Love Love
9 Ironias da vida
Notas iniciais
Apoveitem ^^
Ironias da vida.
Caminhava pelos corredores daquela enorme estação espacial. Talvez não devesse ter saído de seu quarto, mas não agüentava ficar trancada nele por todas essas horas, precisava sair um pouco e respirar um ar diferente. Apenas queria caminhar um pouco e não se preocupava em encontrar seu avô, que provavelmente lhe daria uma bronca por estar fora do quarto e também era bem provável que não o encontraria já que ele estava trabalhava em uma de suas experiências, uma que ele dizia que podia curá-la de sua doença.
Uma doença nos ossos que a privava de muita coisa e era o que a obrigava a ficar no quarto o dia inteiro. Morava naquela estação espacial desde que tinha memória, seu avô lhe falava que havia lhe levado para lá, desde então não tinha contato com ninguém alem de cientistas e mais cientistas que nem mesmo falavam direito com ela alem de fazer perguntas sobre sua saúde. Suspirou um pouco tristonha. Seria muito pedir alguém para conversar? Alguém para passar o tempo?
Parou na frente de uma das enormes janelas que tinha nos corredores do lugar e mirou o enorme universo do lado de fora. Sempre gostava de fazer isso e ficar apenas olhando para a imensidão do lado de fora, principalmente o planeta que tinha a vários quilômetros de distancia de onde estava. Seu avô dizia que era o planeta que vieram, onde estava a casa de cada um ali, mas nunca a viu. Talvez apenas por fotos ou algo do tipo, mas nunca vira pessoalmente. Seu maior desejo era esse, ver como era as maravilhosas belezas daquele planeta.
De repente um alarme tocou e em poucos instantes depois ouviu gritos e mais gritos. Rapidamente correu para trás de uma das barras de metal que tinha nos corredores e se escondeu entre as enormes saliências que tinha no lugar. Primeiro viu um vulto negro, bem pequeno passando pelo corredor e se escondendo em outra das saliências, logo depois passaram os cientistas, com seus jalecos brancos e as calças pretas. Não sabia o que estava acontecendo, mas parecia ser por culpa do pequeno vulto negro.
Quando viu que tudo tinha se acalmado saiu de seu esconderijo e lentamente se aproximou de onde aquele vulto negro tinha se escondido. Estava curiosa, queria saber o que era aquilo que causara tanta confusão. Se surpreendeu ao ver um pequeno ouriço negro com pequenas raias vermelhas em seus espinhos e os olhos tão vermelhos quanto. Ele não devia ter mais que alguns centímetros e estava encolhido no canto escuro entre aquelas saliências. Parecia estar com medo, tremia como nunca, mas diferente dos animais que conhecia aquele tinha uma aparência humanóide.
— Vem cá pequeno. – chamou levando a mão até ele, mas não conseguia alcançá-lo já que o lugar era muito estreito. O pequeno a mirou, com os olhos cheios de medo e pavor enquanto ela lhe sorria e continuava com a mão estendida. – Quero te ajudar, não vou te entregar para eles, eu prometo. – o ouriço pareceu duvidar, e ela pode ver um lampejo de inteligência nos olhos daquele pequeno. Ele engatinhou até sua direção, parecendo mais um bebê do que um ouriço. – Isso. Agora vou cuidar de você.
Carregou com cuidado o pequeno o tirando do lugar onde estava e o abraçando com delicadeza, o ajeitando em seus braços enquanto se levantava. Era tão pequeno... Parecia ser tão frágil também, principalmente se alinhando em seu corpo daquela maneira e a mirando com aqueles olhos vermelhos cheios de inocência e curiosidade. Sorriu-lhe com carinho e acariciou sua cabeça observando como ele fechava os olhos prazerosamente e sorria ligeiramente. Com certeza aquele não era um animal normal, não era um ouriço comum, mas era tão fofo, tão lindo que sua vontade era de continuar apenas assim, carregando-o com cuidado como se fosse um pequeno bebê.
— Maria! – se assustou, seu nome fora pronunciado com tanta força e estava tão distraída que quase no mesmo instante seu coração foi a mil e o pequeno instante o pequeno em seus braços se inquietou, abrindo os olhos e olhando e maneira confusa para ela enquanto se movia nos braços dela procurando mais daquele carinho que antes ela lhe brindava. – O que esta fazendo fora de seu quarto?! Sabe que tem que ficar descansando!
