Love Hurts!
32 When the past knocks at the door
Notas iniciais
“Cores do mar, festa do sol;
Vida fazer todo o sonho brilhar;
Ser feliz, no teu colo dormir;
E depois acordar;
Sendo o seu colorido;
Brinquedo de papel machê...”
Papel Machê
João Bosco
Apartamento Connor e Sarah (quinta-feira, 30/8 – 6:35 a.m)
Sarah
—Emma, pegou seu trabalho? – pergunto quando ela retorna a sala.
—Peguei – afirma, fechando o zíper de sua mochila – Sarah, posso levar dinheiro ao invés de lanche? – pede, completando ante que eu pudesse dizer algo – É que vou direto para o conservatório depois das aulas e não queria levar mais uma coisa comigo – justifica-se, parando de frente para mim com uma mão na cintura, sua postura tão séria e madura me trazendo lágrimas de emoção aos olhos – Não é que eu não goste do que prepara ...- começa dizer, mas a corto.
—Não estou chorando por achar que não gosta de minha comida meu amor. É só agora me toquei que está ficando uma mocinha. Até namorando já está!! – explico, vendo-a sorrir envergonhada – Pegue na minha bolsa – libero, ganhando um beijo na bochecha antes que se voltasse, caminhos em direção aos quartos – Ela está crescendo tão rápido!! – suspiro.
—Lei da natureza amor – ouço Connor dizer – Nascer, crescer, dá trabalho aos pais quando começa namorar, se reproduzir e morrer – enumera e faço uma careta involuntária – Sabe, depois que vieram morar comigo, descobri que ficaria imensamente feliz se as duas descobrissem uma vocação inesperada: vida religiosa. Ser freiras! Já pensou que alegria? Nada de namoradinhos pra amea...digo, vigiar – corrige-se rápido e rio, arrumando sutiã e blusa tão logo Max larga meu peito após estar satisfeito.
—Que é vocação Connor? – escuto Marina perguntar.
—É quando a gente se identifica com alguma coisa e queremos fazer essa coisa pelo resto da vida. Ser médico, por exemplo – explica ele de forma simplificada.
—Polícia também, como Jay e Kim? – inquere, curiosa.
—Uhum, também – Connor confirma.
—E se depois não querer mais, como faz? – Marina insiste me fazendo rir novamente. Sabia que aquela seria apenas a ponta do iceberg.
—Ai mudamos – ouço-o responder e espremo os lábios, retendo a gargalhada que se formava em minha garganta.
—Mas você disse que é pra vida toda. Como pode mudar no meio? – prossegue.
—Bem, é que às vezes pensamos ter feito a escolha certa e descobrimos que na verdade não era. Então mudamos no meio – refaz a explicação e me volto depois de pôr nosso filho no carrinho, sentando-me no braço do sofá, divertindo-me com a interação entre os dois.
—Então se eu quiser ser feira e depois não gosta posso ser bailarina? – minha irmã prossegue o interrogatório, encarando Connor, séria.
—É freira coelhinha e não sei se daria para mudar de idéia caso escolhesse ser uma – a corrige ele, terminando de arrumar a lancheira dela – Que acha amor? Daria para trocar a escolha? – me “convida” a participar do debate.
—Honestamente, não faço a menor idéia, mas acredito que sim. Não se pode obrigar alguém a permanecer num convento, partindo do pressuposto que pregam a liberdade de escolha – teorizo, olhando de um para outro. Tinha certeza de que as perguntas de Mama estavam apenas começando.
—Que é feira...frera...isso que falou?! – quer saber e vejo o desespero se estampar na face de meu noivo.
—Não olhe para mim! Foi você quem começou. Quem manda ser ciumento?! – acuso, me levantando e indo até ele – Agora aguente porque ela só vai te dar sossego quando entrarem no carro e puser Frozen ou outro filme no dvd – cochicho em seu ouvido ao passar por ele, dando duas tapinhas em seu ombro, a chegada de Emma o salvando por hora.
—Sarah, só tinha nota de vinte. Peguei uma, mas não se preocupe que trago troco – avisa, exibindo a nota.
—Não precisa meu amor. Guarde pra você – libero, lavando e secando minhas mãos.
—Quero vinte também!! – Marina pede, animada.
—Depois vemos isso coelhinha, agora precisamos ir ou vamos nos atrasar – Connor alerta – Vai ficar em casa? – pergunta, envolvendo minha cintura, me puxando para si.
—Agora pela manhã sim. Depois do almoço vou fazer umas compras e aproveito para levar Max ao parquinho – respondo, descansando ambos braços sobre seus ombros – Não esqueceu sua promessa esqueceu? – questiono-o.
—De novo? Pensei que havia cumprido com mérito ontem, mas não me importo em repetir – declara, rindo safado e o estapeio.
—Me refiro àquele assunto do trabalho, sobre meu....você sabe quem!! – lembro, evitando usar o termo pai abertamente posto que Emma nos observava – Tire sua mento do esgoto Connor!! – ralho, estapeando-o novamente.
