Love Behind Betrayal
16 Capítulo 15
Notas iniciais
Um mês inteiro passou no entretanto. Um mês calmo, de muitas descobertas, de muitas reviravoltas mas, acima de tudo, de alguma estabilidade.
A Wendy era de facto a menina mais esperta que eu alguma vez conhecera, cada teste que ela trazia para casa contribuía para o meu fascínio, para o meu orgulho e para a enorme festa que eu fazia com ela. Quando ela acabava os trabalhos de casa que lhe tinham passado, ainda vinha ter comigo, com um caderno extra, insistindo em me ensinar tudo o que aprendera nesse dia. Com ela, eu reaprendi a ler e a escrever muitas coisas que entretanto já esquecera, ou que nunca sequer chegara a dominar por completo. Ela ensinou-me também muita matemática, muita história, e eu só a ouvia com uma atenção dividida entre a curiosidade e a sensação de estar maravilhado por aquele pequenino ser. Maior parte das vezes ouvia o silêncio vindo da cozinha, sabendo que a Erza nos observava a ambos.
Eu e ela… Bem, tudo havia voltado ao normal. Pusémos de lado todos os ressentimentos e recomeçamos de novo, como se nada tivesse acontecido. Por vezes, nos dias mais cinzentos da nossa relação, algumas memórias ainda insistiam em nos manchar. Nesses momentos, palavras eram trocadas e o sorriso no rosto da Wendy era o nosso bálsamo. E, novamente, recomeçávamos tudo de onde tínhamos deixado a dúvida nos pegar.
A volta ao tribunal foi um período tenso. Eu nunca me habituaria a estar dentro de um, mesmo que fosse como testemunha. Era tudo ainda demasiado recente e o banco do réu era-me demasiado familiar. Sabia bem a sensação do cabedal carcomido. Conhecia o cheiro a papel velho. Sentia ainda o calafrio das algemas que me haviam prendido àquele lugar. Mas depois sentia a mão da Erza, nervosa e gelada contra a minha, ansiosa por um veredicto que pusesse aquele verme atrás das grades de uma vez por todas. Ele havia roubado demasiado do nosso tempo. E nós agora só queríamos garantir que ele não se ficava a rir disso.
No fim fomos recompensados... Minimamente. Ele ficaria preso por quinze anos, sem direito a fiança nem a recurso, por tantas falcatruas que o juíz deu que eu perdi conta ao final da quinta. Como é óbvio, ele gritou. Esperneou. Tentou fugir aos guardas. Disse que moveria mundos e fundos pra destruir a vida de todos os que ali estavam presentes, e eu não perdi o momento em que ele olhou especificamente para mim e para a Erza quando disse aquelas palavras e nós fizemos questão de deixar ciente que ainda achávamos aquela pena demasiado curta para tudo o que ele nos fizera passar. Apesar de concordar connosco, Loke era da opinião que pelo menos naquele dia alguma justiça tinha sido feita.
O mês que se seguiu reflectiu isso.
Certo que o meu cadastro não tinha sido limpo, nem nada que se parecesse, mas parecia que as pessoas já tinham em mente que tudo só acontecera porque eu fora de alguma forma incriminado. Não que eu quisesse que tivessem pena de mim ou da minha família. Apenas queria que compreendessem a história tal e qual como ela tinha acontecido e não por julgamentos precipitados.
Dos primeiros a admitir um pouco o seu erro por uma decisão não pensada fora Laxus. As duas semanas à experiência no orfanato garantiram-me o lugar a tempo inteiro. E eu adorava aquele sítio, apesar de tudo o que ali passara. Todos os dias acordava ao mesmo tempo que a Erza. Vestíamo-nos, íamos acordar a Wendy e fazer com que ela se despachasse para a escola, comíamos e seguíamos os três o nosso caminho. Mas naquele dia era diferente. Naquele feriado seguimos os três o mesmo caminho.
As crianças dali ainda eram muito reticentes quanto a darem-se a conhecer. Havia sempre aquele clima de desconfiança sempre que um adulto entrava nas imediações, principalmente por parte dos que ainda eram do tempo do Brain. Apesar de tanto Laxus como Mira os tratarem da melhor forma possível, eu percebia que aqueles anos de inferno não podiam ser esquecidos com algumas palavras meigas, nem toda a desconfiava e sensação de desconforto podia ser acalmada com um sorriso.