— Eu sei vovô! Mas é que não consigo ficar lá, é entediante! – exclamou em uma voz melosa se virando para encarar seu avô. Se esquecera por alguns instantes o pequeno que tinha em seus braços não percebendo que ele se sentia indignado por ter sido deixado de lado. Queria aquele carinho, queria a atenção daquela garota. – Eu só queria dar um volta, ainda posso andar.
— Seus ossos são frágeis Maria, qualquer pequeno dano neles pode ser... – antes que ele pudesse continuar percebeu algo nos braços de sua neta, voltando seus olhos tampados pelos pequenos óculos redondos para lá. E qual não foi sua surpresa ao ver sua recente experiência deitado comodamente nos braços da garota loira? Ai que sentiu que sofreria um derrame! Nem sabia o que aquele pequeno era capaz de fazer, tinha escapado em uma velocidade tão exagerada que quando percebera ele já tinha ido embora. – Maria! O que faz com ele na mão?!
A garota voltou seu olhar para seus braços encontrando o pequeno ouriço que mirava ligeiramente amedrontado seu avô. Não compreendeu porque todo esse escândalo de seu avô, não entendeu o que tinha de mais naquela pequena criatura e por esse mesmo motivo ficara calada apenas vendo como seu avô se aproximava e segurava o pequeno corpinho do ouriço. O pequeno ficou com os olhos marejados, completamente assustados ao ver que estava sendo tirado daquele conforto que recebera nos braços daquela garota. Desesperado usou suas mãozinhas para segurar o colete azulado que ela tinha sobre o vestido, se agarrando bem a ele para não se afastar.
— Mas que diabos! – exclamou seu avô desconcertado. Maria encarou aquilo igualmente surpresa, o pequeno não a largava, por mais que seu avô tentasse puxá-la o ouriço apenas segurava com mais força seu colete escondendo o pequeno rostinho em seu peito. Delicadamente, como um impulso inesperado, passou os braços novamente pelo pequeno enquanto seu avô se afastava, extremamente confuso. Pouco a pouco o pequeno ia se acalmando, descobrindo que estava novamente naqueles confortáveis braços da garota. – Características humanas... Inacreditável!
— Posso ficar com ele vovô? Prometo que vou cuidar bem dele! – pediu com os olhos azuis brilhando e um enorme sorriso no rosto. Doutor Robotnick pensou um pouco, não haveria problemas naquilo, talvez fosse bom para explorar essas emoções humanas que seu pequeno experimento estava tendo mesmo sendo ainda muito novo e talvez isso também fosse bom para Maria, que era a única criança da estação espacial. Tudo o que tinha que se preocupar era nos testes que teria que fazer com aquela criatura e muitas vezes Maria não poderia estar perto. Mas depois pensaria em como separar os dois. Assentiu com a cabeça e Maria saltou de alegria erguendo o pequeno até ficar cara a cara com ele. – Ouviu? Agora eu vou cuidar de você.
— Seu nome é Shadow, Maria. E é melhor cuidar muito bem dele, é muito importante para todos aqui. – a garota assentiu animada e voltou a carregar o pequeno ouriço como se o mesmo se tratasse de um bebê. Ela caminhou para longe voltando para seu quarto com um enorme sorriso no rosto e o pequeno não era diferente. Possuía uma face de satisfação, feliz por ter ficado com aquela garota cuidadosa ao invés daqueles homens de jaleco estranhos e de aparência assustadora.
O doutor Robotnick apenas observou atentamente, sem poder evitar que um pequeno sorriso aparecesse por debaixo de seu enorme bigode branco.
-*-*-*-*-*-
Meses haviam se passado desde que o pequeno fora criado e agora de pequeno não tinha nada. Crescera, tão rápido que, antes batia na metade da canela de Maria e garota já chegava na metade das coxas da garota. O avô da garota dizia que agora ele deveria estar, equivalente a idade humana, com doze anos, a idade de Maria.
