Love Hurts!
33 Sins of parents part. 1
Notas iniciais
“....Dorme agora;
É só o vento lá fora;
Quero colo;
Vou fugir de casa;
Posso dormir aqui, com vocês?
Estou com medo;
Tive um pesadelo;
Só vou voltar depois das três...”
Pais e Filhos
Legião Urbana
Chicago Med (terça-feira, 11/9 – 10:18 a.m)
Connor
—Doutor Halstead, doutor Rhodes, Bagdá chegando! – Maggie chama nossa atenção, nos fazendo desviar da tela do computador onde revíamos o caso do Situs Inversus.
De imediato nos dirigimos a entrada da emergência, calçando as luvas de procedimento a espera da ambulância, que não tarda.
—Fale conosco Brett – Will se adianta, ajudando os paramédicos a conduzir a maca, a quantidade de sangue me deixando surpreso.
—Sebastian Hawkins, homem, trinta se sete anos, múltiplos ferimentos, pressão quinze por oito, uma parada cardiorrespiratória durante o trajeto, três bolsas de sangue utilizadas – relata enquanto posicionamos a maca junto ao leito.
—Transferir em três, dois, um – comando, posicionando-me no lado oposto ao que Will estava ajudando a transferir o paciente da maca para o leito – April, duas plaquetas e mais duas bolsas de sangue... A positivo – ordeno, lendo o tipo na identificação em seu peito – Ele é policial? -inquiro, estranhando a ausência de fardamento.
—Quantos tiros tomou? – Will pergunta, me fazendo começar contar os ferimentos.
—Quatorze e sim, ele é policial. Detetive do distrito trinta e um, centro. Estava em campo numa investigação quando foi atingido. A parceira levou um tiro na perna e está a caminho assim como outros feridos que virão para cá – releva ela, puxando a maca para fora – Houve um tiroteio na praça de alimentação de um shopping no centro. Muita gente ferida. Doze mortes no local – alerta e como para ratificar sua informação, ouvimos a voz de Maggie.
—Doutor Choi, doutora Manning, Bagdá chegando em três, dois....- antes que a contagem terminasse, escutamos a porta da emergência abrir, Ethan e Nat passando logo em seguida, uma maca sendo posicionada na sala anexa a que estávamos enquanto ouço Maggie encaminhar a outra vai para trauma quatro.
—Tiroteio em um shopping. Ótima forma de começar o dia! – Will exclama, suspirando – Quero raio X, hemograma completo, TGP e creatinina.... Quatorze tiros? Como esse cara ainda tá vivo??? – questiona, se afastando após as chapas serem posicionadas.
—Uma boa dose de sorte, creio eu – comento, me aproximando dele, examinando os primeiros resultados – Retiro o que disse. Uma grande, enorme dose de sorte! – exclamo, não escondendo minha surpresa ao constatar que nenhum órgão vital fora atingido.
—Ou o anjo da guarda dele trabalhou magnificamente bem! – meu amigo diz, examinando os demais resultados enquanto verifico se estava estabilizado o suficiente para subir a SO.
—Não dá pra subir com ele agora. Está muito instável – constato, avaliando as opções que tínhamos – Precisamos operá-lo! – aviso, tenso.
—Quer operar aqui embaixo? Sério? – Will questiona, afastando o que sobrara das roupas do paciente.
—Não vejo escolha – respondo, suspirando – Quero estabilizá-lo ou vamos perdê-lo no percurso até uma SO – digo, indo a porta da sala de atendimento – Maggie, preciso de uma SO para ontem e de um anestesista aqui embaixo Agora! — ordeno, trocando as luvas sujas por outro par limpo – Will, vou precisar de sua ajuda – aviso, ele acenando afirmativamente – Pessoal, temos que tirar alguns destes projéteis aqui ou nosso amigo não vai sobreviver, o que não seria justo. A parte dele já está fazendo, lutando pela vida. Façamos a nossa – motivo a equipe, me posicionando do lado direito, Will no esquerdo – April, ficara encarregada de auxiliar com o instrumental. Mirela, enquanto o anestesista não chega, fique atenta a sedação, Noah e René, estão encarregados de manter nossa área de trabalho o mais limpa possível – determino, uma enorme bandeja repleta de tudo que precisaríamos, Will e eu, para a retirada das balas sendo posta sobre uma mesinha móvel em questão de segundos.
—O que ele quis dizer? – ouço o irmão de April perguntar-lhe, não tão baixo quanto pretendia, estou certo, e respiro, controlando a impaciência.
—Que devemos limpar os ferimentos nos quais estiverem retirando os projéteis para que possam ver o que estão fazendo – é René quem se adianta em responder, posicionando-se ao lado de Will, deixando Noah comigo, preparando tudo que precisaria rapidamente.
—Ah!! – Noah exclama, claramente sem graça ao me encarar, vindo postar-se a meu lado tão logo faz o mesmo que René.
—Todos prontos? – questiono após um tempo curto, um coro de “sim” ecoando no ambiente – Vamos focar nas extremidades onde os ferimentos parecem menos complexos e profundos – recomendo, meu amigo anuindo com um aceno afirmativo – Foco pessoal. Vamos ajudar o senhor Hawkins a vencer esta primeira batalha – conclamo, dirigindo um rápido olhar a Will – É como andar de bicicleta. Uma vez a primeira pedala é dada, o resto vai naturalmente – incentivo-o ao perceber sua insegurança. Não era cirurgião de trauma, mas já operara antes e sabia de sua capacidade além de confiar plenamente nele – Vamos nessa! – exclamo, dando início ao procedimento.
Conforme previ, os ferimentos localizados nas extremidades (braços, pernas e uma parte do abdômen) se mostram de mais fácil remoção, a chegada de Martin segundos após termos começado me deixando menos tenso. Sem grandes dificuldades, conseguimos retirar os projéteis sendo necessário parar apenas uma vez quando a pressão subira em demasia.
—Doutor Rhodes, SO disponível e a sua espera – Maggie avisa, afastando-se a fim de dar passagem outra maca.
—Ok. Vamos subir – aviso, Martin e Mirela acompanhando a maca enquanto me dirijo a sala ao lado – Ethan, como estão as coisas aqui? – pergunto, observando o rapaz estirado no leito.
Apesar de estar focado em meu paciente, notara a movimentação tanto em sua sala quanto do lado de fora.
—Nada bem. O tiro atingiu a cabeça. Está estável, mas teve perda de massa. Pedi uma avaliação da Neurologia – relata rapidamente, descalçando as luvas sujas, descartando-as.
