Love Behind Betrayal
12 Capítulo 11
Notas iniciais
Tinha conseguido sair mais cedo naquele dia. A manhã tinha sido totalmente cheia, o supermercado tinha recebido mais clientes que o habitual e as caixas passaram o dia a abarrotar, no entanto, tinha sido possível trocar o horário com uma das minhas colegas e fazer a manhã dela num dos próximos dois fins-de-semana, para poder ficar com aquela tarde livre.
Aproveitei para fazer umas compras rápidas enquanto sabia ainda ter tempo por a Wendy estar na escola. Não lhes tinha dito nada, tencionava fazer uma surpresa aos dois quando chegasse para almoçar com eles. De facto, tudo correu mais ou menos como eu esperava: Cheguei antes de ambos e pus-me a fazer um bolo – como de costume, de morango – para o nosso lanche nessa tarde. Tinha acabado de o colocar no frigorífico depois de o enfeitar todo com chantily e morangos por cima quando senti a fechadura perra da porta abrir-se e duas vozes animadas entrarem em casa.
– ... E depois a Lisanna disse à professora que não sabia a diferença entre as dúzias e as dezenas e sabes o que ela fez? – Debitava a Wendy toda animada, parecendo contar um episódio emocionante sobre mais um dos seus dias de aulas ao pai, enquanto ele guardava os casacos no cabide da entrada.
– O quê, princesa?
– A professora mandou-a escrever cento e cinquenta vezes no caderno que uma dezena são dez e cento e cinquenta vezes que uma dúzia são doze. Disse que era para ela não se esquecer. A Lisanna ia passar a tarde na casa de uma vizinha e assim o pai e a mãe dela já não vão deixar.
Fui até à porta da cozinha, ficando a olhar para eles com um sorriso, mexendo no pano com as mãos.
– Ishh... – O Jellal fez uma careta ajoelhando-se à frente da menina que se limitou a sorrir-lhe ao ver a cara dele. – O pai vai-te contar um segredo, sim? Não digas à mãe mas... Foi por causa dessas e de outras que o pai nunca gostou muito da escola. Escrever não era bem a coisa de que eu mais gostava. E números muito menos.
– A mãe ouviu-te... – Disse eu, ainda parada no mesmo sítio a olhá-los, tentando colocar no rosto uma expressão séria, algo que eu até conseguia fazer algumas vezes. Sem sucesso.
– Erza?
– Mãe!! – A Wendy correu na minha direcção e abraçou-me, fazendo-me ajoelhar depois para lhe dar um beijo na cara. Riu-se. – Vieste almoçar com a gente?
– Na verdade... Tive a tarde de folga. – Sorri-lhe antes de lhe fazer um carinho no cabelo e levantar-me para receber um beijo do Jellal.
– A sério?
– Sim, as coisas acalmaram um pouco antes de eu vir embora e pedi a uma colega minha para trocar-mos. Faço a manhã dela no próximo Sábado, em princípio.
– Hum, ótimo...
Abracei-o, sentindo-me esmagada no espaço entre o seu peito, exalando apenas o seu perfume forte. O suave e doce aroma dele. Jellal.
– Tinha pensado irmos dar uma volta logo à tarde. Ou tens alguma coisa para fazer? – Olhei-o. – Como correu hoje?
– Correu bem – Suspirou ele, com um ar cansado. –, Fartei-me de andar a pé e fui a umas duas oficinas tentar falar com o chefe. Mas não me parece que seja desta que tenho sorte.
Olhei-o, acariciando-o no rosto por breves instantes, antes de conseguir esboçar um leve sorriso.
– Não te preocupes. Vais conseguir. Tenho a certeza que sim, vai chegar a tua hora.
– Não desesperes, papá! – Disse a Wendy espremendo-se toda para se conseguir sentar na cadeira, pondo os cotovelos em cima da mesa para olhar-nos. A Charlés subiu para o banquinho ao seu lado e, em seguida, para a mesa onde ficou a miar, esperando as suas festas. A Wendy fez-lhe a vontade. – Os heróis são guerreiros, eles lutam sempre para ser melhores a cada dia. E acabam sempre por vencer os maus. Tu também vais conseguir, vais vencê-los a todos!
Ri-me, ouvindo o riso do Jellal bem perto do meu ouvido, também. Olhei-o em seguida.
– Que foi, olhos lindos? – Perguntou-me baixinho, dando às minhas bochechas um leve rubor, o qual eu não me recordava de sentir devido àquele piropo haviam já vários anos.
