Love Like Winter
10 O Retorno
Notas iniciais

O Retorno
“Warn your warmth to turn away
Here, it's December
Everyday”
Nos dias seguintes, a cabana se acomodou em um ritmo tranquilo.
Manhã: Reita atiçou o fogo enquanto Uruha preparava chá na chaleira antiga. Beberam em um silêncio amigável, trocando um olhar que revelava medos não ditos.
A neve persistia como um véu sobre o mundo, caindo em flocos preguiçosos que dançavam ao redor da cabana. Dentro dela, o tempo parecia se esticar como se os ponteiros do relógio hesitassem antes de avançar. Reita acordava antes do sol, seus passos quase inaudíveis sobre o assoalho de madeira. Havia algo ritualístico no modo como empilhava lenha, reacendia as brasas da lareira e ajustava os panos sobre as janelas para conter o vento.
Uruha costumava observá-lo em silêncio.
Ela acordava pouco depois, envolta na penumbra que antecedia a luz do dia. Com o relicário agora repousando sobre sua pele, os sonhos haviam mudado. Não mais perseguições em florestas frias. Agora, eram visões confusas: de neve que florescia em campos, de sombras se dissolvendo ao som de vozes familiares.
Reita, sempre meticuloso, preparava o chá enquanto ela organizava os pergaminhos deixados por Ayumi. O cheiro de folhas secas e ervas amargas preenchia a cabana. Cada gole era uma tentativa de normalidade. Cada olhar trocado, um fio tênue de conexão, mais forte que qualquer palavra.
Uruha, agora que os rapazes se foram, não dormira mais no chão da sala perto da lareira. Ayumi-san arrumou o quarto ao lado do quarto do Reita. Achou mais seguro não dividir o mesmo cômodo com sua alma gêmea. Depois da falha no ritual, a energia que ela absorveu manteria-se alimentada por um tempo até a próxima lua cheia.
— Dormiu bem? — Perguntava ele às vezes.
— Melhorei. E você?
— Ainda escuto o vento... dentro do peito.
Eles sorriam com tristeza contida.
Desde que Ayumi lhe entregara o relicário ancestral, Uruha sentia algo diferente em si. Uma clareza nos pensamentos, uma estabilidade interior que ela desconhecia. Era como se finalmente houvesse um ponto de equilíbrio entre seu passado ancestral e sua existência presente. Os sussurros que antes vinham nas horas mais quietas, agora vinham acompanhados de imagens nítidas, visões de um tempo que não era o seu, mas que lhe pertencia.
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Durante as tardes, o calor da lareira se tornava um alívio contra o frio que Uruha carregava consigo. Para ela, os exercícios eram menos físicos e mais espirituais. Aprendia a concentrar sua energia no interior da chaleira antiga, a mesma que recuperaram do templo.
O ferro do objeto, segundo Ayumi, era “maleável ao toque do mundo espiritual”. E era verdade, quando Uruha concentrava sua essência, a chaleira brilhava levemente, ora congelando a água, ora a mantendo morna por horas. Era como domar uma fera adormecida.
Reita revisava as anotações rituais de Ayumi junto à janela, com a neve rodopiando lá fora, enquanto Uruha praticava concentrar sua energia na chaleira sem liberar seu frio sobre ele.
Reita observava, anotando tudo. Seu caderno de capa azul estava repleto de símbolos, hipóteses, frases quebradas. Ele lia em voz alta os trechos mais importantes:
— “O relicário serve como condutor. Mas o equilíbrio emocional é o verdadeiro selo.” Ele olhou para Uruha. Isso faz sentido?
Ela assentiu, concentrada.
— Quando fico ansiosa, o relicário aquece. Como se me lembrasse de algo que estou esquecendo.
— De quem você é, talvez.
Ela parou. Olhou para ele, surpresa com a frase. A chaleira parou de vibrar. O silêncio seguinte foi espesso como a neve que cobria a janela.
— E quem você acha que eu sou, Reita?
Ele respondeu sem hesitar:
— Alguém que ainda está decidindo.
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À noite, quando o mundo ficava suspenso sob a escuridão azulada da floresta, os dois saíam para a varanda coberta, Reita envolto em mantas. Era um costume silencioso, quase sagrado. A cabana atrás deles estalava suavemente com o calor da lareira, e a neve refletia o luar em pequenos cristais sobre o solo.
Reita desenhava com um graveto símbolos de proteção na neve. Não porque achasse que funcionavam, mas porque achava que talvez fosse suficiente.
