Owen correu para socorrer o rapaz, o motorista entrou em desespero e fugiu deixando Caleb no asfalto molhado de chuva que caia em cima do rapaz, Beau estava paralisado de choque embaixo da árvore segurando seu gato mimoso.
— Caleb, tu ta bem, mano? – Apressou-se Owen sobre Caleb verificando como o mesmo estava, ao pisar no asfalto, pisou em pequenas poças que a água respingou para todos os cantos.
— Eu to bem, eu to bem... – Caleb gemeu, a mão direita sobre o braço esquerdo, fazia careta de dor, havia um ferimento leve no rosto que era possível ver que ia deixar um roxo. Owen encorajou-o se apoiar em si pra tentar levantar-se, o que o fez devagar, a chuva dificultando a ação, grossas gotas de água rolavam pelo rosto deles direto para o chão.
Um carro preto virou a esquina em alta velocidade e parou diante deles, abriu a porta de passageiro na dianteira. Era Jeon, havia conseguido despistar supostos fãs e qualquer um que tentasse tirar uma foto sua. Ele voltaria a Coffee Shop a seguir mas presenciou o acidente.
— Eu vi tudo. Entra aí, eu levo pro hospital. Vai, pirralho. – Jeon mandou fervorosamente. E, pelo jeito que ele parecia determinado, não parecia ter nenhum problema em molhar o interior de seu carro caro.
— Não é nada, devo ter só deslocado o ombro. – Disse Caleb com um dos olhos fechados e com um tanto de orgulho ferido pelo seu rival oferecer-lhe ajuda.
— To te levando pro hospital de qualquer jeito. Entra logo, moleque. – Reclamou Jeon em tom mais alto de voz e fez um sinal com a cabeça para Owen.
Seguindo aquele que mais parecia ser a voz da razão, Owen fez com que Caleb entrasse no carro ao meio de protestos do mesmo e fechou a porta depois de enfiar o cinto de segurança no homem. Owen parecia até estar tratando Caleb como um bebê. Jeon deu a partida rumo ao hospital, Owen foi voltando para Beau e ambos desapareciam atrás deles.
— Que que tu ta me ajudando? – Caleb perguntou com impaciência na voz.
Jeon olhou pra ele e levantou as sobrancelhas, para depois voltar a olhar para frente.
— Senso comum, não é? A gente tem que ajudar um ao outro. Eu jamais recusaria ajuda a quem precisa e eu tenho certeza que você também não. – Respondeu.
— Mas eu sou seu rival. Eu quero conquistar Alex tanto quanto você. – Caleb disse rapidamente. Jeon riu, o que fez Caleb arregalar os olhos e franzir o cenho.
— Garoto, da missa você não sabe a metade. – Contou um risonho Jeon. – Então... Eu chamei Alex para um encontro. Sim, eu realmente me declarei para ele, mas...
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— ... Eu só consigo te ver como um irmãozinho, é sério. Você é um amigo muito especial pra mim, eu não quero te perder. – Falou Alex, as sobrancelhas caídas para a parte externa, não queria magoar o rapaz que já foi ficando um pouco cabisbaixo.
O som de talheres, garfos, facas, colheres, hashi, sutilmente tendo contato com a superfície de porcelana dos pratos dos clientes, que faziam sua refeição naquele restaurante multicultural no topo de um edifício que também era um hotel 5 estrelas, detalhavam mais ainda o ambiente, móveis negros de madeira, em cada mesa, pequenas velas de rechaud deixavam o lugar luxuoso ainda mais confortante com suas luzes amarelas e de tom fraco. Um garçom se aproximou com uma barca com seus pedidos, uma barca abastecida, sobretudo, de sashimis de vários tipos de peixes e frutos do mar.
Jeon levantou a cabeça e olhou para Alex, sorriu tristemente:
— Você já gosta de alguém, não é?
Alex parou, desviou o olhar dos de Jeon que mordeu os lábios e balançou a cabeça para cima e baixo lentamente.
— Eu... Eu não sei... – Alex começou mas foi interrompido por Jeon.
— Entendi. Eu vou levar um tempo pra poder digerir isso, sabe. Eu tenho uma grande, ah, queda, acho, por você desde muito tempo. – Jeon foi dizendo cada palavra cuidadosamente, com um pequeno tom chateado porém compreensivo. – Ei.
Alex voltou a olhar para ele, uma feição de pesar.
— Está tudo bem. Mas eu vou sempre estar por perto para te ajudar e ai dessa pessoa aí se te machucar. – Jeon sorriu. Um sorriso cativante que fez Alex sorrir de volta mesmo que seu olhar ainda parecesse inseguro e um tanto triste. – Agora, que tal se a gente comer até sair rolando daqui? E pode deixar que é por minha conta.
