Love Like Winter
9 Primeira Lua cheia
Notas iniciais

Capítulo 9 — Primeira Lua cheia
“Calm down. come now, cold resides with me.
I flee to, I flee to december underground.”
Dois dias se passaram na preparação. Ayumi limpou e purificou os itens com ervas e fumaça de incenso, invocando antigos espíritos protetores em sussurros celtas. Durante o dia, estudavam os símbolos e as conexões entre os objetos; à noite, os sonhos de Uruha tornavam-se mais intensos, como se os antigos deuses e demônios da montanha sussurrassem em sua alma.
Com a pressão crescente da maldição e a necessidade urgente de quebrá-la para evitar a fatalidade iminente, Reita e Uruha decidiram realizar o ritual de libertação. A avó Ayumi, ciente da gravidade da situação, ofereceu seu apoio e conhecimento para orientá-los no processo.
E então chegou a noite da lua cheia.
Com os itens necessários em mãos, dirigimo-nos à floresta em busca do local ideal para realizar o ritual. Conscientes da importância de encontrar um lugar onde a energia sobrenatural estivesse concentrada, procuramos por um ponto que transmitisse uma sensação de sacralidade e poder.
Após uma cuidadosa exploração, encontramos uma clareira na floresta onde os raios de sol pareciam dançar entre as árvores, iluminando um pequeno lago cercado por pedras cobertas de musgo. Era um lugar de beleza natural e uma sensação palpável de tranquilidade e mistério.
Ao chegarem ao ponto de encontro combinado, o grupo se dispersou rapidamente, cada um assumindo seu papel nos preparativos que viriam. Aoi começou a examinar os objetos com cuidado, estudando cada detalhe para entender como poderiam ser usados no ritual. Reita e Kai se encarregaram de montar o espaço sagrado, criando barreiras protetoras e recitando antigas invocações aprendidas com a vó Ayumi. Ruki, por sua vez, ficou responsável por reunir informações adicionais, buscando registros e documentos que pudessem lançar luz sobre a origem da maldição.
Uruha, sentada em silêncio, meditava, conectando-se com as energias do youkai da neve que habitava nela. Sabia que precisaria de toda a força e sabedoria daquela entidade para enfrentar o que estava por vir. O ritual não seria apenas uma cerimônia; seria uma batalha espiritual, um confronto direto com forças que ultrapassavam a compreensão humana.
Naquela noite, enquanto as estrelas brilhavam no céu, o grupo se preparava para o que poderia ser o momento decisivo de suas vidas. O peso da responsabilidade era grande, mas também era a esperança que os guiava. Esperança de libertar o templo, de quebrar a maldição e de trazer paz para aqueles que haviam sofrido por tanto tempo.
Assim, com o coração cheio de coragem e a mente focada no objetivo, Uruha e seus companheiros lançaram-se na jornada final, prontos para enfrentar os mistérios e perigos que os aguardavam nas sombras do passado.
O ritual foi montado próximo à ponte do lago congelado, onde se dizia que o véu entre os mundos era mais fino. A neve cintilava sob a luz da lua, e pequenas chamas azuis dançavam ao redor do círculo formado por pedras e sal.
O vento cortava como lâminas, assobiando entre as árvores cobertas de neve. A ponte de madeira rangia sob o peso da velha Ayumi, que conduzia o grupo com passos firmes, mesmo apoiada em sua bengala entalhada com símbolos antigos.
Ayumi traçou runas no chão com um galho de pinheiro e invocou o nome de Uruha em seu idioma ancestral.
— Espíritos da floresta, velhos deuses do vento e da montanha... tragam equilíbrio ao que foi rompido. Devolvam o tempo à filha da neve. Liberem a alma daquilo que foi condenado a vagar.