Uruha, por sua vez, murmurava cantigas antigas. Canções de ninar do seu clã, em um dialeto que quase não existia mais. A melodia era melancólica, como o vento que passa por galhos secos. Mas havia beleza ali. Uma beleza triste, mas viva.
— Era assim que minha mãe me fazia dormir — disse ela uma noite, com a voz distante. — Antes que tudo se... partisse.
Reita não respondeu. Apenas se aproximou e se sentou ao lado dela, ombro tocando ombro.
— Eu gosto da sua voz — Reita murmurou. Uruha sorriu, quase imperceptivelmente.
E continuou a cantar, só para ele. Sua voz era cativante, a mesma voz que iludia e encantava os homens da floresta, que a maldição fazia ela sugar sua energia para se manter viva.
Todas as noites, Uruha guardava a chaleira e os artefatos de samurai em um compartimento escondido sob o assoalho, circulando-os com sal.
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Aos poucos, a cabana tornou-se uma ilha no tempo.
Kai e Aoi haviam voltado para suas universidades, enviando mensagens ocasionais. Ruki, sempre excêntrico, prometera voltar também se tivesse folga na faculdade. E Ayumi-san, agora na cidade com seus livros e grimórios, deixava recados de voz no celular de Reita, sempre terminando com: “Cuidem um do outro.” “E confiem no relicário.” e “Voltarei antes da próxima lua cheia”
O mundo lá fora parecia distante. E ainda assim, presente.
Havia barulhos na floresta à noite. Estalidos que não vinham apenas de galhos quebrando. Uma presença observadora, ora protetora, ora ansiosa. Uruha a sentia primeiro. O relicário pesava sobre seu peito quando o “outro lado” se aproximava. Mas nunca cruzava. Não ainda.
Na décima noite depois da lua cheia, ao guardar os artefatos, a chaleira, os pergaminhos, o men-yoroi sob o assoalho, Uruha traçou um círculo de sal ao redor. Era algo aprendido com Ayumi, um gesto de segurança espiritual.
Reita observava de longe, respeitando o silêncio do momento.
— Você acha que isso basta? — Perguntou ele, cruzando os braços.
— Não sei. — Ela respondeu, selando o círculo. — Mas é uma promessa. Uma linha entre o agora e o depois.
Ele se agachou ao lado dela.
— E se alguém cruzar essa linha?
— Então... — Ela sorriu, um pouco sombria — o frio será o menor dos problemas.
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Na manhã seguinte, Reita acordou sentindo nevoa fria no quarto. O quarto de Uruha estava vazio. Um rastro suave de frio estranho, vindo dela, ainda pairava nas cobertas. Ele seguiu o som suave de uma canção que vinha do sótão.
Lá estava ela. Sentada entre caixas, livros e lembranças da linhagem de Ayumi. O relicário em sua mão, os olhos fechados.
— Uruha-san?
Ela ergueu o olhar lentamente, sem susto. Seus olhos estavam calmos. Mais claros. Como a superfície de um lago congelado.
— Eu sonhei com sua avó ainda criança, — disse ela, com a voz firme. — olhando para o alto numa clareira no topo de uma montanha. Acho que... vi o local do final do ritual.
Reita se aproximou devagar, sentando-se diante dela.
— E o que mais você viu?
— Um espelho. Um nome esquecido. Talvez quem eu era no passado.
Ele estendeu a mão para ela.
— Vamos lembrar juntos. — Ela aceitou, levantando-se.
E ali, entre caixas empoeiradas e lembranças de um passado não vivido, os dois perceberam algo importante: o tempo na cabana era mais que espera. Era preparação.
Algo se aproximava e eles estavam começando a estar prontos.
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No final da segunda semana, quando o crepúsculo se transformou em uma noite sem lua. Reita ouviu o barulho de um veículo se aproximando e, em sua mente, surgiu a esperança de que poderia ser sua obaasan Ayumi-san.
Contudo, uma batida hesitante na porta perturbou a paz da cabana, e o relicário de Uruha começou a esquentar, enquanto a chaleira tremeu inquieta.
— Reita! Abra! — a voz de seu otousan, Takumi-san, ecoou pela madeira com uma intensidade que fez o coração de Reita disparar. Ele congelou, sentindo a mão de Uruha encontrar a sua, trêmula e cheia de incertezas.
— Está tudo bem — sussurrou ele, tentando acalmar a tensão que pairava no ar, enquanto se movia para destrancar a porta.
Quando seu pai entrou, seus olhos estavam arregalados, repletos de uma raiva fria e preocupação instantânea.
