Love Hurts!
13 You drive me crazy!
Notas iniciais
“I can’t stop the way I feel;
Things you do don’t seem real;
Tell you what I got in mind;
‘Cause we’re ruinnin’ out of time;
Won’t you set me free?
This waitin’ ‘round killin’ me…”
She Drives Me Crazy
Fine Young Cannibals
Chicago Med (segunda, 27/2 – 10:45 a.m)
Connor
—Pressão caindo, batimentos em 110. Tem algo errado acontecendo! – Martin alerta fazendo-me encara-lo irritado.
—Não me diga. O que te deu essa impressão? – ironizo, tentando descobrir a origem do sangramento.
—Parece-me que se esqueceu de suturar alguma coisa doutor Rhodes – Bekker acusa tentando intrometer-se, de novo, e preciso de toda minha força de vontade para não xinga-la ou expressar o comentário mal educado que estive segurando até agora – Claramente esqueceu algo – insiste.
—Não esqueci. Verifiquei cada sutura antes de começar a fechar o peito – asseguro, quebrando o ultimo ponto, reabrindo o peito do jovem Donald. Por sorte não havíamos terminado de fecha-lo completamente quando surgiu este novo problema.
Toda a cirurgia havia sido completamente diferente do que esperávamos. O que seria apenas uma tranquila troca de válvulas (mesmo o paciente tendo sido submetido a outro grande procedimento dois dias atrás), transformara-se num verdadeiro tormento e teste não apenas de minhas habilidades, mas de minha paciência.
Primeiro, quando abrimos o peito verificamos que além das válvulas danificadas (ele as havia recebido apenas três meses atrás em Nova York, onde morava até então), duas veias estavam parcialmente entupidas, o que, se por um lado foi ruim por ter sobrecarregar seu coração incrivelmente fraco para alguém tão jovem.
E tudo isto só havia vindo à tona por conta das dores de cabeça frequentes que o rapaz vinha sentindo, ao ponto de lhe causar náuseas. Ao vir procurar atendimento, descobrimos um edema no cérebro que precisava de intervenção e, por conseguinte os problemas no coração se revelaram durante os exames pré-operatórios.
—Doutor Rhodes, não há problema algum em reconhecer que errou ou simplesmente esqueceu de verificar alguma sutura – a voz irritante de Bekker chega a meus ouvidos e puxo o ar com força. Estava cada vez mais difícil manter o controle.
—Não teria problema em fazê-lo, doutora Bekker, se isto tivesse acontecido, o que não é o caso. Verifiquei cada mínima sutura – reitero.
—Vamos inserir contraste e ver o que descobrimos – Latham finalmente intervém – Doutora Reese, por favor, insira o liquido — comanda, nossa atenção se concentrando na tela as costas dele – Doutor Rhodes está correto. O sangramento está vindo de outro local. Parece-me que temos outra artéria com problema – avisa, indicando o local na tela.
—Tem razão doutor Latham – Bekker concorda – Acho que o melhor a fazer é uma trombo aspiração ....
—Acredito que o stent seja a melhor escolha – retruco, cortando-a, repetindo mais uma vez mentalmente meu mantra particular desde que a cirurgia começara a fim de evitar perder o controle com as continuas discordâncias dela com respeito a minha conduta e escolhas durante todo o procedimento – Não podemos arriscar que o bloqueio retorne depois de o fecharmos e precisemos submetê-lo a um novo procedimento. Além do mais isto pode ser fruto do esforço exagerado ao qual o coração esteve submetido ultimamente. O stent dará tempo a ele descansar e recuperar ritmo e funções normais– argumento.
—Discordo – Bekker responde de imediato...Grande novidade!—Trata-se apenas de um coagulo. Aspiramos e pronto. Se puser o stent e não der certo, ai sim seremos obrigados a um novo procedimento – argumenta, voltando-se (sei lá por que) para Sarah – Não concorda comigo doutora Reese? – pergunta pegando-a de surpresa.
—Acho....- começa a dizer, cautelosa – Que nada tem sido ou corrido como esperado desde o começo. Honestamente, no momento não me sinto capacitada a responder com total segurança – admite, sincera e não posso evitar sorrir discretamente. Sarah sempre me surpreende com sua franqueza e retidão, o que me faz ama-la cada dia mais.
—Doutor Latham? – Bekker muda de estratégia, trazendo-o para o debate. Havia aprendido no pouco tempo junto a ele que gostava de observar e interferir muito pouco nas decisões dos membros de sua equipe, muito embora a ultima palavra geralmente era a sua. O que neste momento foi ruim para mim.