Uruha se ajoelhou diante dos objetos: a chaleira, a máscara e a katana, dispostos em círculo sobre pano branco; trajava outra vez o kimono branco e vermelho. Reita ficou logo atrás dela, como uma sombra protetora. Seus olhos estavam fechados, as mãos estendidas, e um sopro gelado começou a girar em torno dela como um redemoinho.
Por um instante, tudo parecia funcionar. A chaleira emitiu um leve brilho, e a máscara tremeu levemente sobre o tecido.
Ayumi começou o cântico em uma língua esquecida, de raízes celtas misturadas com entonações japonesas. Seus braços se erguiam, invocando os espíritos da floresta, dos rios e da neve ancestral que selara Uruha no tempo.
As nuvens se abriram, revelando a lua cheia. A luz prateada caiu como uma bênção sobre a ponte, e os objetos começaram a vibrar, reagindo ao cântico. Uruha sentiu uma dor aguda no peito — como se algo tentasse arrancar a escuridão de dentro dela.
— Reita... — ela murmurou, arquejando.
— Estou aqui. — Ele respondeu, dando um passo à frente, instintivamente tentando segurá-la.
A aura ao redor de Uruha tornou-se instável. Em vez do azul prateado suave, um brilho branco-azulado intenso começou a se concentrar em seu peito, e uma rajada de vento violenta estalou entre os galhos próximos. Ayumi recuou dois passos, franzindo o cenho.
— Algo está errado... — ela murmurou.
Uruha tremia, a respiração entrecortada.
— Eu... não consigo controlar... — ela sussurrou, os olhos agora tomados por uma luz branca ofuscante.
Reita se aproximou, ignorando o frio que cortava sua pele.
— Uruha! Está tudo bem! Sou eu! — gritou, tentando alcançá-la.
Quando os dedos de Reita tocaram o ombro dela, a energia se inverteu. Em vez de se libertar, Uruha sugou. Como uma represa rompida, a fome dela, o vazio congelado que existia desde o início da maldição, tomou forma.
Garras de gelo surgiram do chão ao redor dela, envolvendo Reita e drenando sua energia vital.
— Uruha... pare... — ele murmurou, o vapor saindo de sua boca como se fosse seu último sopro de vida.
Reita caiu de joelhos, ofegante, olhos arregalados, enquanto sentia o calor de seu corpo ser drenado num impulso terrível. A conexão entre eles — que antes era como um fio tênue de luz — agora parecia uma corrente que o arrastava para um abismo gelado.
— Reita... não... — Uruha sussurrou em horror. — Eu estou te drenando... eu... não posso parar...
Kai correu e puxou Reita pelos ombros, afastando-o com esforço. Ruki estendeu o braço, e Aoi segurou Uruha pelos ombros, tentando trazê-la de volta à consciência.
— Chega! — gritou Ayumi, jogando um punhado de sal sobre diretamente os símbolos desenhados no chão. — Fáilte ar ais! — Ordenando que os espíritos recuassem.
Um clarão explodiu no círculo, dissipando a energia como uma tempestade que se recolhe ao final de um trovão. Uruha desabou nos braços de Aoi, ofegante, os olhos finalmente voltando ao normal. Reita estava pálido, mas vivo, deitado no colo de Kai.
O silêncio caiu por um momento; apenas o som do vento e da respiração entrecortada deles preenchia o ar.
Ayumi se aproximou, observando os objetos sagrados, que estavam quietos, inertes. O ritual havia falhado.
— Ainda não é o momento. Falta algo... — Ayumi falou, a voz baixa, mas firme.
— O que falta...? — Uruha murmurou, chorando em lágrimas, encurvada e abraçando o próprio corpo. — Eu quase... o matei... — ela soluçou, encarando as mãos como se fossem malditas.
A avó fitou a lua cheia no céu e depois olhou para o leste.
— O quinto elo... o coração ancestral. Algo que pertence à nossa linhagem: um vínculo espiritual que ainda não foi restaurado.
Ayumi franziu o cenho, como se algo há muito esquecido retornasse à mente.
