Love Me Harder
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Notas iniciais
“Valeu mermo por ter me convidado pra essa festa de bacana, campeão! Só tem granfinada!”
“Hã? Ah, de nada” ele murmura displicentemente, seus olhos ainda percorrendo a multidão na entrada da boate a procura de uma única presença.
O lugar está cheio, como era de se esperar. Cheio de personalidades e imprensa, e isto, somado ao barulho que logo mais vai se tornar ensurdecedor, seria o bastante para mantê-lo bem longe dali. Um único motivo, porém, foi mais forte que toda a sua resistência natural a esse tipo de evento e o compeliu a vir. E, quando menos espera, os olhos de Davi avistam esse motivo.
“Megan Marra!” alguém no meio dos jornalistas de plantão exclama.
Exuberante, num vestido preto colado ao corpo, o cabelo preso num longo rabo de cavalo, ela entra no lugar como se desfilasse, de braço dado com aquele sujeitinho. Ricky Jones.
Davi sente os dentes rangerem involuntariamente.
“Ai, olha lá! A Mega!” Luene exclama, efusiva, ao perceber a presença da loira. “Vamo lá falar com ela.”
A amiga nem lhe dá tempo de responder, Davi tem seu braço puxado e é praticamente arrastado na direção dos recém chegados que estão recebendo toda a atenção dos donos da casa e dos fotógrafos de prontidão.
Estouram flashes por todos os lados. Davi pisca, tentando proteger os olhos. Leva alguns segundos para se acostumar ao clarão e ao burburinho.
“Megan! Aqui! Desse lado!” um repórter chama.
“Uma pose pra nossa câmera, Megan Marra!” outro grita.
Os fotógrafos fazem questão de registrar a chegada da herdeira da Marra. E ela, por sua vez, faz poses como uma profissional.
“Quem é o galã?” uma repórter pergunta, direcionando o microfone para Megan.
Luene vai empurrando algumas pessoas no caminho sem a menor preocupação, e finalmente interrompe os passos apressados num ponto de onde, não apenas a vista é privilegiada, mas a audição também.
Com um sorriso, Megan responde a pergunta da repórter sobre seu acompanhante da noite.
“This is Ricky Jones, um amigo.”
A resposta, na verdade, só atiça ainda mais a curiosidade dos paparazzi e jornalistas sensacionalistas presentes. Davi sente o sangue ferver. Sem pensar, ignorando o fato de que há um amontoado de olhos em volta, ele se aproxima dela.
Com uma pitada mal contida de sarcasmo, ele faz questão de chamar a atenção da estrela da noite. “Como vai, Megan?”
O cumprimento não apenas captura o olhar da loira como também rouba os holofotes. Ele escuta algum dos repórteres gritar seu nome como se tivesse acabado de descobrir um furo.
“É Davi Reis! O novo presidente da Marra!”
Os flashes espoucam em cima dele, e, por mais que odeie esse tipo de coisa, Davi pouco se importa. No momento, sua atenção está voltada completamente para os olhos assustados de Megan. Ele pode afirmar com convicção que era a última pessoa que ela esperava encontrar ali.
“Uma foto, por favor!”
“Uma foto da herdeira da Marra e do presidente!”
As exclamações e pedidos chegam ao ouvido de Davi. Mas é Megan quem parece incomodada com eles. Olhando novamente para as câmeras, ela dá um sorriso sem graça.
“Megan, uma pose com o presidente da Marra” a mesma repórter que perguntou sobre Ricky, agora completamente esquecido, pede.
Megan olha para o rapaz que a acompanha e ele meneia a cabeça, sorrindo, compreensivo. O que faz a raiva de Davi pelo sujeito aumentar mais alguns graus.
Sem pensar, guiado apenas por essa coisa primitiva que se instalou sem pedir licença em seu sangue, Davi dá o passo derradeiro, fechando a pequena distância entre ele e Megan. E, com um sorriso que não podia ser maior nem mais satisfeito, sua mão envolve possessivamente a cintura de Megan, o rosto voltando-se para os flashes enquanto sussurra para ela, entredentes, “Sorria!”
