Love Me Harder
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Notas iniciais
É bom estar chegando em casa, o peso do dia ainda nos ombros, mas Davi se sente bem simplesmente pisando na Gambiarra, o lugar no mundo que o acolheu desde que seus pais o deixaram.
Chutando uma pedrinha no caminho, ele para antes de começar a atravessar na direção de sua casa. Seus olhos avistam as luzes da Plugar acesas. Àquela hora a última turma de crianças do dia deve estar saindo. Já faz um bom tempo que não dá uma passada lá e fica com elas. Uns cinco minutos agora não são o suficiente para suprir sua ausência de tantas semanas, mas podem ajudar a matar um pouco da saudade.
Com um sorriso estampado no rosto, Davi dá meia volta e corre até a sede da ONG. Ao se aproximar da entrada, escuta as vozes animadas da molecada, que, pelo visto, está empolgada demais com alguma coisa para querer ir embora.
“Posso saber que festa é essa que tá rolando?” ele alteia a voz, entrando na sede.
Algumas crianças gritam seu nome, surpresas, enquanto outras correm para abraçá-lo. Davi, porém, não consegue reagir de imediato, seus olhos presos à figura que está de pé no centro da sala, rodeada por outra parte de crianças.
“Megan?!!”
“Oi, Davi” ela abre um leve sorriso que faz o coração dele disparar dentro do peito.
Ela está linda. Tudo bem, ele a viu mais cedo na Marra, na reunião de acionistas. Mas olhando para ela agora, rodeada pela meninada alegre e sorridente com a presença dela, Megan parece ainda mais bonita. Radiante, na verdade.
“Que surpresa, você por aqui” ele diz, sem desviar os olhos dela, as mãos acariciando os cabelos dos pequenos que o abraçam.
“Eu resolvi fazer uma visita antes de viajar. Desde que eu cheguei ainda não tinha conseguido um tempo pra vir, mas de hoje eu não podia deixar passar.”
“Que bom” ele se sente um bobo sem conseguir tirar o sorriso da cara, mas não se importa nem um pouco. Abaixa-se, finalmente, para dar atenção aos meninos. “Eu também andei sumido, verdade, galerinha? Mas hoje eu também resolvi aparecer.”
“A gente tava com saudade” um dos garotinhos da turma confessa a Davi. “De você e da Megan.”
Davi ergue os olhos novamente para ela, vendo que um pequeno sorriso continua nos lábios pintados de rosa. Mas logo a conexão de olhares se rompe, as crianças demandando a atenção de um e de outro. Rindo, Davi deixa-se puxar para o centro da sala, onde os demais se concentram ao redor de Megan.
Mais perto dela, Davi não deixa passar a chance de observá-la. De admirá-la. Não é só a beleza física, mas o jeito gracioso e delicado como ela dá atenção às crianças, ouvindo e rindo das mais bobas histórias do universo infantil que compartilham com ela, o deixa a cada minuto mais fascinado. E as lembranças do passado não tão distante assim o atingem em cheio… os dois brincando com aquelas mesmas crianças numa tarde de sol, picolés e a tese de que morango e laranja seriam a mistura perfeita.
“Planeta Terra chamando Davi!”
Só quando um dos meninos da turma grita, ele se dá conta de que se perdeu em pensamentos.
“Ah, sabe o que é isso? Cansaço. Eu tô chegando do trabalho, e vocês já devem estar cansados também, tá na hora de ir pra casa, né, cambadinha?”
Há protestos sonoros, mas Davi não se deixa persuadir.
“Nada de choro, eu sei que vocês adoraram a visita da Megan, mas os seus pais já estão esperando. Vamo lá?”
Diante de um coro de “Aaah”, as crianças vão, uma a uma, se despedindo de Megan com abraços e beijos que ela retribui alegremente. Depois que os últimos alunos saem, Davi se vê sozinho com ela no ambiente.
Seus olhos se encontram, há um segundo de hesitação da parte de ambos. Porém, ele se lembra de repente das palavras de Berenice quando estava se retirando da sala de Megan… o que diz o velho refrão… quem sabe faz a hora...
Aproximando-se dela com cuidado e um sorriso, Davi diz a primeira coisa que lhe vem à cabeça, e, por sorte, soa absolutamente natural.
“As crianças sentiram muito a sua falta nesse tempo.”
Megan dá um sorriso pequeno, quase tímido. “Eu nunca pensei que fosse dizer isso, mas eu também senti muita falta delas.”
