“Sinto muito, senhor, mas sem apresentar passagem não posso deixá-lo entrar” o segurança fala mais uma vez, fechando o caminho da porta.

“Você não tá entendendo, amigo? Eu não vou viajar, eu só quero… eu preciso falar com uma pessoa que está aí dentro!” Davi ainda insiste, desesperado.

“Por favor, não me faça ter que chamar reforço para expulsar o senhor.”

“É só um minuto! É tudo que eu preciso, um minuto só! Eu falo o que tenho pra falar e caio fora, prometo.”

“Não adianta. São as normas. Queira se retirar agora, por favor” o homem continua mal encarado.

Sem pensar, Davi se estica de modo a conseguir espiar por cima do ombro do gorila, seus olhos buscando desesperadamente o rosto conhecido entre os passageiros sentados na sala de espera VIP. Mas ele não vê sinal dos cabelos dourados nem dos olhos vibrantes de borboleta.

“Já disse para se retirar” o sujeito da segurança repete, desta vez tocando a camisa de Davi e empurrando-o de leve para longe da porta.

“Eu só quero saber se uma pessoa está…”

“Já chega!” o homem se exaspera, puxando um walkie-talkie da cintura. “Segurança, preciso de reforço na sala de embarque da classe executiva, agora!”

“Não é preciso, eu só estava tentando ver se uma pessoa que eu conheço está aí dentro” Davi tenta se explicar, inutilmente.

O segurança o empurra mais alguns centímetros e, de repente, seus olhos captam a imagem quase surreal… ela. Linda e loira, andando na direção da porta com uma expressão confusa e assustada. Antes, porém, que Davi possa chamar por ela ou perceber o que está acontecendo, sente outras mãos em cima dos ombros, arrastando-o para longe.

“Não! Megan!!”

Com algum esforço, ele ainda tenta se desvencilhar dos seguranças. Inutilmente.

*


O coração de Megan dispara. Ela mal consegue acreditar no que está vendo.

“Davi?!!”

Seus saltos ecoam no piso enquanto corre até a porta da sala de embarque. Ao chegar mais perto, seus olhos se conectam com os dele de imediato. Ela rompe o contato por breves segundos, voltando-se para o segurança parado na entrada.

Stop, please! Eu conheço ele. Está tudo bem.”

“Desculpe, senhorita, mas não posso deixá-lo entrar. São as normas.”

Megan suspira. “Okay, e eu posso sair para falar com ele, então?”

“Se sair não poderá mais entrar.”

“Como não? Tenho passagem comprada…” ela começa a dizer, no entanto, é Davi quem interrompe desta vez.

“Megan, eu não quero atrapalhar sua vida mais do que eu já fiz. Eu só preciso de um minuto pra falar com você. Só um minuto.”

Isso a faz virar-se novamente para encará-lo. Vendo-o ali, com os braços para trás, bem seguros pelo outro sujeito da equipe de segurança, ela sente um nó no peito.

*

Davi é surpreendido quando a vê atravessar a porta, sem se importar com a advertência que o segurança acabou de fazer sobre não poder mais entrar caso deixe a sala de embarque.

“Pode soltá-lo, please” ela se dirige ao segurança que ainda o mantém imobilizado segurando seus braços para trás.

O sujeito olha para o colega, parado diante da porta da sala de embarque, e somente ao receber autorização, Davi é liberado. A felicidade por tê-la alcançado antes de embarcar é tanta que ele nem se importa com o incômodo físico de ter sido contido. Sua respiração escapa, agitada, pela boca, que esboça um sorriso ao vê-la parar a sua frente. Mas, assim que ficam cara a cara, ele percebe que Megan não parece muito feliz e seu sorriso murcha, ele engole em seco.

“O que faz aqui, Davi?”

“Você foi embora no meio da noite enquanto eu dormia. Isso não se faz, Megan.”

“Então veio reclamar por eu não ter me despedido? Se sentiu usado, foi?”

“Não. Eu vim pedir pra você não ir embora. Eu sei que a vida é sua, a decisão é sua. Mas depois de ontem… especialmente depois de ontem, Megan… eu sei que você ainda me ama.”

“Deixe de ser orgulhoso” ela revira os olhos, cruzando os braços na frente do peito.

“É verdade” Davi faz questão de reafirmar, desesperado para que ela acredite na sua sinceridade.

“E daí se for? Meu amor nunca fez diferença pra você” os olhos dela brilham com uma espécie de dor contida neles.

E Davi sabe que é o responsável por isso. Ele sente, não pela primeira vez, o quanto falhou com ela. E tudo o que mais deseja agora é poder consertar seus erros.

“Não, Megan. Seu amor fez toda a diferença pra mim. Foi ele que me deu forças pra sobreviver esses dois meses longe de você. Pra perceber que eu sempre te amei, mesmo quando eu achava que ainda não amava.”

Algo no semblante dela se altera diante dessas palavras e ele vê os olhos de Megan brilharem, agora com lágrimas contidas. Decidido, Davi inspira e prossegue. O que tem a dizer deve ser dito.

“Eu sei que errei com você. Que machuquei a nossa história. E eu vou te pedir perdão a vida inteira por isso. Mas eu quero muito recomeçar, Megan. Eu quero você de volta. Eu quero nós dois de volta. Eu quero morango com laranja.”

*

Ela sente o coração bater tão alto e tão depressa que tem medo de que ele consiga escutar. As lágrimas, que até então se esforçava em conter, parecem prestes a escapar de seus olhos e ela respira fundo, tentando evitar.

“Davi… what…? You…

Megan se atrapalha nas palavras, misturando os idiomas, a cabeça girando depressa demais.

Então, Davi se aproxima, cortando a pequena distância entre os dois, e segura seu rosto entre as mãos, olhando bem no fundo de seus olhos, arrepiando-a por inteiro.

“Megan, eu te amo.”

Uma risada misturada a duas lágrimas teimosas escapam dela. Só pode estar sonhando! Isso é tudo que sempre quis ouvir dele. Se não for real, espera não acordar… nunca mais.

Oh, Davi” ela segura as mãos dele que tocam seu rosto.

E sem pensar mais, Megan sorri e se atira contra ele num abraço.

“Isso quer dizer que você vai ficar comigo?” Davi pergunta, apertando-a pela cintura e puxando-a para trás para encará-la, olhos nos olhos.

Megan não sabe como responder, as palavras se misturando de novo em sua mente. Então, o que faz é simples e direto: ela o beija.

Ao fundo, consegue escutar aplausos entusiasmados. Afastando-se dos lábios de Davi, espia a suas costas os passageiros do lado de dentro da sala de embarque, todos de pé, assistindo a cena como se fosse um filme.

Virando-se de novo para Davi, ela vê o sorriso bobo no rosto do único cara que conseguiu tocar mais do que seu corpo, mas também seu coração.

Sorrindo, feliz como nunca se lembra de ter se sentido em sua vida, Megan desliza a mão sobre a barba por fazer de Davi, parando no queixo.

Silly boy” sussurra, reaproximando os lábios dos dele.

E enquanto se beijam de novo, desta vez mais demoradamente, uma voz feminina ressoa ao fundo, anunciando a chamada para o próximo voo com destino a São Francisco que Megan Lily vai perder com todo o prazer do mundo.