Love Behind Betrayal
15 Capítulo 14
Notas iniciais
– Onde queres ir agora, Wendy? Queres um gelado? – Perguntei, enquanto sentia o meu ombro ser sacolejado pelos pequenos saltos que ela ia dando, agarrada à minha mão. Ela tinha ficado deliciada por a ter ido buscar à escola e, apesar de já estarmos perto da hora do jantar, eu não conseguia evitar dar-lhe um doce para compensar o sorriso que ela sempre tinha no rosto ao ver-me.
– Quero!!
– Mas não digas à Dona Erza, – Disse pegando nela ao colo. – Que ela depois começa “Só lhe dás doces, por isso é que ela não come o jantar”.
– Ahah, “Dona Erza”, assim parece que a mamã já é velhota.
– Ela resmunga como uma às vezes, não achas? – Ri-me com ela quando a Wendy acenou, muito envergonhada, tapando depois o rosto com as mãos com receio que a mãe a visse a rir-se dela. – Mas vamos lá comprar esse gelado então. Compramos o maior que houver. E tem de ser de leite, sim mocinha? Pelo menos o leite alimenta e a tua mãe não reclama tanto.
– O maior que houver? A sério??
– Claro. – Tirei a carteira do bolso a fim de contar as poucas moedas que tinha e mostrei-lhe. Assim ela praticava um raciocínio rápido de matemática, enquanto eu me tentava acostumar ao quanto o preço das coisas tinham aumentado. – Achas que isto dá?
– Hmmmmmm… Não… Falta dinheiro, temos de ir a casa buscar o resto. – Ela olhou para mim, com as bochechinhas a inchar. – Tens de começar a fixar preços, papá, a vida anda cara!
– Pareces tão a tua mãe quando fazes essa cara, caramba. – Beijei-a no rosto, pousando-a novamente no chão. – Fazemos assim então; Vamos a casa, jantamos e depois vimos com a mãe aos gelados. Que me dizes?
– Siiim! Ela assim vem comer com a gente, um daqueles grandes de morango que ela gosta. – Senti ela apoderar-se da minha mão e a puxar-me em relação ao apartamento, com uma força que eu desconhecia que ela tivesse. De facto… Ela só podia ser mesmo filha da Erza. – Anda papá, anda, vamos fazer uma surpresa à mamã!
– Vai devagarinho, Wendy…
– Ahh, anda lá. Seu lento…!
Se fosse noutro dia tinha reparado nos sinais mais cedo. Sinais que diziam que, claramente, algo não estava bem. O facto de haver um carro demasiado topo de gama para as posses dos condóminos daquele prédio. O facto de haver um carro da polícia há esquina, com o vidro meio aberto. O facto de o porteiro ter estremecido com a nossa passagem, tendo ainda feito uma vã tentativa de distrair a Wendy. Mas nada disso me chamou a atenção. Só reparei quando chegamos ao nosso andar.
A porta de casa estava aberta. A Erza nunca a deixava aberta muito menos escancarada como estava, ela sabia bem o tipo de bairro em que vivíamos. Uma voz de homem ouvia-se dentro de casa, juntamente com as respostas abafadas que ela lhe tentava dar, antes de ele a interromper, elevando cada vez mais a voz. O tom era-me demasiado conhecido…
– Vamos comer gelado, vamos comer gela…
– Wendy, amor… Fica aqui, sim? Não faças barulho, está bem? – Encostei-a devagarinho à parede, o mais próximo possível do vão da escada. – Se ouvires alguma coisa que não te soe bem, vais lá para baixo e pedes ao porteiro para chamar a polícia, sim?
– Mas que se passa papá?
– Faz só isso por mim, sim linda? Vai correr tudo bem. – Beijei-a no rosto, antes de me aproximar de novo da porta, tentando fazer o mínimo de barulho possível. O que me valia era que sete anos de prisão me tinham ensinado a reduzir a minha presença o máximo possível.
Passei pela ombreira da porta sem um único ruído, varrendo a divisão com os olhos e procurando a origem das vozes. Bem me parecia, minha linda. Agora... Trata de me fazer um serviço bem feito. Isto, se queres garantir que ele continua de boa saúde. O sofá… Ele tinha-a prendido contra o sofá, sobrepondo o corpo ao dela, prendendo-lhe as mãos com as dele. Mas era com ameaças que ele a dominava, pois ela nem sequer se debatia por debaixo dele, embora o choro fosse audível e cada soluço me fizesse praticamente explodir a cabeça.