—Fique atento para o caso de ele ser doador. Tenho um paciente que precisa de um coração com certa urgência– peço, caminhando, de costas, para fora da sala.
—Ficarei – garante ele, me puxando quando uma maca passa, evitando ser atingido.
—Obrigado – agradeço duplamente, tocando seu ombro, me voltando, correndo atrás da maca com meu paciente, prestes a entrar no elevador. Na passagem noto a presença de Ava, Stohl e o novo responsável pela residência, doutor Lanick, o vai e vem de macas, confirmando o que Silvye alertara – Sobe – aviso, apertando o botão do quarto andar, onde se localiza a maior parte das SOs do Med, respirando fundo, rezando mentalmente para que conseguíssemos dar conta do fluxo de atendimentos.
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Sarah (11:00 a.m)
—Pronto, meu amor, acabou! Mamãe foi má com você, não foi? Deixou aquela moça malvada te espetar, ô mamãe ruim!! – não contenho o riso ao escutar Claire dizer com voz melosa, ninando Max, que chorava por conta das vacinas – Ai Sarah, que dó!! – exclama, quase chorando e novamente rio, entrando no elevador juntamente com ela.
—Dá pena sim, mas é para o bem dele – digo, afagando e beijando a cabeça de meu filho.
—Agora terminou, não é? Quer dizer, sem mais furadas por um bom tempo, né isso? – quer saber, ninando-o mais um pouco
—Mais ou menos – respondo, rindo da careta que ela faz – Que titia mais medrosa você tem filho! – brinco, retirando o algodão, pondo o pequeno band-aid colorido no local onde Caitlin aplicara a vacina – Agora só faltam umas duas, se não me engano. Depois só o reforço anual para algumas – tranquilizo-a, posicionando o carrinho quando estamos no andar anterior a emergência.
—Para onde agora? – ela pergunta, postando-se a meu lado, sorrindo quando o choro de Max cessa quase que totalmente.
—Vamos passar na emergência para dar um Oi ao papai e depois direto para a escola ver a questão da creche – informo, assustando-me com o tumultuo quando as portas abrem.
—Senhor, que loucura é essa!?! – Claire verbaliza meu pensamento – É sempre assim por aqui? – inquere, encolhendo-se num canto a fim de evitar uma maca que passava.
—Nem sempre – murmuro, tensa, fazendo com que ficasse a minha frente, conduzindo-a pelo corredor principal até atingirmos a ilha principal, perto da entrada – Maggie, que está acontecendo? – pergunto, trazendo Claire com meu filho para o interior do local, pondo o carrinho em um canto para não atrapalhar.
—Houve um tiroteio numa praça de alimentação em um shopping no centro – relata, vindo a nosso encontro – Olá rapazinho! Veio tomar suas vacinas? – pergunta, segurando e cheirando a mãozinha dele – Está cada dia mais lindo! – elogia.
—Obrigada – agradeço, procurando meu noivo com o olhar – Connor?? – inquiro, sem desviar o olhar das salas de atendimento, todas ocupadas.
—Subiu a pouco com um paciente – informa ela, o toque de seu paiger a fazendo gemer e me volto – Céus, mais um paciente a caminho! Que faço!? – questiona mais para si do que a mim propriamente, olhando em volta, agoniada.
—Todos estão ocupados? – quero saber.
—Sim. Até Sharon e doutor Latham estão atendendo – responde, indicando a sala onde meu antigo mentor e nossa administradora se encontravam, trabalhando em dupla – Vou ter que reencaminhar para...
—Eu atendo – a interrompo, já arregaçando as mangas de minha blusa – Claire, poderia levar Max para casa, por favor? – peço, catando e calçando as luvas de procedimento.
—Tem certeza, Sarah? – Maggie inquere, olhando por sobre meus ombros – Ainda posso reencaminhar para outro hospital – prontifica-se.
—Tenho. Eu atendo – reitero, deixando a ilha – Clarissa sabe onde estão os remédios no caso de Max ter febre antes de eu chegar. Avise que irei tão logo termine aqui – peço, indo ao encontro da maca, que entrava com uma menina pouco mais velha que Marina – Fale comigo Ortiz – solicito, ajudando-os conduzir a maca.
—Anna Wilson, seis anos e meio, atingida no tiroteio do shopping, ferimento de entrada sem saída visível, pressão doze por nove – relata o paramédico, olhando de um lado para outro – Onde? – pergunta e somente então me dou conta de que Maggie não nos encaminhara ainda.
—Trauma cinco acaba de liberar – adianta-se ela e sorrio, ajudando conduzir a maca até o local.
—Na minha contagem, em três, dois, um – comando, pondo a garotinha sobre o leito – Obrigada rapazes – agradeço, iniciando o atendimento.
—Ah, os pais estão a caminho – informam Ortiz, parando a porta da sala.
—E onde está a pessoa que a acompanhava? – pergunto, ambos realizando um meneio de cabeça negativo, suas expressões dizendo mais do que qualquer palavra – Entendo. Obrigada – agradeço, voltando minha atenção a garotinha deitada no leito, me concentrando no atendimento, examinando-a atentamente.
O projétil entrara, mas não saíra e aí residia todo problema. A bala poderia estar alojada em qualquer parte do pequeno corpo da menina.
—Ela não apresenta quadro de dormência ou qualquer outro tipo de falência em membros o que significa dizer...
—Que os membros inferiores e superiores não foram afetados – o jovem estagiário, Hugo alguma coisa (não conseguia lê seu sobrenome) completa, examinando as imagens do raio X que acabáramos de fazer – Nada nos exames – diz o óbvio.
—Vou pedir uma ressonância – aviso, olhando a garotinha deitada, tranquila, alheia a tudo – Ao menos não está sentindo dor – comento, indo até ela – Oi, meu bem. Como está se sentindo? – quero saber.
—Cansada – diz ela, fazendo um biquinho que me parte o coração, admito – Mamãe e papai não vem? – pergunta, me olhando temerosa.
—Vem sim meu anjo. O pessoal do hospital já deve ter entrado em contato com eles e logo estarão aqui, estou certa disto – tranquilizo-a – Vou deixá-la um minuto e já volto. Está jovem aqui irá cuidar de você enquanto isto – digo, afagando sua cabeça com carinho — Alice, quero hemograma completo, TGP, Creatinina e prepare-a para fazer a ressonância. Vou solicitar o exame, verificar se os pais dela chegaram e volto logo a seguir para acompanha-la– aviso, me dirigindo a ilha de enfermagem – Mags, preciso de uma ressonância o mais rápido possível – peço, olhando em volta a busca de Claire – Minha cunhada já foi? – pergunto, abrindo no computador a minha frente um prontuário para a garotinha usando minha senha de acesso ao sistema.