Alex riu e balançou a cabeça rapidamente em positivo antes de pegar um par de hashi de madeira preta em um pequeno bloco aberto e remover os palitinhos da embalagem.
— 잘먹겠습니다 ( jal meokget-seumnida). – Disse Jeon juntando as mãos.
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— E eu tenho certeza que é de você que ele gosta. – Jeon continuou depois de contar a ele o que aconteceu .
Caleb ficou em silêncio, ao Jeon virar uma esquina, gemeu e fechou um dos olhos.
— Alex... Gosta de mim...? Como você... pode me apoiar então? – O rapaz perguntou, deslizando sobre o assento, largado.
Jeon sorriu, olhou para ele e depois novamente para frente para prestar atenção, a chuva ia amenizando.
— Pois eu quero que Alex seja feliz. Se não for comigo, tudo bem. Mas eu o quero feliz. Faça-o feliz. – Disse e voltou a olhar para o rapaz machucado que, mesmo com o cenho franzido e ainda relutante, sentiu uma certa gratidão e paz.
Jeon colocou de volta seus óculos escuros e um tipo de boné com uma peruca falsa loira de rabo de cavalo quando chegaram ao hospital. Havia estacionado no lugar adequado.
— Peraí. – Ele pediu. Saiu do carro e andou apressado até algum lugar.
Depois de Jeon lhe oferecer toda aquela ajuda, contar tudo o que houve e que tinham seu apoio, Caleb instantaneamente removeu-o de sua listinha de “inimigos” e moveu para “amigos”, mentalmente.
Jeon abriu a porta do passageiro em que Caleb estava e ajudou-o a colocar em uma cadeira de rodas, a chuva havia ido embora.
— Nossa, eu não preciso de tudo isso, é só meu ombro. – Caleb disse.
— Mas é melhor não arriscarmos se houver mais alguma coisa, não é? Lá dentro você vai fazer um exame completo. É melhor... Por desencargo de consciência. – Jeon respondeu e apressadamente foi empurrando a cadeira de rodas rumo a entrada do hospital.
Lá, Anne e Chris foram notificados do que aconteceu e saíram correndo do trabalho para poder ver seu filho, além do próprio Alex que Jeon avisou, bem quando ele estava saindo da Coffee Shop e correu para o hospital.
Anne e Chris foram recepcionados por Jeon que aguardava ao hospital e contou o que aconteceu. Chris estava tanto preocupado pelo filho quanto enfurecido pelo motorista incompetente, Anne só queria saber mais do estado dele e foi respondida que estaria passando por exames e check-ups.
“Calma, moça” – Ouviram uma voz lá fora.
“Eu não sou mulher” – Reclamou uma voz e em seguida Alex entrou na recepção aos tropeços e já foi perguntando o que ouve ao localizar Anne, Chris e Jeon.
Eles aguardavam na recepção pela resposta médica. Era uma sala grande, branca, quadrada, muitas cadeiras em cor verde, com estofado, uma pedia para não se sentar pelos apoios estarem fragilizados. Algumas plantas decoravam dois cantos da sala, em outro uma televisão ligada nas notícias e três mesas com vidros separatórios onde estava as atendentes e pré-entrevistadoras.
Não levou muito tempo para a mãe de Alex aparecer com notícias e todos se levantaram. Abraçou a Alex e aos outros, estranhou o boné com peruca de Jeon e ele fez um sinal de silêncio com o dedo.
— Amy, como ele está? – Perguntou Anne que assumiu a dianteira da conversação.
— Está tudo bem, realmente só sofreu com um deslocamento do ombro e uma pancada facial mas nada que possa se preocupar, ele está bem. Acabou adormecendo. – A sra. Henning disse, de forma tranquilizadora – Podem ir ver ele se quiserem, mas não podem acordá-lo... Pois está dormindo tão fofinho. – Ela riu.
Chris e Anne ofereceram a Alex ir primeiro que, sem receio algum, aceitou e acompanhou sua mãe para o quarto que ele estava, depois de passar por grandes portas duplas para o interior do hospital pós a recepção.
Teve a visão de um grande corredor com vários funcionários realizando seus afazeres em todos os cantos, um levava um senhor de idade em uma cadeira de rodas e ouviu ele reclamar: “eu quero sorvete” para a enfermeira que o levava. Foi seguindo sua mãe até um dos quartos que ela abriu a porta e teve ali a visão de um descamisado Caleb, agora todo seco, mas com parte do braço e ombro enfaixado e em um tipo de suporte, ele dormia, um lado do rosto estava roxo e meio inchado e ele ficou em silêncio, tanto que ouviu lá de longe o mesmo senhor: “de flocos e coquinha gelada, por favor”.
Aquela visão de repente despertou em Alex alguma coisa, alguma força, alguma determinação que o fez olhar para sua mãe, ir até ela e pegar em suas mãos.