– És minha, ruiva. Vou foder-te tanto que nem te vais conseguir sentar depois. –O facto de ele dizer aquilo da maneira que disse... Senti de imediato o sangue a ferver ainda mais, levando-lhe as mãos à parte de trás do pescoço, falando-lhe ao ouvido com raiva:
– A sério que vais? Fala-me disso, Cobra! – Não sei bem ao certo como fiz aquilo. Talvez um pulso de adrenalina… O facto é que tão depressa o tinha nas minhas mãos como o vi ir contra a parede, de cabeça, ficando depois a contorcer-se no chão. Ouvi a Erza sentar-se de novo no sofá, o roçar leve do tecido que ela trazia vestido, na ânsia de se conseguir tapar o mais possível. – Tu já me andas a escapar ao tempo, meu filho da puta! – Gritei, assim que me acerquei dele, pontapeando-lhe o corpo com violência, descarregando tudo o que tinha acumulado durante todos aqueles anos. Sentia o corpo dele explodir e quebrar a cada movimento que eu fazia, quer com as pernas quer com as mãos. Os meus punhos ardiam a cada contacto com aquela cabeça dele. E só não piorava mais a situação porque ele se tinha encolhido todo, como o miserável que era.
– Jellal, pára! Eu trato do assunto agora, mas se avançares mais não vai haver mais volta...
Virei-me ao escutar aquela voz. Loke? Que estava ele a fazer aqui? Ele não poderia ter chegado assim tão rápido, mesmo que a Wendy tivesse dado o alerta. E porque estava ele com a arma apontada para mim? Eu não estava a fazer nada. Estava somente a defender a minha casa e a minha família, tudo coisas que aquele ser rastejante me tinha tirado!
– Dá-me só mais cinco minutos com ele e prometo que te entrego o que sobrar, Loke.
– Jellal... Se não parares, eu vou ter de te algemar e chamar mais uma unidade para te levar! Isso é algo que não queres, ou estou enganado? Afasta-te do Erik. Agora! – As palavras dele soavam-me tão ocas ao ouvido que não eram suficientes para me parar. Não quando o ruído dos ossos a estalar me era tão mais convidativo. Porém, um outro clique se sobrepôs ao das fracturas. A sério que ele tinha destravado a arma?!? –Jellal, JÁ!!
A cabeça dele ainda levou um último biqueiro meu, antes de me afastar com os braços no ar, como se não tivesse feito absolutamente nada. A raiva diminuiu aos poucos, permitindo-me conseguir ver em meu redor novamente. Consegui ver o Loke a aproximar-se, ainda de arma em riste para mim e a tirar um par de algemas. Conseguia também ver, ainda no mesmo canto do sofá, sem se conseguir aparentemente mexer, a Erza abraçada ao próprio corpo, tremendo por todos os lados. Penso que ela nunca me tinha visto a rebentar assim. Na verdade… Agora que ponderava, eu nunca tinha rebentado assim.
– Algema-o. – Disse o Loke, atirando as algemas para mim. – Toca-lhe o menos possível, mas algema-o. – Abaixei-me de novo ao nível da besta, torcendo-lhe os braços o mais possível, o que causou mais uma onde de queixumes. – Eu estou a ver-te, Jellal…
– Pronto, pronto…
– Óptimo… Agora vira-te. – Ele tinha… Tirado outro par de algemas… Porquê?
– Loke… Loke, eu não fiz nada, tu percebeste tão bem como eu o que ele estava a fazer...!
– Vira-te, Jellal, é a última vez que o peço!
– Não! – A voz da Erza surgiu, ainda trémula, ainda a tentar tapar-se ao máximo para cobrir o orgulho e a dignidade perdidas. O corpo ainda tremia, os soluços ainda lho sacolejavam com violência, mas os olhos estavam furiosamente fixos no agente policial à sua frente. – Não... Não por favor... Não de novo. Ele não fez nada!
– Lamento Erza, mas tem de ser... Tenho de o levar, pelo menos para levantar o auto daqui... Pára de mostrar os dentes Erik, se não sou eu quem tos acaba de partir. – Disse ele, reparando exactamente no mesmo que eu. No olhar maníaco que aquele dejecto me mandava, sorrindo com todos os dentes que eu lhe tinha deixado, com a perspectiva de me ver de novo atrás das grades.
– Eu posso ir como testemunha, não preciso de ir algemado! Por favor em frente à minha filha não, Loke! – Implorei-lhe, ao ver os cabelos da menina a espreitarem, timidamente, pela porta principal. Ouvia a voz do porteiro lá fora, dizendo para ela ter calma e que ia terminar tudo bem.
– Achas mesmo que te vais livrar depois de me teres feito o que acabaste de fazer? Vais apodrecer naquela cela imunda, meu cabrão! Eu bem disse à tua puta que não ia descansar enquanto não te pusesse lá dentro de novo. Agora só me deste um motivo sólido para…! – O violento pontapé que lhe mandei na boca virou-lhe a mesma para o outro lado, expelindo mais sangue e pelo menos mais dois dentes, calando-o na mesma hora.
– Eu posso apodrecer naquela cela, mas tu vais apodrecer debaixo do chão se eu te ponho as mãos em cima de novo, filho da puta!
– Pará Jellal, caramba! Eu não quero fazer isto! Não puxes por mim! – Gritou igualmente o Loke, voltando a apontar-me a arma para me conseguir afastar do Cobra de novo.