—Hummm, tem certeza que quer isto? Olha que algumas coisas boas podem sair do esgoto! – rebate, mexendo as sobrancelhas sugestivamente, mudando completamente logo em seguida – Não esqueci não, fique calma – tranquiliza-me, ficando sério – Também quero ter certeza de que não está aqui para te perseguir de alguma forma – diz e faço outra careta.
—Menos dramático por favor – peço, fazendo-o rir.
—Connor, vamos. Não quero me atrasar – Emma pede, pondo a mochila nas costas – Bora Mama – chama, erguendo o extensor da bolsa de Marina, puxando-a em direção a porta.
—Até mais tarde amor – Connor despede-se, me dando um beijo, indo até nosso filho – Até a noite filhote. Se comporte e não dê trabalho a mamãe – recomenda com voz mansa, estendendo-me a mão para que o acompanhasse até a porta onde minhas irmãs o esperavam.
—Tenha um bom dia amor, se comportem meninas e Emma, direto pra casa depois da aula no conservatório. Nada de convencer Connor a ir comer bobagens! – recomendo.
—Pode deixar Sarah – tranquiliza-me ela, caminhando com Marina a seu lado e Connor logo atrás.
—Emms, que é frera? – Marina retoma.
—Freira é uma pessoa religiosa que vive num convento que se dedica a rezar e ajudar os pobres – explica distraída.
—Elas namoram? – Mama quer saber e rio em antecipação.
—Claro que não. Elas não podem porque servem a Jesus e só – Emma completa, parando junto as portas do elevador, voltando-se para encarar Mama – Por quê?
—É que o Conno disse que ficava feliz se a gente querer ser frera, mas acho que ela não vai não Conno por causa do Ray – Marina declara com sua lógica infantil, se adiantando para dentro do elevador quando este chega.
—Oi? Eu? Freira? – Emma indaga, encarando Connor, o rosto aflito de meu noivo me olhando num pedido mudo de socorro me fazendo rir e piscar antes de as portas fecharem.
Volto para dentro de casa indo sentar no sofá de frente para nosso filho, com quem passo a brincar, voltando-me ao escutar a porta da área de serviço ser aberta.
—Bom dia senhora Rhodes – Larissa cumprimenta, vindo a meu encontro.
—Bom dia Larissa – retribuo, sorrindo-lhe.
—Senhora, seria possível sair mais cedo? Meu sobrinho está acamado e minha irmã está numa viagem de trabalho então terei de levá-lo a consulta – pede, visivelmente tensa.
—Evidente que pode. Aliás, se for o caso não precisa ficar – libero – É muito grave? Se precisar posso pedir para Nat atendê-lo no Med – prontifico-me.
—Não sei ainda e não precisa se incomodar nem a seus colegas. Já marquei com o pediatra dele para uma da tarde. Muito obrigada por oferecer – agradece.
—Não seria incomodo algum – garanto, pegando Max nos braços posto que começara se inquietar – Faça o seguinte: arrume o quarto das meninas, elas andaram bagunçando um pouco, a sala e a cozinha e pode ir. Sei bem como é tenso uma consulta médica – digo – Não precisa nem preparar almoço. Eu mesmo faço algo porque vou sair mais tarde e as meninas chegam mais tarde hoje – conto, ninando meu filho – Vou para meu quarto descansar um pouco. Quando estiver de saída me avise e se precisar de adiantamento basta dizer – peço.
—E seu quarto senhora? – pergunta, recolhendo o carrinho.
—Pode deixar que depois arrumo, não se preocupe – afirmo, caminhando em direção ao mesmo.
—Está certo então e obrigada senhora – diz e sorrio novamente, seguindo em frente.
Me deito em nossa cama, arrumando os travesseiros e edredom em uma lateral de maneira a formarem uma barreira de proteção a fim de evitar Max cair caso eu adormeça, usando meu corpo como barreira do outro lado. Nosso filho estava cada dia mais ativo e forte, nos enchendo de orgulho.
—Quem é o bebê mais lindo e esperto do mundo, quem? – gracejo segurando suas mãozinhas, beijando, apertando-as com meus lábios, soprando e fazendo cócegas em seu pescoço e barriga.
Durante um tempo impreciso repito o mesmo gesto, deixando-o descansar e brincar com o chaveiro de plástico (que na verdade era um chocalho) macio que Jay lhe presenteara, me perdendo em lembranças que reprimira por anos, o temor de um reencontro que não desejava. Acabo adormecendo, acordando quando sinto o toque delicado em meu tornozelo. Abro os olhos deparando-me com minha ajudante/ secretária/ babá.
—Desculpa acordá-la, mas como pediu – pede, sorrindo gentil.
—Tudo bem – tranquilizo-a, sentando-me cuidadosamente, olhando meu filho, que mordia o brinquedo distraidamente – Já está de saída, não é? – inquiro.
—Sim senhora – responde, guardando o celular em seu bolso – Enviei uma mensagem a minha mãe pedindo para aprontar meu sobrinho – explica – Arrumei o quarto das meninas, lavei algumas roupas que estavam de molho e outras que encontrei sujas, da senhora e do doutor, limpei a área, o terraço e a sala. Também organizei a dispensa e até limpei seu banheiro sem acordá-la – relata, me surpreendendo – Sei que disse não precisar, mas preparei uma salada e um arroz cremoso com um pouco de peixe que encontrei na geladeira. Fiz suco de laranja e couve, do jeito que gosta – finaliza.
