Love Like Winter
6 Novos ventos
Notas iniciais

Capítulo 6 — Novos ventos
“Calm down. come now, the cold resides with me.
I flee to, I flee to december underground.”
O som abafado do telefone tocava novamente na pequena cabana de madeira, como uma presença incômoda que não conseguia ser ignorada. Era meu pai, pela quarta vez naquele dia, insistindo em saber quando voltaríamos.
Desde que chegamos aqui, a inquietação dele aumentava. Ele sabia que algo estava acontecendo, mas não tinha ideia da verdadeira razão pela qual precisávamos permanecer naquele lugar por mais tempo do que o combinado.
Eu atendi o telefone, sabendo que a conversa seria tensa. Ele não estava satisfeito, pois a situação não era favorável.
— Moshi-Moshi? — mal atendi, ele já começou a falar, sua voz carregada de frustração.
— Quando vocês voltam? Vocês disseram que seria só dois dias seguintes ao Natal! Já se passaram mais dias, e vocês continuam aí. O que está acontecendo? — Ele questionava com uma urgência que aumentava a cada ligação.
Olhei para vovó Ayumi, que estava sentada na poltrona próxima à lareira, seus olhos fechados, mas claramente atenta à conversa.
Os rapazes já tinham se recolhido ao quarto para se esquentar depois do encontro congelante com a youkai Uruha-san. O crepitar suave da lenha queimando contrastava com a tensão crescente do outro lado da linha.
— Otosan, ainda não sei ao certo quando voltaremos. Pode ser que fiquemos até depois do ano novo... — respondi, tentando manter a voz firme, mas sentindo o peso de tudo que estava acontecendo sobre meus ombros.
A insatisfação de meu pai estava claramente evidente.
— Vocês já passaram do prazo! Era para ser uma visita rápida à cabana, não para morar aí! Por que você precisa ficar tanto tempo? — ele continuou, agora claramente irritado.
Eu sabia que ele não entenderia a verdadeira razão. Não agora. Estávamos ali por uma razão importante. Não conseguia explicar a ele, mas estava envolvido em algo mais antigo e perigoso do que ele poderia imaginar.
— Otosan, a verdade é que... — hesitei, mas a voz da minha avó cortou-me, suavizando a atmosfera tensa que se formava.
Minha avó estendeu a mão, pedindo o telefone com um gesto sereno. Sem pensar duas vezes, entreguei o celular que ela deixou no viva-voz, aliviado por ter alguns momentos de respiro.
Ela sempre soube como lidar com meu pai e acalmar suas inquietações com palavras sábias, era o elo que mantinha a família conectada, e ele respeitava sua sabedoria, mesmo que às vezes não entendesse completamente suas ações.
— Não se preocupe, querido. Ficaremos aqui por mais alguns dias, talvez até depois do ano novo. Quero visitar o templo, e orar para as almas aflitas encontrarem seu descanso. — disse minha avó, sua voz calma e firme, dissipando, por ora, a tensão.
Eu sabia que essa visita ao templo não era apenas uma questão de devoção. Havia um propósito mais profundo, algo que minha avó vinha se preparando desde minha infância, mas que agora, em meio à incerteza e à presença agora visível da youkai, começava a tomar forma.
Meu pai suspirou do outro lado da linha, sua frustração era evidente, mas ele tentou conter a irritação ao ouvir a voz calma e firme da vovó Ayumi.
— Okāsan... — ele começou, a voz mais suave agora. — Eu sei que você tem suas razões, mas não consigo evitar a preocupação. Quando Reita havia sumido na neve anos atrás, foi um pesadelo. Não posso suportar passar por aquilo de novo, e agora vocês estão aí, isolados, com essa temida lenda da youkai da neve. E se algo acontecer? Eu perdi a confiança nesse lugar... — Ele parou, como se não quisesse lembrar do passado.
Vovó Ayumi sorriu levemente, compreendendo o medo do filho, e fez uma pausa antes de responder.
