Love Like Winter
11 Segunda Lua Cheia
Notas iniciais

Capitulo 11- Segunda Lua Cheia
“It's in the blood, it's in the blood
I met my love before I was born
He wanted love. I taste of blood
A neve ainda caía sobre o telhado quando Ayumi fechou a porta atrás de si e tirou as botas úmidas. No interior da cabana, o calor da lareira se espalhava em ondas suaves, iluminando as paredes de madeira com sombras trêmulas. Reita e Uruha estavam sentados à mesa, cansados após horas de silêncio pesado desde o fracasso do primeiro ritual.
Ayumi colocou uma pilha de livros grossos e amarelados sobre a mesa.
— Encontrei outras coisas no sótão, — anunciou ela, retirando o lenço dos cabelos. — Estavam escondidos no fundo, de um baú que pertenceu à minha avó. Grimórios celtas… muito antigos. E, ao que parece, quase esquecidos.
Reita se endireitou, atento. Uruha observou em silêncio, o relicário tocando o peito, como se quisesse ouvir também.
Ayumi abriu o primeiro livro com cuidado. As páginas estavam frágeis, parcialmente devoradas pelo tempo e pela umidade.
— Encontrei outro tipo de invocação nos grimórios celtas — explicou ela. — Diferente do primeiro. Este exige um símbolo do elo que une vocês além da maldição... algo que prove que o amor é verdadeiro.
Uruha trocou um olhar inquieto com Reita. Ambos sabiam que se amavam, mas... como provar isso a forças tão antigas e impiedosas?
— O problema — continuou Ayumi, virando uma página com cuidado — Parte das instruções… se perdeu — disse ela, passando os dedos pelas bordas rasgadas. — Mas este trecho ainda está legível.
Ela girou o livro para que os dois vissem. As letras eram tortas, quase rúnicas.
“… onde o amor verdadeiro toca o passado e o presente, ali se revelará o último selo…”
— Toca o passado e o presente...? — Reita repetiu, tentando entender.
Foi então que Ayumi se lembrou. Caminhou até uma gaveta da cristaleira e puxou um álbum de fotos antigas da família. Folheou rapidamente até encontrar o que procurava.
— Reita, lembra deste festival de primavera? Você devia ter uns quinze anos. Foi vestido de samurai com seu pai.
Obaasan Ayumi estendeu a foto para Uruha.
Uruha levou a mão à boca.
Era Reita jovem com pouca idade, vestindo um quimono escuro de samurai, com o cabelo preso e a expressão séria.
— É… ele. — sussurrou, com a voz embargando. — Ele se parecia exatamente assim… no dia do casamento.
— Seu general? — Ayumi perguntou, erguendo as sobrancelhas.
— Sim. — Uruha assentiu, emocionada. — O homem que me pediu em casamento. Que me fez prometer amor eterno... antes de tudo acontecer.
Ayumi a observou com um respeito silencioso.
— Então, talvez… — Ayumi disse com reverência — Reita seja realmente a alma renascida do seu amado. O passado tocando o presente. Seu destino se cruzando de novo.
Reita, apenas colocou a mão sobre ombro da youkai.
— Uruha-san… isso explica tudo. A atração pela sua canção quando criança. O vínculo entre o passado e o futuro.
Ayumi respirou fundo.
— Então vamos usar a foto. Será o símbolo da ligação. O elo perdido. O que faltava no primeiro ritual.
Ela colocou a foto dentro da chaleira antiga, junto com pétalas de ameixa seca e folhas de ginkgo.
— O resto… faremos lá fora. Este ritual precisa ser realizado onde o gelo e a água se encontram. Perto do lago. Hoje. Antes que a lua perca força.
Uruha pousou a mão sobre a tampa da chaleira, sentindo uma vibração familiar correr pela superfície metálica.
— Então vamos. — murmurou ela. — Antes que seja tarde.
Reita pegou a katana e a máscara. Ayumi juntou os grimórios, uma manta, um chá quente na garrafa térmica e as lanternas. Uruha segurava a chaleira, as velas, os cristais, e as ervas.