Davi fica feliz por ouvir isso. No começo, quando ela tinha decidido trabalhar na Plugar, ele tinha ficado com uma certa pulga atrás da orelha. Sabia que a bad girl não era dada a esse tipo de coisa, e, bem, pelo que conhecia dela naquela época, era de se esperar que desconfiasse das verdadeiras intenções de Megan. Mas, em pouco tempo, ela tinha demonstrado uma verdadeira afinidade com as crianças e ele via o quanto ela gostava de passar seu tempo ali com elas.
Ele a vê pegar a bolsa sobre uma cadeira e rapidamente faz o convite, surpreendendo a si mesmo. “Por que não vem jantar lá em casa? Meus tios iam adorar te ver de novo.”
Megan hesita, colocando a alça da bolsa sobre o ombro. “Eu não acho legal chegar assim, sem avisar.”
“Que bobagem! Mas você já fez isso antes.”
“É, mas eram outros tempos” ela lembra.
A resposta faz o estômago de Davi afundar.
“Tudo bem se você não quer, mas não teria problema nenhum. Na verdade, eu…” ele começa, tentando encontrar a forma de fazê-la ficar um pouco mais.
“What?” ela pergunta, quase como se tivesse medo de saber.
“A verdade é que, desde que você voltou, a gente ainda não teve a chance de conversar. Não de verdade. Uma conversa franca e honesta.”
“E… sobre o que você quer que a gente converse?”
Megan ainda tem a postura de reserva, de incerteza e auto-proteção e Davi quer muito desarmá-la.
“Não vai ainda, Megan. Eu preciso muito te dizer umas coisas.”
Os lábios dela se abrem, como se ela fosse dizer alguma coisa, mas logo se fecham, ligeiramente trêmulos, ele nota.
Querendo vencer aquele medo e aquela hesitação, Davi avança devagar na direção dela, diminuindo a distância — física, pelo menos.
“Eu prometo que não vai demorar. Depois, você pode ficar à vontade pra ir embora. Mas antes, eu acho que você me deve ao menos cinco minutos. Em nome dos momentos bons que tivemos.”
Isso parece rendê-la. Deixando a alça da bolsa cair e pegando-a na mão, Megan balança de leve a cabeça em concordância.
Sem querer, um sorriso se abre no rosto de Davi. “Pode ser fora daqui?”
“Okay” ela não se opõe, para grata surpresa dele.
Davi faz sinal para que ela saia na frente. Os dois vão andando para fora da Plugar, tomando automaticamente o caminho já conhecido da casa dele. Fazem o trajeto num silêncio carregado de ansiedade. Ao chegarem na porta da velha garagem, Davi gira a chave, abrindo espaço e fazendo sinal para ela entrar.
*
Megan escuta o próprio coração batendo com força dentro do peito. Faz tempo desde que pisou ali pela última vez. E, naquela ocasião, as coisas não terminaram bem. Aliás, terminaram. Definitivamente. Ela tinha deixado Davi. E aquela tinha sido a primeira decisão de muitas que vieram na sequência, dando início a uma nova fase em sua vida.
Ela suspira e entra no espaço dele, fechando a porta atrás de si enquanto Davi se afunda para acender uma fonte de luz. Dentro de meros segundos, uma velha luminária se encarrega de clarear o ambiente.
Megan começa a andar devagar no interior da antiga garagem que serve de quarto, velho conhecido seu, e tudo parece estar exatamente como da última vez em que esteve ali. Cada detalhe. Seus olhos percorrem móveis, enfeites, equipamentos, com saudosa curiosidade.
“Continua tudo igual” ela observa casualmente, mais para ter algo a dizer.
“Nem tudo” Davi responde, o que a faz virar-se para ele. “Faltava você.”
Seus olhos estão conectados e ela sente o calor subir pelo rosto. Estão a sós ali. Quase como nos velhos tempos. Quase.
“Você sabe porque eu fui embora” ela diz, tornando a dar as costas a ele e passeando pelo pequeno espaço como se visitasse um museu, olhando os itens decorativos como se fossem novidade.
Davi pigarreia, voltando a falar. “Megan, eu ainda não tive a chance de dizer, mas eu sinto que te devo uma explicação sobre por que aceitei assumir a presidência da Marra.”
“Você não precisa…” ela começa, sem sequer olhar para ele, mas Davi a interrompe de pronto.
“Eu preciso. Eu quero.”
Megan desvia o olhar para ele um instante. E vê a seriedade e a sinceridade no rosto dele. É quase como se implorasse que ela o escute. Diante disso, ela meneia a cabeça e permanece em silêncio, indicando que ele prossiga. Entendendo o sinal, Davi o faz.
“Quando a sua mãe me procurou, ela estava desesperada. Perdida. Ela pediu muito que eu aceitasse a presidência. Depois do que a Manuela fez, a credibilidade da Marra estava em jogo e ela não tinha mais a quem recorrer. E nem confiava em mais ninguém para reerguer a empresa.”