— Querido, eu entendo o seu medo, e não posso negar que há riscos. Mas estou aqui para proteger seus filhos, assim como protegi Reita-san quando era criança. — Ela olhou para mim com um olhar reconfortante. — Já enfrentamos outros perigos da floresta, e há mais em jogo do que você imagina. — fez uma pausa antes de continuar — Uruha-san... ela finalmente poderá encontrar a paz, e Reita faz parte dessa jornada. Não podemos abandoná-la agora.
Meu pai ficou em silêncio por um momento, claramente confuso e preocupado.
— Uruha-san? Quem é essa? O que ela tem a ver com vocês? — ele perguntou, sua voz mais tensa de novo.
— É uma história longa, e acredito que Reita possa lhe contar melhor quando voltarmos. Mas saiba que estamos cuidando de algo muito antigo, uma maldição que precisa ser quebrada, e Reita é parte essencial disso. Por isso, ficaremos mais alguns dias. — Vovó Ayumi manteve seu tom sereno, mas firme. Ela estava ciente de que meu pai não compreenderia tudo de imediato, mas considerou melhor deixar assim até que a situação fosse resolvida.
— Okāsan, eu... acredito que pode parecer absurdo, até mesmo para você. Uma maldição? Este cenário não é seguro. Vocês deveriam voltar imediatamente, antes que algo de ruim acontecesse! — ele exclamou, com a frustração retornando à sua voz. — Isso não tem lógica. Lendas são apenas histórias, Ayumi-san. Não se deixe influenciar por isso.
Vovó respirou fundo antes de responder.
— Às vezes, as histórias são mais do que parecem. Elas têm raízes profundas e os significados ocultos. — Ela falou com uma confiança que fez meu pai suspirar de novo, agora mais resignado. — Eu prometo que cuidarei de seus filhos como sempre fiz, e voltaremos quando for seguro. Confie em mim, querido.
A linha ficou em silêncio por um momento, e eu podia sentir a hesitação dele.
— Tudo bem, mas se algo acontecer, se vocês se sentirem em perigo, voltem imediatamente. Eu não posso perder vocês — ele finalmente disse, sua voz carregada de emoção. — Só... por favor, cuidem-se. E mantenham-me informado.
— Sempre. — Vovó respondeu suavemente, e antes que a ligação fosse encerrada, ela acrescentou: — Reita-san está mais forte do que você imagina, querido. Ele fará o que é preciso, e voltaremos juntos.
O silêncio que se seguiu indicava que meu pai processava aquelas palavras, mesmo que ainda duvidasse.
Quando a vovó me devolveu o telefone, olhei para ela com admiração. Ela sempre sabia como manter a calma, mesmo diante da pressão.
— Ele ficará bem. Está preocupado, mas confia em nós. — Ela disse, voltando a se encostar na poltrona e fechando os olhos novamente. — Você também deverá ficar bem, mas sabe que o tempo está correndo.
Seus olhos pequenos e brilhantes eram um reflexo de uma sabedoria silenciosa, que parecia saber mais do que eu poderia compreender.
Apesar dos perigos, com ela ao nosso lado, eu sabia que havia esperança de um final feliz.
Agora, era apenas uma questão de tempo até que o nosso destino fosse decidido.
Lá fora, o céu já começava a se transformar. A lua cheia de algumas semanas atrás ainda estava fresca na minha memória, a primeira de uma série de quatro luas que culminaria no desfecho de tudo que Uruha-san havia contado.
Quando a primeira lua cheia brilhou no céu, senti algo diferente no ar. Naquela noite, os sonhos que me atormentavam desde a infância começaram a se intensificar, cheios de símbolos e figuras misteriosas. Sussurros surgiam em minha mente, promessas veladas e avisos sobre o que estava por vir. Como se eu estivesse sendo chamado para algum lugar além do lago, uma força me atraía.
—.—.—.—.
A neve caía suavemente sobre a floresta, criando um silêncio quase sobrenatural ao redor da cabana. A atmosfera era tensa, cheia de incertezas e expectativas. Era noite da véspera de Ano Novo, Reita estava sentado ao lado de Uruha, na varanda, sua mente absorta nas suas palavras sobre o que ela falou sobre o feiticeiro ecoavam em sua cabeça.