—Vamos fazer como a doutora Bekker sugeriu – declara, me deixando estupefato –Prossiga – ordena.
—Doutor Rhodes, pode me dar licença? – Bekker “pede”, já atravessando minha frente, ela mesma preparando e conectando o aspirador ao tubo iniciando a aspiração assim que nossa instrumentista libera, sorrindo satisfeita ao visualizarmos o coagulo desmanchando. Porém sua alegria dura pouco – O que houve?? – questiona quando os monitores emitem novos sons de alerta.
—Parece que temos outra obstrução – Sarah avisa, inserindo mais contraste – Bem ali, alguns centímetros abaixo da primeira – indica.
—Como isso é possível? – Bekker questiona, visivelmente irritada.
—Não sei, mas faremos como Rhodes queria. Preparem o stent – Latham ordena.
Não vou negar: um sentimento mesquinho de vingança dominou minha mente por alguns segundos. Tratei de afasta-lo pois o que importava ali não era quem estava certo e sim o que seria melhor para o paciente.
Posiciono o stent, abrimo-lo aguardando alguns segundos, respirando aliviados quando o coagulo se desfaz, aguardando mais algum tempo para nos certificarmos que nenhum outro surgiria.
—Bom trabalho. Vamos fechá-lo e deixar este jovem ter o merecido repouso – Latham sugere – Doutora Reese, auxilie doutor Rhodes na sutura interna. Quero que pratique mais. Doutora Bekker, sutura externa – coordena nosso chefe e mentor, entrelaçando os dedos enquanto ambas trocam de posição, Sarah ficando a minha frente enquanto Bekker ocupa o lugar onde ela estava, nós três começando a suturar o peito de Donald Miller em sintonia e principalmente em silencio. Um agradável e bem-vindo silencio.
Tenho que admitir: ter Sarah junto a mim era imensamente mais agradável do que ter Bekker. Não pelo fato de estarmos dormindo juntos, mas por ela ser completamente focada no aprendizado que estava tendo. Seguia cada instrução minha com rapidez e eficiência.
Estava deixando-a realizar a sutura praticamente sozinha em parte por querer que aprenda, conforme Latham dissera, em parte por estar sentindo meu dedo indicado direito, que uso para apoiar o cabo do bisturi bem como os fios de sutura, levemente dormente. O corte que levei ontem no caco de vidro passara a incomodar bastante a partir da metade da cirurgia causando dor e essa sensação de dormência. Cada vez que precisava apoiar algo sobre ele sentia uma pontada aguda que refletia por todo meu braço. Teria que lembrar de verificar se havia algum fragmento lá dentro após deixarmos a SO.
—Está correto doutor Rhodes? – a voz de Sarah me traz de volta do devaneio e me concentro no procedimento. Ou tento.
—Uhum – murmuro, envolvendo suas mãos com as minhas, guiando seus movimentos – Só um pouco mais de firmeza e força para deixar o nó seguro. Lembre-se de que estes pontos serão absorvidos pelo organismo. Se não cumprirem sua função, ou seja, se não fecharem direitinho, a parte interna ficara aberta e, por conseguinte a externa será a única proteção para os órgãos aqui contidos – oriento, sentindo meu corpo inteiro reagir a proximidade do seu.
Era cada vez mais difícil ficar assim, tão próximo, sem sentir desejo. Naquele momento, mesmo sob tensão, mesmo ciente de tudo e todos a nossa volta, não pude evitar ficar excitado. O pior era que não podia me afastar repentinamente ou chamaria duplamente atenção tanto pelo ato em si quanto pelo volume que se evidenciava sob minha calça. Saber que era correspondido também dificultava as coisas para mim.
Ao notar que estávamos prestes a terminar, começo a buscar lembranças, como direi, brochantes, a fim de diminuir minha excitação ao um nível mínimo, no que ela não ajuda já que encosta seu corpo ao meu quase que inteiramente fazendo cada movimento repercutir criando ondas de eletricidade que me percorrem de alto a baixo numa rapidez estupenda!....Porra! Preciso me controlar e rápido antes que alguém, além dela, perceba – admoesto-me, forçando-me a pensar em situações pouco ou nada excitantes, olhando de lado, tenso ao notar Bekker aproximar-se....Droga! Se essa infeliz perceber algo é bem capaz de anunciar aos quatro ventos além de envergonhar Sarah! -preocupo-me tendo o cuidado de posicionar-me de forma a não permitir que visse minha cintura caso olhasse (por alguma razão ) para o chão ou nesta direção, Sarah ajudando-me (consciente ou inconscientemente, não sei) ao posicionar-se de frente para ela.