E os três caminharam para fora da cabana, seguindo pela trilha estreita que levava ao lago congelado o vento trazendo consigo não apenas frio, mas a tensão da magia que se aproximava.
________
O vento cortava entre os troncos como uma lâmina, e a superfície do lago refletia a lua em prata rachada. Bem junto à margem congelada, onde a floresta abria um pequeno clareira, Ayumi estendeu uma manta grossa sobre a neve e posicionou os itens com mãos pacientes. Uma pequena fogueira num braseiro de ferro lançava calor contido; lanternas protegidas por vidro mantinham as chamas improvisadas longe do sopro da noite.
— Aqui é o melhor lugar — murmurou Ayumi, ajeitando a chaleira antiga no centro do círculo. — O lago responde. A água parada debaixo do gelo ajuda a ancorar a energia.
Reita e Uruha sentaram-se frente a frente sobre a manta, os joelhos quase se tocando. Entre eles, o relicário pendia de uma corrente curta, ambos seguravam a corrente; Reita o segurava com as duas mãos e Uruha entrelaça os dedos, como quem tenta segurar o mundo. Ao redor, Ayumi colocou pétalas de ameixa seca e folhas de ginkgo, formando um pequeno leito dentro do qual repousou a foto do festival — o Reita adolescente vestido de samurai — antes de fechar a chaleira lenta e solenemente por cima, ao lado do neto a katana e a máscara.
Uruha engoliu o frio, mas ergueu os olhos para Reita, sentindo o peso da expectativa. A tensão no ar era palpável, sua mente corria com pensamentos confusos.
— Se for promessa e verdade, então seja — disse ele, firme, tentando sorrir, embora o nervosismo entregasse a fragilidade de sua determinação.
Ayumi acendeu as velas protegidas por lanternas ao redor do círculo e começou a entoar palavras antigas. A sílaba rolava como pedra na garganta; o idioma estranhamente familiar fazia o ar vibrar. O canto ecoava entre os pinheiros, e a superfície do lago cintilava como se ouvisse também.
— Sintam — instruiu Ayumi, pousando as palmas rente à chaleira. — Concentrem suas memórias. Lembrem-se do primeiro encontro. Lembrem-se do toque, do medo, da promessa tudo junto. Não soltem o elo.
Reita e Uruha fecharam os olhos. O relicário aqueceu nas mãos deles, primeiro um calor tênue, depois um formigamento que subiu pelos braços. Uma luz pálida começou a brotar por entre as fissuras da chaleira. As pétalas tremelaram, e uma névoa fina subiu do metal, cheirando a mar e a madeira velha.
— Está funcionando — sussurrou Uruha, sentindo uma paz inquieta se abrir no peito.
Porém, quando o cântico alcançou uma oitava nota, algo tremeu. A luz da chaleira pulou de dourado para um tom violeta que doía nos olhos. O relicário vibrou com violência. O vento, que até então sussurrara, levantou-se como se enraivecido e trouxe consigo um frio que nada tinha a ver com a temperatura da noite.
— Não soltem! — gritou Ayumi, a voz quebrando o fio do canto quando percebeu a ruptura na harmonia.
Os dedos de Reita apertaram a corrente. Uruha forçou a respiração, tentando assumir controle. Mas a energia já fugira do costumeiro; a luz violeta enrolou-se em torno do relicário como serpente e, com um estalo seco que fez o lago responder com um estouro abafado de gelo, o amuleto saltou das mãos deles.
Uma explosão de luz roxa irrompeu do metal, uma lâmina fria lançada contra o peito de Reita. Ele foi arremessado para trás, rolando sobre o tapete de neve, batendo a cabeça num tronco. A respiração saiu lhe insuficiente, os lábios se tingiram de cinza, e finas escamas de gelo desenhavam-se nos cílios e nos cabelos.
— Reita! — Uruha gritou, levantando-se num salto. Mas mal pôde avançar: um puxão glacial tentou agarrá-la, como se a própria maldição quisesse tomá-la de volta.