— O que você ainda está fazendo aqui? — indagou Takumi-san, seus olhos passando rapidamente pelo fogão e pelos pergaminhos espalhados. — Você deixou seus estudos e se mudou para a floresta? Com... — sua voz hesitou ao notar Uruha atrás de Reita, sua postura indicando um incômodo evidente. — Quem é?
Uruha se encolheu, agarrando a manga do quimono, sua respiração vindo em baforadas geladas, enquanto o clima se tornava mais tenso.
— Otousan, esta é Uruha-san — disse Reita em um tom baixo, quase um sussurro. — Ela está... me ajudando.
O maxilar do pai se apertou, e a indignação transpareceu em seu semblante.
— Ajudando você? Você está vivendo como um eremita devido a alguma maldição supersticiosa? — questionou, a voz carregada de desapontamento. — Você está jogando sua vida fora por uma fantasia, Reita. Não posso permitir que você continue com isso. Volte para casa agora.
A pressão da situação pairava, e Reita sentiu que o tempo havia parado, enquanto sua mente fervilhava com perguntas e o futuro se tornava incerto.
O coração de Uruha trovejou. Uma parte de seu poder gélido se enroscou em seu peito, ansiando por calor, mas o medo a dominou com a ideia de que o pai de Reita pudesse destruir seu mundo.
— Por favor, senhor, entendo suas preocupações, mas há uma ligação profunda entre mim e Reita que vai além do que os olhos podem ver. Estamos tentando quebrar a maldição que me prende a esta floresta — ela sussurrou, a voz quase inaudível.
O pai de Reita zombou:
— Uma maldição? Pare com esse conto de fadas. Não posso aceitar que meu filho jogue sua vida fora por causa de uma lenda. Seu lugar é no mundo, não se escondendo em uma cabana coberta de neve com uma estranha.
Ele avançou, mas Reita se colocou entre eles.
— Otousan, kudasai. Nos dê uma chance. Obaasan Ayumi explicará tudo em breve.
Os olhos do pai brilharam de dúvida e preocupação.
— Sabia que essa loucura vinha dela, sua Obaasan conta essa história da mulher da neve desde que nasci. — Sua voz suavizou, mas a decepção persistiu. — Agora você envolvido nisso. Por isso que ela voltou com aqueles livros antigos.
— Otousan... você precisa entender, Uruha-san me salvou da neve, em retribuição... — Reita tentou se explicar com o pai, para ele ir embora, o ar frio de Uruha estava se espalhando pela sala. — eu prometi que ajudaria a quebrar a maldição, e eu não posso simplesmente abandoná-la agora.
— Isso é absurdo, Reita! Eu voltarei para te buscar. Vou ter uma conversa séria com minha Okaasan — Ele se virou e saiu, o eco da porta persistindo. — Você está desperdiçando sua vida aqui.
Uruha, com a respiração congelada, sentiu uma mistura intensa de alívio e medo. O que estava em jogo era muito maior do que eles podiam imaginar. O futuro do casal, tão cheio de esperança, estava ameaçado pela maldição que os envolvia.
A possibilidade de quebrá-la dependia da habilidade de Reita em persuadir seu pai, ou talvez encontrar uma alternativa que unisse a busca pela liberdade de Uruha às preocupações e expectativas da família. A tensão no ar era palpável, e cada segundo contava.
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Ayumi-san retornou ao apartamento com seu neto Ruki-san, após alguns dias na cabana.
A nevasca havia cessado, aproveitou para ir à biblioteca e umas lojas de antigas de ocultismo em busca de informações sobre a lenda da youkai da neve, e o silêncio da noite tornava o pequeno apartamento ainda mais sufocante. Seu filho estava sentado à mesa da cozinha, segurando uma caneca de café já frio. O semblante era o mesmo que ela conhecia desde menino: preocupado, teimoso, protetor.
Ela tirou o casaco pesado, pendurou perto da porta e se aproximou devagar.
— Você está me evitando, Takumi-san — disse ela com calma, puxando uma cadeira.
Ele suspirou, sem coragem de encará-la.
— Não estou evitando. Só… tentando entender o que está acontecendo com Reita-san. — suspirou antes de continuar — Desde que foi para aquela cabana, ele mudou completamente. Lendas, florestas, neve, essa tal de Uruha… Nada disso faz sentido. Ele trancou a faculdade, Okaasan. Ele largou tudo por uma lenda?
Ayumi colocou a mão sobre a dele, firme como sempre.
— Ele não largou tudo. Ele escolheu o caminho que sente ser certo.
— Certo? — o homem ergueu o olhar, revoltado. — Certo é viver a própria vida, fazer planos, garantir um futuro. Não enfrentar uma maldição absurda de uma… criatura da floresta! Ele ainda é meu Akira-san.