— Um colar... um antigo amuleto... Eu achava que estava perdido. Mas talvez... ele ainda está aqui.
Ela então olhou para a cabana, como se alguma lembrança adormecida tivesse sido despertada.
— No sótão... eu preciso procurar algo. Algo que perdi há muitos anos. Um colar que era da minha avó... e possivelmente da avó dela antes disso.
Ela olhou para o céu, onde a lua cheia brilhava indiferente.
— Não tentaremos de novo até encontrá-lo. Vocês dois... — ela se virou para Uruha e o corpo desfalecido de Reita — precisam resistir à tentação outro contato agora, pois ele não acordará mais.
Reita acordou no colo do Kai e tentou sorrir; mesmo fraco, disse algumas palavras de conforto.
— Então, temos tempo. A próxima lua cheia virá... e estaremos prontos.
Uruha o olhou com um misto de alívio e culpa.
— Eu quase te matei...
Reita, com as mãos ainda trêmulas apoiadas no chão para tentar sentar-se, reafirmou sua promessa.
— E mesmo assim... eu voltaria para aquele círculo por você.
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A neve ainda cobria o chão da floresta quando Reita e Uruha chegaram ao topo da última colina, de volta à cabana de Ayumi. O ar estava cortante, cada respiração uma nuvem de névoa. Reita carregava os men-yoroi e a katana, cuidadosamente embrulhados em pano; Uruha segurava a chaleira de ferro sob o braço, como se fosse frágil.
— Voltamos antes do amanhecer — murmurou Reita, abrindo a pesada porta de madeira.
Lá dentro, a cabana cheirava a cedro e incenso persistente. Uruha deixou a chaleira descansar sobre a mesa de jantar, os ombros caídos de alívio.
— Obrigada — sussurrou ela. — Não sei o que faria sem você.
Reita apenas assentiu, acendendo uma pequena lanterna.
— Vamos superar isso — prometeu ele, embora a lembrança de sua força vital drenada ainda estivesse viva em suas veias.
A manhã seguinte nasceu silenciosa. Uma névoa espessa erguia-se sobre o lago congelado como um véu entre mundos. Nenhum som de pássaro, nenhum estalo de galho. O frio era absoluto, um frio que penetra não só os ossos, mas também os pensamentos. Enquanto Reita e Uruha dormiam em lados opostos da cabana, separados por medo e respeito, os irmãos Kai e Aoi dormiam no outro quarto. Ruki, naquela noite, acabou dividindo a cama com sua avó; os eventos da noite na floresta o deixaram nervoso e com medo.
Ayumi-san já estava desperta. Seus olhos, apesar da idade, estavam límpidos e atentos. Carregavam nas pupilas a gravidade dos que aprenderam a escutar mais do que falar.
Caminhava devagar, com um xale de lã grossa envolvendo os ombros. Os cabelos presos num coque baixo, fios brancos escapando como neblina ao redor do rosto. Seus passos eram leves, mas firmes; havia algo no ar que a chamava, e ela sabia reconhecer esse chamado. Não era urgência. Era uma presença. Sutil, mas inegável.
Ela subiu as escadas estreitas que levavam ao sótão, lanterna em punho, os olhos atentos ao espaço empoeirado, raramente visitado. O madeiramento antigo rangia sob seus pés, como se reclamasse daquela invasão e dormisse há tempo demais. O cheiro ali era diferente do resto da cabana: uma mistura de livros mofados, velas esquecidas e resina seca, algo entre o espiritual e o esquecido. Um santuário abandonado.
Ayumi-san não, procurava qualquer coisa. Ela buscava os livros antigos, os que sua mãe e avó haviam guardado com tanto zelo, cheios de contos sobre a Yuki-onna, a mulher da neve, e de rituais fragmentados, como se pedaços de um quebra-cabeça esquecido pelo tempo. Algumas dessas histórias haviam sido contadas à beira da lareira, outras sussurradas em noites de tempestade, quando as paredes da cabana pareciam pulsar com o som do vento.