—Terminamos aqui – anuncia – Quer que a ajude doutora Bekker? – pergunta, afastando-se e me levando junto consigo.
—Não precisa doutora Reese. Se tem uma coisa na qual sai-se muito bem é em suturas externas – elogia, me dirigindo um olhar desafiador (só não entendi porque!) – Acho que já poderíamos libera-la, não acha doutor Latham? Não é bom para uma gestante de quase cinco meses que passou pelos problemas de saúde recentes os quais ela enfrentou, ficar tantas horas assim de pé, na mesma posição – sugere e entendo o desafio.
Filha da...xingo-a mentalmente, seu riso cínico fazendo-me ter certeza que notara meu “estado” físico.
—Não é necessário, estou bem – Sarah adianta-se, posicionando-se de forma a me dar cobertura e só não a beijo ali mesmo para evitar mais fofocas e constrangimentos – Obrigados por preocupar-se, doutora Bekker – agradece, sorrindo gentilmente.
Essa é minha garota!, penso sorrindo minimamente....Me leva a loucura de vez em quando, principalmente com suas variações de humor, mas apoia-me quando preciso! – lembro, recordando os acontecimentos desta manhã quando quase me bateu (algo que parecia gostar muito de fazer!) ao ter uma crise de ciúmes ao cruzarmos com Lilian no elevador.
Minha vizinha pedira desculpas por não ter comparecido ao chá de bebê no sábado pois estivera ocupada preparando uma aula-palestra para uma das matérias de seu curso, comprometendo-se a ir logo mais a noite em casa entregar os presentes que comprara mesmo eu tendo dito não precisar fazê-lo.
Sarah questionara quem a havia convidado e fiz a burrice de admitir ter sido eu e não Claire, o que acirrou suas desconfianças acerca de eu ter tido um envolvimento com a garota (nos pegamos uma única vez, dentro elevador, semanas depois de Robin ter ido embora e não rolou nada além de um amasso, caprichado, mas apenas amasso). Mais uma vez, quando me questionou a respeito, cometi a sandice de ficar em cima do muro, em parte por ter notado que Emma estava atenta a nossa conversa, o que serviu para irrita-la ainda mais.
Resultado: depois que deixamos as meninas na escola, viemos em silencio total e absoluto até o Med e assim permanecemos até iniciarmos os preparativos para a cirurgia.
—Muito bem, vamos levar o jovem senhor Miller para a UTI, falar com a família e aguardar o decorrer dos fatos – Latham comanda me trazendo de volta mais uma vez – Doutor Rhodes, me acompanhe para que possamos dar as devidas explicações aos pais. Doutoras Bekker e Reese, podem descansar – ordena, nos dando as costas.
—Saiba que se algo der errado porei toda a culpa em você! – Bekker cochicha em meu ouvido ao passar por mim – Ah – para na metade do caminho, voltando-se para mim, falando em alto e bom som — Talvez fosse melhor ir ao banheiro aliviar-se – faz aspas no ar – Antes de falar com os Miller! – sugere, rindo cinicamente, dando as costas sem esperar resposta.
—Filha da mãe! – resmungo baixinho sentindo a raiva formar um nó em minha garganta, que só piora ao ver as expressões de Sarah e do resto da equipe.
Respiro fundo, sorrindo amarelo, saindo sem dizer nada, dando uma pequena corrida a fim de alcançar Latham antes que entrasse no elevador.
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Sarah (12:15 p.m)
Satisfação, irritação, cansaço, dor, alegria, vergonha....Eram tantos os sentimentos em meu peito ao termino da cirurgia que mal podia escolher qual deles se encontrava em destaque sobre os outros.
Estava alegre e satisfeita por ter aguentado todo o procedimento mesmo sentindo, do meio para o final, minhas costas arderem de dor. O cansaço até havia me rondado algumas vezes, mas logo o mandava embora atenta as mãos habilidosas de Connor.
Vê-lo em ação, operando, era tão excitante quanto estar na cama com ele. A forma firme precisa, vigorosa, com que realizava as incisões, a delicadeza com que eliminava as barreiras até alcançar seu objetivo era fascinante e contagiante. O amor que demonstrava pelo que fazia era inspirador e mesmo que não estivéssemos envolvidos fora do trabalho seria extremamente gratificante estar ao seu lado em uma SO. O que não diminuía em nada a vergonha que senti ante a sugestão feita por Ava Bekker antes que deixasse sala.