A luz girou em espirais por alguns segundos, depois apagou, deixando atrás de si névoa e um silêncio pesado. O relicário jazia palpitando na neve, agora imóvel, e a foto encharcada flutuava com pétalas presas ao redor, um espectro pequeno sobre o gelo.
Uruha correu até Reita e se ajoelhou ao seu lado, as mãos tremendo enquanto segurava seu rosto frio. Ele arfava, olhos semicerrados, tentando puxar o calor de volta.
— Fica comigo… por favor… — ela implorou, com a voz dolorosa.
Ele arfava, os olhos semiabertos, a voz mal saía:
— Ainda... estou aqui...
Ayumi já estava em pé, puxando uma manta grossa do saco e, num movimento preciso da idade e desespero, envolveu Reita com ela; um frasco de chá quente foi colocado quase à força entre as mãos dele. As lanternas tremiam e a fumaça da fogueira subia espessa.
— Falhou de novo — murmurou Ayumi, com a mandíbula cerrada e o olhar vidrado naquela fotografia ensopada. — Ainda falta algo. O texto dizia sobre um “último selo”… algo que não temos.
Uruha olhou para o relicário caído e para a chaleira que ainda fervilhava com magia adormecida. O coração apertou-lhe tão forte que parecia querer sair.
— Se nós falharmos outra vez… — murmurou ela, quase sem som — … talvez não haja outra chance.
Reita abriu os olhos, as cores voltando aos poucos às faces rachadas do frio. Ainda segurou a mão dela, fraca, mas firme.
— Não — disse ele, como se fizera um voto silencioso. — Vamos descobrir o que falta. Obaasan vai ler tudo até achar a pista. Nós não podemos desistir.
Ayumi recolhia os restos dos itens do ritual com um gesto lento, quase ritualístico, como quem recolhe os pedaços de um destino fraturado.
Então ela parou.
Sua mão repousou sobre o relicário, que jazia parcialmente enterrado na neve, pulsando com um brilho fraco.
— Amanhã eu volto ao sótão e procuro por qualquer coisa que falte — prometeu. — Havia algo sobre lágrimas de sereia e… um selo final. Vou achar.
A neve continuou a cair, cobrindo as impressões de suas pegadas e apagando por ora as marcas da noite. Na clareira, as respirações voltaram ao ritmo, mas o frio que agora os cercava era outro mais urgente, mais íntimo, um lembrete de que o tempo para a última lua cheia estava se esgotando.
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A lareira ardia silenciosa, mas o frio parecia ter entrado direto nos ossos. Reita repousava no sofá coberto por cobertores grossos, ainda se recuperando do choque gélido da explosão. Seus dedos tremiam levemente, mesmo com o calor das chamas próximas. Uruha observava em silêncio do canto da sala, sentada com as pernas encolhidas contra o peito, os olhos fixos em suas mãos.
— Você devia me odiar... — ela disse finalmente, em voz baixa.
Reita ergueu os olhos para ela, fracos, mas atentos.
— O que você tá dizendo...?
— Eu quase te matei hoje. — Uruha apertou os braços contra si mesma. — De novo. A cada tentativa, você se aproxima da morte por minha culpa. E por quê? Porque um dia eu desejei mais do que me foi permitido. Porque fui amaldiçoada por amar...
Ela virou o rosto, contendo as lágrimas.
— Eu pensei que fosse forte. Que eu conseguiria... Mas agora sei que talvez o tempo esteja acabando. Quando a próxima lua cheia vier, e se falharmos... — sua voz falhou. — Eu vou desaparecer, Reita. Como a névoa ao nascer do sol.
Reita tentou se levantar, mas Uruha correu até ele, ajoelhando-se ao seu lado.
— Não se mexa! Você ainda está fraco!
Ele a tocou de leve no rosto, mesmo com os dedos ainda gelados.
— Não me importa quanto tempo temos. Se é um dia, uma semana ou uma eternidade... não vou desistir de você.
