Passei horas e horas descrevendo a turnê nos mínimos detalhes, tentando demonstrar uma empolgação que não existia. Fiz um lanche e saí de casa, sem rumo nenhum, sem nenhum lugar em mente.

Eu sabia que os fotógrafos estavam registrando cada passo meu, mas nem ligava. A essa altura do campeonato, já estava acostumado com tudo isso. Eram tantos fotógrafos que eu nem conseguia contá-los nos dedos.

Entrei em um beco qualquer e sentei na calçada, para ver se alguém me seguiria. Tirei o boné e coloquei ao meu lado.

Alguma coisa bateu em mim por trás, me jogando na rua. Depois da queda, passei a mão no queixo. Estava sangrando.

-Meu Deus! Mil desculpas! — disse uma voz de mulher.

Levantei lentamente e virei. Arregalei os olhos; talvez de raiva, talvez de surpresa. Aquela era, sem dúvidas, a garota mais bonita que eu já vira na minha vida. Observei com cuidado seu cabelo loiro ondulado, seus olhos, tão azuis quanto um lago, seu nariz reto e ... ah, sua boca! Delicada e linda, mas agora retorcida em uma careta.

-Tudo bem — respondi.

-Não foi de propósito, eu juro. Eu abri a porta de uma vez, não vi você aí e...

-Eu disse tudo bem — repeti.

-Então tudo bem.

Ela deu um sorriso tímido, sem mostrar os dentes. Sorri para ela também, ainda com a mão no queixo. Então ela semicerrou os olhos, parecendo confusa.

-Você me parece familiar — ela comentou.

-Devo parecer com algum artista, sempre me dizem isso — menti.

-Ah. — ela sorriu — Então deve ser isso.

-Gabriella! Gabriella! — alguém gritou de dentro da casa.

Ela revirou os olhos e mordeu o lábio inferior.

-Me esquece, Zac! — ela gritou.

-Te esquecer? Quando eu me vestir eu vou descer aí e você vai implorar para me ter de volta.

-Quando você se vestir será tarde demais. — ela gritou, correndo.

Olhei tudo sem reação nenhuma, sem entender nada. Enquanto ela, que pelo o que eu havia entendido se chamava Gabriella, corria eu tomei uma decisão: eu não poderia deixar ela ir embora.

Ainda com a mão no queixo, saí correndo atrás dela, sem ao menos me preocupar com os fotógrafos que provavelmente me seguiam. Eles deveriam estar se divertindo.

Depois de um bom tempo correndo, ela finalmente parou, ofegante. Colocou a mão nos joelhos e respirou fundo. Quando virou o rosto lá estava eu, lhe observando.

-O que você está fazendo aqui, garoto?

-É perigoso sair correndo sozinha assim, sabia?

Ela riu.

-Claro, me sinto muito mais segura com você. Muito obrigado. — ironizou.

-Disponha. Agora que eu evitei sua morte, pode me dizer seu nome?

-Você já sabe meu nome.

-Gabriella, certo?

Ela fez que sim com a cabeça. Esperei que ela perguntasse o meu e como ela não o fez, continuei:

-Gabriella, meu nome é Justin. Prazer.

-Eu não te perguntei.

Decidi fingir que não tinha escutado aquilo.

-Agora que nos conhecemos, posso saber por quê estava correndo?

-Não — ela disse, sentando na calçada.

Sentei ao seu lado. É incrível como uma garota que aparenta ser tão delicada pode ser tão grossa.

-O.k então — disse — Eu só pensei que você devia uma explicação ao meu queixo sangrento.

-Nossa, você é sempre é chato desse jeito?

Não pude segurar o riso.

-Só às Segundas.

-Hoje é Terça. — ela riu — Bom, sabe o Zac com quem eu estava grintando?

-Hum

-Ele é meu namorado. Ou era, até pouco tempo atrás.

-E o que houve?

-Eu o peguei na cama com outra.

-Por isso ele tinha que se vestir — comentei.

-Garoto esperto! — ela riu.

-E você gosta dele?

-Gosto. Gostava — ela franziu a testa — Não sei direito.

-Sabe o que eu acho disso tudo?

-Claro que não sei, você ainda não me contou.

-Eu acho que ele é um idiota. Qualquer outro cara que tivesse a sorte de namorar você nunca ao menos olharia para outra garota.

Ela riu e balançou a cabeça, negativamente.

-Você não me conhece. Eu sou um porre.

-Eu duvido.

-Não duvide de mim, garoto. Nunca.

Ri.

-Agora eu tenho que ir para casa — ela disse.

-Posso te acompanhar?

-Já me acompanhou. Não te convidei, mas me acompanhou.

Ela apontou para o prédio atrás de nós.

-Quando posso te ver de novo?

-Nunca.

Esperei por algum sorriso, algum sinal de que ela estava brincando. Nada.

-Nunca?- perguntei.

-Nunca.

-Você quebra o meu queixo e eu não posso nem te ver?

-Que péssimo chantagista é você! Me passa o celular.

-O quê?

-Vamos, garoto, quer meu número ou não?

-Quero.

É o que eu mais quero agora, pensei. Tirei o iPhone do bolso e entreguei para ela.

-Como salvo meu número nesse troço? — ela riu.

Peguei o celular e a ensinei.

-Pronto. Você já tem meu número e sabe meu endereço... quer minha identidade agora?

-Agora não. Só no terceiro encontro.

-Se houver um.

-Quando houver um.

Abri o portão para ela e ela entrou, sem falar nada.

-Não mereço um tchau? — perguntei.

-Não. — ela respondeu, subindo as escadas.