Todavia, tudo fora diferente naquele dia.
Quando entrei pelo portão, cerca de três vieram logo agarrar-se às minhas pernas, contentes por eu ter arranjado um tempo para eles mesmo num dia de feriado. Vi as bochechas da Wendy se encherem um pouco numa atitude de “olhem que ele é meu pai”, antes da minha mão lhe passar pelo cabelo e ela sorrir, saltando depois para o chão e correndo a brincar com as outras crianças.
– Não sei se isto foi uma boa ideia afinal… – Voltei-me para trás, já a meio do pátio, reparando que a Erza tinha somente dado um passo para dentro do recinto. Olhava em volta desconfiada, os braços em redor do próprio corpo, parecendo não querer perder o sentido de onde a nossa menina estava.
– Está tudo bem, garanto-te. – Confirmei-lhe, voltando para ao pé dela, cobrindo-lhe uma das mãos com a minha.
– Eu estou toda arrepiada, parece que… Ainda sinto que…
– Eu sei. Eu sinto isso todos os dias, é só entrar pelo portão que me sinto assim.
– Como é que consegues então? – Fiz-lhe um sorriso, apontando com a cabeça para o telheiro mais próximo onde a Wendy se sentara a brincar com alguns dos mais novos, que a rodeavam parecendo deliciados com a nova amiga. – Vejo o sorriso deles. E lembro-me que na nossa altura, nem um sorriso daqueles era visível. É isso que me dá forças para entrar por aqui a dentro e ser o “mano mais velho de todos”.
– A sério que eles te tratam assim?
– Não te rias, olha que vais ser a “mana mais velha de todas” a partir do momento em que eles souberem que também estiveste aqui. – Disse por entre um riso, firmando mais a minha mão na dela, enquanto avançávamos. A dela ainda tremeu, ainda ofereceu resistência, ainda tentou voltar para trás quando entrámos pela porta… Mas dois enormes sorrisos e berros de “ERZAAAAA” fizeram-na finalmente desistir dessa ideia.
Ri-me enquanto o Natsu e a Lucy se atiravam a ela, tal como haviam feito comigo. Ouvi um resmungo de um dos cantos ainda antes de ver a cabeça do Gray aparecer vinda da cozinha, com restos de casca de ovo pelo avental que trazia… Sobre o peito nú. E ouvi de igual uns passinhos rápidos mas que se deteram na zona das escadas, enquanto dois enormes olhos castanhos observavam a cena, brilhando ao perceber quem eu tinha trazido comigo.
– Erza, nem sabes, lembraste daquela vez em que…
– … É que depois ela é que me dá na cabeça, sabes? Eu nem faço nada de mal ela é que anda sempre toda stressada…
– … Sabes que eu estou a ouvir-te, certo?
– Estou a ignorar-te não vez?
– OI?! – Os dois pararam perante o elevar da voz do Gray, que olhava para eles ainda com os cacos do ovo na mão. – Vocês têm a noção que o bolo vai ficar estragado graças ao vosso berro certo?
– A culpa foi dele!
– A culpa foi dela!
– A culpa foi nossa. – Riu-se a Erza, passando a mão pela cabeça dos dois avisados quando estes se esconderam nos seus braços como faziam quando eram pequenos. – Talvez a nossa entrada devesse ter sido menos…
– Triunfal?!
– Parecias uma rainha a entrar por aquela porta, Erza!
– … Porque ficaste mesmo bonita, sabes?
– … Ao contrário dela, que fica toda descabelada de cada vez que se põe aos berros quando…
– EI! – Voltou a berrar Gray para lhes chamar de novo a atenção. – Eu desisto… Matem-se se quiserem.
– Mas eu quero bolo, Gray!
– Vai fazê-lo então!
– Tu dizes que eu dou cabo da cozinha!!
– E dás!
– As coisas não mudam por aqui, pois não? – Perguntei à Erza, que olhava para eles com o maior sorriso do mundo, ainda a fazer carinhos no cabelo da Lucy antes desta ir atrás do Natsu, parecendo igualmente preocupada com o destino que o bolo para o lanche sofrera.
– Felizmente mudam. – Recebi a mão dela na minha, puxando-a contra o meu peito aos poucos, amparando-lhe as costas com as minhas mãos enquanto rodávamos um pouco no mesmo sítio, os olhos dela parecendo fixar tudo ao mesmo tempo. – Isto está… Tão diferente aqui. As paredes… O soalho… Nem o gabinete dele ficou inteiro, agora há muito mais espaço.