Uruha fechou os olhos, sentindo o toque. Mas balançou a cabeça.
— Mas eu... talvez eu devesse ir embora antes da próxima lua. Me afastar de vez. Você não estaria em perigo. Poderia seguir sua vida...
— Minha vida não é mais a mesma desde que você entrou nela. — Reita a interrompeu, firme. — Eu te escolhi. Mesmo com o risco. Mesmo com a maldição. Você não percebe? Você ainda tá tentando lutar sozinha... mas não tá sozinha, Uruha-san.
Ela chorou em silêncio, deitando a testa contra o peito dele.
— Eu não quero te perder como perdi o meu general. Eu não aguentaria...
— Então a gente vai dar um jeito. — Ele envolveu os ombros dela com o cobertor. — Ainda temos tempo. Minha obaasan vai encontrar alguma pista. Vamos decifrar o enigma. Vamos tentar outra vez.
— E se não houver outra chance? — ela sussurrou. — E se... esse amor não for suficiente?
Reita suspirou, os olhos marejados também.
— Então que seja nosso fim, mas juntos. Eu não vou te deixar congelar sozinha, Uruha-san.
Ela o olhou, assustada.
— Você é louco... Reita-san
— Somente por você, Uruha-san.
Eles ficaram em silêncio, ouvindo o estalar da lenha. Uruha levou a mão ao relicário que estava agora pendurado no pescoço. O calor da presença de Reita ainda pulsava nele, como uma lembrança do elo que haviam criado. Mas ainda não era suficiente para quebrar a maldição.
A última lua cheia seria em 3 semanas. O tempo estava acabando.
E um amor antigo precisava provar que podia atravessar séculos... ou morrer tentando.
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Alguns dias depois...
A tempestade começou como uma sussurro distante, um uivo que se confundia com o vento nas árvores. Uruha parou de mexer na chaleira e inclinou levemente a cabeça. O relicário, pendendo sobre o tecido grosso de seu suéter, vibrou não de calor, mas de uma presença.
A tempestade não veio do céu, veio primeiro de dentro da cabana.
O segundo ritual havia falhado alguns dias antes, e o eco da explosão roxa ainda parecia preso no ar. Reita se recuperava lentamente, a mão ainda marcada por manchas azuladas, e Uruha andava pela cabana como um fantasma inquieto, completamente consumida pela culpa e pelo medo de perdê-lo.
Naquela tarde, o vento começou a soprar com uma fúria estranha, como se a floresta estivesse avisando que algo se aproximava. Uruha estava junto ao fogão, mexendo na chaleira não pelo chá, mas para se ocupar, evitar pensar no desastre anterior. O relicário contra seu peito pulsava como um coração ansioso.
Reita entrou pela porta dos fundos, trazendo lenha. Seus dedos tremiam não só pelo frio, mas ainda pelo trauma energético deixado pelo ritual fracassado.
— Hoje está pior que ontem... — murmurou, empilhando os pedaços de madeira. — A previsão disse que a tempestade vai durar a noite inteira.
Uruha não respondeu de imediato. Seus olhos estavam fixos no horizonte, pela janela embaçada. Ela segurava a caneca com as duas mãos, o olhar distante, como se algo estivesse fora de lugar.
— Uruha-san? — Reita pousou a mão em seu ombro. — Ei… o que houve?
Ela demorou para responder.
— Eu senti... uma presença estranha. Algo... perturbador. Como se um espírito pesado tivesse atravessado as árvores.
Reita, do outro lado da sala, ergueu os olhos de seu caderno. Os dois se entreolharam em silêncio.
— O que você ouviu?
Uruha assentiu. Seus olhos estavam fixos na porta, como se algo além dela já estivesse ali, prestes a cruzar o limiar. A neve começou a bater com mais força contra as janelas, como se empurrada por mãos impacientes.
— Há alguém se aproximando — disse ela, e pela primeira vez, sua voz soou mais como de uma mulher ancestral do que de uma jovem perdida.