—Não – ouço e me volto, surpresa – Jay Halstead apareceu ferido, pouco depois que você foi atender, e ela resolveu esperar mesmo ele dizendo estar bem. A coloquei na sala de descanso para que pudesse ficar mais à vontade – avisa e olho naquela direção, vendo-a com Jay e Max, arqueando a sobrancelha – O tiro pegou de raspão. Ele está bem – tranquiliza-me, sorrindo minimamente – Vai falar com eles? – questiona-me, parando a meu lado.
—Dou uma passada assim que terminar aqui, antes de ir acompanhar o exame da pequena. Falando nisso, os pais dela já chegaram? – quero saber, terminando de preencher o prontuário com minha avaliação e exames pedidos.
—Ainda não. Se por aqui as coisas deram uma acalmada agora, lá fora continuam fervendo – comenta e a olho – Parece que o atirador abriu fogo contra um dos seguranças de uma loja perto da praça de alimentação por ter sido discriminado e daí outro segurança respondeu e a confusão só foi aumentando. Doze mortos, treze se o paciente do doutor Choi de fato não sobreviver – diz, indicando-o e olho naquela direção, Ethan e Sam Abrams conversando com Miss Goodwin – Mais de quarenta pessoas feridas com ou sem gravidade. Isto sem falar os tiros que atingiram de raspão policiais e pedestres nas redondezas, gerando mais confusão – conclui.
—Minha nossa! E pensar que todo este estrago pode ter sido causado por ignorância e falta de respeito com o próximo – lamento, deixando a ilha – Vou falar com eles e depois acompanhar o exame de Anna. Tem algum cirurgião disponível? – quero saber.
—Doutor Latham é o mais perto de ser liberado – avisa – Quer que o deixe de prontidão? – pergunta.
—Quero. Avise onde estou e peça que vá a meu encontro se ele puder se estiver certa, irei precisar de um cirurgião – afirmo, caminhando apressadamente até a sala de descanso, abrindo a porta quando meu amigo e minha cunhada trocavam um beijo casto (ou quase) – Hum, hum! Cuidado ai! Há menores no recinto – os provoco, Jay rindo ao cessar o contato – Machucou muito detetive? – brinco, me agachando para dar um beijo em meu filho.
—Foi só de raspão e culpe sua amiga por isto – acusa e o encaro de cenho franzido – Kim enfiou na cabeça que devemos fazer uma festa de aniversário surpresa pro Hank e me arrastou até um estúdio, loja ou sei lá o que, para ver decoração e outras coisas aproveitando que já estávamos por perto numa diligência– revela, me fazendo rir – Tá rindo né? Pois saiba que a senhorita faz parte do plano – avisa e arregalo os olhos – As duas fazem – refaz, dando um selinho em Claire – E por falar na dita cuja! – exclama e antes mesmo de me virar, sei que Kim estava entrando.
—Jay, tudo bem? – pergunta, se voltando para Claire – Claire? Que faz aqui? – interroga, abrindo a boca, mas me adianto.
—Ela veio me acompanhar nas vacinas e acabamos sendo pegas, num bom sentido, se é que posso dizer assim, no meio do furacão. Fiquei para ajudar – explico, Maggie chamando minha atenção da ilha de enfermagem – E já vou indo acompanhar o exame de uma paciente. Claire, se for me esperar melhor ir para a creche do hospital. Lá é mais tranquilo e tem o que precisa para aquecer a mamadeira caso ele sinta fome. Peça a Mags que ela te leva até lá – peço, dando mais um beijo em meu filho e um na bochecha de minha amiga e cunhada antes de sair – Oriente aquela desorientada caso ela resolva ficar a minha espera, por favor – peço, Mags rindo divertida.
—Pode deixar. Avisei ao doutor Latham. Quando sair da cirurgia vai a seu encontro – avisa, e ergo o polegar, correndo para não perder o elevador.
Confesso: estava sentindo falta deste movimento todo. Mesmo sendo por uma causa tão sofrida, estava feliz em estar de volta, ainda que não oficialmente.
Na sala de ressonância, me posto ao lado do técnico, acompanhando as imagens na medida que surgem na tela, meu nível de tensão chegando ao máximo quando localizamos o projétil, preciosamente alojado junto ao coração, entre este órgão e o pulmão esquerdo.
—É o que podemos chamar de capricho – escuto e me volto, surpresa por não tê-lo escutado entrar – Mas está relativamente fácil de ser removido, salvo algum imprevisto – declara, se aproximando mais – Vou precisar de ajuda. Prepare-se doutora Reese – avisa, saindo tão rápido quanto entrou.
—Latham sendo Latham – Marcus, o técnico, diz e rio discretamente, tocando seu ombro antes de sair, a mensagem de Maggie me fazendo mudar de direção, indo à sala de espera no andar das SOs, ao encontro dos pais da garotinha.
—Boa tarde – cumprimento, dando uma rápida olhada no relógio na parede: doze horas e quinze minutos – Sou a doutora Reese. Estou acompanhando o caso de sua filha – me apresento
—Doutora, como está nossa garotinha? – o pai pergunta, ansioso, segurando a esposa junto a si, num abraço carinhoso.
Respiro fundo, relatando detalhadamente todo o caso, explicando que se fazia necessário uma cirurgia de urgência, que se tratava de um procedimento era delicada, mas que ela estava nas melhores mãos possíveis. Explico as vertentes e possibilidades, os riscos envolvidos, deixando-os quando um dos enfermeiros vem me chamar, avisando que ele me esperava para começar a cirurgia.
—Assim que o procedimento terminar, viremos falar com vocês...Com boas notícias, espero – penso, enviando uma mensagem a Claire a respeito da cirurgia, ela respondendo que iria para casa com Jay, Kim porque Max havia feito caquinha e precisava de um banho. Sorrio, imaginando-a banhando meu filho com a ajuda de meus amigos – Queria ser uma mosquinha para ver isso! – exclamo, deixando estes pensamentos de lado ao entrar no vestiário a fim de trocar de roupa e logo a seguir na sala de esterilização, me preparando para auxiliar doutor Latham.
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Sala de cirurgia Med (12:43 p.m)
Narrador
Tenso, Connor mexe o pescoço de um lado para o outro a fim de aliviar parte da tensão acumulada.