— Eu sei que é — disse Ayumi suavemente — e justamente por isso você precisa confiar nele.
O silêncio pairou. A única luz vinha da janela, cobrindo Ayumi com um ar quase espiritual.
— Quando Reita-san desapareceu na neve, anos atrás, você sabe quem o salvou? — perguntou ela, a voz baixa.
— Você me disse que foi uma senhora que o encontrou.
Ayumi sorriu com tristeza.
— Eu menti, porque você jamais teria acreditado, na verdade. Foi Yuki-onna quem o salvou. A mesma pessoa que se chama Uruha-san, que está com ele agora.
O homem arregalou os olhos.
— Okaasan… o que está dizendo? Ela é humana?
— Já foi um dia, mas também não é um monstro. — O olhar de Ayumi era profundo. — Ela carregou uma maldição por séculos e, mesmo assim, não tocou um fio de cabelo de Reita-san. Ao contrário: o salvou. E agora ele está tentando salvá-la.
— Salvá-la de quê? — ele perguntou, o medo substituindo a raiva.
— De desaparecer. Uruha está presa a uma maldição que está chegando ao fim. E só quem pode libertá-la… é Reita-san.
— E isso também pode matá-lo. — Ele falou com a voz trêmula, entendendo finalmente o peso da situação.
Ayumi aproximou-se mais, segurando seu rosto como fazia quando ele era pequeno.
— Ele não é mais um menino indefeso. É um homem, como você foi quando escolheu seu próprio destino contra a vontade do seu pai. — Ela sorriu de leve. — As escolhas que fazemos movem o mundo, Takumi-san. E essa é a escolha do meu neto Reita-san.
Ele respirou fundo, vencido pela verdade.
— Eu… eu só tenho receio de perdê-lo.
Ayumi beijou sua testa.
— Todos os pais têm. Mas ele está onde precisa estar. Ao lado de quem salvou sua vida quando você não pôde. Ao lado de quem ele escolheu proteger.
O homem fechou os olhos, absorvendo cada palavra.
— Então… devo deixá-lo ficar lá? Com ela?
— Deve confiar nele. — Ayumi se levantou, pegando a bolsa para voltar à cabana. — Agora, preciso voltar. Eles vão precisar de mim para o próximo ritual.
— Okaasan… — Ele tocou o braço dela antes que ela saísse. — Cuide do meu Akira-kun e o traga de volta.
Ayumi sorriu.
— Já estou cuidando. Dos dois. E quando essa história acabar, você também vai entender.
Ela saiu do apartamento com passos firmes, como alguém que segue um destino escrito muito antes de nascer.
E o homem ficou ali, sentado à mesa, ciente de que o futuro do filho estava nas mãos da floresta, da maldição e do amor que ele agora entendia, mesmo sem compreender.
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A neve caía fina quando Ayumi-san voltou dirigindo sua caminhonete para a cabana agora sozinha para a segunda lua cheia. O vento carregava um silêncio desconfortável, como se a floresta esperasse a decisão que ela traria consigo. Seu quimono estava umedecido pela neve, mas seus passos eram firmes. Ela havia deixado para trás a conversa difícil com seu filho, e agora carregava nas mãos uma sacola com ervas e livros.
Caminhou devagar pela trilha estreita, sentindo o peso da conversa ainda ecoando em seu peito.
Takumi-san, por mais teimoso que fosse, continuava preso ao medo do passado, mas havia cedido. Confiou nela. De certa forma.
Ao empurrar a porta da cabana, ela encontrou Reita sentado à mesa, a testa apoiada sobre os braços, como alguém que não dormia direito há dias. Uruha estava próxima da janela, observando a floresta, seus olhos perdidos em pensamentos sombrios.
A porta rangeu, e ambos se viraram.
Reita ergueu os olhos imediatamente, largando os pergaminhos sobre a mesa.
— Obaasan Ayumi! — Reita levantou-se tão rápido que derrubou a cadeira. — Achei que ficaria mais um dia com otouto Ruki…
Ayumi fechou a porta atrás de si, tirando a neve dos ombros.
— Eu fiquei o suficiente com ele. E já era hora de voltar para vocês dois. — Ela ajeitou os cabelos e deu um leve sorriso. — Temos trabalho pela frente.
— Ayumi-san… — Uruha começou, mas a voz falhou, havia uma vulnerabilidade nova em seu olhar.
Ayumi sorriu, calorosa.
— Fico feliz em ver que está bem, minha querida.