Ele também ouviu. Um som distante, grave, quase como um motor lutando contra a neve.
Não era a caminhonete de sua obaasan, que havia saído para ir à vila buscar alimentos e mais velas e ervas.
Eles se entreolharam.
— Não agora… — murmurou Reita.
Reita franziu o cenho, indo até a janela. E foi então que viu. Mas já era tarde.
Um veículo escuro despontou na trilha, faróis cortando a neve. O veículo derrapou, avançou, e estacionou finalmente de forma torta, com a porta do motorista abrindo num estalo agressivo, revelando um homem alto, com um sobretudo cinza e uma expressão dura.
Era ele. Takumi-san, otousan de Reita.
— Maldição... — murmurou Reita, abrindo a porta da frente. — Fica aqui, Uruha. Eu vou... falar...
Uruha recuou para a sombra da parede. As mãos tremiam. Não era só medo do pai bravo, era pânico de perder o controle de novo. Depois do segundo ritual, ela era uma panela de pressão prestes a estourar. Os olhos arregalados, o corpo tenso. Não era apenas medo de um pai bravo. Era o pânico antigo de ser rejeitada, temida, caçada.
— Reita... por favor, não o deixe entrar.
Mas já era tarde. A porta se escancarou com um golpe seco, e a figura do homem preencheu o pequeno espaço da entrada. Os olhos do pai de Reita passearam pela sala com desconfiança, até pousarem sobre a figura feminina parcialmente escondida.
— Sua obaasan está com você, Reita-san. — A figura do pai surgiu, coberta de neve, o rosto rígido como gelo.
— Não, ela foi a vila comprar mantimentos para dispensa. — Reita respondeu pensando que o pai queria conversar com ela.
— Melhor assim, precisamos conversar — disse ele, a voz cheia de frustração contida. — Sobre essa sua… escolha.
Reita se posicionou na frente de Uruha.
— Otousan, kudasai… não agora.
— Agora é exatamente a hora! — o pai rosnou. — Eu deixei você vir da primeira vez. Deixei você ficar e já se passaram 2 meses. — respirou fundo, tentando não gritar — Mas depois que conversei com sua obaasan… ela me disse que você está metido numa maldição infernal, que está se sacrificando por uma mulher que nem humana é!
Uruha fechou os olhos com dor. O relicário aqueceu em seu peito, tentando estabilizá-la.
— Otousan, não — Reita tentou argumentar. — Você não entende o que está...
— Não entendo?! — o homem deu um passo à frente. — Quer que entenda que não estou vendo sua mão com aspecto congelado! Que largou a faculdade, largou a família e sua carreira, por isso! — e apontou diretamente para Uruha. — Essa mulher youkai está te matando!
Reita se colocou à frente de Uruha.
— Essa mulher tem nome é Uruha-san. — Reita respondeu, se colocando entre os dois. — E eu escolhi estar aqui. Ninguém me forçou.
Takumi-san ignorou a resposta e deu um passo adiante.
— Você não faz ideia do que está fazendo. Eu descobri algumas coisas. Perguntei por essa tal de Uruha na vila. — A voz dele tremia de raiva. — Sabe o que me disseram? Que há histórias dessa floresta sobre uma mulher youkai com canto de sereia que atrai homens para a morte congelante. Uma maldição, Reita! Você enlouqueceu?
Uruha se encolheu atrás dele, o que mais temia estava se tornando realidade. Seus olhos brilharam de tristeza e pânico.
— Eu não sou mais aquela criatura… — sussurrou, trêmula, quase sem força. — Mas… se insistir… se me ameaçar… eu posso perder o controle.
Reita virou-se rápido para ela vendo que a temperatura na sala parecia cair, mas era tarde. O ar ficou gélido.
A respiração de todos passou a sair em nuvens brancas.
A chaleira tremia no fogão mesmo sem estar no fogo. O vidro da janela começava a se cobrir de cristais.
O pai de Reita deu um passo atrás, assustado.
— O que… O QUE É ISSO?!