*
Megan sente o corpo arder. De raiva. De vergonha. De medo de si mesma. Do que está sentindo com a mão firme de Davi em volta de seu corpo. A exata área onde os dedos dele apertam parece pegar fogo.
Desconfortável, ela tenta fazer pose para as câmeras, mesmo com vontade de largar tudo e todos ali e ir embora no exato momento. A ideia de aceitar aquele convite de Ricky foi péssima. Decidiu baseada apenas no desejo momentâneo de provocar Davi, que, no dia em que disse sim, estava sentado a duas mesas de distância na cafetaria da Marra, presenciando tudo.
Ela sabia que se tratava muito mais de provocar Davi do que realmente querer sair e se divertir na companhia de Ricky. Ou de quem quer que fosse! Estava ali encenando, e, agora, o trabalho de atuação seria dobrado. Com a presença dele, tudo mudava. Ficava mais difícil.
É com um suspiro de surpresa e susto que sente o corpo ser puxado para ainda mais perto de Davi. Olhando para o rosto dele, Megan vê o sorriso fácil e satisfeito nos lábios atrevidos. Bastard! ela xinga em pensamento. É nítido que ele está se divertindo com seu desconforto.
No entanto, a forma como seus corpos estão próximos agora, seu seio direito comprimido contra o tórax de Davi, a faz sentir um frio delicioso na barriga. E ela percebe que as palmas das mãos estão suadas quando precisa apoiá-las, uma nas costas e outra no peito dele, para manter o equilíbrio, apesar da pegada firme que ele tem em sua cintura.
Zonza, Megan pisca, incomodada já com os flashes intermináveis e o blablablá sem fim dos jornalistas presentes. Porém, sabe perfeitamente bem o roteiro que deve seguir nessas ocasiões, razão por que forja seu melhor sorriso e torce para a agonia chegar logo ao fim.
Mais alguns flashes por ângulos diferentes e ela decide que é hora da imprensa de fofoca e socialites se dar por satisfeita.
“Já está bom, guys! Agora eu vou curtir a festa, right?!”
Com isso, ela se afasta de Davi. Ou, ao menos, tenta. Ele não liberta seu corpo mesmo com seu movimento empurrando de leve o torso dele. Seus olhos sobrem para o rosto que a encara. Por um momento ela quase esquece de todos que estão em volta e cede a vontade repentina e absurda de beijá-lo outra vez…
É uma voz familiar que interrompe o momento. “Ei, eu quero sair na foto também!”
Megan se vira para dar de cara com Luene. Um sorriso espontâneo brota em seus lábios.
“Luene!”
“Mega amiga!”
Finalmente o braço de Davi liberta sua cintura e as duas se cumprimentam com beijos no ar, rindo e se abraçando em seguida.
Erguendo o braço para chamar a atenção dos fotógrafos, Megan sorri. “Mais uma com a minha amiga aqui, guys!”
“Luene Pirulito! Funkeira, modelo e com projetos na área de atriz” a morena se anuncia abrindo um grande sorriso para os repórteres e fotógrafos.
*
Não se passam nem dois minutos, algumas poses e mais alguns flashes e o circo acaba. Megan e Luene se despedem e Davi, que ficou de espectador, vê a loira se afundar pela boate de braço dado com o advogado mauricinho.
Sem perceber, seus dentes rangem outra vez. Ele só se dá conta de que continua parado feito um dois de paus quando sente a mão de Luene em seu braço.
“Vamo, campeão! Vamo se jogar na pista!”
Ele faz uma careta para a garota. “Eu preciso de uma bebida.”
“Tu?” os olhos de Luene quase saltam das órbitas. Ela dá um largo sorriso em seguida. “Que evolução, hein! Gostei de ver. Simbora!”
Puxando-o pelo braço, Luene encontra uma brecha entre as pessoas no caminho, agora em menor número graças à retirada de cena de Megan, que desobstruiu a passagem. Os repórteres e fotógrafos ainda continuam no mesmo lugar, esperando a chegada de outros convidados famosos.