Ela ainda permanecia com a custodia dele, apesar que as vezes o doutor precisava levar ele a seu laboratório para fazer alguns testes. Com toda essa convivência os dois se tornaram amigos e para quase todos os lugares que a garota ia o ouriço a seguia. Ela o ensinara algumas coisas humanas que os cientistas não tinham preocupação em ensinar e isso agradava ao avô da garota, que via nesse intercambio de conhecimentos uma oportunidade para terem uma criatura que compreendesse a humanidade e assim pudesse ajudar. Com os sentimentos humanos ele se entrosaria mais em seu mundo.
Agora no quarto da garota a mesma pulava de um lado para o outro, olhando atrás dos moveis, das portas, dentro dos armários, nos alçapões de jogar roupa suja... Olhava pelo quarto inteiro, zanzando de um lado para o outro com o olhar pensativo e interrogativo, procurando, procurando e procurando. Parou então, finalmente, perto da beirada da cama e como quem não quer nada se ajoelhou no chão e levantou as cobertas que tocavam levemente no chão, tampando a passagem que dava vista para a parte de baixo da cama. Sorriu extensamente ao ver dois olhos vermelhos reluzindo na escuridão debaixo daquele cômodo.
— Te achei. – disse feliz enquanto abria espaço para que o ouriço arrastasse pelo chão até sair de seu esconderijo, ficando ajoelhado na frente da garota. Mas diferente da garota ele não parecia estar feliz, seus olhos vermelhos pareciam perdidos em algum lugar, pensativos, sérios. Sem compreender a garota inclinara a cabeça para o lado, mostrando confusão. – O que houve?
— Apenas pensando. – respondeu, sem mais explicações sobre o assunto. Tentara evitar o olhar da garota, tentara evitar aquele ar de curiosidade que ela tinha e que sempre o fazia contar tudo o que passava por sua cabeça, mas como das outras vezes, não conseguiu e suspirou derrotado. – Ainda não compreendo muito bem isso de amizade. Quando estou aqui você diz que somos amigos, mas quando vou para o laboratório fazer aqueles testes estranhos dizem que eu não preciso saber de coisas como essas, que nunca precisaria.
— Mas é claro que precisa! Todos nós precisamos de um amigo! – exclamou a garota desconcertada. Podia não ser tão esperta quanto os cientistas que habitavam a estação espacial, mas dessas coisas tinha certeza que estava certa. – Eu sou sua amiga, você é meu amigo, e não tem mais o que discutir! Sem amigos, seriamos solitários e não suportaríamos encarar nossos problemas!
— Mesmo eu tendo sido criado pelos humanos? Mesmo eu não passando de uma experiência como qualquer outra? – questionou ele um pouco mais animado. Maria sorriu alegre e assentiu com veemência.
— Mesmo assim! – disse dando mais ênfase a sua resposta. Por um instante um pequeno sorriso apareceu no rosto do ouriço, mas no mesmo instante ele desapareceu e o olhar distraído e pensativo voltara a seu rosto. Maria novamente o mirara confuso. – Outro problema?
— O que é ser amigo? Como se faz para ser um? – perguntou voltando a encarar a garota e a mesma parou para pensar, tentando achar as palavras certas para explicar ao ouriço de uma maneira que ele compreendesse bem, sem nenhuma ambigüidade.
— Bom... É algo difícil de explicar. – comentou. Nunca tinha explicado isso para alguém, tudo o que sabia era agir por instinto e tudo saía certo. Não era preciso pensar em explicar isso para alguém, a pessoa de certa forma já sabia. – Ser amigo é ser um companheiro leal da pessoa, alguém que ela pode contar o tempo todo, que esta sempre lá para ajudar mesmo nos momentos mais difíceis. Por exemplo quando você me ajuda a fazer minhas tarefas e eu te ajuda a aprender sobre as coisas. Ser amigo é basicamente isso.
— Ah! – exclamou o ouriço compreendendo o que a garota quis dizer. Então tinha uma amiga, isso o tornava mais humano, não é? De repente Maria tossiu, uma tosse molhada e longa. Sua saúde era instável, qualquer coisa como um espirro ou tosse podia significar alguma doença que causaria maiores problemas depois. Preocupado se preparou para levantar e procurar ajuda, mas Maria ergueu a mão e respirou fundo, parando de tossir por alguns instantes.