—Meu Deus, eu não te mereço criatura!! – exclamo, estendendo-lhe a mão, que prontamente aceita -Te contratamos como babá e acaba fazendo de tudo um pouco. Vou falar com Connor para te darmos um aumento – aviso – Falando nisso, quanto precisa? – pergunto, levantando-me, pegando minha carteira.
—Cinquenta, se não for incomodo – pede, postando-se protetoramente ao lado cama, junto a Max. Amava o cuidado e carinho com que tratava as meninas e meu pequeno!
—Vou te dar sessenta por duas razões: não tenho trocado e você mais do que merece meu anjo – digo, entregando-lhe o dinheiro – Se precisar ficar com seu sobrinho amanhã basta ligar avisando. O final de semana está ai e Connor me ajuda com as crianças e a casa – lembro-a.
—Certo, senhora. Se precisar aviso – diz, despedindo-se.
Depois que sai, volto a deitar ao lado de meu filho, brincando por mais alguns minutos antes de me levantar indo tomar um refrescante e revigorante banho de banheira com meu pequeno. O visto, me visto, vou para a cozinha almoçar e logo em seguida retorno ao quarto, troco de roupa, preparo a bolsa de Max, pego uma bolsa a tiracolo confortável, menor que a do bebê, ponho minha carteira dentro para somente então solicitar um carro pelo aplicativo, aguardando sua chegada para descer para a portaria.
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Connor (7:05 a.m)
Travo o carro caminhando displicentemente para o interior do hospital, um sorriso divertido ainda colado em meu rosto.
—Você sempre teve cara de bobo, mas desde que seu filho nasceu piorou muito – escuto Will dizer e me volto, deparando-me com ele, Ethan e April que chegavam – Rapaz, Latham precisa fazer algo urgente ou nenhum paciente vai te dar crédito – zoa, nossos amigos rindo divertidos.
—Quando tiver o seu será minha vez de dar o troco – aviso, pondo-me de lado para April entrar – Mas hoje a responsável é Marina.
—O que ela fez? – Will pergunta, ajustando sua mochila ao ombro.
—Me fez responder no mínimo uns trezentos porquês e como é isso ou para que server e ainda que significa tal coisa – conto, os três me olhando confusos – É que cai na besteira de fazer um comentário sobre ficar feliz caso se tornassem freiras e daí partiu todo o resto. Acho que nunca respondi tantas perguntas em tão pouco tempo como fiz no trajeto entre nossa casa e a escola delas isto sem contar que tive de explicar a Emma que estava apenas conversando com Sarah sobre vocação– confidencio, fazendo-os rirem enquanto nos aproximamos da entrada da emergência.
—Aquele lá não é seu amigo advogado? –Ethan questiona de repente e sigo seu olhar vendo meu amigo adentrando o hospital alguns metros a nossa frente amparado por Maggie, uma ruiva que carregava a filha dele nos braços os seguindo, o filete de sangue escorrendo na lateral de seu rosto avisando que algo havia acontecido.
—É sim – confirmo, apressando-me a seu encontro – Benny, o que aconteceu? – interrogo, largando minha bolsa num canto a fim de atendê-lo – Deixe comigo Noah – intervenho, calçando as luvas de procedimento.
—Houve que de agora em diante levarei mais a sério o tal dito que em briga de marido e mulher não se deve meter a colher! Ao menos não fisicamente – declara, fazendo uma careta quando afasto o tecido grosso da toalha para avaliar o ferimento.
—Por segundo pensei que a doutora Bekker tinha perdido a esportiva! – Will, que viera me ajudar, brinca, arrancando um sorriso franco de meu amigo.
—Se fosse, o estrago seria bem maior, esteja certo – Benny retruca, olhando por sobre meu ombro – Pode pedir para levarem Alê e a babá para outro local? Já está bastante assustada com tudo isso – pede.
—Claro – Maggie prontifica-se, indo ao encontro delas.
—Babá? Aquela é sua babá? – Will espanta-se e rio.
—Mais ou menos – corrige-se Benny e enrugo o cenho – Ela prima de uma das advogadas do escritório, a Nájila. Mudou-se a pouco e como não conseguia nada, ela me pediu que a empregasse temporariamente – conta, fazendo aspas e outra careta – Tá feio, não tá? – quer saber.
—Não muito, mas foi bem profundo – relato, despejando mais soro sobre o ferimento, limpando-o – O que aconteceu exatamente e o que fez este ferimento? – interrogo, retirando o excesso de sangue nas bordas e interior – Monique, me passe uma ampola de adrenalina. Sua antitetânica está em dia? – pergunto, recebendo o que pedira.
—Está e respondendo sua pergunta, não cheguei a ver o que me atingiu, mas sei que não era para mim e sim para o marido de minha vizinha. Estavam brigando quando sai de casa mais cedo. Vários vizinhos estavam observando, assustados com os gritos e pancadas aí quando me viram, pediram para intervir e o panaca aqui atendeu – conta, suspirando – Bati a porta e quando o infeliz abriu já fui atingido – relata, resmungando um pouco quando limpo com mais força.