– Mamã? Mamã…? – Uma voz sobressaiu no meio de toda aquela confusão. A Wendy tinha conseguido entrar em casa, refugiando-se (ou tentando) nos braços da mãe, que havia-se encurvado sobre ela mesma, espremendo com força a cabeça entre as mãos, arrepanhando os cabelos com as mesmas. Mandei, de novo, uma sapatada na perna daquele monte de esterco, ignorando a cara que o Loke me fez, antes de ir ter com elas. Ajoelhei-me em frente à Erza, passando-lhe as mãos pela cabeça.
– Erza… Vem cá amor. Olha para mim… Já acabou.
– Isto está longe de ter acabado!
– Cála-te Erik, e escusas de estar a mostrar os dentes. Tu vais dentro por uns bons tempos.
– Foi ele que me agrediu! – Retorquiu ele, tentando manter-se no chão apesar de o Loke o puxar com toda a força para cima, procurando endireitá-lo para o levar dali.
– Eu sei bem o que aconteceu. Ando a seguir-te há anos, há espera desta oportunidade. Para aquilo que eu me importo... Até posso dizer que o Jellal nem teve aqui, que a Erza defendeu-se sozinha porque, acredita, ela é bem capaz disso se não a estiveres a ameaçar como o covarde que és. Estás a perceber-me?
– E eu e a mamã dizemos o mesmo! – Disse corajosamente a Wendy, que havia fixado o seu olhar nele, parecendo mais exaltada que qualquer um naquela divisão. O olhar que ela portava dizia claramente que, não importavam quantos anos passassem ou o que acontecesse no entretanto… Ela nunca iria esquecer o que ele tinha feito, e nunca o iria perdoar. A Erza não confirmou nem desmentiu a filha. Continuava agarrada ao corpinho pequenino dela, apoiando a cabeça no meu ombro, tremendo por todos os cantos. Beijei-a carinhosamente na testa, tentando transmitir-lhe algum conforto.
– Mete-te de novo com ela que eu conto-te uma história engraçada. – Os meus ouvidos apuraram de novo quando ouvi as palavras no Loke, enquanto este arrastava o Cobra para a saída. Como o porco que ele era, tentou fazer-se de inocente.
– Não faço ideia do que está a falar, agente.
– Estou a falar de estares a olhar para a Wendy. Eu estou a ver-te! Andôr, à minha frente!
– ELE ESTAVA O QUÊ? – Berrei indo mesmo para me levantar de novo, mas só o virar da arma na minha direcção me parou.
– Eu nem estava a olhar para a miúda. Ela é que estava a mirar-me. Ou vai dizer que ela estava a fazê-lo porque é igual à mãe e só me queria saltar para cima?
– És um monstro! És nojento! – Ouvi a Wendy gritar, enquanto sentia os puxões que a Erza me dava para me impedir de avançar de novo sobre ele.
– Olha-a só mais uma vez e eu juro que te mato, meu grande filho da puta!!
– Jellal, não digas nada agora, para teu próprio bem!!
– Mas ele estava a…
– Não “estava a” nada. Eu tenho tudo controlado, Jellal. Sei que para ti é difícil mas… Confia em mim e no resto da polícia. Eu não o vou deixar escapar desta vez.
– Se vocês o soltam eu não respondo por mim, Loke.
– Pois não. Mas espero que respondas, pelo menos, perante a tua filha. Tens a ela para cuidar, Jellal. Não cometas de novo o mesmo erro. – Vi-o suspirar, guardando de novo a arma no coldre. – Vocês têm de vir também. Eu já chamo um carro para vos levar. Erza… – O tom dele tornou-se menos duro, há medida que ele entrava de novo na nossa sala, ajoelhando-se à frente dela para a conseguir olhar nos olhos. – Peço imensa desculpa, mas vais ter de vir e vamos ter de te fazer exames. O teu corpo constitui provas… Mas prometo que é só fazeres o exame de corpo de delito e eu assentar a minha versão e a do Jellal, e vocês voltam para casa, sim?
Senti ela acenar, timidamente, procurando o meu braço para se apoiar e levantar.
– Por favor, toquem-lhe o menos possível nesta altura… – Pediu o Loke de novo, marchando depois à nossa frente, retirando o Cobra das mãos do agente que tinha ficado responsável por ele durante aquele tempo. – Vamos lá despachar esta encomenda!
Perdi apenas um minuto a procurar a carteira da Erza para levar todas as nossas identificações, esbarrando depois no corpinho da Wendy, que me fitava com o lábio inferior a tremer.
– Papá? – Chamou ela baixinho, estendendo os braços para mim. De imediato a acolhi no meu colo, beijando-a no rosto.
– Diz bebé? A gente já volta. Vamos só prender aquele porco e voltamos... Não tenhas medo, não? – Ela acenou muito, limpando os olhos, mantendo a mão na da mãe.
– Vai acabar, não vai? Ele não vai mais voltar, pois não? – Perguntou ela depois, fitando-me como se aquela pergunta lhe fosse essencial para aguentar o resto do dia. Passei-lhe a mão pelos cabelos, beijando-a no rosto de novo, fazendo depois o mesmo com a Erza.
– Não, não vai, amor. Agora vamos ser só nós.
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