— Estou bem. – disse com a voz engasgada não convencendo muito o ouriço que a encarou atentamente esperando algo acontecer para ir chamar rapidamente ajuda. A garota tossiu mais algumas vezes e então parou, respirou fundo fechando os olhos levemente e então os abrindo, sorrindo para seu companheiro. – Só preciso de um pouco de água.
— Eu pego. – replicou rapidamente quando viu ela se preparar para levantar. Levantou-se e carregou a garota com facilidade a deitando na cama bem ao lado. Algumas vezes Maria se esquecia que o ouriço tinha capacidades surpreendente, como essa força e corou fortemente o se ver nos braços de seu amigo, estando tão próxima dele e sendo colocada na cama. Sorriu para disfarçar o constrangimento. – Você vai descansar.
- Obrigada. – disse lhe dando um leve beijo na bochecha. Não soube porque fez isso, apenas fez. O ouriço corou de leve, o rosto quente e o coração a mil. Era outra coisa das quais não entendia, e pretendia perguntar a alguém depois, porque algo lhe impedia de fazer essa pergunta a Maria. Rapidamente saiu do quarto e deixou a garota descansando.
Quando voltara ela já tinha adormecido e tudo o que fez foi deixar o copo no criado-mudo do lado da cama e sentar em uma cadeira, ficando apenas ali, a observando.
-*-*-*-*-*-*-*-
O tempo continuou passando e outros meses se juntaram a contagem. Shadow agora estava na faixa dos dezesseis anos e atingia a cintura de sua amiga. Como em um ser humano normal algumas coisas mudaram nele, seus poderes aumentaram junto com sua capacidade de controlá-los, sua personalidade agora era mais séria e calculista e seu conhecimento sobre os costumes humanos, seus sentimentos e conceitos também teve um incrível aumento.
Sua amizade com Maria permanecia a mesma talvez ainda mais forte e com a saúde da garota caindo a cada dia ele se tornara mais cuidadoso com reação a ela. Quando iam a algum lugar na nave a carregava, quando ela precisava de alguma coisa ele ia pegar, sempre estava lá cuidando dela não deixando que fizesse o menor esforço. Com relação a seus testes eles pareciam cada vez melhores e o Doutor Robotnick estava cada vez mais feliz com isso. Logo poderia curar Maria.
No momento se encontrava olhando por uma das várias enormes janelas que tinham espalhadas pelos corredores da enorme estação espacial que fora criado. Seus olhos vermelhos encaravam o planeta bem a frente, azul, com manchas brancas e verdes. Seus braços cruzados e o rosto completamente sério. Estava distraídos em seus pensamentos e não percebera quando leves passos começaram a ecoar perto de si.
— O que faz aqui Shadow? – perguntou a voz doce de Maria fazendo o ouriço virar a cabeça para encará-la. Por um instante sua expressão séria ficou mais relaxada e então seus olhos voltaram para a imagem que tinha através do vidro. Maria se sentara a seu lado e olhara para a mesma imagem que ele, agora sabendo o que ele fazia ali. – É lindo não? A Terra parece ser um lugar tão bom...
— Terra... – sussurrou, chamando a atenção da garota. Mesmo com o nome... Mesmo apenas pronunciando sentia que era lá o lugar que deveria estar. – Maria, estão quase terminando os testes, logo vão saber tudo o que precisam de mim e iremos a Terra. Sinto que minha missão está lá Maria, sinto que lá posso saber do que realmente sou capaz.
— Tenho certeza que sim Shadow. – falou sorrindo e segurando delicadamente a mão do ouriço que caíra para os lados do corpo. Ele a mirou e um pequeno sorriso surgiu em seu rosto.
— E você vai vir comigo Maria, iremos juntos conhecer a Terra. Cada cantinho dele. – afirmou apertando cuidadosamente a mão da garota que voltou a sorrir. Ambos olharam para a janela, ainda de mãos dadas, imaginando qual seria o futuro que os aguardava.
-*-*-*-*-*-*-*-*-
Caminhava lentamente pelos corredores da estação espacial ARK, não tinha nada de especial a fazer, os testes tinham terminado a pouco e enquanto o doutor analisava os resultados poderia ter um momento de descanso. Maria não estava com ele, talvez estivesse descansando no momento ou estando no laboratório junto com seu avô, e apesar de ter uma enorme vontade de ir até ela sabia que ela também precisava de seu espaço e por isso tentava pensar em outra coisa enquanto caminhava tranquilamente.