Restavam apenas três luas cheias até que o ritual pudesse ser realizado e, com elas, a possibilidade de reverter a maldição que a aprisionava há séculos. Era difícil acreditar que sua vida, que até recentemente era tão comum, havia-se entrelaçado com o destino de uma youkai da neve, uma lenda viva que aguardava sua libertação.
Uruha e Reita levantaram e foram caminhar em silêncio até o lago congelado que ficava perto da cabana. A noite estava clara, o céu repleto de estrelas, e o ar gelado parecia intensificar a conexão entre eles. A neve sob seus pés emitia um som suave a cada passo, enquanto o mundo ao redor parecia estar em uma quietude sobrenatural.
O lago, coberto por uma camada de gelo cristalino, refletia a luz da lua crescente. Para Uruha-san, aquele lugar carregava uma sensação mista de nostalgia e dor. Foi aqui, há muitos séculos, que ela havia perdido tudo, onde seu mundo desmoronou quando o corpo de seu amado general Imagawa desapareceu nas profundezas geladas. Agora, ela se encontrava novamente no mesmo lugar, mas com a chance de quebrar finalmente o ciclo de sofrimento.
— Eu costumava vir aqui, sabe — disse Uruha, quebrando o silêncio enquanto seus olhos observavam o lago. — Mesmo depois de sua morte... Gomem, estou me referindo à morte do General Imagawa.
Reita permaneceu em silêncio, ouvindo as palavras dela, tentando imaginar a imensidão da dor que Uruha carregava consigo durante todos aqueles séculos.
— Eu vinha para cá, esperando sentir a sua presença. Eu acreditava que, se observasse com atenção suficiente, poderia enxergá-lo através do gelo, como se sua alma ainda estivesse presa lá embaixo.
Reita sabia que, embora sua conexão com o passado fosse forte, ele nunca poderia entender completamente o fardo que ela havia suportado.
— Você esteve sozinha por um longo período... — Reita sussurrou, recuperando finalmente a capacidade de expressar-se. — É difícil para mim imaginar como deve ter sido para você...
Uruha soltou um suspiro suave, seu olhar ainda preso no lago.
— Estar sozinha é diferente de estar sem esperança. Durante esses anos, séculos... eu vi pessoas, assisti ao mundo mudar, mas nunca consegui me sentir parte dele — suspirou — Minha única companhia era a dor e as lembranças... até que você apareceu.
Uruha virou-se para encará-lo, seus olhos refletindo uma tristeza profunda, mas também uma chama de esperança.
— E então, tudo mudou, fiquei esperando aquela criança crescer e voltar para mim.
Reita a observou por um momento antes de se aproximar. Ele colocou uma mão gentilmente no ombro de Uruha, sentindo o frio que sempre a rodeava, mas também o calor que começava a crescer entre eles.
— Não vou deixar você passar por isso sozinha novamente — disse, sua voz baixa, mas determinada. — Vamos ao templo procurar os possíveis objetos que pertenciam a sua família e ao seu general.
Uruha não conseguia afastar o medo de que Reita estivesse se sacrificando por algo que talvez não pudesse ser revertido. Ela sabia que o caminho que estavam trilhando era perigoso, e o risco para Reita era real.
Eles ficaram em silêncio por mais alguns minutos, apenas apreciando a presença um do outro. Para Uruha, havia algo profundamente reconfortante em estar com Reita, como se o peso dos séculos de sofrimento estivesse lentamente começando a se dissipar.
—.—.—.—.
Reita e Uruha estavam parados à beira do lago congelado, observando a superfície brilhante que refletia as luzes do crepúsculo. O frio cortante envolvia a cena, mas a expectativa de uma nova jornada aquecia seus corações. Enquanto contemplavam a beleza do inverno, algo chamou a atenção de Reita. Ele avistou, à distância, uma figura gesticulando e acenando para eles.
Com um olhar curioso, Reita focou sua visão e logo reconheceu Ruki, todo agasalhado em roupas quentes: um gorro que cobria suas orelhas, luvas grossas que protegiam suas mãos e botas altas, ideais para não afundar na neve.