“Eu entendo” Megan comenta, desviando os olhos dele novamente e correndo os dedos pela borda da mesa onda fica o computador de Davi e diversos bonequinhos. “E acho que ela fez uma boa escolha. Você era mesmo a minha primeira opção, eu sempre disse que era você quem devia ter assumir a presidência no lugar do meu Dad… do Jonas.”
“Mesmo assim, eu precisava te dizer isso. E não só. Eu aceitei o pedido da Pamela também por sua causa.”
Ela alça o olhar até ele outra vez. “Davi…”
Ele ergue a mão, silenciando-a. “Megan, eu não vou mentir. Eu me senti muito culpado pela sua ausência, por você ter ido embora. Via sua mãe triste, sofrendo, e sabia que a culpa era toda minha.”
Megan fica sem resposta por alguns segundos. Davi está mesmo reconhecendo que errou com ela? Seja como for, ela quer deixar as coisas bem claras.
“Não se preocupe, eu não fui embora por você. Eu fui por mim. Pra finalmente pensar em mim e não nos outros.”
Ela o vê engolir em seco, abaixar o olhar. “Tem razão. Sua vida não gira em torno de mim. Mesmo assim, eu me senti culpado por ter te decepcionado tanto.”
Megan não se dá ao trabalho de responder a isso. Torna a olhar para a mesa dele, os dedos brincando com os lápis e canetas que estão dentro de um copo. É Davi quem continua a falar.
“Megan, eu também quero que saiba que eu não me aproximei de você com segundas intenções e nem investiguei o Jonas com segundas intenções. Eu fiz o que eu acreditava. Posso ter errado em muita coisa, mas errei acreditando que era o certo.”
“Sempre soube que você tem as suas convicções. Só nunca entendi porque não pensou em como me magoava sabendo da traição do meu Dad com a Verônica e não me dizendo nada, por exemplo.”
“Eu te expliquei na ocasião, não era um segredo meu. Eu não podia contar…”
“Está bem” ela ergue a mão, impedindo-o de continuar. “Eu não quero mais falar disso. Esse foi o menor dos males que você podia ter me feito.”
Essas suas palavras parecem atingi-lo em cheio. Ela vê os olhos de Davi brilharem com uma espécie de dor… antes que possa assimilar o que vê neles, ele toma a palavra outra vez.
“Eu sei. Eu fui um estúpido. Mas eu acreditei na Manuela, achava que as intenções dela eram boas, acreditei que a gente tinha os mesmos projetos, coisas em comum… e você e eu… a gente era tão diferente e tudo foi ficando tão complicado em volta que eu pensei que…”
“Por favor, Davi” Megan torna a intervir, incapaz de seguir ouvindo-o falar daquela mulher. Balançando a cabeça, tenta ignorar o ciúme que, por mais que queira evitar, ainda a corrói.
Enfim, Davi a chamou ali porque queria falar de tudo menos o que ela queria ouvir — que algum dia a amou de verdade. Então, o melhor é mesmo ir embora. Nem devia ter pisado ali de novo, em primeiro lugar.
“Já está tudo esclarecido, Davi. E eu não guardo mágoa. Aliás, já entendi seus motivos. Então, vamos deixar o passado pra trás, okay? Bem, eu vou indo. Bye.”
Antes que ela consiga, porém, alcançar a porta, ele a segura.
“Espera, Megan! Não vai ainda...”
Seus olhos se encontram e ela não consegue romper a conexão.
“Nós já… já conversamos” ela consegue articular as palavras, a voz saindo falha, forçando-a a limpar a garganta antes de continuar. “Você já disse o que queria dizer, eu já entendi.”
“Eu sinto sua falta” ele murmura, pegando-a de surpresa.
Megan pisca. Engole em seco. Por fim, rindo, nervosa, dá as costas a ele e volta a remexer no conteúdo da mesinha onde fica o computador.
“Please, Davi” ela finge desdém.
“Desde que você esteve aqui pela última vez, eu ainda consigo sentir o seu cheiro…” ele murmura, pegando-a outra vez de surpresa, arrepiando sua nuca.
Ele está agora justamente às suas costas, a voz tão perto de seu ouvido esquerdo que Megan fecha os olhos por um momento, sentindo a pele arder de desejo.
Quando as mãos dele tocam seus braços, descendo suavemente por eles até alcançar seus pulsos, Megan congela. Arfa, o ar escapando, trêmulo, de seus pulmões. E ela cerra os olhos no exato instante em que o corpo dele — quente, vivo — encosta no seu, quebrando, por fim, meses de distanciamento.
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