—Sarah, digo, doutora Reese – a voz de Miah chama minha atenção e estanco, voltando-me para ela – Estamos indo comer alguma coisa nos trailers lá fora. Quer ir conosco? – convida, apontando dela para Beth, a instrumentista da equipe principal de Latham, que sorri afável e Val, sua auxiliar.
—Pode ser – anuo, sorrindo pequeno, recomeçando a andar com elas a meu lado.
—Hora de as garotas do time trocarem confidencias! – Val exclama quando entramos no elevador, apertando o botão do térreo.
—Neste caso devemos chamar a doutora Bekker – Beth sugere e noto as caretas nas outras duas – O quê? Ela é parte do time agora- argumenta.
—Só se for time de uma só pessoa – Miah comenta, recostando-se a parede interna de frente para mim, me observando atentamente durante alguns segundos antes de destilar seu veneno – Ela está louquinha para pegar o Rhodes, sabe disso não sabe? – interroga e sinto meu sangue gelar.
—Miah! – Beth ralha, fazendo cara feia para ela.
—Bekker quer se enfiar na cama do Rhodes desde o primeiro dia e só não o fez ainda ...- para, refletindo um segundo – Na verdade acho que já o fez pelo menos uma ou duas vezes! – insinua, saindo antes de nós assim que o elevador para.
—Não ligue para ela Sarah. Miah às vezes é meio maldosa e vê malicia em tudo – Beth aconselha.
—As vezes? Meio? Ah tá! – Val ironiza, rindo torto, dando voz ao que eu mesma havia pensado.
Limito-me a sorrir amarelo continuando (por algum instinto masoquista, só pode!) ao lado delas até chegarmos à área externa indo direto para o trailer do Mike, o mais requisitado pelo pessoal devido grande variedade de comida oferecida.
—Hoje eu pago, podem pedir – Miah se oferece, me encarando com um olhar de “ainda esta aqui” ao qual respondo erguendo o queixo.
—Boa tarde doutoras. O que vão querer? – Mike pergunta, sorridente como sempre.
—Uma salada primavera e frango xadrez com macarrão – peço – Um copo de suco de abacaxi com hortelã, por favor – acrescento, retirando minha carteira do bolso.
—Falei sério quando disse que pagaria doutora Reese – Miah intervém, segurado minha mão – É por minha conta – repete e decido não contestar até porque queria ver aonde ela queria chegar com sua “gentileza” repentina.
—Obrigada. Vou sentar enquanto aguardo Mike, me avise quando estiver pronto – peço.
—Não, não, levo em sua mesa Sarah, pode ficar sentadinha descansando – prontifica-se me fazendo olhar o reflexo na lataria do food truck. Não estava tão abatida assim a ponto de ele achar que não aguentaria levantar e vir pegar meu pedido, porém mais uma vez, meu lado racional e moderador, se pronuncia e obedeço, sorrindo minimamente.
—Obrigada então. Vou sentar ali – indico uma mesa debaixo de algumas arvores, a sombra, as demais anuindo com acenos.
Sigo para o local cruzando com Ava, que chegava distraída, digitando alguma coisa em seu celular. Penso em chamar sua atenção, mas desisto, deixando-a seguir em frente, sentando a mesa, rindo da ironia, pois mesmo não tendo sido incluída no convite inicialmente, agora iria incluir-se com certeza. E o faz assim que ergue os olhos encontrando Beth, Val e Miah, que apontam em minha direção. Respondo ao aceno lamentando, em parte, sua presença, o que faria Miah recolher as armas, guardando seus comentários maldosos para si mesma. Ela não era burra. De certo não iria bater de frente com a favorita de Latham.
Uma parte de mim agradecia, mas outra (a masoquista!) lamentava, pois se havia alguém naquele hospital capaz de me dizer as reais intenções de Ava Bekker em relação a Connor, este alguém era ela.
—Quem desdenha quer comprar – murmuro, observando as duas atentamente.
Miah era dissimulada o suficiente para sorrir de forma amigável para alguém sobre a qual estava fazendo insinuações maldosas poucos minutos atrás. Mais: era petulante e cínica o bastante para esfregar na cara de Ava (e na minha) que trepara (não vejo descrição melhor!) com Connor na noite de ano novo, depois que a equipe fora embora, dentro de uma das salas de atendimento.
Como sei? Simples: duas das enfermeiras de plantão aquela noite os viram, mesmo ele tendo o cuidado de fechar a cortina da sala.