Havia cerca de duas horas que ele operava o policial atingido no tiroteio do shopping. Mesmo tendo retirado alguns projéteis ainda na emergência, os que ficaram encontravam-se em locais de difícil acesso, obrigando o cirurgião a ter o triplo de atenção.
—Martin, como estamos? – pergunta sem desviar o olhar do ferimento localizado nas costas do rapaz.
—Estável ainda – informa o anestesista – Quantas ainda faltam? – pergunta.
—Estas duas são as últimas....e as mais complicadas! – responde o cirurgião, puxando o ar com força, soltando-o lentamente, guiando a pinça em direção ao primeiro projétil, parando ao escutar os monitores apitarem – Martin??? – inquere.
—Tranquilo Connor. Só um pequeno pico – avisa, controlando o nível de sedação – Olha, esse sujeito vai ter história para contar aos netos. Quatorze tiros e ainda vivo! – admira-se.
—Espero que ele possa realmente viver para contar o que passou – Connor murmura, retirando a bala, inclinando-se um pouco mais a fim de visualizar melhor o ferimento – Sucção – pede, a jovem estagiária introduzindo o sugador, permitindo a ele ter uma visão limpa do local – Obrigado Neela – agradece, concentrando-se, conseguindo segurar o projétil de primeira, retesando-se ao escutar seu nome ser chamado.
—Doutor Rhodes, um de seus pacientes acaba de dar entrada na emergência com quadro grave de hipertensão e taquicardia – Monique avisa.
—Nome – Connor pede, retirando a última bala.
—Robert Haywood – informa a jovem, fazendo-o paralisar um segundo, puxando o ar com força.
—Doutora Bekker ou doutor Latham estão disponíveis?? – quer saber, averiguando o ferimento, notando um pequeno sangramento contínuo.
—Doutora Bekker deve sair em pouco – avisa a enfermeira.
—Peça-lhe que o atenda enquanto chego – solicita ele, ela tencionando sair, estancando ao ouvir a voz do cirurgião chamar – Mais uma coisa Monique. Sabe me dizer se o paciente do doutor Choi sobreviveu? – inquere, encontrando o vaso que estava causando o sangramento.
—Não sei não senhor. Quer que verifique? – questiona a enfermeira.
—Por favor e peça a doutora Bekker que verifique a compatibilidade do paciente do doutor Choi com o senhor Haywood, em caso de óbito – recomenda.
—Sim senhor – responde Monique, saindo.
—Vamos lá pessoal, agora falta pouco – anima o cirurgião, ligando o vaso, certificando-se de haver contido o sangramento antes de suturar ele mesmo o ferimento, reposicionando-o de barriga para cima, passando a conferir cada ferimento cuidadosamente a procura de outros vasos que pudessem estar causando novos sangramentos, nada encontrando – Ok. Neela, suture e depois o encaminhe para a UTI. Vou falar com a família. Por hora, bom trabalho pessoal – cumprimento-os – Estejam em alerta. Posso precisar de vocês novamente dentro em pouco – alerta, tocando alguns ombros antes de deixar a SO.
No corredor, retira a touca cirúrgica, enxuga o rosto com o dorso da mão, aproveitando para beber um generoso copo com água ao passar pelo bebedouro, caminhando apressadamente para a sala de espera do andar. Enruga o cenho ao se aproximar, visualizando a irmã com o filho no carrinho, Jay e Kim ao lado dela, mas não tem chance falar-lhes visto doutor Lanick o interpela tão logo o vê.
—Doutor Rhodes, estes são os familiares do oficial Hawkins – apresenta, conduzindo o cirurgião para o centro da sala – Senhor e senhora Hawkins, pais de Sebastian, senhorita Alicia, irmã e senhorita Wilson, noiva – apresenta, uma das mulheres mais nova se aproximando dele, apertando as mãos, aflita.
—Como ele está? Vai sobreviver não vai? – interroga, uma garotinha agarrando-se a perna da jovem.
—A operação correu sem maiores problemas. Não há sangramentos internos e nenhum órgão vital foi atingido – comunica Connor – Será transferido, em alguns minutos, para a UTI. O risco de morte ainda existe, não vou mentir-lhes, mas as chances são muito boas. As próximas vinte e quatro horas serão fundamentais a recuperação do oficial Hawkins – completa, sorrindo discretamente. Não gostava de prometer recuperação plena logo após haver terminado um procedimento, ainda mais um extenso e delicado como fora aquele – Tudo que estava a nosso alcance foi feito – garante, surpreendendo-se ao receber os abraços da noiva e da mãe do paciente.
—Muito obrigada doutor – agradece a mais velha, emocionada.
—De nada. Pedirei que os avise quando estiver no quarto para que possam vê-lo– avisa, fazendo uma curta reverência antes de se voltar, deixando a sala, indo diretamente ao encontro da irmã, que conversava com Jay, Kim e outros membros do vigésimo primeiro distrito – Claire, que faz aqui? – inquere, abaixando-se para ver o filho, que dormia tranquilo no carrinho.
—Vim acompanhar Sarah nas vacinas de Max e ela acabou sendo tolhida pelo furacão, por assim dizer – explica a empresária – Estava de saída quando vi Jay chegar, baleado, e voltei – completa.
—Foi atingido? – Connor pergunta, voltando sua atenção para o detetive.
—Só de raspão – responde, mostrando o ombro – Hawkins vai sobreviver? – pergunta, os demais detetives se aproximando, atentos.
—Tem grandes chances – repete o que dissera a família, os demais policiais respirando aliviados, indo ao encontro da família do policial ferido, Connor dando atenção a irmã novamente – Sarah ainda está no hospital? – quer saber, sentindo cada músculo de seu corpo tencionar-se ante a confirmação da irmã.
—Está. Inclusive, entrou em cirurgia a pouco, com doutor Latham – Claire informa.
—Droga!! – Connor deixa escapar, passando a mão pelo cabelo, pegando seu paiger, que começara tocar.
—O que houve Connor? – Kim pergunta, pressentindo algo no ar.
—O pai dela deu entrada a poucos minutos – revela, suspirando quando o paiger toca novamente – Estou indo vê-lo agora e, se não estiver enganado, irei operá-lo ainda hoje – avisa, Claire, Jay e Kim trocando olhares preocupados – Pedirei a Maggie que fique alerta e me avise, mesmo que esteja em cirurgia, quando ela terminar o procedimento no qual está – diz, se abaixando outra vez, beijando a fronte do filho – Ele fez caquinha – alerta, rindo da cara de nojo feita pela irmã.