—Ele abriu a porta de vez? – Will pergunta, preparando o material entregue por Monique após ter calçado as luvas.
—Abriu – Benny confirma – Cá pra nós, acho que estava fugindo – presume – Abriu e já foi logo se abaixando. Acho que era um tipo de estátua ou jarro de louça – supõe.
—Chegou a perder os sentidos depois que foi atingido? – quero saber, preocupando-me ao vê-lo confirmar com um aceno – Por quanto tempo?
—Acordei na ambulância – revela.
—Neste caso vou querer uma tomografia e usar anestésico local apenas – aviso – Vai sentir um leve ardor, um queimor quando estiver aplicando – alerto-o, iniciando o processo.
—Leve? Tem certeza? – reclama, contorcendo-se, incomodado.
—Tenho – afirmo, concentrando-me em examinar minuciosamente o ferimento antes de começar pontear – Vai sentir um incomodo mínimo – alerto, realizando o primeiro ponto.
—Agora entendo por que tantos advogados desistem de trabalhar na vara familiar. Se toda vez que um casal resolver acertar suas diferenças objetos voarem, vai ter muitas cabeças para remendar meu amigo – Benny comenta, parecendo um pouco disperso.
—Quantos dedos vê aqui? – Will pergunta, erguendo o indicador.
—Cinco. Um levantado e quatro deitados – responde de pronto – Estou bem doutor Halstead, fique tranquilo – assegura, fazendo outra careta.
—Ainda assim, irá fazer uma tomografia – sustento, prosseguindo meu trabalho.
—Senhor Goodman, que surpresa!! Ou não, já que passa tanto tempo aqui dentro que vai acabar ganhando um leito cativo – ouço Ava dizer e rolo os olhos.
—Bom dia para a senhora também doutora Bekker. É sempre um prazer revê-la – Benny devolve na mesma moeda.
—Que fez desta vez? Irritou algum vizinho? – pergunta ela, ignorando-o, postando-se as minhas costas – Já pensou em fazer especialização em cirurgia plástica Connor? Ganharia um bom dinheiro – sugere.
—Ponteando cortes? – Benny interroga.
—Não, abrindo uma clínica estética – Ava responde
—Os pontos dele quase não deixam marcas – explica Will.
—Se você topar, quem sabe, no futuro podemos ser sócios – condiciono, finalizando.
—Doutor Halstead? Por quê? – Ava inquere.
—Trabalhei durante um bom tempo com cirurgia estética em Nova York antes de vir para o Med – conta, deixando ambos espantados.
—Neste caso, podem me convidar para engrossar a sociedade – Benny se oferece e rio.
—Ok, mas este assunto pode esperar. Deite-se, dentro em pouco uma enfermeira vai te levar para o exame – aviso, pondo-me de pé.
—Connor, pode pedir que tragam Alexandra antes de ir fazer esse exame? Quero tranquilizá-la – pede, preocupado, buscando a filha com o olhar.
—Farei isso. Agora deite-se – reitero, descalçando as luvas.
—Sim senhor – concorda, tocando a fronte com dois dedos, esticando-se no leito.
Saímos os três, Will, Ava e eu, deixando-o sob os cuidados de Monique.
—Maggie, peça uma tomografia do Benny e que tragam a filha dele antes de ir realizar o exame, por favor – peço, abrindo um dos computadores da ilha, buscando a ficha de meu amigo a fim de acrescentar os dados do atendimento que acabara de realizar bem como o exame solicitado.
—Ah, doutor Rhodes, seu paciente das nove já chegou. Está lhe aguardando em um dos leitos da Cardiologia – avisa, afastando-se.
—Hora da verdade – Will diz, pendurando a bolsa no ombro e lembro que deixara a minha na sala que atendera Benny.
—Tomara que a única verdade seja a que supus junto a Sarah – digo, passando por ele e Ava, indo buscar minha bolsa, sorrindo ao cruzar com a filha de meu amigo – Seu pai está bem gatinha – tranquilizo-a, tocando a ponta do nariz afilado, seguindo meu caminho para a sala de repouso de onde, após trocar de roupa e guardar minhas coisas, sigo para o setor de Cardiologia, ganhando a companhia de Ava Bekker.
—O que Halstead quis dizer com hora da verdade? – quer saber.
—Desculpe Ava, mas por enquanto prefiro não falar sobre isso. Assim que terminar a consulta, quem sabe possa falar – aviso, apressando-me.
Paro um segundo diante da porta fechada, respirando profundamente antes de entrar.
—Senhor Haywood, bom dia – cumprimento fazendo o homem erguer o olhar em minha direção – Desculpe-me o pequeno atraso. Tive um atendimento inesperado logo que cheguei a emergência – peço, esfregando álcool gel nas mãos antes de pegar o tablete que a enfermeira me estendia.
—Sem problemas doutor Rhodes. Eu que estava um pouco ansioso e me adiantei – diz, ensaiando um sorriso.
—Ansiedade não é bom para o senhor, pelo que vejo em sua ficha – pondero, lendo o prontuário a minha frente. O fizera na terça a noite, quando me fora enviado, mas precisava rever – Qual foi a última vez em que sua medicação foi ajustada? – pergunto posto que a informação não constava ali, para meu espanto.