– Ainda nem viste os dormitórios lá em cima. Juntaram-nos com a arrecadação e com os antigos quartos deles e agora tens uma ala enorme para cada género.
– As condições não se comparam…
– Nada mesmo.
– Achas que devia ir ajudar… – As palavras dela foram paradas. Os passinhos haviam-se deslocado da zona das escadas, percorrido parte da sala onde estávamos e o pequeno corpinho havia embatido nos nossos, as mãos firmes em redor da cintura dela e o rosto escondido nas suas costas. – O que…? Millianna…
A pequena chorava encostada a ela. Eu sentia os pequenos soluços sacolejarem-lhe o corpo, à medida que ela tremia sem se conseguir controlar. Os meus dedos seguiram o destino dos cabelos dela, quando a Erza se ajoelhou à sua frente, deixando-a igualmente esconder-se no seu peito.
– Minha menina… A minha menina está tão grande. E tão bonita… – Ouvi-a dizer, fazendo os soluços da pequena elevarem-se ainda mais. Uma mãozinha apertou a minha e eu encontrei a Wendy abraçada à minha perna, olhando-me com os seus enormes olhos castanhos, a curiosidade espelhada até eu lhe pegar ao colo.
– Os meninos daqui são teus amigos, papá?
– São, amor. Amigos meus e da mãe. Nós crescemos aqui nesta casa, era aquele sítio de que a mãe te falava muitas vezes, sabes?
– É aquele sítio de pessoas más? – O medo agitou-lhe o olhar, as mãozinhas a procurarem mais o conforto do meu pescoço.
– Sim, era aqui. Mas agora já mudou muito. Já é um sítio de pessoas boas, para meninos bonitos como tu vês. É aqui que o pai trabalha, lembraste de eu te dizer?
Ela acenou, olhando de novo em volta curiosa, sorrindo muito para as crianças mais pequenas que de vez em quando nos vinham espiar. Tomou também particular interesse em Millianna, dado que esta estava tão grudada na mãe como ela estava em mim. Millianna também a espreitava por cima do ombro da Erza, as mãos tão unidas uma na outra em torno do pescoço dela que parecia que não a ia largar tão cedo.
– Lembraste de ter dito que já tinha uma filhota? – Perguntei-lhe, ao que ela acenou, esticando só uma mão para fazer uma carícia no cabelo da Wendy, como que a confirmar algo que só podia ser feito pelo toque. – É igual ao meu, não é? Mas olha que o humor é aí dessa tua amiga que te tem ao colo.
– Espero que isso seja um elogio…
– Claro que é, amor… – Disse muito rapidamente, fingindo-me assustado com o perigo patente na voz dela. Entretanto, nenhuma das meninas parecia prestar-nos atenção. Apenas se fixavam uma à outra, cada uma agarrada a um de nós. Eu ia sugerir que a gente as afastasse não fossem elas darem-se mal quando a Wendy finalmente falou, apontando com o dedo para a camisola da Milianna.
– Gostas de gatinhos?
Foi como um foguete…
– Tu gostas de gatinhos?!
– Claro que gosto! Tenho uma gata branca chamada Charlés, ciumenta que nem só.
– Anda comigo ver uma coisa...
– Acho que acabaram de se tornar as melhores amigas. – Riu a Erza, quando ambas nos saltaram dos braços a uma velocidade algo surpreendente, desaparecendo rapidamente pela porta da cozinha e depois pela porta que dava acesso ao quintal.
– Algo me diz que a Charlés não vai ser a única gata lá de casa por muito tempo. – Ri-me também, voltando a abraça-la pela cintura, os meus lábios traçando dois beijos na testa dela. Por momentos, parámos um pouco no tempo, as crianças em nosso redor lembrando-nos de outras. Algumas haviam crescido e seguido o seu rumo. Outras sabíamos que já não o poderiam fazer, esse direito havia-lhes sido roubado da forma mais ingrata. Outras eram uma perfeita incógnita para nós, desde o momento que havíamos saído dali… Não sabíamos qual dos destinos lhes haviam sido fadados.
Ali, no meio daquela sala, onde o passado se misturava com o presente, para nós… Parecia que nem um dia tinha avançado.
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