Pensara que nada de mais aconteceria naquele dia, pensara que ficaria caminhando pelos corredores da estação espacial até voltar para o quarto de Maria e ficar lá apenas a observando. Passara a fazer isso todas as vezes que ela dormia, se sentia tranqüilo apenas a olhando deitada, descansando como se não houvesse preocupações. Claro que seu planejamento teria acertado em cheio se aquilo não tivesse passado.
Maria chegara correndo, olhando para trás como se conferisse se alguém a estava seguindo. Seu rosto estava completamente assustado, os olhos azuis abertos e aterrorizados, a respiração já agitada pelo tempo que estava correndo e o corpo ligeiramente tremulo. Ela se aproximou e parou a sua frente, segurando-lhe a mão com força ainda dando leves olhadas para trás.
— Maria o que faz correndo?! Sabe que não pode ficar fazendo esse tipo de esforço! – exclamou preocupado, retornando o aperto a mão da garota, sentindo o quão pequenas eram comparadas as suas. A encarou atentamente vendo como procurava fôlego para falar.
— Uns homens invadiram a estação. – falou ainda afobada encarando o caminho a qual tinha vindo. Sentia sua saúde ainda mais frágil, mas não seria pior se tivesse sido pega. – Eles prenderam os cientistas e meu avô e logo virão para cá. Por favor, Shadow. Nos ajude!
— Pode deixar Maria, vou fazer tudo o que puder. – garantiu apesar de não saber bem se poderia cumprir aquilo. Homens então apareceram com armas nas mãos e gritando para eles. Preocupado e assustado, puxou Maria para longe, ambos agora correndo pelos corredores da estação espacial onde moravam procurando fugir daqueles homens tão estranhos. A cada passo Shadow sentia a agonia tomar conta de seu corpo e apertava com mais força a delicada mão da garota que puxava. Viu então uma porta aberta mais a frente e sem perder tempo se meteu lá dentro junto de Maria, fechando a porta e a trancando. Por sorte era a salas de capsulas e assim poderiam sair de lá. – Venha Maria, te colocarei nessas capsulas e sairemos daqui.
Mas a garota estava assustada com os golpes que davam na porta, sabendo que a mesma não agüentaria por muito tempo toda aquela insistência. Aproveitou que Shadow estava perto de uma das capsulas e o empurrou para dentro da mesma fechando a porta no mesmo instante. Fora para os painéis de controle, marcando o ponto que ele iria cair. Não pensava direito, tudo o que queria era tirá-lo de lá, deixá-lo vivo.
— Maria o que esta fazendo?! – gritou o ouriço esmurrando o vidro da capsula onde estava, tentando escapar para ficar com a garota. As batidas na porta aumentavam e sabia que se aqueles homens chegassem fariam mal a Maria, a sua Maria. Chutou o vidro, mas o mesmo não quebrava, não queria ceder! – Maria!
— Tenho que te tirar daqui! – exclamou ela de volta a garota já tendo tudo preparado, tudo o que faltava era puxar a alavanca que tinha ali e finalmente Shadow estaria a salvo. Mas então a porta se abriu, o mecanismo que a fechava fora destruído e os homens entraram apontando as armas em sua direção. Olhou para eles assustada, sem poder fazer mais nenhum movimento.
— Solte a alavanca garota. – pediu um dos homens em um tom de ordem. Maria duvidou por um instante, chegou a soltar de leve a alavanca. Mas então seu coração bateu com força e a determinação voltou a seu corpo, suas mãos se apertaram de novo na alavanca e franziu o cenho. – Faça o que estou mandando garota, se não atiro!
— Não! – exclamou o ouriço desesperado, mas já era tarde. A garota puxou a alavanca e um dos homens atirou, acertando o frágil corpo da garota que caiu no chão sangrando. A dor subiu por seu corpo, como se tivesse sido ele a levar um tiro, seus olhos se encheram de lagrimas e suas mãos se espalmaram no vidro, imponentes. – Maria!