—Cerca de três meses atrás – revela e o encaro, incrédulo.
—Isto é altamente irregular para um homem na sua condição – observo, ele rindo nervoso.
—É que andei mudando neste período e não consegui realizar uma nova avaliação e como não sentia nada, fui levando – justifica-se.
—E como chegou ao doutor Forster? – questiono-o, deixando o prontuário de lado.
—A universidade de Chicago, que me contratou recentemente, pediu um check up devido meu histórico então o procurei antes de viajar. Quando contei para onde estava vindo ele me indicou procurar o Gaffney e cá estou – explica, abrindo os braços – Não vou lhe mentir: faz um bom tempo que não faço um check up completo mesmo tendo uma doença evolutiva, mas, como disse a pouco, andei mudando com certa frequência e como a medicação estava dando conta, não me importei – confessa.
—Estava? – inquiro, me aproximando com o estetoscópio em mãos.
—Eu meio que aumentei a dose por conta própria antes de vir para a Chicago por sentir que a utilizada não surtiu efeito – admite.
—Foi perigoso o que fez senhor Haywood. Nunca se deve aumentar ou diminuir dosagem sem ordem médica. Os resultados podem ser catastróficos e não falo isto para assustar – alerto-o.
—Sei bem que agi errado. Minha esposa e filha chamaram minha atenção com firmeza – conta e estanco involuntariamente.
—Estavam corretas em o fazer – afirmo, parando a seu lado – Mas agora vejamos como anda seu coração – digo, dando inicio ao exame físico.
Na hora seguinte, realizo e peço vários exames a serem realizados o mais rápido possível. Deixo-o com a enfermeira para que o preparasse e conduzisse a cada um, pedindo para ser avisado tão logo terminasse. Saio direto para a emergência atendendo ao chamado de Maggie, liberando Benny após ver seu exame com a recomendação que descansasse o restante do dia.
Por volta das treze horas, quando tenho uma folga nos atendimentos, ligo para Sarah a fim de saber como estava. Conversamos por pouco tempo pois logo sou chamado a Cardiologia novamente. Para minha surpresa, ela não perguntara pelo pai e eu preferi não falar, mesmo porque não havia o que falar. A verdade é que o homem não perguntara nada além de coisas referentes a seu problema de saúde e isto me trouxera alívio.
O que eu não sabia era que seria por pouco tempo.
—Merda!! – xingo enquanto leio os resultados dos exames de meu quase sogro.
—Muito ruim? – escuto doutor Charles perguntar e o encaro.
—Péssimos para dizer a verdade – digo, passando a mão pelo cabelo.
—Hum. Por acaso não seriam os exames do paciente que veio encaminhado do doutor Gregory Forster, seriam? – quer saber.
—São sim. Como sabe sobre ele? – questiono-o.
—Fui informado pela enfermeira Carlson que um senhor Haywood, paciente seu, havia procurado por mim – informa, me deixando surpreso e curioso.
—Sério? – inquiro, Daniel confirmando com um aceno de cabeça – Mas por que ele pediria para vê-lo? – questiono mais para mim mesmo, a resposta me vindo num estalo – A menos que....
—Ele já sabia qual seria o resultado – Daniel completa meu raciocínio.
—É, talvez não seja tão coincidência assim, afinal de contas – pondero, massageando meu queixo.
—Algo que deva saber? – Daniel pergunta, me encarando.
Reflito um momento optando por contar-lhe de uma vez por todas quem Haywood era.
—Robert Haywood é o pai de Sarah – informo, direto.
—Hum... – limita-se dizer, me causando estranheza.
—Já sabia disso? – inquiro.
—Não, mas supus quando a enfermeira disse o nome dele. Como sabe, cogitei convidar Sarah a ser residente da Psiquiatria um tempo, logo, li sua ficha – elucida.
—Havia esquecido disso – confesso.
Quando Sarah retornou ao Med após ter-se afastado (na época em que a mãe partiu a deixando com as irmãs para cuidar), Daniel cogitara a colocar na Psiquiatria por achar que os horários poderiam ser mais adequados a nova realidade dela, chegou mesmo a fazer o convite e ela a aceitar, mas acabaram por mudar de idéia. Ambos. Só não sei por quê.
—Ele lhe perguntou algo sobre ela? – quer saber, me tirando do devaneio.
—Não. Nem mesmo insinuou. A não ser que...- pondero um segundo – Mencionou que a filha e a esposa haviam chamado sua atenção por conta de não estar se tratando corretamente. Mas julguei falar da outra família – lembro.
—Provavelmente esteja correto – Daniel concorda – Até porque se não estiver, irei pensar que o senhor Haywood sofra de algum problema mental grave – diz, me deixando tenso – Relaxe Connor, não vamos nos precipitar e formular teorias. Irá falar com ele sobre os exames não irá?
—Sim, mas antes apresentarei o caso a Latham. Para ser franco, estou pensando em passar para ele – admito. Não me sentia confortável em estar tratando do homem que havia abandonado a mulher que amo de forma tão insensível e fria.
—Não o faço. Ao menos não por ora. Aguarde o decorrer dos fatos – pede – Quando forem vê-lo, me avise e os acompanharei.