Era um espetáculo ver seu irmão tão envolto em camadas de roupas, como uma bolha de calor em meio ao frio intenso.
Reita, com um sorriso formidável, tocou suavemente o braço de Uruha, sinalizando para que caminhassem juntos até Ruki, que parecia estar congelando em meio àquelas temperaturas gélidas.
— Obasan, — chamou Reita, com um tom brincalhão, — está chamando! A ceia já está pronta!
Uruha olhou para Reita com um semblante de tristeza, como se estivesse se despedindo de um momento que não queria deixar para trás.
Era visível em seu olhar a hesitação de se afastar do aconchego que construíram juntos. Ruki, percebendo a expressão de Uruha, não hesitou em intervir.
— Uruha-san, — disse ele, com um sorriso acolhedor, — Obasan Ayumi convidou você também para comemorar a noite de Ano Novo conosco.
Uruha hesitou, lembrando-se do que acontecera na última vez que estivera próxima deles. A lembrança de ter “congelado” todos ainda pesava em sua mente.
— Não posso ficar perto de vocês, lembra da última vez quase congelei a todos?
Ruki, com um olhar compreensivo, respondeu:
— Eu sei, mas ela disse que tem uma ideia que pode ajudar.
Reita, incentivando Uruha a superar suas inseguranças, afirmou:
— Então, vamos, Uruha-san! Este Ano Novo você não passará sozinha.
Com essas palavras, e o encorajamento de Reita trouxe um novo brilho aos olhos de Uruha. Ela sentiu que as amizades e os laços que estavam formando eram mais fortes do que qualquer medo.
Assim, juntos, os três se dirigiram para a cabana, prontos para celebrar o novo ano que se aproximava, aquecidos não apenas pelo calor das roupas, mas pelo laço inquebrável que os unia.
—.—.—.—.
Assim que chegaram à cabana, o ar quente e acolhedor os envolveu. Uruha-san hesitou na entrada, seus olhos percorrendo a pequena sala de estar onde a lareira crepitava suavemente, aquecendo o ambiente.
Ela estava visivelmente desconfortável, com as mãos cruzadas nervosamente na frente do corpo. Seus olhos se voltaram para Reita-san, buscando algum tipo de segurança antes de darem mais um passo à frente.
Vovó Ayumi, com sua típica serenidade, se aproximou de Uruha-san com um sorriso suave. Ela estava usando um quimono festivo, refletindo a tradição da noite de ano novo, e suas mãos enrugadas, mas firmes, seguravam uma tigela de sopa quente.
— Uruha-san, por favor, entre e sinta-se à vontade. Esta noite é especial. — Ayumi-san disse com uma voz suave, mas cheia de confiança, mostrando a mesa de jantar arrumada com capricho, cheia de pratos quentes e deliciosos.
Uruha deu um passo hesitante para dentro, observando a mesa. Os rapazes já estavam perto da lareira, rindo e conversando em meio ao calor acolhedor, mas sempre com um olho atento a ela.
Sabiam o que poderia acontecer se Uruha perdesse o controle, mas havia uma confiança silenciosa de que tudo ficaria bem.
— Obasan... — Uruha começou, sua voz delicada, cheia de dúvidas e receio. — Eu não deveria estar aqui... O frio dentro de mim... Ele pode... — Sua voz falhou, enquanto lembranças sombrias de solidão e perigo a inundavam.
Vovó Ayumi sorriu gentilmente, aproximando-se ainda mais e pousando a tigela de sopa em suas mãos frias. O calor subiu imediatamente pela pele de Uruha, e por um breve momento, ela sentiu algo mais do que apenas o gelo que sempre a acompanhava.
— Não se preocupe, minha querida. Eu pensei em algo que pudesse ajudar.
Vovó Ayumi apontou para uma pequena mesa perto da lareira, coberta com cobertores de lã e travesseiros macios.
— Vamos comer perto do fogo, e você ficará perto do calor o tempo todo. Dessa forma, sua energia se manterá sob controle. E, além disso, Reita-san estará ao seu lado, ele avisará se a sua energia fria começar a escapar.