— Shadow, quero que me prometa que vai ir a Terra. – pediu a garota com um fio de voz, fazendo um esforço enorme para pronunciar as palavras que queria. Um sorriso fraco se concentrava em seu rosto enquanto encarava o ouriço. Ergueu uma mão e levou na direção dele. – Me promete que será amigo dos humanos e os ajudará quando precisarem. Prometa-me que irá mostrar que não é mal e que pode ser útil para todos.
A capsula então se lançou ao espaço, entrando na atmosfera terrestre enquanto um estado de animação suspensa tomava o ouriço. Enquanto seus olhos se fechavam lágrimas escorriam por eles, as lágrimas da perda. Lágrimas da falta da única pessoa que considerava sua amiga, da única que o fizera sorrir, que o fizera sentir. Que cuidara dele desde que era pequeno, que estava com ele nas horas alegres e tristes. Sua amada Maria que agora havia deixado esse mundo...
-*-*-*-*-*-*-*-*-
Abriu os olhos, vendo aquela tão bela imagem das arvores a sua volta. De nada mais isso valia, de nada mais valia ver a beleza que via se o ser mais belo já não estava mais a seu lado. Já tinha se passado anos que o incidente na ARK tinha ocorrido, já tinha se encontrado com Sonic e seu grupo, já tinha salvado a Terra e seus habitantes, já tinha também ajudado o grupo de amigos a derrotar os alienígenas robôs em sua própria dimensão. E agora sem mais nenhum movimento, sem mais nenhuma aventura se via novamente preso ao passado, sofrendo a cada dia por não ter quem queria a seu lado.
Suspirou tristonho e voltou a caminha pela vasta floresta que tinha naquele planeta tão parecido com a Terra. Estava sozinho, não via motivos para permanecer com o grupo de Sonic, queria apenas sofrer sozinho, um sofrimento que durava anos e mais anos e continuaria a durar. Já tinha sofrido amnésia, a esquecera e a voltava a recordar, mas o sofrimento nunca diminuía, ele sempre estava ali, sempre do mesmo tamanho ou ainda maior. Não conseguia pensar em nada que pudesse tirá-lo de seu peito.
Logo um chorinho infantil fora ouvido e seus olhos percorreram o terreno da floresta a sua volta. Com passos lentos e hesitantes se aproximou de uma parte que supunha que vinha esse chorinho e o mesmo parecia apenas aumentou. Chegou um ponto que vira, entre as sombras das árvores, um pequeno vulto que se mexia freneticamente. Aproximou-se curioso e levou um susto ao ver um pequeno bebê, uma pequena ouriça loira que chorava descontroladamente totalmente descoberta. Quem poderia ter deixado uma criaturinha como aquela ao relento de uma maneira tão cruel? Quem poderia ter essa coragem?
Olhou para os lados, procurando alguém que pudesse pelo menos lhe ajudar, mas estava no meio da floresta e ninguém se encontrava por perto. Ainda relutante se aproximou da pequena e passou os braços ao seu redor carregando-a com cuidado. A bebê, que chorava freneticamente quando a encontrara, parou de repente e voltou seus olhos para encará-lo, completamente azuis como um céu límpido. Um sorriso surgiu no rosto da pequena que segurou com suas mãozinhas os pelos brancos que tinha no peito, se encolhendo mais entre seus braços.
— Acho melhor procurar alguém para cuidar de você. – falou em voz alto e logo desapareceu floresta a dentro se aproximando de onde o grupo do ouriço azul vivia. Não demorou a chegar e até lá a pequena já tinha adormecido em seus braços. Caminhou tranquilamente pela região cheia de pequenas casas até finalmente avistar quem queria. – Ei! Garotas. – chamou e a coelhinha e ouriça rosa voltaram a vê-lo, confusas e surpresas. – Achei algo que pode ser do interesse de vocês.
Mostrou a pequena que tinha em braços e não demorou muito para que as garotas o puxassem para a casa da coelhinha e entregassem a pequena para a mão de Cream, que não demorou muito para levar a pequena a outro quarto para colocar algo nela. Poucos instantes depois o ouriço azul e a raposa de duas caudas apareceram e se viu rodeado de perguntas. Onde havia encontrado a pequena, se sabia quem eram os pais, o que pretendia fazer com ela, entre vários outras coisas.