Era chegada a hora de compreendê-los, talvez até de completá-los. O tempo da ignorância ou da prudência havia passado. O que era apenas história tornava-se instrução. A intuição dela não era de medo, mas de necessidade.
Empurrou uma caixa de papelão, depois outra, até encontrar um baú de madeira laqueada, escondido sob uma manta de linho bordada com símbolos espirais desenhos celtas, lembranças da ancestralidade que havia sido misturada e mesclada por gerações de mulheres intuitivas, curandeiras e, em certos momentos, quase feiticeiras. Não havia um nome exato para o que eram. As palavras nunca bastaram.
Abriu o baú com cuidado, as dobradiças rangendo com uma resistência antiga. Dentro, entre cartas desbotadas e um pequeno diário encadernado em couro, encontrou o que procurava e algo mais.
Havia uma caixa menor, de madeira escura polida, com entalhes delicados nas bordas. Quando a abriu, um brilho suave escapou por entre as frestas. Um relicário de prata repousava ali, envolto em um pano de algodão amarelecido pelo tempo. Era ovalado, com desenhos em espiral gravados com precisão quase mágica. Pequenas pedras de quartzo rosado adornavam seu contorno, como olhos adormecidos. A luz que emanava dele não era intensa, mas viva, pulsante, como um coração contido.
Lembrava-se de sua avó usando aquele relicário só em noites de lua nova, quando a lareira era acesa mesmo no verão, e as janelas fechadas com trancas duplas.
Lembrava do cheiro das ervas queimando, da tensão no ar, do silêncio absoluto que se instalava como uma entidade viva. A velha mulher dizia que os espíritos das montanhas se comunicavam com ela por meio de sonhos e que o relicário era a única coisa que a mantinha desperta na realidade.
Na época, Ayumi achava um exagero, uma superstição, um teatro místico para impressionar uma criança. Mas agora...
Com cuidado, levou o amuleto até o peito, sentindo o metal frio pulsar suavemente contra a palma da mão. Era como se o objeto reconhecesse seu toque. Não queimava nem gelava. Vibrava em um tom que ela podia sentir mais do que ouvir. Sabia o que precisava fazer. A intuição não gritava, apenas sussurrava, como se o tempo todo esperasse aquele reencontro. Como se o próprio relicário aguardasse, paciente, este momento.
Desceu lentamente com a caixa nos braços, o olhar firme e sereno. A névoa lá fora ainda engolia o mundo, mas ali dentro a cabana começava a despertar. A luz filtrava-se suavemente pelas frestas das janelas, desenhando linhas pálidas sobre o chão de madeira. Na sala, Uruha preparava chá com movimentos delicados, quase coreografados, como quem repete um gesto herdado de outra vida. A chaleira chiava. O aroma das folhas secas se misturava ao calor do fogão, criando uma pequena bolha de normalidade.
Reita, por sua vez, organizava os pergaminhos na mesa, o cenho franzido em concentração. As mãos tocavam os papéis com reverência, como se receassem acordar algo que ainda dormia entre as linhas caligrafadas. Era estranho vê-lo assim tão calado, tão presente. Havia em seu semblante um cansaço que ia além do físico, mas também uma quieta determinação.
Os outros rapazes já haviam acordado, estavam na cozinha preparando o café da manhã e mantendo uma distância segura da youkai Uruha. Depois do que eles presenciaram na noite anterior, isso os deixou apreensivos e com receio de se aproximar e ser a próxima vítima.
Ayumi os observou por um instante: jovens assustados e determinados. Viu neles os contornos do que ainda seriam e sentiu-se responsável por ajudá-los a atravessar aquela ponte invisível entre ignorância e poder. Então, aproximou-se em silêncio.
— Uruha-san — chamou com a voz que soava como fogo baixo.