– Nada. – Respondi, simplesmente. – Anda, vamos tratar do almoço. Hoje a tarde é por nossa conta e não tenciono desperdiçar nem um único segundo.
Um sorriso abriu-se no seu rosto e, de mãos dadas, aproximámo-nos do fogão para começar a tratar do almoço, enquanto a Wendy ficava encarregue de pôr a mesa.
***
O barulho dos sapatinhos da Wendy a bater na calçada era o som mais evidenciado que os meus ouvidos escutavam à medida que nos íamos aproximando do parque. Ouvia a voz dela cantarolar quase em murmúrio, a mão sempre presa na do Jellal – que tinha o outro braço por cima dos meus ombros e me mantinha junto do seu peito – e o corpo esguio sempre envolto numa espécie de dança da vitória que ela insistia em fazer, como que para espelhar toda a felicidade que aquele momento na nossa companhia conseguia transmitir-lhe.
De súbito, a mão pequenina dela soltou a enorme do pai, encaminhando-se numa corrida louca em direcção ao local onde se achavam outras crianças a brincar, parando antes de se aproximar das escadas que a levariam para o escorrega. Acenou para nós dois uma última vez, antes de subir o primeiro degrau, atrás de outro menino mais ou menos da sua idade.
– Hmm... – Fiz só baixinho, olhando em volta para depois encontrá-lo, os seus olhos espelhando toda a preocupação própria de um pai babado, enquanto miravam a figura inocente e reguila da nossa filha. – Que saudades que eu tinha disto.
– Verdade. – Acrescentou ele, simplesmente, com um suspiro. Em seguida, puxou a minha mão e levou-nos na direcção de um dos bancos do jardim no exterior do parque, onde nos sentámos a observar a Wendy, em silêncio. Acabei por encostar a cabeça ao peito dele, novamente, deixando que a minha mão se aventurasse a acariciar a dele indefinidamente.
– Lembraste de quando passeávamos aqui? – Recordei só, em voz baixa, como que visualizando claramente, ao longe, cada uma das coisas de que falava e que relembrava, naquele momento. – De quando víamos as crianças a brincar e ficávamos horas a imaginar que um dia cá viríamos com um filho nosso?
Olhei-o depois. Ele sorria. Aos poucos, puxou-me para o seu colo, deixando-me ficar assim, só a abraçá-lo, protegendo-me do frio que fazia naquela tarde mais fresca que o habitual.
– Lembro. – Disse só. – Sentávamo-nos aqui neste mesmo lugar, neste banco até. Lembro-me de dizer-te que o iria ensinar a jogar à bola... Ou tentar, visto que era ele que iria ensinar-me a mim a jogar porque eu tenho os pés meio tortos – Rimo-nos por um bocado, antes de voltar a olhar a Wendy, uma vez mais. – Afinal, acho que... Me enganei numas alíneas. Acabou por nos sair uma menina linda em vez de um campeão desportivo.
– É, mas aposto que ela ainda te dá um baile se a puseres a jogar à bola, de certeza.
– Acho que prefiro que nos fiquemos apenas pelas suposições. Não me agrada que a minha própria filha me dê um baile em assuntos masculinos. – Ele fez uma careta, tentando depois fugir ao meu olhar acusador. – Ah, estou a brincar. Aliás, era normal que ela o fizesse, ela... É demasiado parecida com a mãe e essa sempre soube dar-me baile em muita coisa masculina. Excepto, claro... Se falarmos em assuntos de cama e...
– Jellal! – Bati-lhe no braço com força para o fazer calar-se. Rimo-nos de novo.
Por momentos, voltámos depois a encarar a Wendy, agora entretida a andar de baloiço, tentando chegar mais alto que outra das crianças, perdida em gargalhadas no meio daquele barulho todo. Suspirei.
– Eu... Vinha aqui com a Wendy quando ela era bebé, sabias? – Confessei. – Às vezes... Punha-me a olhar para ela e... Lembrava-me de... Dos momentos que passávamos aqui juntos a sonhar com uma família só nossa...
– Agora não precisamos somente de sonhar, Erza. – Senti os seus lábios acariciarem ao de leve o meu ombro, antes de o escudarem com um beijo quente. – Estamos juntos. E ela está radiante.
Suspirou, apenas.
– É...
– Aposto que... Ela deu trabalho enquanto era bebé, não?