Celly, a enfermeira que estava na ilha principal, dissera que ela o incitara desde o momento em que o restante da equipe saíra não se importando com sua presença muito menos com a chegada de Cait Harris. Fora justamente depois da saída desta que ele a conduziu a uma das salas onde treparam.
Confesso: mesmo que naquela época ainda não éramos nada um para o outro, o fato despertava-me raiva. Muita raiva. Especialmente por me fazer sentir tão vadia quanto ela posto que alguns dias antes, durante a confraternização de natal no Molly’s, eu mesma havia cedido mais uma vez aos impulsos dele e meu e transado, sem nenhum pudor, em um canto escondido enquanto nossos amigos cantavam canções natalinas no salão!
Outra coisa que me fazia sentir raiva do ocorrido era o fato de ela trazê-lo à baila sempre que possível, de forma indireta ou direta, com aqueles com quem podia fazê-lo (sim, ela havia contado sua proeza a algumas enfermeiras que considerava suas amigas. O fato não se espalhou pelo Med inteiro por puro milagre!).
Agora mesmo, enquanto caminhavam em direção a mesa, podia ver seu riso provocativo para Ava. Quase dava para ouvir seu ego dizendo “ Não é a única a ter pego ele. Eu também peguei!”.
—Vadia! – xingo baixinho, forçando um sorriso quando se aproximam.
—Então iam fazer uma reunião do clube da Lulu e não pretendiam me chamar? – Bekker queixa-se, sentando de frente para mim, pondo o prato a sua frente.
—Não se trata de reunião doutora Bekker. Apenas me convidaram para almoçar e aceitei – explico, agradecendo quando Mike traz meu pedido – Obrigada – digo, lhe dirigindo um sorriso terno.
—Tudo para a garota do Connor – brinca e imediatamente noto ambas, Ava e Miah, ficarem tensas.
Durante alguns minutos ninguém diz nada. Limitamos-nos a comer num silencio relativamente constrangedor.
—Não te irrita dizerem este tipo de coisa? – Bekker pergunta de repente e a olho de cenho franzido, intrigada – A garota do Connor – repete fazendo aspas no ar – Não te irrita dizerem isto? Ou não sabe que estão te tratando assim pelos corredores? – interroga e suspiro.
—Ouvi algo a respeito – digo, mexendo na salada, sentindo a fome esvair-se rapidamente.
Na verdade escutara bem mais do que admiti. Mesmo antes de estarmos oficialmente juntos, antes de todos, e aquela altura isto significava dizer todos mesmo, desde o laboratório de Patologia a diretoria do hospital, tomarem conhecimento de nosso envolvimento (só não sabiam os detalhes, evidente), antes disso acontecer algumas pessoas me chamavam assim por acharem que estávamos nos encontrando as escondidas. Por que pensavam isto? Nunca entendi nem procurei saber. O fato é que antes de ser oficialmente A garota do Connor, eu já o era extra oficialmente.
—Então não te irrita? – reitera a pergunta, me encarando, séria – Assim, não que seja algo ruim ser a garota de alguém. Mas daí a ficar conhecida como...
—Tenho minha individualidade e meu valor aqui dentro – retruco, me mexendo, desconfortável, na cadeira – Se algumas pessoas querem me reduzir a ser a garota de alguém, não posso fazer nada – afirmo, tranquila – Sei meu valor e sei que não conquistei absolutamente nada aqui por ter ido para a cama com Connor , bem o contrário. Esse fato quase me fez perder não só a bolsa, mas também o emprego – lembro, me arrependendo assim que termino de falar.
—De fato – Miah anui – A diretoria ficou bem estressada, pelo que soube, com os acontecimentos de duas semanas atrás – relembra, me olhando da mesma forma que fizera no elevador antes de destilar seu veneno – Deve ter sido gratificante ter dois homens lindos brigando por sua causa – insinua, maliciosa.