O relicário, aquele amuleto ancestral encontrado por Ayumi no sótão, brilhava suavemente contra sua pele pálida. Ela o tocou, quase em reflexo, ao ver Ayumi entrar.
Ayumi reparou.
— Fico feliz que esteja usando — disse, aproximando-se para ver melhor. — O relicário parece… mais desperto agora.
— Ele pulsa às vezes — confessou Uruha, baixinho. — Como se… respirasse.
— Isso é bom sinal — Ayumi respondeu com serenidade. — Isso significa que ele reconheceu você. E reconheceu Reita.
Uruha deu um passo à frente, seus longos fios loiros-acinzentados balançando suavemente.
— Ayumi-san… você conseguiu falar com Otousan do Reita? — perguntou, com cautela.
Ayumi suspirou, tirando os sapatos antes de entrar completamente.
— Consegui. E como imaginei, Takumi-san está bem confuso e resistente — ela disse, olhando para Reita.
Reita suspirou, se aproximando.
— O que o Otousan disse?
Ayumi deu um sorriso cansado.
— O que um pai preocupado sempre diz. Que você deveria voltar, que a floresta é perigosa, que lendas são só histórias. — Ela pousou a mão no ombro de Reita.
Reita desviou o olhar, visivelmente tenso.
— Ele acha que estou perdendo a cabeça.
— Não, ele tem receio. — corrigiu Ayumi com firmeza — Medo porque te ama. Mas medo nunca foi suficiente para impedir o destino de ninguém.
Ela colocou a sacola sobre a mesa, abrindo-a cuidadosamente. Do interior, retirou livros antigos, amarrados com fitas fracas,
— Mas ele também disse uma coisa importante: que confia em você, mesmo que não concorde com suas escolhas.
Reita baixou os olhos, aliviado.
Uruha observava em silêncio, mas havia algo quebrado em seu olhar. Algo frágil.
— Ele está com medo por você... — ela murmurou.
Reita tocou sua mão, suave.
— Eu também teria medo, se fosse meu filho no meio de uma maldição secular. Mas… — virou-se para Ayumi — … estamos aqui porque queremos estar. E, porque precisamos terminar o que começamos.
Ayumi-san assentiu lentamente, olhando para os dois com firmeza ancestral.
— Então vamos nos preparar. A segunda lua cheia está próxima, e o ritual não espera por ninguém. — Ela caminhou até a mesa onde deixara seus manuscritos. — Já revisei os encantos, e encontrei uma variação mais antiga… talvez seja suficiente.
Uruha levou a mão ao relicário.
— Eu o protegerei desta vez. Mesmo que eu… — ela hesitou. — Esse é o quinto elemento, não é?
Ayumi assentiu.
— Não tenho absoluta certeza… mas tudo indica que este relicário pode impedir que sua energia vital se perca completamente durante o ritual. — Ela sorriu de modo quase espiritual. — Às vezes, os espíritos da floresta devolvem aquilo que tiram.
Uruha levou a mão ao peito.
— Mas… se está aqui agora, isso quer dizer que o segundo ritual… pode funcionar?
Ayumi franziu o cenho.
— Pode. Mas há algo que preciso que vocês entendam.
Reita e Uruha se entreolharam.
Ayumi continuou:
— O sucesso do ritual depende não só dos objetos… mas do que vocês carregam dentro de si. — Ela apontou para o relicário no peito de Uruha . — Se houver medo, se houver dúvida… a energia deles pode reagir de forma imprevisível.
Uruha desviou o olhar, suas mãos apertando o tecido do quimono.
— Tenho receio de machucar Reita outra vez.
Ayumi a encarou com ternura.
— Você não está sozinha, Uruha-san. O medo também é parte do amor. Mas não pode comandar suas decisões.
O fogo da lareira crepitou forte, como se aprovasse.
Reita respirou fundo, deu um passo à frente, ficando ao lado de Uruha.
— Nós vamos tentar juntos. Não importa o que aconteça.
A youkai Uruha suspirou e assentiu.
— Então… vamos tentar outra vez.
A avó Ayumi observou ambos, seus olhos brilhando com orgulho e preocupação.
— Hoje à noite descansamos. Amanhã ao amanhecer… começamos a preparação do segundo ritual.
Ayumi abriu o manuscrito.
Uruha apertou o relicário e pela segunda vez, o destino se alinhava sobre eles.
A neve continuava caindo lá fora, lenta e silenciosa, como se a floresta estivesse prendendo a respiração.
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“Press your lips to the sculptures
And surely you'll stay (love like winter)
For of sugar and ice.. I am made”
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