—Eu sei! Estava indo limpar – responde Claire, virando o carrinho – Me ajuda Kim? – pede a empresária.
—Claro – prontifica-se a detetive, dirigindo-se ao banheiro mais próximo.
—Jay...
—Vou deixar Claire em casa e volto. Quero estar por perto quando Sarah descobrir que o pai está internado– adianta-se o detetive, Connor sorrindo em concordância.
—Obrigado – agradece o cirurgião, dando atenção ao paiger novamente – Preciso ir – diz, saindo quase correndo, seguindo direto para a emergência onde encontra Ava conversando com Miss Goodwin, Ethan e doutor Charles – Desculpem a demora. Estava falando com a família de meu paciente e com minha irmã – justifica-se.
—Sem problemas doutor Rhodes – Miss Goodwin diz – Estávamos falando sobre a possibilidade de seu paciente receber o coração do senhor Robertson, o paciente do doutor Choi que veio a óbito alguns minutos atrás – atualiza-o.
—E quais as chances de meu paciente receber o coração, embora não esteja no topo da lista – lembra o cirurgião.
—Eu diria que são boas. O tipo sanguíneo deles é o mesmo e apesar de o senhor Haywood não estar no topo da lista, é o paciente mais viável em receber o coração dentro do limite de tempo estipulado – Goodwin afirma – Estou esperando apenas a resposta do hospital de Springfield. Eles têm um paciente com o mesmo tipo sanguíneo lá que está a frente do seu, portanto preciso esperar para saber se está em condições de receber o transplante. Como Haywood está? – quer saber a administradora.
—Estável, mas sem querer ser pessimista, não acredito que suporte muito tempo sem um novo coração – Ava Bekker revela, entregando o tablet com a ficha do paciente aberta a Connor, deixando-o ainda mais tenso.
—O senhor Haywood já veio para nós com um quadro grave e com medicação completamente descontrolada. Honestamente não sei como não havia sido interno antes – Connor constata.
—Sorte – Ava diz, dando de ombros.
—Vou apressar Springfield – Goodwin diz, afastando-se.
—A esposa e filha dele estão aqui? – Connor pergunta, recostando-se ao balcão, devolvendo o tablet a Ava.
—Estão. Falei com elas agora a pouco – Daniel Charles avisa, sinalizando a Ethan Choi – Acho que são os pais de seu paciente – alerta, o médico se voltando – Quer minha ajuda? – se oferece o Psiquiatra.
—Não precisa. Já tive uma conversa prévia com eles por telefone. Vieram despedir-se e aguardar a liberação do corpo para o sepultamento visto já saberem que o filho era doador – explica, indo ao encontro do casal.
—A verdade é que, por mais que se diga estar preparado, nunca se está pronto para receber a notícia da morte de alguém querido. Especialmente um filho tão jovem – Daniel comenta, observando o casal.
—Connor, seu paciente – Ava lembra, tirando-o do transe no qual entrara.
—Sim. Certo – diz, voltando-se em direção aos elevadores, estacando após dar o primeiro passo – Daniel, iria pedir a Maggie, mas acho que seja mais indicado – começa, se aproximando do Psiquiatra – Soube que Sarah está no Med. Veio vacinar nosso filho e acabou sendo pega no olho do furacão. Está ajudando Latham numa cirurgia. Poderia ficar atento a ela, por favor? Não gostaria que soubesse sobre o pai desta maneira – pede.
—Claro. Ficarei atento e quando ela sair, caso esteja ocupado, conversamos, se quiser – se oferece.
—Faça isso por favor – anui o cirurgião – Apesar de dizer que não está mexida, sei que está e gostaria de dar a ela a chance de ao menos se despedir do pai– argumenta – Obrigado Daniel – agradece, se voltando para Ava – Vamos – chama, tomando a frente.
—Algo que eu deva saber? – pergunta a cirurgiã ao entrarem no elevador.
—Haywood é pai da Sarah – revela Connor após breve hesitação.
—Ah...Entendo – comenta ela, respirando fundo – Algum problema para você em operá-lo? – quer saber.
—Nenhum – afirma o cirurgião, ambos deixando o elevador quando este para no andar da Cardiologia, caminhando a passos largos em direção ao quarto – Senhor Haywood, já de volta? – indaga Connor, usando o tom mais descontraído que consegue, lendo o prontuário.
—Pois....é – anui o homem, respirando com dificuldade – Pensei que teria mais tempo para concertar algumas coisas.... acho que me enganei – acresce, tomando grande fôlego – Seja sincero comigo Rhodes... não tenho muito tempo, não é? – pergunta.
—Não diga isso Bob, por favor! – a esposa pede, aflita – Estou certa de que doutor Rhodes tem boas notícias – diz, esperançosa, ambos cirurgiões trocando olhares preocupados
—Serei sincero com vocês. Se não conseguirmos um coração rápido, as chances de sobrevivência do senhor Haywood são mínimas – Connor relata, dando um segundo para absorverem a informação – Sua posição na lista será atualizada, mas isto não significa que as coisas serão mais fáceis – avisa.
—Mas... mas....deve haver algo a que possa ser feito, uma cirurgia, ao que nos dê tempo – contesta a mulher, ansiosa.
—Adrienne, por favor – Haywood pede.
—Como doutor Latham explicou-lhes quando de nossa primeira consulta, paliativos irão apenas adiar o inevitável – repete Connor, dando atenção seu paiger – Dêem-me licença – pede, saindo da sala, Ava o seguindo, ambos parando ao lado da ilha de enfermagem, ele pegando seu celular – Maggie, me dê boas notícias – pede.
< Sinto muito doutor Rhodes > lamenta a enfermeira chefe.
—Tudo bem. As chances eram poucas, mesmo. Obrigado – agradece, desligando – O coração vai para Springfield – comunica, desanimado, olhando em direção ao quarto, suspirando.
—Certas coisas não consigo entender. Nosso paciente está aqui, precisando tanto quanto o outro e eles preferem enviar a outro quilômetros de distância por conta do quê? Posição numa lista? – Ava reclama, irritada.
—Não exatamente – ouvem, voltando-se para encontrar doutor Charles, que chegava trazendo o tablet em mãos – O que definiu para quem iria o órgão foram as taxas do senhor Haywood – avisa, entregando o aparelho a Connor, que lê atentamente, suspirando novamente.