—Não vejo nada de gratificante nisto! – rebato, não me preocupando em esconder a irritação, prosseguindo antes que ela pudesse dizer algo – Olha só, se me convidou almoçar com vocês para estreitar nossos laços, acho uma ideia excelente já que teremos que trabalhar juntas diversas vezes – afirmo – Mas se o fez na intenção de sondar como anda minha relação com doutor Rhodes ou para me envenenar de alguma maneira contra ele ou qualquer membro da equipe – insinuo de volta, e é a vez de Ava mexer-se desconfortavelmente – Lamento informar que perdeu seu tempo – garanto, respirando fundo, fechando os olhos ao sentir meu filho chutar forte – Não sou surda. Sei muito bem o que dizem de mim pelos corredores, os comentários maldosos, muitas vezes invejosos, que estão sendo feitos. Até porque nem sempre fazem questão de esconder de mim – digo, lembrando o comentário que uma enfermeira novata fizera na minha cara, o que lhe custara uma bronca de Maggie, que estava próxima e escutou tudo – Também não sou cega. Sei o quanto Connor é desejado, como homem, por diversas mulheres aqui dentro, incluindo você – aponto-a, minha atenção sendo chamada para a saída do hospital onde o próprio surge ao lado de Ethan e Will, os três olhando a volta antes de irem em direção oposta a nossa – Eu realmente não planejei me envolver com ele muito menos engravidar. Simplesmente aconteceu. Não vou usar minha gravidez para prendê-lo ou tirar qualquer tipo de vantagem, seja ela pessoal ou profissional – garanto, afastando o prato, levantando – Se me dão licença – peço, procurando-o com o olhar, deixando-as sem dar-lhes chance contestar.
A princípio penso em não ir até ele, mas acabo por desistir. A insegurança e dúvidas, me corroendo feito ácido. Por mais que estejamos vivendo um momento relativamente tranquilo, não consigo evitar que surjam em minha mente justamente por conta desse pequeno detalhe: vivendo um momento!
—Doutor Rhodes, podemos conversar um segundo? – questiono formalmente parando junto à mesa onde se encontrava, cumprimentando Will e Ethan com um aceno, ciente de ter vários olhares sobre nós naquele exato momento.
—Claro – prontifica-se, levantando rápido – Nos falamos mais tarde – diz, Will e Ethan acenando afirmativamente, entrando no hospital a meu lado.
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Connor
Assim que vejo Sarah aproximando-se de nossa mesa, vejo que a algo está errado, seu tom e a maneira formal como me trata confirmando minha suspeita.
—Doutor Rhodes, podemos conversar um segundo? – pede, cumprimentando Will e Ethan com um gesto de cabeça.
—Claro – respondo de imediato, levantando – Nos falamos mais tarde – despeço-me, seguindo-a de volta ao interior do Med.
Surpreendo-me ao entrarmos em um dos ambulatórios próximos, ela fechando a porta rapidamente. Àquela hora seria praticamente impossível surgi alguém já que a maioria estava almoçando. E também por tratar-se de um dos últimos da ala. Trocando em miúdos: teríamos total privacidade ali por no mínimo uma hora antes que o PS retomasse seu ritmo naturalmente frenético.
—Ok...O que exatamente estamos fazendo aqui? – pergunto, cuidadoso, temendo tanto uma explosão de mal humor quanto uma possível “escapadinha”, sua expressão consternada me deixando preocupado – O que houve Sarah? Está sentindo-se bem? Algo errado com o bebê? – questiono, observando-a atentamente, vendo seu rosto ficar vermelho e sei que não é por vergonha – O que eu disse de errado desta vez? – antecipo, já aguardando a bofetada que, para meu alivio, não vem.
—Disse que me ama não disse? A mim, Sarah, não é? – questiona, me encarando séria.
—Sim – respondo, inseguro sobre o que responder.
—Não está comigo apenas pelo bebê está? Ou pelo que Jay fez? Ou ainda para dar satisfação a diretoria ou a sua família, ou a quem quer que seja? – bombardeia, tomando fôlego antes de prosseguir sem me dar chance responder – Porque se for por qualquer uma destas razões, sinta-se desobrigado – avisa – Fui sincera quando disse a sua irmã que não o afastaria de seu...Nosso filho – corrige-se, pondo uma mecha inexistente de cabelo por detrás da orelha, tique que descobri ter quando fica ansiosa – Assim como fui sincera ao dizer que pretendo procurar um apartamento para mim e as meninas assim que o bebê nascer – lembra e suspiro profundamente, encarando-a em silencio, observando cada reação por menor que seja – Não vai dizer nada? – interroga, enrugando a testa, irritando-se a me ver sorrir. Antes que proteste (ou me bata), elimino a distancia entre nós, envolvo-a em meus braços e a beijo, sem pressa, vencendo sua resistência inicial, fazendo-a ceder e corresponder.
Aos poucos, o beijo casto evolui, o desejo nos tomando por completo. Apenas quando derrubamos uma caixa de uma das estantes desperto para o que fazíamos e por mais que nossos corpos peçam o contrario, cesso o contato, afastando-me minimamente, mantendo nossos rostos colados pela fronte, deixando-a apoiar a cabeça em meu ombro enquanto nossa respiração normaliza. Afago os cachos rebeldes depositando um beijo sobre o topo de sua cabeça, olhando a volta em busca de uma cadeira, encontrando apenas uma mesa na qual a faço sentar parcialmente, afastando-a mais a fim de ver seu rosto.