Sorri-lhe, deixando a mão voltar a vaguear pela dele, aos poucos.
– Eu... Nunca me importei muito com isso. Era... Difícil, é claro que sim mas... Mas eu amo-a. Faria tudo o que fiz por ela, novamente, só para poder vê-la sorrir como tem sorrido desde há uns dias.
Voltei a olhar para a Wendy, vendo-a acenar-nos depois de ter saltado do baloiço, toda feliz. Olhei para o Jellal que acenou para ela de volta, notando-o baixar a cabeça desanimado em seguida. Segui a direcção dos seus olhos, vendo um rapazinho pequeno apontar muito para nós com um ar de medo. Mais do que de medo, ele parecia... Enojado?
Olhei-o, confusa.
– Deve ser... Deve ser estranho para eles verem uma pessoa... Marcada assim. – Explicou ele, sem me olhar, como que sabendo que eu perceberia onde ele quereria chegar ao dizer simplesmente aquelas palavras. Suspirei. Claro. A cicatriz do olho dele. Era normal que algumas crianças mais impressionáveis reagissem daquela forma mas... Mas mesmo assim... Eu odiava que o olhassem com aquele ar. Isso era plenamente inconcebível para mim.
– Jellal...
– A Wendy... Ela... – Olhou na minha direcção, parecendo tentar achar as palavras correctas para mo perguntar. Notei que ele já tencionava questionar-me acerca daquilo há imenso tempo mas apenas não tinha tido ainda oportunidade para tal. Deixei-o falar. Era importante para ele poder saber aquela resposta. – Ela não estranhou? Não teve medo quando... Viu a foto? Ela disse-me que tinha visto uma foto minha.
Suspirei, olhando as mãos.
– Não. – Respondi apenas. Deixei a mão recair sobre o rosto dele, levemente, e acariciei-lhe toda a zona da marca com cuidado, depois. – Ela só queria... Só queria o pai. Só queria aquilo que... Que eu lhe tirei. Só isso.
O pai dela... Tinha sido por minha culpa que eles tinham estado todo aquele tempo longe um do outro. E, apesar de ele parecer já me ter perdoado por tal coisa – assim como a Wendy – eu ainda não me sentia, de todo, livre de culpas. E muito menos entendia que merecesse tal perdão. Era irónico eu sentir-me desse modo quando me lamentava tanta vez por eles não me perdoarem, semanas antes. De facto... A mente humana era algo demasiado emaranhado para se poder compreender com relativa facilidade.
– Às vezes... Dá vontade de recuperar o tempo perdido, sabes? – Perguntou ele, acordando-me dos meus devaneios ao beijar-me as costas da mão, ao de leve. – Ter... Outro filho. Mas... Eu queria primeiro organizar a nossa vida e arranjar um trabalho decente. Talvez pudéssemos até mudar para uma casa um pouco maior, que achas?
Parei por segundos. Outro filho? Ele... Tencionava, de facto, começar uma nova vida do meu lado? Esquecer tudo e até pensar em ter mais filhos? Comigo?
– Jellal...
– Não gostavas? De ter mais uma criança a correr pela casa? Ouvir de novo as primeiras palavras, mudar a primeira fralda, dar o primeiro banhinho, passar noites em claro com as primeiras insónias, dar a primeira papinha. Não te apetecia?
Sorri, olhando-o nos olhos, demasiado perto para poder resistir à distância antes do beijo seguinte.
– Claro que sim.
– Tentamos, então? – Os meus olhos encontraram os dele por breves instantes. – Desta vez, a ver se conseguimos um rapaz. Ou eu vou-me ver metido em sarilhos daqui a uns anos, quando tiver de proteger tanta mulher linda de possíveis predadores.
Ri-me.
– Já estás a pensar na Wendy com essa idade?
– Um bom pai pensa em tudo. Incluindo na forma mais eficaz de proteger a honra da filha, que, a julgar pelos antecedentes – Acariciou a minha perna um pouco antes de roçar os lábios pelos meus. –, terá uma data de marmanjos atrás dela assim que a sua estrutura física o permitir. E, confesso, isso não me agrada nem um pouco.
Sorri-lhe. As palavras seguintes não seguiram a mesma onda de discurso, mas fizeram-me sorrir quando ele lhes retribuiu sem pensar sequer em tal coisa.
– Amo-te.
– E eu amo-te a ti... Minha Titania.
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