subitamente, Megan pisca. E apura os ouvidos. Ela se vira para a porta de entrada da sala de embarque. Alguma comoção está acontecendo ali, parece que alguém quer entrar e está sendo barrado. Sem perceber, seus pés a estão levando justamente para lá...
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