Reita, já sentado no canto acolhedor, sorriu para ela, estendendo a mão como um convite silencioso.
Uruha-san olhou para todos à sua volta. Era uma cena tão simples e doméstica, mas algo que ela não experimentava havia séculos. O calor da lareira, as risadas suaves, a comida compartilhada... tudo isso a tocava profundamente.
Uruha se aproximou lentamente de Reita, sentindo o calor do fogo começar a descongelar não apenas seu corpo, mas também seu coração.
— Eu... — hesitou, olhando para Ayumi, seus olhos brilhando com uma mistura de emoção e gratidão. — Não sei como agradecer... Passei tantos séculos sozinha... Havia esquecido como era... estar com uma família.
Vovó Ayumi sentou-se ao lado dela, com um olhar cheio de sabedoria e compreensão.
— Não precisa agradecer, Uruha-san. Esta é a noite em que celebramos novos começos. Hoje, você está conosco, e isso significa que não está mais sozinha. Famílias são feitas de quem escolhemos para compartilhar nossas vidas, e esta noite você faz parte da nossa. — A voz de Ayumi-san era calma, como um bálsamo sobre as feridas do passado de Uruha-san.
Uruha mordeu o lábio, tentando controlar a enxurrada de emoção que o envolvia. Por séculos, ela perambulou sozinha, presa à sua maldição, com medo de machucar qualquer um que se aproximasse dela.
Mas ali, naquela pequena cabana, cercada por pessoas que a aceitavam, ela sentiu uma nova esperança.
— Arigatô — sussurrou, com uma lágrima escorrendo por sua bochecha.
Ela olhou para Reita, que segurou sua mão, quente e firme, pela primeira vez em um longo período. Uruha-san sentiu que, o gelo dentro dela poderia ser derretido.
Enquanto todos se acomodavam para a ceia, as risadas suaves enchiam a cabana, misturando-se com o crepitar do fogo. Uruha-san, sentada ao lado de Reita, observava tudo em silêncio, ainda absorvendo o fato de que estava, pela primeira vez em séculos, rodeada por uma família verdadeira.
A cada garfada, a cada conversa, ela sentia-se menos uma entidade isolada e mais uma pessoa. O frio que a havia aprisionado por tanto tempo parecia um pouco menos intenso, o novo ano parecia trazer uma promessa de calor e vida.
Naquele momento, Uruha-san percebeu que sua jornada de solidão havia chegado ao fim. O ano novo não seria apenas uma celebração de novos começos para Reita-san e sua família, mas também para ela. Finalmente, havia encontrado um lugar onde pertencia.
—.—.—.—.
Após o Ano Novo, Reita decidiu que era hora de visitar o templo antigo, um lugar que um dia já foi a morada de Uruha.
Obasan Ayumi observava Uruha com um olhar experiente, enquanto ajustava os últimos detalhes do quimono que ela havia escolhido. A sala da cabana estava banhada pela luz suave do sol da manhã, e o clima festivo do Ano Novo ainda pairava no ar.
Porém, agora era o momento de se preparar para algo mais profundo e espiritual: a visita ao antigo templo, um lugar cheio de memórias para Uruha.
O kimono que Ayumi-san havia escolhido era de uma beleza sutil e, ao mesmo tempo, majestosa. A base do tecido era branca como a neve, simbolizando a pureza e a renovação, mas também as antigas memórias que Uruha carregava consigo.
Detalhes dourados e sutis traços em vermelho se destacavam, bordados em padrões florais e ondulações delicadas que lembravam a realeza de outros tempos. O “obi” — a faixa que amarrava o kimono à cintura — era preto com folhas douradas, trazendo um contraste forte e sofisticado, simbolizando o peso da história de Uruha e a força que ela havia adquirido ao longo dos séculos.
O cabelo de Uruha, que antes caía em ondas suaves ao redor de seu rosto, agora estava amarrado elegantemente para cima, com algumas mechas soltas emoldurando seu rosto. Obasan Ayumi havia prendido o cabelo com um ornamento dourado em formato de flores, complementando a delicadeza do conjunto.