Uruha virou-se devagar ao ouvir seu nome. Ayumi-san estava parada à sua frente, segurando algo entre as mãos, como se carregasse uma vela acesa em noite de vento. Seus olhos, que tantas vezes transmitiram uma calma ancestral, ardiam agora com uma urgência serena, como se o tempo estivesse se estreitando ao redor delas.
— Esse amuleto... — disse, com calma —... foi passado de geração em geração na nossa família, mas ninguém nunca soube ao certo seu propósito. Entendo. Ele é seu. E creio que protegerá Reita quando o momento chegar.
Reita ergueu os olhos da mesa, interrompendo a leitura dos pergaminhos. Estava cansado, mas algo naquele gesto de Ayumi exigia atenção plena. O brilho discreto do metal refletia a luz tremeluzente da lanterna pendurada na parede. Era uma peça bela, sem dúvida, mas antiga, como se pertencesse há um tempo em que os objetos ainda guardavam memórias e intenções. Esquecida intencionalmente, talvez até trancada entre os silêncios da linhagem de Ayumi.
Uruha hesitou. Por um instante, seus dedos gélidos não se moveram. O instinto a puxava para trás como uma brisa que tenta apagar uma chama recém-acesa. Relíquias de prata dificilmente traziam boas lembranças a alguém como ela. Para alguém que havia se tornado mais espectro do que carne nos últimos dias.
— O que é isso? — perguntou em voz baixa, quase como se tivesse receio da resposta.
— Este é o elo perdido... — murmurou, como se alguém a ouvisse.
Ayumi-san diante dela, os olhos fixos em sua expressão, como quem tenta decifrar uma profecia antiga. A idade parecia desaparecer de seus gestos quando ela falou:
— Um artefato ancestral da minha família — disse, e suas palavras carregavam uma vibração que era mais do que som; era história viva. — Pertenceu à minha avó e às ancestrais antes dela. Ela dizia que o relicário era uma âncora, um ponto de ligação entre o mundo dos vivos e o mundo das sombras. Eu entendo agora por quê.
Ayumi colocou a caixa sobre a mesa com reverência e retirou o relicário do tecido com um cuidado quase cerimonial. Era ovalado, com desenhos em espiral gravados em linhas finas como fios de seda endurecida pelo tempo. Quartzos rosados contornavam o artefato como pequenas sentinelas adormecidas. Era frágil e absoluto ao mesmo tempo.
— Ele não foi feito para prender — continuou Ayumi, como se recitasse algo já ouvido sob outras luas. — Foi feito para sustentar. Para lembrar quem se é, quando o passado tentar te engolir. E... você precisa se lembrar.
Uruha, ainda sem tocar o objeto, encarava-o como se estivesse diante de um espelho partido. Seus olhos não refletiam apenas dúvida, mas medo. O ar em volta dela parecia mais frio e denso, não por intenção, mas por defesa: medo de esperança, medo de acreditar que havia algo capaz de segurá-la. Algo capaz de contê-la.
— Isso vai impedir que eu drene Reita... se perder o controle? — perguntou com a voz arranhada, como se falasse de um pesadelo recorrente. — Que eu não machuque mais alguém?
Ayumi assentiu com um gesto leve, quase materno, mas firme.
— Vai impedir que a vida de vocês dois seja consumida pela maldição. Não é uma cura, mas um equilíbrio temporário: apenas uma âncora até que encontremos o verdadeiro ritual. Um fio entre mundos forte o suficiente para resistir às marés do esquecimento. Contudo, precisa ser usado com fé e responsabilidade.
Reita se aproximou, silencioso. Ficou ao lado de Uruha como uma sombra paciente. Ele não disse nada, mas estendeu a mão, aberta, como quem dá permissão sem pressa. Como se dissesse, sem voz: confie em mim, mesmo quando você não conseguir confiar em si mesma.