—Sarah, disse e reafirmo com todas as letras: Eu.Te. Amo – falo devagar, segurando seu rosto entre as mãos, fazendo-a olhar dentro de meus olhos – Independente de estar esperando um filho meu, te amo...
—Mas não me amava antes de descobrir que estava grávida! – diz, esforçando-se para conter as lágrimas – Ou antes de transarmos – lembra.
—Ok, não amava, mas sentia-me atraído por você ou não teríamos ido para a cama aquela...
—Falou o cara que trepou em uma das salas de atendimento da cardiologia em pleno réveillon com uma médica da equipe! – desencava e respiro fundo,
—Certo. Reconheço que não era exatamente celibatário naquela época – admito vendo-a arquear a sobrancelha – Tá, nada celibatário – corrijo –Assim como não tenho problemas em admitir que depois de termos transado passei a te ver de forma diferente, como não podia deixar de ser – afirmo – Seria mentira e cinismo de minha parte dizer o contrario. Mas você também deve ter passado a me ver diferente depois daquela noite. Não éramos mas apenas colegas de trabalho. Nos conhecíamos como homem e mulher, fora do trabalho, ou vai dizer que me amava antes de ter dormido comigo? – questiono vendo-a corar – Amava? – interrogo, surpreso.
—Não – diz, mordendo o lábio inferior – Mas não era indiferente a você como era a mim – revela – Alias nenhuma mulher no Med era indiferente a sua presença. Na verdade ainda não são – bufa, contorcendo a boca e rio de seu exagero – Pare de rir. Estou falando sério Connor! – ralha e lhe roubo um beijo rápido.
—Meu amor, por mais que me considere irresistível, não o sou. Te garanto que nem todas as mulheres deste hospital pensam ou querem ir pra cama comigo e mesmo que quisessem – começo dizer, impedindo-a de levantar quando tenta — Mesmo que quisessem não estou interessado. Não mais. No passado, especialmente depois de minha desilusão com a Robin, toparia uma por noite se fosse o caso – digo, arrependo-me assim que sinto a pele de meu antebraço ser retorcida com força deixando uma marca vermelha quando a solta – Mas depois que nos envolvemos, pra valer, perdi o interesse por qualquer outra mulher e não traga o que aconteceu na madrugada do ano novo a baila de novo – advirto, pondo o dedo em riste diante de seu nariz – Aquela noite foi a ultima em que estive com outra mulher, mesmo assim o fiz porque fui provocado ao limite. Não sou nem nunca fui santo ou de ferro, Sarah. Estava sozinho, sofrendo, você me evitava como se tivesse lepra ou qualquer outra doença contagiosa...
—A culpa é minha agora? – me interrompe, zangando-se.
—Não foi isso que disse – defendo-me – Disse que estava me evitando e sabe que era verdade. Ainda mais depois do que havia acontecido no Molly’s – lembro vendo-a corar novamente – Certo, não tinha te notado como mulher até a noite da festa de formatura, quando tivemos chance conversarmos descontraidamente, dançar e rir juntos. Ate aquele dia tudo de você que conhecia era a estudante tímida, dedicada, que pensou em escolher Patologia por achar que não tinha jeito com pessoas, que precisou se afastar por causa de problemas pessoais, os quais o tomei conhecimento poucos dias atrás – reconheço – A garota dedica e encantadora que faz os pacientes sentirem-se queridos, que se mostrou mais forte do que todos esperavam quando do suicídio de Wheeler...Aquele dia te conheci um pouco mais e gostei do que vi – confesso, enrolando uma mecha se seu cabelo em meu dedo, brincando com ela – Como disse a pouco, seria cinismo dizer que enxergava além disso antes de irmos para a cama. Aquela noite despertou outro tipo de interesse por você e só não o intensifiquei porque me evitou de todas as formas possíveis.
—Você que pediu lembra? – acusa, ficando de pé, apoiando os braços em meus ombros.
—A coisa mais estúpida e idiota que já fiz em toda minha vida! – exclamo, arrancando um sorriso dela – Sarah, podemos ter começado de maneira errada, pouco ortodoxa, mas o que sinto por você, esse amor, nasceu ali, naquela noite e só fez crescer, ganhar força com o passar do tempo. Se não estivesse grávida iria tentar uma reaproximação de qualquer jeito. Já não conseguia mais pensar em ninguém, desejar outra mulher que não você, acredite, por favor – imploro, lhe dando um selinho – Se por uma fatalidade tivesse perdido nosso filho...- mais uma vez me interrompe, desta com um beijo carinhoso.