—Ok – anuo, me encaminhando para a sala de meu mentor.
Após apresentar o caso (contando inclusive quem Haywood era e que não tinha revelado a ele minha ligação com Sarah), nos encaminhamos para o quarto aonde ele estava, Daniel juntando-se a nós. Qual não foi minha surpresa ao encontrarmos uma mulher e uma jovem o acompanhando.
—Ah, doutor Rhodes já de volta. E com meus resultados, suponho – diz, animado, completando antes que pudesse responder – Estas são minha esposa e filha, Adrienne e Serena – apresenta-as.
—Eu sou doutor Rhodes, responsável, a principio, pelo caso de seu marido – me apresento, vendo-o enrugar o cenho – Este é meu mentor e chefe da Cardiologia, doutor Latham – apresento-o – E este é o doutor Charles, chefe do departamento de Psiquiatria – apresento, notando o espanto da senhora Haywood.
—Psiquiatria? Por que precisa de um Psiquiatra? Pensei que seu problema era no coração Bob – interroga ela, apreensiva, o que me deixa ainda mais tenso.
—É normal acompanharmos pacientes e seus familiares com quadro grave como o de seu marido senhora Haywood – Daniel explica, a mulher acalmando-se.
—Então meu caso é realmente grave – Haywood diz, parecendo tranquilo, entrelaçando os dedos, e troco um olhar com Latham.
—Tanto que nossa recomendação é buscarmos por um transplante ao invés de continuar com paliativos – Latham declara com sua habitual praticidade.
—Viu Bob, doutor Forster estava coberto de razão. Não precisávamos atravessar meio mundo pra ouvir a mesma coisa!! – a jovem nos surpreende com sua declaração irritada, cruzando os braços a frente do peito.
—Acontece, minha querida, que viemos a Chicago porque seu velho pai recebeu uma excelente proposta da Northwestern na área em que atua, o que será ótimo para todos nós num futuro próximo – Haywood rebate – Sinto que tenha se afastado de seus amigos, mas certamente fará novas amizades aqui. Talvez algumas bem importantes para seu futuro pessoal e profissional – insinua e não sei se era por já estar ficando tendencioso, tive a impressão que me olhava quando disse isto.
—O que importa é que o diagnostico foi o mesmo, portanto correto – a esposa diz, nos encarando -Ele precisara ficar internado? Desde hoje, quero dizer – questiona.
—Não será necessário. Apesar de a doença ser grave, o quadro geral pode ser considerado bom – informo, sustentando seu olhar – Iremos mudar e ajustar a medicação já pensando na preparação para o transplante. Terá de manter uma dieta saudável e evitar estresse até que consigamos um doador compatível – explico.
—Devido sua situação delicada, sugiro que informe a Universidade que precisara pegar leve, não é assim que dizem? – Latham me pergunta e aceno afirmativamente – Ao menos nos primeiros meses. Cardiomiopatia Crônica acompanhada de insuficiência cardíaca classe três é um quadro, como disse a pouco, delicado e que exige atenção – recomenda.
—Por falar nisso, importar-se em dizer a razão pela qual pediu especificamente por mim? – Daniel questiona, fazendo-me encará-lo com surpresa.
—Bem, na verdade sou um fã seu doutor Charles. Li suas publicações acerca das aplicações terapêuticas psicodinâmicas em pacientes com situações médicas graves, como a minha, e fiquei genuinamente impressionado – relata ele.
—Oh céus, um masoquista! – Daniel brinca, provocando alguns risos.
—Ando meio ansioso, a mudança e tal, então pensei que poderia me fazer de cobaia para suas experiências, se é que posso me oferecer – Haywood diz, sorrindo sem vontade – Tomar onze tipos de medicamentos diferentes não é nada fácil. Tenho andado de bateria baixando rápido nos últimos meses. Cheguei mesmo a cogitar não aceitar a proposta da Northwestern, mas voltar a lecionar, na minha área e ainda receber bem por isto é algo com que sonho a muito tempo – justifica-se.
—Bom, não irei introduzir mais um medicamento a sua lista, é certo, e tenho certeza de que os doutores Rhodes e Latham irão concordar – Daniel avisa, olhando-nos – A não ser um calmante leve para ajudá-lo a dormir melhor, se for o caso. Agora, quanto a ser minha cobaia, bem, não chamaria assim. Mas claro que podemos conversar sempre que sentir vontade – disponibiliza-se.
—Farei isto, esteja certo – afirma Haywood, sua declaração seguinte pegando a todos, principalmente a mim, de surpresa – A propósito, acho que os senhores conhecem minha filha, Sarah Reese. Ela é residente aqui no Med – declara, e para minha surpresa maior, a esposa e a filha parecem não se incomodar.
—A doutora Reese é sua filha também? – Latham pergunta, apontando a jovem – Então a senhora é....
—Sarah é filha de meu primeiro casamento. A mãe dela e eu nos separamos alguns anos atrás e perdemos o contato. Não foi um divórcio complicado e não queria intervir na relação dela com a mãe por isto me afastei. Isto foi um erro do qual me arrependo – mente descaradamente e preciso usar de força de vontade para não perder a compostura e avançar contra ele.
