Love Me Harder
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Notas iniciais
Uma semana e meia depois…
Os últimos dias têm sido uma espécie de novo tormento para Davi. Sempre há tanta coisa a ser feita, tanto na Marra quanto na Brazuca, mesmo contando com a ajuda de Ernesto na startup, que suas tentativas de achar uma brecha para falar com Megan de novo parecem simplesmente nunca acontecer. E o irrita ainda mais saber que Ricky Jones deixou o país e o caminho está aparentemente livre, e, mesmo assim, não consegue se reaproximar dela. Também, toda vez que força uma brecha ou a vê passando, Megan parece estar alheia a sua presença.
Frustrado, cansado, mas ciente de que não pode deixar nem suas responsabilidades de negócios nem sua chance de falar com Megan de lado, é numa tarde de reunião com todos os acionistas da Marra que Davi decide: de hoje não passa.
Porém, não contava com a surpresa que tem, bem no meio da reunião, ao ouvi-la se pronunciar, já ao final da pauta.
“Well, agora que está tudo em ordem e andando nos trilhos, creio que posso me ausentar tranquila.”
“Au-ausentar?” Davi se atrapalha no questionamento tamanha incredulidade com a notícia súbita. Como assim ausentar-se? Ela está dizendo que vai embora?
“Exactly” Megan responde, olhando-o diretamente — algo que já não faz há tanto tempo…
Davi sente o estômago afundar.
Em seguida, ela se dirige aos acionistas reunidos à mesa de reuniões.
“Tenho um voo programado para a California, mas não se preocupem, o doctor Jones vai permanecer aqui me representando enquanto eu não estiver.”
Com algum esforço, Davi consegue recompor-se e encerrar a reunião, agradecendo e dispensando a presença de todos. Assim que vê Megan se levantar, empurra a cadeira de presidente para trás, e, ignorando as orientações que Murphy lhe passa sobre o que vem a seguir em sua agenda, Davi dá a volta na mesa e consegue colocar-se entre ela e o caminho da porta.
“Você… você tá indo embora, Megan?”
Ela não responde. Os olhos piscam, a expressão de surpresa pela abordagem inesperada logo dando lugar a calma e, em seguida, uma seriedade quase fria.
“Tenho minha vida, Davi. E ela inclui vários aspectos, não só a Marra Brazil. Tenho coisas fora do país agora que preciso cuidar.”
Ele continua a olhá-la, sem saber muito bem o que dizer para retê-la ali. Na verdade, há tanta coisa que quer falar com ela, e faz tanto tempo, mas, nesse exato momento, tudo parece ter desaparecido de sua mente. Só registra que Megan está diante dele e que logo não estará mais.
“Quando é que você vai?” pergunta, sentindo-se inesperadamente triste.
“Logo.”
Davi sabe que ela não quer lhe dizer quando parte. E, de repente, tudo está tão estranho entre eles novamente… como se fossem dois meros conhecidos, quando a verdade está muito longe disso.
Rompendo o contato visual, Megan ajeita a alça da pasta executiva que traz no ombro e dá um passo para o lado, saindo do bloqueio que ele estabeleceu para a porta.
“Bem, Davi, preciso ir andando. Bye.”
Ele se sente péssimo ao vê-la deixar a sala com passos firmes e decididos, e se sente ainda pior por não conseguir correr atrás dela.
“Boss, temos uma importante reunião agora via streaming na sala da presidência com os investidores estrangeiros. Precisa se apressar.”
A voz de Murphy o arranca do estado de torpor. Por mais que queira ao menos tentar consertar as coisas com Megan, ainda possui algum senso de responsabilidade, muitas pessoas dependem do seu trabalho e do sucesso dele.
Rendido, com um suspiro, Davi meneia a cabeça, fazendo sinal para que Murphy saia na sua frente.
*
Assim que fecha a porta de sua sala, Megan suspira, emocionalmente exausta. Nos últimos dias, fez de tudo para evitá-lo. E conseguiu. Até agora. Quando ele a abordou na saída da sala de reuniões, por um instante pensou que fosse ceder. Mas conseguiu ser forte o bastante para sair de lá e, mais uma vez, evitar Davi.
Seus pensamentos continuam confusos. E o que Megan mais fez nesses dias foi pensar em Davi, na conversa que teve com Luene na boate e depois com Ricky. Saber que Davi não voltou com Manuela depois que terminaram foi muito bom. Mas ela ainda não se sente segura de que ele um dia a quis de verdade. Ele nunca disse que a amou. Simplesmente porque nunca deve ter amado. Quando quis saber no outro dia se ainda sentia algo por ele, certamente se tratava de orgulho ferido, afinal, tinha sido ela a terminar o relacionamento dos dois, a deixá-lo para trás. Provavelmente ele ainda não tinha superado o fato de não ter sido quem a dispensou para correr atrás da nerdestina.