— Otousan— Reita disse, firme. — Saia. Agora.
— Está me mandando embora? — o pai rugiu. — Você mudou, Reita. Está obcecado! Essa mulher... ela está sugando sua vida!
Uruha recuou, as mãos brilhando em azul-claro — não porque queria — mas porque estava entrando em colapso emocional de novo.
— Gomennasai... — ela sussurrou, a voz quebrada. — Eu não quero ferir ninguém… — suas mãos começaram a brilhar com uma luz gélida.
— Ela vai perder o controle! — o pai gritou, recuando. — Isso é exatamente o que dizem nas lendas, Reita-san! Ela destrói e congela tudo o que toca!
A temperatura despencou.
O chão da cabana começou a congelar.
Cristais de gelo cresceram nos cantos das paredes.
— OTOUSAN! SAI DAQUI AGORA! — Reita gritou, virando-se com desespero.
O pai recuou, tropeçando até a porta.
— Uruha-kun! O Relicário! Segure Agora!
Uruha lentamente, levou a mão ao relicário pendurado no pescoço; o presente de Ayumi, encontrado entre as coisas antigas no sótão. Ela apertou o medalhão entre os dedos.
A voz de Ayumi ecoou na mente de Uruha como um farol no meio da escuridão:
“Controle vem do amor, da memória, do que você quer ser… não do que você foi. Você pode escolher.”
O medalhão pulsou quente. A energia parou. A geada que se espalhava pela madeira retrocedeu. A temperatura começou a se estabilizar.
Uruha arfou como alguém que volta à vida.
Como se uma onda de calor se expandisse. A sala parou de respirar gélido.
Uruha caiu de joelhos, ofegante, segurando o relicário com força quase dolorosa.
Reita correu até ela e a segurou.
— Respira… respira comigo… — pediu, roçando a testa na dela.
O pai assistia tudo perplexo, chocado, incapaz de processar.
— Isso… isso não é normal — ele finalmente murmurou. — Você vai morrer aqui, Reita.
— Otousan… se eu fosse morrer, teria sido quando sumi na neve. Ela me salvou. Impediu a maldição de drenar minha energia.
O pai de Reita, ainda sem entender o que havia presenciado, recuou alguns passos.
— Essa maldição vai te levar junto!
Reita, sem tirar os olhos de Uruha, falou baixo:
— Ela é amaldiçoada, sim. Mas também é alguém tentando ser livre. E eu escolhi ajudá-la. Se não pode aceitar isso... então não tem mais o que dizer.
O pai ficou em silêncio, balançado pela sinceridade crua do filho.
Mas seu medo continuava ali.
— Se isso der errado… — ele disse, voz trêmula — não diga que eu não avisei.
Ele virou-se, caminhando para fora antes que a emoção o traísse.
Quando o veículo sumiu pela trilha de neve, Uruha se levantou e desabou no sofá, as lágrimas pingando sobre o relicário. Reita correu até ela, ajoelhando ao seu lado perto do sofá.
— Você segurou o frio. Conseguiu.
— Eu não sei, quanto tempo mais... — ela murmurou com as mãos trêmulas segurando o relicário como se fosse um salva-vidas. — Ele estava certo numa coisa, Reita. Eu ainda sou perigosa...
Reita à sua frente, pegou suas mãos frias e colocou contra o próprio peito.
— Não. Você é forte. E está lutando. — Reita disse com firmeza, tocando o relicário junto com ela. — Nós dois estamos. Até a última lua cheia. Até o fim. Não importa quantas vezes falhe. Eu te escolho.
Uruha fechou os olhos, encostando a testa na dele.
— Eu tenho tanto medo de te perder...
— Não vou deixar você desistir. — ele admitiu. — Por isso vamos vencer isso juntos.
Lá fora, a tempestade finalmente explodiu.
Mas dentro da cabana o frio já não comandava o destino deles.
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“He bit my lip,and drank my war
From years before
She exhales vanilla lace
I barely dreamt her yesterday (yesterday)”
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