—De fato a conhecemos. Eu, particularmente, sou grande admirador de sua filha – Daniel afirma.
—Todos somos, de fato. A doutora Reese é uma profissional dedicada e muito competente – Latham completa e antes que revele minha situação com ela, resolvo intervir.
—Vou encaminhar sua receita para a farmácia e depois providenciar sua liberação – aviso, me encaminhando para a porta.
—Obrigado por sua atenção doutor Rhodes – agradece e retribuo com um sorriso discreto, me retirando, indo aguardar Latham e Daniel junto a ilha de enfermagem. Aproveito para fazer prescrição, mudando e ajustando os medicamentos.
—Doutor Rhodes, algum problema em contar ao senhor Haywood que a doutora Reese é sua noiva? – ouço e me volto para receber ele e Daniel.
—Pra começar, o senhor Haywood mentiu descaradamente sobre a maneira como aconteceu a separação da mãe de Sarah – falo em voz baixa – E já começo a pensar que não foi coincidência ter vindo parar em minhas mãos – admito, pensativo.
—Eu estou certo que não foi – Daniel opina, dirigindo seu olhar a garota, que saia do quarto – Mas ainda é cedo para formarmos alguma opinião a respeito. Vamos dar tempo ao tempo e ver o que o senhor Haywood pretende com esta aparente reaproximação, ou intenção, da filha.
—Concordo, mas vou ficar atento. Não deixarei que magoe Sarah novamente – afirmo, dando atenção a meu paiger – Estão precisando de mim na emergência. Doutor Latham, já prescrevi a medicação do Haywood com a dose ajustada a nova realidade dele – aviso, ele anuindo com um aceno.
—Certo – anui, me fazendo estancar ao chamar – Doutor Rhodes, caso sinta-se desconfortável, posso passar o caso a doutora Bekker – oferece.
—Por hora não é preciso. Além do que, prefiro mantê-lo por perto para estar alerta a suas ações – digo, os deixando.
O restante do plantão passa como um raio e quando dou por mim já é hora de ir para casa.
Durante todo o trajeto reflito sobre o que ouvira do pai de Sarah, de como me irritara a forma como mentiu sem ao menos pestanejar e como parecia que a esposa concordava com tudo que dizia. Seria ela a mesma mulher responsável por ter abandonado a família ou será que já mudara de parceira novamente? E a garota era de fato sua filha ou uma enteada? E por que raios resolveu surgir justamente agora? Algo não me cheirava bem naquilo tudo.
Num impulso, enquanto estava parado no farol, ligo para Jay Halstead.
—Jay, ainda está no distrito? – quero saber.
< Não. Acabamos de sair, Kim e eu >
—Ótimo. Será que podemos nos encontrar no Molly’s em...dez minutos? – pergunto.
< Claro. O que há? > quer saber < Algum problema com a Sarah ou com as crianças? > preocupa-se.
—Por hora não chega a ser um problema, mas pode vir a ser. Nos vemos dentro em pouco – despeço-me, enviando uma mensagem a Sarah avisando que me atrasaria um pouco, ela pedindo que aproveitasse para buscar Emma já que minha irmã avisara não poder fazer. Assinto, deixando o celular sobre o banco do carona, me concentrando no trânsito.
Chegamos quase que simultaneamente ao Molly’s, me fazendo pensar em quantas leis de trânsito Jay quebrara, indo os três (Kim também viera) para o interior do bar.
Após nos acomodarmos e pedirmos uma bebida cada, relato tudo que acontecera desde a terça a noite até hoje, cada detalhe e frase dita pelo pai de Sarah.
—Bom, alguém está mentindo e por mais que a mãe da Sarah não seja exatamente uma santa, não acho que iria mentir desta maneira para a filha – Kim conjectura – E Sarah também não se enganaria tanto. Ela presenciou o sofrimento da mãe dia após dia, escutou as queixas e tal – conclui.
—O que achou dele Connor? – Jay pergunta.
—Confesso que o achei bastante suspeito. Já começo a pensar que realmente não foi coincidência ele ter ido parar sob meus cuidados no Med – admito, encarando o irmão de Will.
—Neste caso, acho que vou tentar descobrir alguma coisa sobre o sujeito. Onde ele estava vivendo antes? – pergunta.
—Minessota – informo, verificando a hora – Preciso ir andando. Tenho que pegar Emma no conservatório – explico, deixando minha parte da conta sobre a mesa.
—Vai contar pra Sarah? – Jay pergunta, me encarando.
—Mesmo correndo o risco de ela surtar, vou. Além de querer que esteja preparada, não quero mentiras entre nós – afirmo.
—Concordo – Kim diz – Melhor um surto sob controle do que ser pega desprevenida – corrobora.
—Bem, vou indo. Me avisem qualquer coisa – peço, me despedindo.
Busco Emma no conservatório, passo numa padaria, compro pães e alguns doces que Emma e Marina gostam, outros para Sarah, seguindo para casa.
Quando chegamos, Emma vai direto para o banho enquanto ajudo Sarah com o jantar deixando Marina brincando com Max.