Puxando o ar com força, Megan repreende-se por sequer dar espaço àquelazinha em suas lembranças. Fato é que Davi não voltou com ela. No fundo, isso ainda mexe com sua cabeça. E, por mais que tenha se julgado forte, mudada, os últimos dias só serviram para provar que seu sentimento por ele ainda segue vivo. E mesmo tentando se afastar, evitá-lo, está longe de ser indiferente. E isto a assusta.
De repente, a porta da sala se abre e Megan é arrancada de seus pensamentos com a entrada da mãe.
“Hey, baby girl” Pamela sorri, vindo em sua direção.
“Hi, Mom” Megan força um sorriso.
Quando Pamela para a sua frente, os olhos espertos percebem sua tristeza.
“Está tudo bem, Sweetie?”
“Yes” Megan mente, mas sua mentira não dura nem dois segundos, “Quero dizer… eu não sei.”
“Não sabe?” Pamela fecha a pequena distância entre as duas e leva as mãos ao rosto da filha. “Como não sabe?”
Tentando ordenar o que sente, Megan suspira. “Mom, vou voltar para a California.”
“Mas… Megan, Sweetie” a expressão de Pamela parece murchar. “Mas eu pensei que você tinha vindo pra ficar.”
“Não, mom” ela balança a cabeça de leve, “Vim para tomar conta dos negócios, assumir meu posto como herdeira da Marra. Mas tenho outras coisas a fazer fora daqui também.”
“Então, vai desistir da Marra?”
“Never. Mas não se preocupe, você tem Davi aqui na presidência, ele é tudo de que precisa para que a empresa continue se recuperando.”
“Oh, my baby girl” Pamela deixa as mãos que tocam o rosto da filha caírem ao lado do corpo. “No fundo você ainda está sentida comigo por ter chamado Davi para assumir a presidência?”
Megan nega com a cabeça. “No, mom. Já disse que não. Ele era a melhor opção e a que eu disse que devia ter escolhido logo desde o começo.”
Pamela abaixa o olhar, pesarosa. “Agora eu sei, Megan. Mas, dear, eu achava que estava fazendo a coisa certa, e, naquela época, Davi não queria se comprometer…”
“All right, mom” Megan ergue a mão, impedindo a mãe de prosseguir “Está tudo bem, já falamos sobre isso antes, remember? Eu entendi o seu lado e não culpo você por nada. Isso não me preocupa mais. O que passou, já passou. Agora as coisas estão indo muito bem na Marra e muito graças a Davi. O que deve fazer é mantê-lo aqui, mom. Do seu lado.”
“Sim, ele é um excellent presidente para a Marra” Pamela abre um sorriso, quase sem querer “Ele me lembra tanto Jonas quando começou a construir esse império…”
A simples menção ao pai faz o coração de Megan se apertar. Ela amava tanto Jonas! Como ele tinha sido capaz de trair sua mãe e ainda por cima se meter em negócios obscuros, prejudicando a família que sempre dizia ser o centro de sua vida? Pelo visto, os homens brasileiros tinham o poder de arrasar seu coração.
“Sweetie” Pamela chama a atenção de Megan de volta ao presente, “Você não está indo embora por causa de Davi, não é?”
“Não, mom” Megan toma as mãos de Pamela nas suas. “Estou indo por escolha própria. Porque preciso e quero cuidar da minha vida. Tocar meus projetos. Lembra que eu queria fazer alguma coisa boa? E você mesmo vivia me dizendo que eu precisava me dedicar a alguma coisa que valesse a pena?”
“Sim” os olhos de Pamela brilham.
“Pois então. Eu encontrei isso, mom. Encontrei uma coisa de que gosto e posso ajudar as pessoas.”
“Oh dear” Pamela balança a cabeça, os olhos carregados de emoção. “Fico tão feliz por você.”
“Eu também, mom” Megan abraça carinhosamente a mãe. “Eu também.”
Enquanto sente os braços da mãe em volta de seu corpo, Megan pensa que talvez esse retorno à terra natal e a dedicação ao seu projeto sejam sua melhor oportunidade para superar Davi de vez.
O pequeno momento de mãe e filha é interrompido por batidas na porta. Endireitando-se, Megan alteia a voz. “Entre!”
O rosto sorridente de Berenice surge no ambiente. “Olá, chérie!”
“Grandma” Megan se desvencilha dos braços da mãe para alcançar a avó. “A que devemos a honra da sua visita?”
“O doutor Jones me pediu para encontrar com ele aqui, ma chérie” Berenice beija carinhosamente o rosto da neta.
“Reunião de negócios?” Megan pergunta, curiosa.
“Sim e não.”
“Como assim?”
“Eu tenho alguns detalhes a tratar com ele agora que estou voltando para Paris. Como ele ainda vai ficar por aqui mais algum tempo, precisamos tratar de alguns negócios meus na França.”
“A senhora já vai voltar para Paris?” Megan se surpreende com a informação da avó.
Pamela se aproxima, também surpresa. “Mas já, Berenice?”
“Eu só vim mesmo para acompanhar a minha papillon. Agora que ela vai viajar para a California, acho que é a hora de me despedir do Brésil.”
“Então você já sabia dos planos de Megan?” Pamela surpreende-se.