As unhas de Uruha-san haviam sido pintadas de um vermelho intenso, um toque tradicional que Obasan Ayumi sempre acreditou trazer sorte e proteção. E, em suas mãos, ela segurava um guarda-chuva cerimonial vermelho, um acessório que não só a protegeria do sol, mas também representava o equilíbrio entre tradição e modernidade.
Uruha-san se olhava no espelho, quase sem palavras, admirando sua nova aparência. Era como se ela estivesse vendo uma versão de si mesma que há muito havia esquecido.
— Não sei o que dizer... — Uruha murmurou, seus dedos acariciando o tecido do kimono. — Há séculos eu não me visto assim... como uma nobre.
Obasan Ayumi sorriu, ajustando levemente o “obi” e certificando-se de que tudo estava perfeito.
— Você sempre foi uma nobre, Uruha-san, mesmo que o tempo tenha tentado te convencer do contrário. Hoje, você vai ao templo como quem você realmente é: uma mulher forte, determinada, e agora, parte de uma nova família. — Ayumi-san falou com a calma de quem conhecia o valor das palavras. Ela recuou um pouco para admirar Uruha de longe, com orgulho.
Uruha olhou para o chão por um momento, ainda processando a gentileza e a aceitação que estava recebendo. Por tantos séculos, ela havia se visto como uma entidade trágica, uma figura condenada pela maldição. Agora, pela primeira vez em muito tempo, ela se via como uma pessoa com dignidade, pertencente a algo maior.
— Eu... não sei como agradecer por tudo isso, Ayumi-san. Depois de tanto tempo vagando sozinha, de não ter ninguém, de apenas existir como um eco do que eu fui... vocês me deram uma nova chance. — Ela olhou para o reflexo de si mesma, emocionada. — A última vez que me vesti assim foi no dia do meu casamento com o general Imagawa. Sinto que estou ressurgindo das sombras.
Obasan Ayumi se aproximou e tocou seu ombro com carinho.
— Você não precisa agradecer, Uruha-san. Tudo o que estamos fazendo é devolver a você o que sempre foi seu por direito. Além disso, você trouxe algo importante para todos nós, meu querido neto Reita. Hoje, ao visitar o templo, você está fechando um ciclo, mas também abrindo portas para um novo caminho.
Uruha-san assentiu, seu coração pulsando com gratidão e esperança.
— Como eu me pareço? — Uruha perguntou, com um sorriso tímido.
Ayumi-san riu suavemente e deu um passo para trás, avaliando o conjunto final.
— Eles mal vão acreditar no que estão vendo. — ela respondeu, com um olhar maroto. — Mas isso é bom.
— Será que eles vão me reconhecer assim? — claramente ansiosa para a reação dos rapazes.
— Sim, que vejam a força e a beleza da mulher que está ao lado deles, e não apenas a lenda que conhecem.
Uruha respirou fundo, ajeitou o guarda-chuva cerimonial em suas mãos.
— Estou pronta. Vamos mostrar a eles. — olhou para Ayumi com um brilho renovado nos olhos.
—.—.—.—.
Quando Uruha saiu do quarto para a sala principal, onde os rapazes a aguardavam, todos os olhares imediatamente se voltaram para ela. Reita, Ruki, Kai e Aoi ficaram paralisados por um momento, surpresos com a transformação.
A presença de Uruha, tão majestosa e imponente em seu kimono, era como um retorno ao passado, mas, ao mesmo tempo, trazia uma nova energia ao presente.
O som das conversas parou instantaneamente. Os rapazes, que até então estavam relaxados perto da lareira, trocaram olhares perplexos enquanto a observavam. O contraste com o passado era evidente — Uruha não era mais aquela figura envolta em sombras, com seu sobretudo pesado que carregava a marca de séculos de isolamento e sofrimento.
Agora, ela estava radiante, envolta em um kimono branco, dourado e vermelho, como uma visão vinda diretamente de uma época antiga e nobre.
Eles sabiam que estavam prestes a fazer uma jornada ao templo com uma mulher que, de fato, havia renascido.