Foi então que ouviram um estridente choro e Valnilia chegou completamente afobada tentando acalmar a pequena que não parava de chorar. Ela passou para Amy, mas nada adiantou e então passou para Cream, e novamente nada acontecera e então passaram a pequena para o ouriço negro e então aconteceu. A pequena parou de chorar e o encarou atentamente para logo começar a rir alegremente e mover os bracinhos para cima tentando alcançar-lhe o rosto.
— Parece que ela gosta de você Shadow. – comentou Sonic olhando como a pequena parecia bem feliz nos braços do ouriço que estava tão surpreso quanto qualquer um ali. – O que pensa em fazer?
— Ficar com ela. – nem sabia da onde tinha tirado aquela frase, só a tinha dito e um pequeno sorriso surgiu em seu rosto, levando uma mão até o rosto da pequena e o cariciando com cuidado. – Se é assim que ela parece preferir não posso fazer nada. Cuidarei dela do jeito que conseguir.
— E como vai chamá-la? – perguntou Amy encarando o ouriço com algo de surpresa, nunca pensando vê-lo dessa maneira. Shadow sorriu mais uma vez.
— Maria.
-*-*-*-*-*-*-*-*-*-*-
O tempo se passou e acabaram se fixando em uma das casas que tinha junto ao grupo do ouriço azul. A pequena crescia e começava a se considerar bom em cuidar de crianças. Não via problema algum em cuidar da garota e ela lhe trouxe algo em troca, a amizade que havia perdido anos atrás, o mesmo sentimento que pensara estar perdido, o sumiço de seu sofrimento. Ela era animada, mas ao mesmo tempo calma e carinhosa, ficava ao lado dele sem o estressar ou dar algum problema e ele reservava um pouco de seu tempo para brincar com ela.
No momento dormia tranquilamente em sua cama, tendo os braços envolta do pequeno corpo da ouriça que parecia ter já uns oito ou sete anos de idade. Não era raro que dormissem juntos, quase todas as noites a pequena tinha o mesmo pesadelo indo até o quarto dele e pedindo para dormir com ele, de uma maneira tão doce e calma que ele não podia negar e ela se acomodava a seu lado, se ajeitando entre seus braços e o obrigando a abraçá-la com carinho. Ela era um doce, completamente o oposto dele, mas mesmo assim viviam em plena felicidade.
— Shadow... Shadow... – ouvira lhe chamando, mas não queria abrir os olhos. A voz doce e delicada lhe era familiar e podia sentir as mãozinhas tocando-lhe o rosto procurando despertá-lo. Para ele aquilo eram como caricias leves e por algum motivo viu a imagem de sua amiga humana passou por sua mente. Um pequeno sorriso surgiu em seu rosto até novamente sentir a mãozinha em seu rosto. – Shadow... Acorda... Shadow...
— To acordado Maria. – disse de maneira sonolenta se sentando na cama e vendo a pequena ajoelhada a seu lado, já vestida com o delicado vestido azul que a mãe de Cream havia feito para ela. Não compreendeu porque ela já estava toda pronta para sair. – E por que esta toda arrumada?
— Vou para o campo de flores com Cream, só queria te avisar antes. – respondeu a pequena sorrindo para ele. Retribuiu o sorriso e passou a mão na cabeça dela, bagunçando os cabelos loiros que chegavam a um pouco abaixo do ombro. Rapidamente ela pulou da cama e correu para fora.
O dia passou normal, não havia nada muito incrível acontecendo fazia anos, as aventuras tinham se resumido em tentar impedir Eggman, que como já estava ficando velho, diminuía suas tentativas de conquistas. Mais para o final da tarde a pequena voltou para casa, levada por Cream e Amy até a casa que ela dividia com o ouriço negro. Entrara animada, com um enorme sorriso no rosto e segurando alguma coisa nas mãos. Shadow se encontrava descansando no sofá os olhos fechados e o rosto tranqüilo, com um tornozelo pousado sobre o joelho.
— Shadow! – chamou ficando frente a frente com ele, praticamente saltando no colo do ouriço. O mesmo abriu tranquilamente os olhos e a encarou despreocupado e com um sorrisinho no rosto. – Fiz isso para você!