—Me desculpa Connor – pede, os dedos desenhando o V de minha blusa, as unhas arranhando a pele, provocando arrepios – É difícil escutar tanta coisa e não me sentir insegura – confessa, deitando a cabeça em meu peito – Preciso aprender a confiar em você, no que sente por mim, no que eu sinto por você – admite, mordendo meu queixo e fecho os olhos, meu corpo reagindo aos estímulos provocados pelo gesto.
—Sarah, melhor pararmos por aqui. Não respondo por mim se continuar a fazer isto – alerto, suspirando quando aumenta a pressão ao mesmo tempo em que cola seu corpo ao meu – Sarah! – alerto novamente, minha voz saindo rouca pelo desejo, o som do bipe em meu bolso sendo muito bem-vindo.
—salvo pelo gongo! – brinca, afastando-se, apoiando-se a mesa, um sorriso sapeca enfeitando rosto corado.
—Sério que ainda está com aquele desejo? – questiono, olhando o número em meu paiger.
—Uhum. Muito sério – confirma — E prometeu que me satisfaria quando o sentisse! – cobra me fazendo sorrir.
—Ok, terei que cumprir minha promessa em um outro momento – digo, roubando um beijo – É o Latham. Hora de retirar o stent. Vem comigo? – convido, estendendo a mão.
—Com certeza – anui, segurando-a.
Abro a porta tendo o cuidado de olhar a volta antes de sairmos juntos. Já chega de tantos comentários a nosso respeito.
Seguimos direto para a UTI onde ele e Bekker nos aguardavam, ela nos dirigindo um olhar atravessado que faço questão de ignorar.
—E se algo der errado? – a senhora Miller questiona, tensa.
—Senhora, se algo tivesse que dar errado isto já teria acontecido. Não se preocupe. A cirurgia, como informamos aos senhores após o termino da mesma, foi bem-sucedida – Latham reitera, acenando para que eu iniciasse o exame (faria uma ultra antes) a fim de retirar o stent.
Deslizo o leito pelo peito de Donald satisfeito ao ver que tudo corria perfeitamente bem.
—Tudo dentro da mais perfeita normalidade para o quadro dele – informo, entregando o aparelho a Sarah – Vou retirar o stent. Doutora Reese, pode me auxiliar? – peço, ela recebendo a permissão de Latham com um gesto de mãos antes de se aproximar.
Cuidadosamente retiro o pequeno balão juntamente com o tubo, fechando a pequena abertura com um clipe cirúrgico, cobrindo-a com um curativo, Sarah me auxiliando durante todo o processo.
—Agora é aguardar a recuperação. Assim que estiver em condições o transferimos para um quarto – aviso.
—Muito obrigado doutor Rhodes. Obrigado a todos vocês – agradece o pai do jovem, a esposa fazendo coro.
—Transmitiremos seu agradecimento a equipe do doutor Abrams – Latham avisa, acenando antes de sairmos deixando-os a sós com o filho – Fizeram um excelente trabalho hoje – elogia quando saímos da UTI se voltando para nós três – Quando agimos como um time as coisas ficam mais fáceis não é? – interroga, levando as mãos as costas, saindo sem esperar resposta.
—Se o senhor diz! – Bekker exclama, me encarando alguns segundos – Vou terminar de preencher minha papelada. Até mais casal – despede-se, seguindo o mesmo caminho que Latham.
—Estou começando a pensar que Miah tem razão – ouço Sarah dizer e a encaro erguendo a sobrancelha – Ela quer você.
—Que pena para ela porque eu realmente não estou mais disponível...A menos que esteja disposta a me dividir – não resisto provocá-la, rindo alto de sua resposta.
—Nem em sonho! – frisa, girando nos calcanhares, indo na direção oposta.
—E quanto aquele seu desejo? – indago, permanecendo parado, observando-a caminhar.
—Fica pra mais tarde...Só terá que pagar em dobro! – avisa, acenando sem me olhar enquanto segue seu caminho.
—Ela ainda vai me deixar maluco com essas variações de humor. Certeza que vai – afirmo, balançando a cabeça negativamente, me dirigindo a ilha de enfermagem do setor, pegando meu tablet, retomando a rotina de visita aos pacientes.
“...She drives me crazy!
Like no one else;
She drives me crazy!
And I can’t help myself”

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