Não me lembro exatamente quando começou, mas a morte me parecia libertadora. Aos quinze, eu me mostrei uma criança, assistia à desenhos animados, gostava de ler revistas em quadrinhos e estava sempre à procura de notícias de alguma boyband. Então aos dezessete, meus filmes preferidos eram os de terror onde haviam mortes lentas e dolorosas. Não tinha amigos. Me tornei fria, calculista e imprevisível. Minhas roupas eram normais, sempre foram, mesmo sendo compradas pela minha mãe, ela sabia o meu gosto. Comprava blusas largas, calças rasgadas ou com spikes, coturnos, jaquetas, coletes e toucas. Andar com pessoas que veneravam a morte tanto quanto eu não me parecia adequado. Eram apenas adoradores do diabo e góticos odiadores da vida. Eu gostava da minha vida e não acreditava no diabo. Eu gostava de ficar isolada, ser individual era como me diferenciar deles. E por me diferenciar, eu tinha que evitar festas, clubes, e quaisquer lugares frequentados por pessoas da minha idade. Enquanto eles ingeriam bebidas alcoólicas que estragariam o organismo deles antes que notassem, eu estaria em casa, enrolada num cobertor, assistindo à um bom filme e ingerindo sozinha um grande pote de sorvete de pistache. Bom... Devo dizer que nunca fui boa em me diferenciar dos outros. Meus pais sempre viajavam nessa época do ano. Na verdade, eles viajavam durante o ano inteiro. Era como tirar férias da vida entediante e problemática que eles tinham quando eu estava por perto.

Além de ficar num reformatório repugnante por um ano, a última vez em que arrumei confusão quase os levei à falência e nada de bom que eu fizesse conviria para amenizar a situação. Segundo eles, meu castigo seria viver com meu meio irmão na casa dele para que eu criasse responsabilidade, e eu preferia desse jeito. Se desconsiderarmos o fato de que não sabemos cozinhar e brigamos na maioria das vezes por coisas inúteis, posso dizer que morar com ele foi a melhor decisão que já tomaram por mim. Alex não é do tipo que traz garotas pra casa, e gosto de pensar que o motivo é não querer ser um mau exemplo. Cursava direito durante a noite numa universidade próxima à nossa casa e é garçom numa lanchonete durante o dia. À tarde, ele vem pra casa e passa um pouco de seu tempo comigo. Não havia necessidade alguma de me fazer companhia, mas ele dizia querer estar presente pra mim, para que eu pudesse confiar e contar com ele sempre que precisasse. Confesso que não me sinto segura quando estou sozinha e passar um tempo com Alex me tira todos os pensamentos obscuros que tenho tido desde que meus pais decidiram me mandar para outra cidade, onde eu moraria com um meio irmão que desconhecia. Ele se mostrou presente até quando eu não estava. Eu ainda estava no colegial. Era invisível, mas tinha lá minhas vantagens. Nunca levantava a mão quando o professor perguntava algo, não era convidada para festas que não fossem realizadas pela própria escola... Não que eu precisasse de convites, já que não recebi nenhum para a maioria das festas em que estive. E não me metia em confusões, não mais. Sempre era convidada a me retirar da sala de aula por estar dormindo, mas dormir durantes as aulas nunca interferia nas minhas notas que sempre estavam razoáveis. Como já deu pra perceber, eu não sou a mocinha da história. Mas aquele ano começou diferente. Tudo acabava piorando até mesmo quando eu decidia que dar às costas para um problema seria a melhor solução. Porque já estive lá, tive amigos e já vivi naquela cidade por muito tempo. Só esperava que o tempo não tivesse me mudado tanto assim e que eu pudesse me adaptar. Eu teria que aceitar convites à festas, é claro, se os mesmos fossem feitos a mim. Faria o que fosse para não ter que ir para um reformatório. Não é que eu seja encrenqueira ou delinquente, mas é difícil ser a garota 'problema'. Entãoeleaconteceu.

Notas finais
RELEMBRANDO:A história não incentiva o uso de drogas.Fanfic movida à base de comentários. Quanto mais comentários, favoritos e visualizações, mais atualizações.