—O resultado dos exames que pediu hoje, quando ele deu entrada – comunica, mostrando a tela a colega – Mesmo que tenham diminuído, não haveria como operá-lo sem risco de uma rejeição ou algo pior. A decisão foi correta – conforma-se – Talvez devamos pensar em um stent – pondera.
—Mas somente depois que estabilizar – Ava diz, deixando os braços caírem pesadamente lateralmente ao corpo – Solicito novos exames? – questiona ela.
—Sim, por favor – Connor anui, pensativo – Vou deixar a medicação ajustada para despois que fizer a coleta – avisa, a cirurgiã afastando-se após concordar com a aceno.
—Bom ver os dois trabalhando em harmonia – Daniel Charles comenta, encarando Connor com um sorriso discreto.
—No seu lugar não ficaria animado. É uma trégua momentânea em nome da boa convivência em tempos de crise! – brinca o cirurgião, rindo sem vontade.
—Oxalá essa paz dure mais tempo! – exclama o Psiquiatra, erguendo as mãos ao céu – Formam uma excelente dupla Connor. Espero ardentemente que encontrem o equilíbrio necessário a uma boa convivência para o bem e crescimento de nosso hospital e principalmente do departamento de Cardiologia – discursa – Mas não foi apenas para lhe trazer os resultados do senhor Haywood que vim aqui. Sarah saiu da cirurgia. A deixei com Latham, falando com a família da paciente – comunica.
—Vou falar com ela – Connor diz, pondo o tablet sobre a bancada da ilha, afastando-se lentamente sob o olhar do Psiquiatra, este desviando-se do cirurgião quando a garota alta e magra de cabelos negros e cacheados passa em direção ao terraço, distraída com seu celular.
—Acho que vou tomar um pouco de ar – pondera Daniel, seguindo-a.
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Sarah (13:17 p.m)
Me inclino sobre a pia, abro a torneira pondo minhas mãos juntas em forma de concha debaixo do jato de água, enchendo-as, atirando-as contra meu rosto e pescoço, repetindo o gesto mais duas vezes, aliviando parte do calor e tensão.
Tinha sido mais complicado do que esperava auxiliar Latham. Fisicamente falando, quero dizer. Minhas pernas e costas doíam, tinha a sensação de que meus pés estavam inchados, minha cabeça começava a doer e sentia cada músculo de meu corpo tensionado. Fecho os olhos massageando o pescoço com ambas mãos.
—Definitivamente preciso começar a fazer algum exercício!! – admoesto a mim mesma, sobressaltando-me ao sentir minha cintura envolvida ao mesmo tempo que lábios quentes beijam minha nuca, provocando arrepios de puro prazer.
—Sexo é um ótimo exercício! – a voz grave e já familiar de meu noivo declara, me apertando mais contra seu corpo e sorrio.
—Hum, não sei. Dizem que natação é o esporte mais completo por mexer com todos os músculos do corpo – contesto, acariciando os braços que me envolviam.
—Neste caso podemos unir os dois e teremos o esporte perfeito! – sugere e rio, girando de forma a ficar de frente para ele, levando meus braços a seu pescoço, evolvendo-o.
—Já lhe disse que anda permitindo a sua mente passear demais pela sarjeta doutor Rhodes? – provoco-o, mordendo seu queixo de leve, satisfeita ao escutá-lo gemer baixinho.
—E a culpa é de quem mesmo, doutora Reese? – devolve, tomando meus lábios num beijo sensual, prensando-me contra a bancada da pia num primeiro momento, as mãos ávidas passeando por todo meu corpo, de alto a baixo.
Me sinto incendiar, respondendo com igual avidez, enroscando as pernas a sua cintura quando me ergue e senta-me sobre a bancada, enfiando as mãos por sob seu pijama cirúrgico (ambos usávamos os nossos) em busca da pele quente, arranhando.
—Ooops! Desculpem! – ouço alguém dizer, o som da porta de entrada do lavabo batendo nos fazendo parar de imediato – Desculpem – a pessoa repete já do lado de fora, risos ecoando dentro e fora do ambiente.
—Acho que vamos tomar uma advertência! – exclamo, ofegante.
—Comportamento inadequado – Connor completa e rimos – Saímos ou terminamos o que começamos? – inquere, me olhando de uma forma que faria até uma santa pecar!
—Saímos. Quero muito transar com você, mas prezo meu emprego igualmente, logo, separando doutor Rhodes – ordeno, estapeando seus ombros.
—Ok – concorda com inesperada rapidez, se afastando de modo a me permitir descer da bancada, o que me causa surpresa.
—Sem protestos, observações de duplo sentido nem tentativas de me convencer fazer o contrário? – comento, arrumando cabelo e roupa – Algo errado? – pergunto, a pulguinha da insegurança mordendo, mas logo a elimino ao notar o volume ainda visível sob sua calça – Connor, o que há? – insisto, seu silêncio e a maneira como me encarava me deixando inquieta.
—Precisamos conversar – diz, me estendendo a mão.
—Ok – imito-o, aceitando o convite mudo.
Seguimos de mãos dadas pelo corredor até os elevadores e de lá para o terraço. Nos sentamos em um canto permanecendo em silêncio durante alguns minutos.
—Sarah, lembra que te falei sobre a situação de seu pai? – Connor começa, o cuidado com que parecia escolher cada palavra me deixando em alerta.
—Sim – respondo, mantendo meu olhar sobre ele.
—Hoje, enquanto estava operando, ele deu entrada na emergência com um quadro grave. Os pulmões estão com líquido e o coração sobrecarregado. Mesmo tendo ajustado a medicação, o quadro dele piorou consideravelmente e agora nossa melhor opção passa a ser o transplante. Mesmo se pusermos um ou dois stents, será uma solução paliativa que não durara muito tempo – relata, me fazendo reter o ar a cada nova informação dada por ele, o silêncio nos envolvendo novamente durante alguns minutos após os quais ele toma minha mão entre as suas – Sarah, sei que não sou exatamente o melhor exemplo de relacionamento familiar, especialmente em se tratando de pai, mas se me permitir te dar um conselho, acho que deveria conversar com ele enquanto há tempo – aconselha, prosseguindo – Não estou querendo te assustar ou chantagear, longe disso. Quero apenas que se dê a chance de olhar para trás e não se arrepender de haver ao menos tentado fazer as pazes com seu pai ou se entender com ele, zerar sabe – diz.
—Faça o que eu digo, não faça o que eu faço, não é assim? – ironizo, me arrependendo no minuto em que as palavras saem de minha boca – Desculpa amor, me desculpa. Não quis dizer...