Aproveito a ausência de sua irmã mais velha e a distração da menor para contar a minha noiva tudo que acontecera no hospital durante o atendimento a seu pai incluindo as suspeitas levantadas por Daniel e até as que me passavam pela cabeça, até a estranheza que senti ante as atitudes da esposa e filha.
—Então ele as trouxe junto – suspira, enxugando as mãos, atenta a volta de Emma, que se senta ao lado de Marina, brincando com nosso filho – Não sei se é a mesma mulher pela qual deixou minha mãe. Nunca a vi nem mesmo de longe – relata – Não entendo por que mentiu em relação a forma como nos abandonou. Talvez essa seja outra ou talvez tenha sido esta a história que contou para ela, não sei – pondera, soltando o cabelo e somente então percebo que o cortara.
—Cortou o cabelo amor? – indago, tocando algumas mechas – E pintou??
—Não, apenas cortei e hidratei, por isto parece diferente e obrigada por notar! – agradece, envolvendo meu pescoço com os braços, sorridente.
—Noto tudo em você meu amor – afirmo, enlaçando sua cintura – E fico feliz que esteja lidando com tudo lhe contei tão bem – elogio, ela fazendo uma careta.
—Nem tão bem assim – confessa, suspirando – Tenho medo que ele tenha vindo a minha procura por algum motivo torpe e por tudo que me contou parece ser o caso. Só não entendo o que possa querer – declara, me olhando nos olhos.
—Também não imagino amor, mas seja lá o que for, estarei a seu lado – digo, roubando um beijo.
—Ih, melhor a gente comer um doce Mama, porque pelo visto esse jantar vai demorar!! – escutamos Emma dizer em tom de brincadeira e ambos rimos, voltando-nos para elas.
—Pois saiba que já está tudo pronto senhorita resmungona – Sarah avisa – Venham lavar as mãos para comer – chama, soltando-se de meus braços devagar – Traga o carrinho de Max Emms, por favor – pede, dispondo os pratos e talheres – Connor, pode ir pegar a mamadeira nova que comprei antes de se sentar? Esqueci no quarto e preciso esterilizar antes de usar – me pede.
—Uhum – anuo, me dirigindo a nosso quarto, notando uma sacola prata com o símbolo de uma marca famosa de lingerie dobrada, aguçando minha curiosidade sobre o que conteria posto que estava vazia – Comprou lingerie nova? – pergunto junto a seu ouvido quando retorno a cozinha.
—Uhum. Uma camisola para ser mais exata – corrige-se – Preta. Transparente. Sexy – enumera enquanto coloca a mamadeira dentro de uma vasilha levando-a ao fogo após encher com água – Espero que goste porque comprei pensando em você! – sussurra, sentando-se a meu lado, um sorriso provocativo dançando em seus lábios, me deixando imediatamente em chamas.
—Mal posso esperar para vê-la vestindo-a.... E tirá-la de você bem devagar!! – sussurro baixinho, vendo-a morder o lábio inferior.
“...Dormir no teu colo é voltar a nascer;
Violeta e azul, outro ser;
Luz do querer;
Não vai desbotar, lilás cor do mar;
Seda, cor de batom;
Arco-íris crepom;
Nada vai desbotar;
Brinquedo de papel machê”
Robert Haywood (23:00 p.m)
—Não farei isto novamente senhora. Me senti muito mal invadindo a privacidade dos dois – escuto ao abrir a porta do apartamento.
—Tudo bem. Só precisava vê-las pelo menos em foto – é a resposta chorosa que ouço – Aqui está o combinado. Mais uma vez obrigada tanto pelas fotos quanto por não ter falado nada – agradece, a jovem acenando afirmativamente, cumprimentando-me com novo aceno ao passar por mim.
—O que fez? – pergunto direto, sentando-se a sua frente – Sabe que não pode aparecer. Não agora. Não antes de nos certificarmos que não representa perigo algum para eles – lembro-a.
—Sei disso Bob, mas precisava vê-las, saber se estavam bem, com saúde – justifica-se.
—Estão bem. Muito bem, eu diria – asseguro.
— E como foi sua consulta? – quer saber.
—Nem melhor nem pior. Dentro do esperado. Tentarão me pôr no topo da lista de transplante, mas acho pouco provável que consigam – relato.
—Adrienne e Serena, como reagiram? -pergunta, mantendo seu olhar perdido nas fotografias em suas mãos.
—Dri já estava preparada para o que ouviu, mas Serena não aceitou uito bem. Ainda está com raiva por termos mudado – conto, abrindo meu paletó – Falei com ele durante a consulta – digo, conseguindo sua atenção – Me pareceu bem diferente do pai e pelo cuidado que teve em não mencionar sua relação com ela diante de mim mesmo depois que me identifiquei, acredito que esteja disposto a tudo para protegê-la – comento – A ela, as irmãs... e a nosso neto – acresço, fazendo-a girar a cadeira de rodas, ficando completamente de frente para mim.
—Não sei se isto é bom ou ruim, Bob. Pode ser uma faca, afiada, de dois gumes – diz, suspirando profundamente, enxugando uma lágrima solitária.
—Terá de ser bom. Precisamos concertar as coisas porque não temos mais muito tempo. Nem você, nem eu, Kathy – lamento, segurando suas mãos.

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