Agradecendo a oportunidade de ficar longe de todo esse circo midiático, Davi suspira aliviado ao ver o balcão do bar. Desta vez é ele quem toma a dianteira e puxa Luene na direção pretendida.
“Uma cuba e…” a morena começa a pedir ao barman, mas é interrompida por Davi.
“Tequila. Dupla.”
Mais uma vez os olhos de Luene ficam esbugalhados. “Peraí, eu sei que tu deu uma evoluída, mas tu não acha que é forte demais um treco desses pra principiante, não? Uma cervejinha era melhor pra começar.”
Davi nem lhe dá resposta. O barman começa a preparar os drinks e ele se vira para olhar o movimento dentro da boate. Ou melhor, para procurar uma certa pessoa.
“Mas isso daqui é muito do chique, eu tô adorando!” a voz de Luene chega aos ouvidos de Davi, mas ele ainda mastiga a parte interna da boca enquanto corre os olhos pelas cabeças na multidão.
É só quando o barman coloca o copo de bebida sobre o balcão que Davi desiste da busca. Tomando o primeiro gole e sentindo a queimação mais forte que já sentiu ao beber alguma coisa, ele fecha os olhos e inspira.
Sente um tapa em suas costas, a mão pesada de Luene.
“Força, garoto!”
Tossindo, Davi logo se recupera, olhando para a amiga. “Tô ótimo.”
Mentira.
Com coragem, ele toma outro gole, esvaziando o copo que bate sobre o balcão.
“Outro?” o barman pergunta.
“Melhor não, campeão” Luene pousa a mão no ombro de Davi. “Vai com calma. Tu não vai querer dar vexame aqui, né? Tá cheio de repórter ali na entrada, vai ser um prato cheio pra eles o presidente da Marra chapado…”
“Eu não vou ficar chapado, valeu?” Davi ergue uma das mãos, silenciando o discurso de Luene. Então, balança a cabeça negativamente para o barman, que se afasta para atender outros clientes do balcão.
Com raiva de si mesmo, Davi suspira e senta no banco alto ao lado de Luene.
“Foi mal, Luene. Só tô de saco cheio. Essas coisas de celebridade não são pra mim. Ficar saindo em fotos por qualquer besteira, só porque vim na inauguração de uma boate…” ele solta um ronco em forma de risada, “É o cúmulo da futilidade.”
Apesar do prazer secreto em posar possessivamente com as mãos no corpo de Megan, ele tem que admitir o quanto detesta esse tipo de atenção desnecessária, flashes e afins.
“Mas Deus dá pérola pra bangela mermo, viu. Tá reclamando de barriga cheia!”
“É pérolas aos porcos, Luene” ele revira os olhos, corrigindo. “E eu não tô nem aí pra essa coisa toda de exposição na mídia. Só quero fazer o meu trabalho e faço o que eu acredito.”
“Mas não adianta, campeão. Agora tu é presidente da Marra de novo, e o único e exclusivo. Tu vai aparecer na mídia querendo ou não.”
Ele sabe que Luene tem razão. E o pior é isso. Mas o que o incomoda realmente nessa situação toda é saber que vai sair nas notas como ex de Megan Marra e atual presidente da empresa da qual ela é herdeira, enquanto o misterioso galã gringo vai ser creditado como o acompanhante misterioso da loira fatal.
Sem pensar e sem dar ouvidos aos protestos de Luene, ele ergue a mão para o barman, pedindo uma dose de vodka. Dessa vez a bebida desce um pouco mais suave e Davi consegue manter os olhos abertos e o orgulho intacto.
Quando sua cabeça se volta para os lados da pista, ele a encontra no meio da multidão. Linda e sorridente, o rabo de cavalo balançando para um lado e para o outro enquanto o corpo esguio se mexe ao ritmo da música e do parceiro de dança filho da mãe. As luzes coloridas do teto a iluminam como um arco-íris psicodélico. Davi pisca, tentando ajustar a visão, a cabeça repentinamente pesada.
“Campeão, tu tá bem mermo?”
Ele nem dá resposta a Luene. Simplesmente a arrasta consigo rumo à pista de dança.
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