—Quis sim e está certa – me corta, amargo – Sei que também não dei qualquer chance a meu pai nem tentei fazer as pazes, de fato, com ele até hoje. Mas, sem querer me justificar, são casos distintos. Sua mãe está viva. Distante, porém viva. E seu pai, nas indiretas que pesquei as poucas vezes que conversamos, parece disposto a te procurar. Para ser sincero, acho que foi isto que o motivou aceitar o convite da universidade daqui – emenda, não me dando tempo contestar – Mas não estamos falando de mim e meu pai e sim de você. Um caso de família por vez – diz, sorrindo sem vontade – E estou apenas te dando um conselho de todo coração, porque sei o quanto é sensível e o quanto este assunto te incomoda. Se tem a chance de zerar esta parte de seu passado, faça – reitera, beijando minha mão.
—Vou pensar a respeito – prometo, encarando-o com carinho – Te amo – declaro, lhe dando um beijo casto.
—Também – retribui, sorrindo – E nosso menino, como reagiu as vacinas? – quer saber.
—Ele, relativamente bem. Já Claire quase desmaia e ficou toda chorosa. Max parou de chorar antes dela – conto, fazendo-o rir, o ronco alto de minha barriga me deixando sem graça.
—Parece que tem alguém com fome aqui!! – brinca.
—Estou mesmo – admito – Só tomei o café da manha e nada mais – digo, fazendo bico.
—Vamos tratar de corrigir isto agora mesmo – diz, levantando-se, me convidando fazer o mesmo – Eu também não comi nada depois do café – informa, me abraçando quando ponho-me de pé, o som de seu paiger fazendo nós dois estancarmos, a tensão nos tomando até ele olhar a mensagem – É só Maggie me avisando que os exames do oficial Hawkins ficaram prontos – comunica, trazendo alivio.
—O policial ferido com quatorze tiros? – pergunto enquanto caminhamos abraçados.
—Esse mesmo – confirma – Pedi novos exames para acompanhar o quadro dele, se está evoluindo ou estático – explica.
—Entendo. E como foi a cirurgia? – quero saber, ele passando a me contar como fora o atendimento ao policial me pedindo para fazer o mesmo sobre o atendimento que realizei.
Seguimos conversando até a lanchonete, optando por um lanche (reforçado, mas lanche) ao invés de descermos a área de trailers lá fora. Will e Natalie se unem a nós alguns minutos depois, contando-nos como foram seus atendimentos. Por um milagre, conseguimos fazer a refeição até o final sem nenhum de nós ser interrompido.
—Vai ficar até o término do plantão amor? – Connor pergunta quando estamos saindo da lanchonete.
—Acho que não. Verei como está minha paciente e depois vou para casa – decido – Melhor: vou ligar para Claire para saber como Max está e pedir que o leve ao conservatório. Quero acompanhar a aula da Emma – mudo de idéia.
—Hummm...pontinha de inveja aqui!! – brinca, me dando um selinho – Nos vemos mais tarde – despede-se.
O sigo com o olhar, suas palavras ecoando em minha mente, me fazendo tomar uma decisão que ponho em prática antes que mudasse de idéia.
—Oi. O senhor Haywood, está em qual quarto? – pergunto a enfermeira de plantão na ilha de enfermagem da Cardiologia.
—Aquele ali – indica, me fazendo olhar na direção vendo uma garota sair do quarto com um celular em mãos.
—Obrigada – agradeço, caminhando devagar, indecisa, até o local.
Paro a porta, me certificando que não havia ninguém além de uma enfermeira, que monitorava (certamente a pedido de Connor) seus sinais vitais. Entro quando ela sai, me aproximando do leito cuidadosamente, em silêncio, para não correr o risco de acordá-lo.
Observo-o atentamente, as poucas lembranças que tinha de sua feição vindo à tona paulatinamente. Recordo alguns momentos, comemorações do último ano em que o tive por perto em especial, toda dor e angústia que senti ao descobrir que fora embora trazendo lágrimas a meus olhos as quais não retenho.
—Algum problema doutora? – ouço, e enxugo os olhos antes de me voltar, deparando-me com a mesma garota que vira sair – Ah, desculpa. Pensei que era a outra médica, a que está cuidando do caso de meu pai com doutor Rhodes – fala e sinto meu estômago se contorcer e contrair até doer – Tá tudo bem? Ficou pálida de repente – pergunta, preocupada.
—Tudo, não se preocupe – minto – Eu vim apenas ver como...
—Sarah? – a voz que não escutava havia mais de dez anos chama. Fecho os olhos, retendo o ar, abrindo-os antes de me voltar – É você mesmo, não é? Minha garotinha! Está tão linda! – elogia, sorrindo fracamente – Que bom que veio ver-me. Quero tanto falar com você, te abraçar e pedir...
—Desculpa, mas....- corto-o, titubeando ao ver seu olhar sofrido, a chegada de uma mulher mais velha (sus esposa, suponho) me dando a desculpa que precisava para ir embora – Eu não posso. Não ainda. Não agora. Não posso – digo, saindo apressadamente, correndo tão logo estou longe, indo me refugiar no banheiro, deixando o choro correr livre, dando vazão a toda dor e frustração que sentia.
Me controlo lentamente, umidade em meus seios, molhando o pijama cirúrgico, lembrando-me de meu filho. Lavo o rosto, seco-o, deixando aquele andar tão logo me recomponho, seguindo para o vestiário onde me troco rapidamente. Pego minha bolsa e sigo para a estação central de enfermagem ao mesmo tempo em que envio uma mensagem a Claire, ela me respondendo segundos depois de ter recebido.
—Maggie, estou indo – aviso, parando defronte um dos monitores – Poderia pedir a doutora Bekker que assuma meu caso por favor? E avisar doutor Latham também – peço, fazendo algumas anotações rapidamente, fechando o monitor – E poderia avisar Connor que já fui? Não sei onde está no momento – peço.
—Claro – prontifica-se, me olhando desconfiada – Tudo bem? – quer saber.
—Não, mas vai ficar – digo, me despedindo rapidamente a fim de evitar mais perguntas.
Como Jay e Kim haviam levado Claire, meu carro estava no estacionamento. Sigo direto para casa, onde a encontro terminando de arrumar Max.
—Kim e Jay foram embora a pouco. Alguma chamada repentina – conta minha cunhada, me olhando atenta – Tudo bem Sarah? – pergunta e sinto vontade de gritar que não, que meu noivo, seu irmão, esquecera de me contar a respeito das duas mulheres com meu pai, mas me calo.