“Oh, mom… não fique com ciúme” a filha a abraça carinhosamente. “Precisei falar com a grandma primeiro porque o advogado dela está aqui, me representando, e queria pedir que ele continuasse na minha ausência.”
“Entendo, baby girl” Pamela suspira, encarando a ex-sogra em seguida. “Se quiser ficar mais alguns dias, Berenice, nossa casa é sua casa.”
“É mesmo, gandma. Você bem que podia ficar mais tempo.”
“Eu adoraria, mas já me ausentei demais dos meus compromissos, chérie.”
“Okay” Megan balança o ombro, compreensiva. “Parece que uma onda de mudanças está mesmo no ar.”
As três mulheres entreolham-se e sorriem.
*
A reunião pelo computador com os investidores estrangeiros pareceu durar séculos, e não apenas meia hora! Davi deixa um longo suspiro de cansaço escapar.
“Bem, esse foi o último compromisso de hoje, Boss” Murphy anuncia, para seu alívio.
Mesmo que não fosse, do jeito que está, Davi teria dado o dia de serviço por encerrado ali mesmo.
“Obrigado, Murphy. Pode ir. Nos vemos amanhã.”
“Até amanhã então, Boss. Tenha um bom descanso” o indiano faz uma espécie de reverência antes de se retirar.
Quando se vê finalmente sozinho, o pensamento de Davi retorna a Megan e a necessidade de falar com ela. Com uma rápida olhada para o relógio, se pergunta se ela ainda estará na Marra.
Tentando a sorte, ele se levanta, deixando a sala da presidência e atravessando o corredor até a sala dela. Com duas batidas na porta, entra em seguida, sem esperar resposta, o coração acelerado na expectativa.
Sua esperança, porém, é frustrada ao ver que a pessoa sentada à mesa não é Megan.
“Desculpe, eu pensei que a Megan estivesse aqui.”
“Pela sua expressão aflita, eu vejo que está mesmo querendo falar com a minha neta.”
“Sim… na verdade, sim.”
“Megan Lily não está. Ela já se foi.”
“Se foi?” Davi se assusta. “Ela já embarcou?”
“Como?” Berenice franze a testa, confusa.
Percebendo a gafe cometida graças ao seu desespero, Davi suspira, balançando a cabeça.
“Não, é que ela disse mais cedo, na reunião dos acionistas, que estava para sair do país. Que ela tem outros interesses fora pra cuidar.”
“Certamente” Berenice meneia a cabeça, abrindo um sorriso de orgulho. “Minha pappilon está alçando seus próprios voos. A ONG da California é um deles.”
“ONG? Na California?” Davi fica surpreso com a informação inesperada.
“Sim. Megan Lily, nos últimos meses, abriu uma fundação para ajudar crianças carentes e pessoas mais velhas através da integração digital… creio que é assim que se diz. É um trabalho merveilleux, e, embora recente, tem dado belos resultados.”
Um sorriso involuntário toca o canto dos lábios de Davi. “Eu não sabia. Na verdade, não fazia ideia.”
“A maioria das pessoas não faz ideia de como Megan Lily é uma pessoa extraordinaire” a voz de Berenice carrega evidente orgulho e carinho. “É preciso conhecer o interior de uma ostra para descobrir suas pérolas.”
Davi concorda com a cabeça. Está surpreso — e muito! — por essa nova Megan. Ou, talvez, ela sempre tenha estado ali, só que desabrochou tarde ou ele simplesmente foi muito cego para ignorar todo o potencial dela. Talvez seja mesmo a última opção.
Sua mente, de repente, é invadida por lembranças… especialmente a de uma conversa que os dois tiveram certa vez, saindo da Plugar. Ele tinha contado a ela sobre um projeto que integrava velhos e crianças carentes através da internet e como isso tinha dado resultados. Pelo visto essa informação ficou gravada na memória de Megan, e, agora, ela está fazendo o mesmo. Ajudando pessoas através da inclusão digital. Ele, por sua vez, tem andado com tão pouco tempo até para se dedicar à criançada da Plugar, que sempre foi seu lar.
Saindo do devaneio, Davi pisca e dirige-se à avó de Megan.
“Bom, acho que a minha viagem até aqui a procura dela foi em vão. Ou melhor, não” ele se dá conta, de repente “Foi muito bom saber desse projeto dela na California, e de como tem dado certo.”
Berenice torna a sorrir brevemente. “Eu só estou aqui na sala dela porque marquei com o meu advogado, que também representa os interesses da minha neta na Marra, para tratarmos de assuntos do meu interesse.”
“Entendo” Davi responde, sem graça. “Eu vou indo, então.”
“Um minuto, meu rapaz” a senhora o chama de volta.
“Pois não?”
“Como é mesmo a letra daquela canção brésilien que diz… quem sabe faz agora…?”
“Quem sabe faz a hora, não espera acontecer” ele completa prontamente, lembrando-se do conhecido refrão a que a senhora se refere.
“Oui! É isto” Berenice abre um sorriso.
Acenando com um breve meneio de cabeça, Davi deixa a sala com uma sensação agridoce.
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