Finalmente, Uruha estendeu os dedos e tocou o relicário.
Uma onda de calor percorreu seu peito. Sutil, mas real. Era como sentir um cobertor quente sobre o coração, um sopro de memória que não era dela, mas que a aceitava. Como se o relicário reconhecesse nela uma ausência e quisesse preenchê-la. Como se dissesse: você pertence a algo maior do que o medo.
Ayumi prendeu o amuleto ao redor do pescoço de Uruha com dedos ágeis e ternos. O fecho produziu um “clique” suave, quase simbólico. Como se o objeto tivesse finalmente encontrado o lugar ao qual pertencia.
— Use-o até o fim do ritual — disse Ayumi. — E nunca o tire, mesmo nos momentos mais confusos. Ele manterá a energia de vocês em harmonia. Enquanto houver lembrança... haverá controle. E onde há controle, há escolha. Não permita que a culpa apague isso.
Uruha apertou o relicário com as duas mãos. Os olhos, que tantas vezes refletiram temor e solidão, agora marejavam com algo diferente. Não era alívio, ainda não era um início. Uma rachadura na couraça de desespero. Pela primeira vez desde que chegara à cabana, não se sentia uma ameaça. Sentia-se humana. Imperfeita, mas possível.
Ayumi então se voltou para Reita.
— E você... encontrará o que busca se parar de tentar entender pela razão — disse ela, com um pequeno sorriso. — Os pergaminhos só respondem quando você lê com o coração.
Ele não respondeu. Apenas inclinou a cabeça, como quem compreendia mais do que gostaria de admitir.
Reita tocou de leve seu ombro.
— Estamos juntos nisso — disse ele — até quebrarmos essa maldição.
Ela o olhou com gratidão contida. Não havia promessas fáceis entre eles, mas havia uma aliança. Às vezes, alianças silenciosas são mais fortes que palavras ditas em alta voz.
Kai, Aoi e Ruki, com suas canecas de chá e um bolo na mão, apenas observaram toda a cena em silêncio. Era um momento tenso e esperançoso. O amuleto poderia ser o equilíbrio entre eles para Reita não congelasse até a próxima lua cheia.
Do outro lado da cabana, a chaleira começou a chiar. Uruha foi até lá, ainda tocando o relicário. O som era simples, cotidiano, mas parecia mais pleno agora. A madeira estalava sob seus pés, como se a casa respirasse com eles. Ayumi voltou a se sentar na sua poltrona em frente à lareira, observando ambos os jovens com um carinho que ia além do sangue, um carinho construído por destino e escolha.
Lá fora, a neve voltou a cair. Silenciosa. Persistente, como o passado. Mas agora, havia algo novo no ar.
Uma âncora. E onde há ela, há uma chance de retorno.
Dois dias depois, Reita ajudava Aoi e Kai a se prepararem para voltar à cidade; ele passou instruções e seus documentos para Kai levar à faculdade e trancar o curso até resolver o caso do ritual. Com certeza, seu pai ficaria muito bravo com a atitude dele; a vida dele estava ligada a youkai, e a carreira profissional dependia do êxito na quebra da maldição.
Despedidas feitas e conselhos de última hora, Ayumi-san partiu com Ruki, Kai e Aoi para cidade de Tóquio. Levava consigo os livros antigos e alguns objetos pessoais para continuar suas pesquisas na biblioteca do centro cultural. Ruki, sempre bem-humorado, prometeu visitá-la na próxima lua cheia — desde que houvesse bolo, chá-verde e outra boa história.
Uruha, agora com o relicário preso ao pescoço, observou da varanda a velha caminhonete desaparecer pela trilha da neve. Apertou os dedos sobre o pingente e sussurrou para si mesma:
— Por favor... funcione.
Reita acenou um último adeus, e o veículo desapareceu pela estrada da floresta.
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As you exhale, i breathe in and sink into the water underground
And i'll grow pale without you”
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