—Tudo. Só cansada – minto, em parte – Vou tomar um banho e já saímos – aviso, indo para meu quarto sem esperar resposta.
Lá chegando, abro o closet, escolho a roupa que usaria e vou tomar banho, chorando novamente debaixo do chuveiro. Me controlo a muito custo, saindo do box apenas quando as lágrimas cessam de vez.
Me arrumo com esmero, calço a sapatilha, pego um casaco e vou ao encontro de Claire na sala.
—Vamos indo? – chamo, ela levantando-se com meu filho nos braços – Clarissa, não precisa preparar jantar. Quando terminar de arrumar a cozinha pode ir -libero, dando atenção a meu filho, que chorava – Que foi amor? Está com saudade da mamãe? – murmuro, pegando-o no colo – Se incomoda em dirigir? – pergunto.
—Não – Claire responde, me encarando um segundo sem nada dizer, pegando as chaves e o carrinho de Max, adiantando-se a porta.
Fazemos boa parte do trajeto até a escola das meninas em silêncio, eu não querendo conversar, ela respeitando minha vontade, o silêncio sendo quebrado pela algazarra feita pelas crianças.
Assistimos a aula de Emma, conversando com seu professor ao final enquanto elas passeiam com Max pelo corredor. Quando saímos, levo Claire em casa antes de ir a um restaurante jantar com as meninas. A convidara, mas declinara dizendo estar com dor de cabeça.
Depois de tomarmos a refeição, peço uma porção individual do que comêramos para levar para Connor (ele ligara algumas vezes, mas não atendi. Ainda estava magoada por não ter mencionado minha irmã e sua mãe). Enviara uma mensagem pouco antes de sairmos do conservatório avisando que jantaria com as meninas e levaria sua refeição. E só.
Quando chegamos em casa o encontro deitado no sofá da sala assistindo a um jogo e tomando cerveja.
—Connor, Max fez sucesso na escola de música – Marina conta, se atirando no pescoço dele tão logo entramos – Por que não foi com a gente? – pergunta, curiosa.
—Estava trabalhando coelhinha e o dia hoje foi muito agitado – explica, beijando a bochecha dela – Como foi a aula gatinha? – pergunta, sentando-se.
—Ótima. O professor diz que estou evoluindo rápido, não foi Sarah? – conta, me trazendo para a conversa.
—Sim – limito-me responder, retirando o jantar de Connor da sacola, vendo-o, pelo canto do olho, se aproximar, agachando-se junto ao carrinho de nosso filho – Trouxe sua janta. Ainda está quente – aviso, pondo prato e talheres sobre a mesa – Vou banhar Max e pôr para dormir – digo, puxando o carrinho, ele segurando meu braço quando tento passar.
—Me desculpe. Esqueci completamente da garota e a mãe dela – cochicha em meu ouvido.
—Uhum – murmuro, soltando-me – Marina e Emma, para o quarto tomar banho e fazer as tarefas se querem assistir alguma coisa antes de dormir – ordeno, as duas obedecendo sem resmungar – Já volto – aviso, olhando-o de soslaio.
Na verdade, não voltei tão rápido quanto pretendia. E nem foi de propósito. Max estava mais agitado do que o normal e demorou a adormecer. Até para mamar deu trabalho. Quando finalmente dormiu, estava me sentindo exausta física e mentalmente. Vou a sala apenas para constatar que as meninas haviam adormecido no meio do filme e Connor já as estava levando para a cama. Ajudo-o na tarefa, arrumando os livros e as roupas que haviam deixado bagunçadas enquanto ele arrumava a cozinha, fechando tudo antes de ir para nosso quarto.
—Vou tomar um banho – avisa ao passar e assinto, sem me voltar, suspirando ao perceber que se afastara.
“Não durma deixando uma questão pendente, especialmente com seu marido!”, o conselho dado pela querida Estela me vem a mente e novamente suspiro. Era bobagem brigar com ele por conta de um esquecimento, bastante justificável se levar em conta a correria no hospital
—Pare de ser criança Sarah! Cresça! – admoesto-me, beijando minhas irmãs antes de deixar o quarto, ligando o ar e desligando a luz.
Ao entra em nosso quarto, escuto o som do chuveiro. Fecho a porta, verifico se Max dormia, preparo nossa cama para somente então me dirigir ao banheiro.
—Posso te fazer companhia? – pergunto, me despindo devagar.
—Deve – responde, ensaboando-se, acompanhando meus movimentos.
Em silêncio, tiro minha roupa, atiro-a dentro do cesto e entro no box, ficando debaixo do jato morno, sozinha, alguns segundos.
—Sarah....
—Não precisa pedir desculpas Connor. Sei que não fez de propósito – o corto, esticando a mão, pedindo o sabonete.
—Ainda assim quero que me desculpe. Eu realmente deletei as duas de minha mente – assume, fazendo sinal para que me virasse, começando ele mesmo a me ensaboar – Ficou brava? – questiona, sua mão deslizando vagarosamente por meu corpo, me excitando.
—Um pouco – confesso, suspirando – Mais pela surpresa do que por elas em si. Sabia que esta possibilidade existia, mas vê-las ali, sem esperar, me abalou, não nego – admito, virando-me de frente para ele, suspirando novamente quando desliza as mãos por meus seios e abdômen.
—Desculpe ter te feito passar por isso amor – pede outra vez, me abraçando e beijando enquanto continua a ensaboar – Me perdoa? – insiste.
—Se pedir com jeitinho! – o provoco, erguendo a perna, roçando-a na sua – E se for bem convincente, posso pensar em aceitar suas desculpas....se aceitar as minhas também – condiciono, lhe dando dois selinhos – Foi infantilidade de minha parte agir como agi – assumo
—Tudo bem. Está perdoada – diz.
—Mas assim, tão depressa? Não vou nem precisar me esforçar para conseguir seu perdão, é? – provoco-o novamente, fazendo charme.
—Pode se esforçar, eu deixo! — responde, me apertando mais, o sabonete indo ao chão quando me beija, desta vez com ânsia e desejo.
Me deixo amar e amo sem pressa, esquecendo os problemas e toda questão envolvendo a minha... As nossas famílias, relegando ao fundo do cérebro medos, angústias e tudo que me oprimia o peito depois que soube a real condição de meu pai bem como o inesperado encontro com minha irmã e sua mãe. Ao menos por aquela noite, os deixaria fora de minha vida mais um tempo.
“... É preciso amar as pessoas;
Como se não houvesse amanhã;
Porque se você parar pra pensar;
Na verdade não há...”
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