— Mãe.. Eu preciso confessar uma coisa. – Ele disse, lentamente, cuidadosamente, até baixo para não acordar o rapaz. Ouviu a porta fechar-se aos poucos já que era daquelas portas que fechavam sozinha.
— O que é, querido? Acha que agora é a melhor hora? – Ela disse indicando o rapaz que dormia, um lençol o cobria até a cintura e a cabeça dele repousada em um travesseiro.
— Não, mãe, eu preciso... Depois de todos esses anos... Mãe... Eu... Sou homossexual, eu.. Eu gosto de homens... Me apaixono por homens. – Ele foi dizendo e a medida que ia prosseguindo, sentiu sua voz tremer e lágrimas formando-se em seus olhos que sua visão foi ficando mais e mais embaçada, tanto que ele acabou nem enxergando nada. Só sentiu os braços macios de sua mãe o abraçando e falando em sua orelha:
— Eu sei, meu amor, eu sempre soube. – Ela disse, em voz baixa, carinhosamente. Alex se surpreendeu na mesma hora, mas não conseguiu que a felicidade do momento em que se sentiu aceito finalmente, depois de tantos anos segurando aquele segredo, aquele peso que aguentou por tanto tempo no coração, ele mergulhou em lágrimas no ombro dela e sentiu a mão dela deslizando por seus longos cabelos loiros. – Eu te amo, independente de qualquer coisa. Deus te fez assim e Ele não erra nunca.
Os dois então ouviram uma voz:
— Nossa, tudo isso é pra mim? Eu não morri não, gente. Eu acho... Oi? Me diz que estão me ouvindo e me enxergando. – Caleb disse, jocoso e eles olharam para ele que sorriu e acenou com a mão direita que estava livre. – Oi! Ao menos não foi o braço que eu uso mais.
Alex foi até Caleb em um passo apressado e abraçou-o, a sra. Henning sorriu e saiu do quarto sutilmente.
— Auau! – Gemeu Caleb. – Não não, não se afaste, fique aqui. – Reclamou quando Alex percebeu o que fizera e ele tentou se afastar mas foi impedido. Primeiramente hesitante, Caleb passou o outro braço por Alex e fungou nos cabelos dele que pendiam na parte da frente. – Acho que eu vou ser atropelado mais vezes se for pra ser assim, ein? – Brincou e Alex riu, se afastou um pouco, olhou para Caleb e veio aquela imensa vontade de beijá-lo, agora sem tanta culpa depois do que acabara de acontecer, Caleb também estava querendo e era possível ver em seus olhos e assim, rosto de um ao outro foram se aproximando lentamente.
— Me disseram que alguém acordou. – Ouviram a voz de Chris logo depois da porta ser aberta e Alex se afastou rapidamente, corado, deixando um Caleb frustrado ali deitado e os olhos arregalados. – Meu Deus, que cara é essa?
Anne, que entrou ao lado de Chris, entendeu o que aconteceu e sorriu de canto, deu palmadinhas amigáveis nas costas de Alex que sorriu de volta pra ela, um sorriso torto de insegurança.
— Quase... – Resmungou Caleb, deixando Chris com uma feição de curiosidade no rosto.
— Como está se sentindo, amor? – Perguntou Anne se aproximando de Caleb.
— Eu to bem, eu to bem, foi só meu ombro. É só isso. Vou ter que ficar uns tempos com um apoio, parece. – Ele respondeu, largado ali na maca confortável do hospital.
— Tá crescendo, garoto, faz tempo que não te vejo sem camisa, acho que o trampo ajudou. – Chris falou admirado ao ver o físico que seu garoto estava ganhando, o que fez Alex corar e virar de costas pra não reparar.
— Carregar caixas ajuda. Mas acho que nem isso vou conseguir fazer por agora... Ei, isso significa que vou ganhar chocolates, balões e bichos de pelúcia que nem nos filmes quando o personagem vai parar no hospital? – Todos riram como reação.
E conversaram por mais um tempo até a sra. Henning entrar no quarto e pedir para deixarem o rapaz em repouso por agora pois também lhe aplicaria um medicamento que veio em boa hora pois Caleb estava sentindo bastante desconforto e mexia o pescoço como se tentasse se ajustar numa posição mais confortável. Anne e Chris decidiram por contar a novidade depois sobre seu irmãozinho.
Todos saíram do quarto, Alex deu uma última olhada para Caleb e seus olhos se encontraram até a interrupção pelas portas fechadas. Sempre havia nota, inconscientemente, quão azuis eram os olhos de Caleb e Caleb sempre havia notado o quão cinzentos os de Alex eram... E como adorava se perder naqueles olhos cinzentos, como...
"Um lindo dia de chuva" — pensou um dos olhos do outro.
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