Sorriu e colocou a delicada coroa de flores na cabeça. Cuidadosamente puxou a pequena mais para perto e lhe deu um cuidadoso beijo na testa, fazendo a pequena sorrir ainda méis e fechar os olhos com força enquanto seu delicado rostinho corava. Assim ficaram, como todos os dias que a união deles apenas se fortalecia.
-*-*-*-*-*-*-*-*-*-
E o tempo continuou a passar e agora a pequena já não era mais uma pequena. Era de todo uma mulher, formada e delicada, e isso começava a incomodar o ouriço negro. Depois de tanto tempo cuidado da garota agora que ela estava maior não a via mais como uma criança a qual cuidar. Era estranho, mas talvez depois de tanto tempo juntos e a garota nunca o chamando de “pai” ou algo que envolvesse família não a via como sua família. A via como uma amiga, como se fosse sua companheira e agora toda vez que ela se aproximava seu coração saltava, suas pernas bambeavam e não sabia o que dizer ou pensar. Estava confuso, mas não tinha coragem de contar isso a ninguém.
Agora, deitado em sua cama tentando dormir tentava não pensar nessas suas reações, tentava apenas esquecer e adormecer. Mas então alguém bateu na porta e, meio sonolento, disse um “entre”. A porta se abriu timidamente e dela aparecera a garota dona de seus pensamentos, usando apenas uma leve camisola azul clara. Novamente tivera aquele pesadelo, aquele a qual corria por uma estranha estação espacial, Shadow estava a sua frente a puxando e atrás deles estavam homens armados. Sempre terminava com aquela insuportável dor e o sentimento da vida se esvaindo de seu corpo. Tinha medo e o único conforto que sentia era estando perto do ouriço negro.
Era inocente de mais para perceber que estava mais velha e que deitar com o ouriço não era algo aconselhável por ninguém. Rapidamente deslizou pelo quarto e se acomodou debaixo das cobertas do garoto se aproximando dele e se acomodando em seu peito procurando conforto. Por reflexo ele passara os braços sobre ela e assim ficaram, mas nenhum dos dois dormiu.
A garota encarava o corpo de seu companheiro no escuro, sentindo seu rosto esquentar e suas mãos formigarem. Sem pensar levou as mãos até o peito do garoto e acariciou com cuidado aquela parte branca macia que ele tinha ali, então subiu um pouco mais, tocando-lhe o pescoço e então o rosto. Sua cabeça acompanhava o movimento de sua mão, procurando ver a onde tocava, enquanto o garoto permanecia de olhos fechados deixando que ela fizesse o que bem entendesse, apreciando o momento.
Ela tocou seu rosto, delineou com o dedo todos os cantos que lá tinha. Tocou seu nariz, seus olhos, sua testa, suas bochechas e então os lábios. Quando ela passou o dedo ali ambos sentiram um calafrio percorrer o corpo. Como em um impulso a garota esticou seu corpo para cima, encarando sempre aquela região, passando a sentir a respiração dele em seu rosto e ele a dela. Ansioso ele teve até vontade de abrir os olhos, mas se segurou e se manteve assim, até finalmente sentir os lábios dela tocando os seus, em um leve roce.
Perdeu o controle no mesmo instante que sentiu aquele tão peculiar contato e desesperado pressionou mais seu rosto para perto do dela, obrigando a ambos abrirem a boca e deixarem que o beijo se aprofundasse até que os pulmões exigissem ar e fossem obrigados a se separar.
— Isso é errado? – questionou a garota, o obrigando a abrir os olhos e a encarar. Essa questão também lhe batia a mente, lhe incomodava e lhe torturava, mas no momento não via nada de errado, não via o que pudesse impedir a ambos de ficar assim. – Ficarmos juntos dessa maneira é errado?
— Não. Não somos parentes, não nos consideramos parentes e apesar de eu ter te criado não tem nada que nos impeça de permanecer assim. – respondeu e logo lhe sorriu. Assim ficaram a noite inteira, deitados juntos aproveitando o que podiam. Mesmo no dia seguinte não se moveram, como se aquela necessidade viesse de antes, muito antes...
Notas finais
Bjss!
Fale com o autor