Reita, que estava mais próximo da porta, quase deixou cair a xícara de café que segurava. Seus olhos se arregalaram, absorvendo cada detalhe da transformação de Uruha-san. Ele ficou em silêncio por alguns instantes, como se estivesse tentando encontrar as palavras certas.
— Imagawa Uruha... — ele começou, a voz saindo um pouco rouca pela surpresa. — Você está... incrível.
Kai-san, que estava sentado ao lado de seu oni-san Aoi, deixou escapar um assobio admirado, cruzando os braços com um sorriso no rosto.
— Eu diria que isso é um belo upgrade, hein? Nada contra o visual gótico de antes, mas assim... parece que estamos prestes a ver uma princesa de verdade. — Kai comentou, piscando para Uruha, tentando aliviar a tensão que pairava no ar.
Aoi-san, sempre mais quieto, apenas assentiu, claramente impressionado, enquanto Ruki-san não conseguia disfarçar a surpresa.
— Acho que ninguém aqui estava preparado para isso... — Ruki murmurou, com um leve sorriso. — Uruha-san, você parece... diferente. De um jeito bom, claro.
Uruha sorriu timidamente, ainda se sentindo um pouco estranha com todos aqueles olhares sobre ela. Mas havia algo nos olhos de Reita que a fez se sentir mais à vontade uma aceitação completa, uma admiração que ia além da aparência física.
Reita se aproximou devagar, os olhos ainda fixos nos dela, como se estivesse vendo a pela primeira vez de uma maneira diferente.
— Uruha-san... eu não sei como dizer isso, mas você parece... — Ele fez uma pausa, escolhendo as palavras com cuidado. — que você finalmente está... livre. Não da maldição, mas de toda aquela dor. Eu vejo isso em você agora.
Uruha olhou para Reita, seus olhos brilhando com uma emoção que ela há muito não sentia. Ela tocou o guarda-chuva cerimonial, quase como um amuleto de proteção.
— É como se parte de mim tivesse renascido, Reita-san. — Uruha falou suavemente, sentindo o calor da sala contrastar com o frio que emanava sempre que ficava nervosa. — Eu passei tanto tempo escondida, me vestindo como a morte, porque eu me sentia assim... morta por dentro. Mas agora, com você, com todos vocês, sinto como se eu pudesse, finalmente, viver de verdade.
Reita sorriu, estendendo a mão para tocar levemente o tecido do kimono, como se quisesse confirmar que aquela mudança era real. Seus dedos percorreram a seda fina, e ele riu baixinho, um alívio visível no rosto.
— Eu odiava aquele sobretudo... — Reita admitiu, rindo, e Uruha o acompanhou, seus olhos brilhando com a leveza que começava a encontrar. — Não te fazia justiça. Agora... agora você está do jeito que sempre deveria estar, uma linda princesa.
Ruki, sempre observador, se inclinou para Kai e sussurrou brincando:
— Será que ele vai se ajoelhar e propor um casamento agora ou só eu estou vendo isso? — Ruki riu baixo, recebendo um empurrão amigável de Kai.
— Não me surpreenderia. — Kai respondeu em tom divertido.
Uruha, ouvindo as provocações de fundo, riu junto com eles e olhou para Reita com carinho, o brilho de uma nova esperança refletido em seus olhos.
— Arigatô, Reita. Agradeço a todos vocês. Por me darem uma nova chance. — Uruha disse, antes de se virar para a porta. — E agora, acho que estou pronta para o templo.
Reita acenou com a cabeça, com um sorriso determinado.
— Então vamos, Uruha-san. Acho que o passado finalmente encontrará paz hoje.
E com isso, eles saíram da cabana, prontos para enfrentar a primeira parte dessa jornada. Procurar os objetos antigos que poderiam conter o poder de quebrar a maldição e estariam ligados à antiga vida de Uruha-san e ao general Imagawa Shōhō. O desejo de encontrar esses itens se tornou um impulso vital, e assim, eles decidiram explorar os lugares onde Uruha havia vivido e os pertences que o general havia deixado para trás.
—.—.—.—.
“As you exhale, i breathe in and sink
into the water underground
And i'll grow pale without you”
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