Loucuras de Agosto
10 Dança
Notas iniciais
ROMANCES MENSAIS
LIVRO VIII – LOUCURAS DE AGOSTO
CAPÍTULO IX — DANÇA
Eu já estive em muitos lugares caóticos em toda a minha não tão longa vida. Desde raves psicodélicas com drogas e bebidas sendo distribuídas como se fossem águas até arenas de paintball que mais se assemelhavam a campos de guerra com doze crianças e adolescentes com habilidades únicas e técnicas adquiridas em um treinamento especial de uma agente da CIA e um bilionário excêntrico. Então imaginei que estivesse preparada para tudo nessa vida.
Quer dizer, eu fui treinada por Clint Barton e Natasha Romanoff para lidar com as mais terríveis crises. Eu sei lutar, atirar, criar bombas com poucos materiais e derrubar pessoas que são o dobro do meu tamanho com bastante tranquilidade. Ao lado de meus primos, eu aprendi tudo o que era necessário para sobreviver durante dias em ambientes precários como um deserto ou um pântano.
No entanto, nenhum desses ensinamentos me prepararam para lidar com os pacientes do Troubled Waters Mental Hospital e todo esse ambiente maluco que envolve o lugar. É como se tivesse entrado em um universo paralelo dos desenhos animados e a qualquer momento apareceria uma criatura que faria algo completamente insano.
— Esse é o meu amigo Caleb. – Jujuba apresenta o rapaz magro e esguio de olhos arregalados e pele pálida. – Caleb, essa é a Sam. Seja legal com ela.
— Oi Caleb. – Cumprimento o rapaz, que se senta de maneira desconfiada a mesa onde estávamos. De repente, ele grita e olha para os lados, assustado. Levo minha mão ao peito, tentando me recuperar do grito repentino do rapaz. – O que houve?
— O Belac me bateu. – Responde Caleb e eu encaro Jujuba a espera de alguma explicação, porque eu simplesmente não tinha visto ninguém batendo em Caleb.
— Belac é o melhor amigo do Caleb. – Explica Jujuba, dando de ombros. Ela se vira para a cadeira vazia ao lado de Caleb. – Que coisa feia, Belac. Não pode bater no Caleb.
— Ele sente muito, Jujuba. – Afirma Caleb, encolhendo-se em sua cadeira. Ele se vira para a cadeira ao seu lado. – Seja bonzinho, Belac. Você vai assustar a Sam.
— O quê? – Sussurro, tentando entender com quem esses dois restavam falando e o porquê de Caleb e Jujuba agirem como se realmente alguém estivesse sentado na cadeira. E é ainda mais estranho quando o rapaz começa a gargalhar intensamente, encarando a televisão desligada.
— Sam. – Jujuba me chama e eu a encaro, ainda assustada com Caleb.
— Sim? – Respondo, desviando meu olhar para a garota, que tinha os olhos castanhos vidrados em meus cabelos. Ela pega em um dos meus cachos e sorri ao brincar como se ele fosse uma mola. Acabo sorrindo de sua expressão eufórica. – Você gosta do meu cabelo, Jujuba?
— Eu gosto do cabelo da Sam. – Afirma Jujuba, rindo ao pegar mais uma mecha cacheada. Rio e deixo a garota se divertir. Apesar de ter a minha idade, Juliana era como um bebê fofo que prende a nossa atenção com seus grandes olhos curiosos e bochechas fofas.
De repente um rapaz de cabelos ruivos cacheados, sardas no rosto e olhos cor de mel se aproxima de mim e invade qualquer espaço pessoal que era possível entre nós. Ele começa a falar alguma coisa em francês e eu me sentia naqueles filmes de terror, onde o demônio começa a falar em latim ao possuir o corpo de uma pessoa.
— O que você quer? – Questiono, empurrando o rosto dele para longe de mim. Sinto o olhar de Claude sobre mim e sabia que não poderia atacar o ruivo que me incomodava da maneira que eu queria.
— Demian! Não! Eu vou chamar o Freddie e ele vai brigar com você. – Jujuba repreende o rapaz, que se afasta imediatamente, assustado.
— Freddie! Freddie! Freddie! – Caleb começa a cantarolar o nome do enfermeiro, batendo palmas de maneira animada.
— Eu quero ver o Freddie. – Sussurra Jujuba, desanimada. Ela se deita sobre a mesa e apoia o queixo sobre os braços cruzados. – Freddie.
— Você gosta mesmo do Freddie, não é? – Comento, acariciando os longos cabelos de Jujuba. Ela assente de forma deprimida. Sorrio e suspiro. O rapaz estava ocupado desde cedo, lidando com um de seus pacientes que tinha entrado em crise e desde então havia desaparecido, deixando-me sozinha com a cópia estragada do The Rock. – Não se preocupe. Ele logo deve aparecer.
De repente, Gibby aparece com um mega fone, chamando a atenção de todos os pacientes, que levam as mãos ao ouvido com o som agudo emitido pelo aparelho. Respiro fundo e fecho os olhos, tentando manter a calma. Eu tinha a impressão de que quanto mais tempo eu ficava nesse manicômio, mais próxima de atingir minha completa insanidade eu ficava.
O enfermeiro passa a falar em francês e mais uma vez eu me repreendo mentalmente por não ter ouvido os conselhos de tio Clint quando mais nova sobre aprender um novo idioma. Suspiro e começo a prestar atenção na reação dos pacientes que estavam ao meu redor, tentando decifrar o que o enfermeiro queria dizer. De repente, o nome de Freddie, Gibby e outros enfermeiros que eu não conhecia começa
— E traduzindo o que eu disse para Samantha Puckett, nós teremos agora a nossa aula de culinária e a aula de dança. Vocês se dividirão em grupos de três participantes e um enfermeiro. Cada grupo será direcionado para a oficina que irá participar de acordo com o enfermeiro escolhido. — Explica Gibby e, mesmo envergonhada, assinto em agradecimento pela tradução.
E novamente as vozes dos pacientes se misturam e um enorme caos se inicia para os pacientes formarem os grupos e escolherem seus enfermeiros. Cada um parecia ter uma escolha diferente, mas pelo que eu consegui entender, Freddie era o mais disputado. Gibby também parecia ficar muito atrás entre os enfermeiros favoritos.
Por causa de toda essa confusão, demorou alguns bons minutos até que os enfermeiros conseguissem colocar alguma ordem no lugar. E depois veio a missão de dividir os grupos que levou mais alguns minutos de muita gritaria e discussões entre os pacientes, para o desespero dos enfermeiros e meu, que já não aguentava mais estar no meio daquela confusão.
De alguma forma, Jujuba, Caleb e eu ficamos no mesmo grupo e ainda conseguimos Freddie como nosso enfermeiro responsável. Apesar de permanecer em silêncio enquanto Jujuba e Caleb comemoravam intensamente a conquista quase impossível em meio aos inúmeros pacientes, eu me sentia feliz e aliviada por estar com o rapaz ao meu lado.
— Vocês estão prontos? – Questiona Freddie, aproximando-se de nós com seu típico jaleco branco e o sorriso gentil em seus lábios. Ele logo é recebido por um abraço apertado de Juliana. – Ei, Jujuba!
— Freddie! – Ela vibra, afastando-se dele logo em seguida. Eu não sabia dizer se era por ter ficado tanto tempo sem ver o enfermeiro ou pela recente vitória, mas ela parecia mais eufórica que o normal. – O que vamos fazer? O que vamos fazer? O que vamos fazer?
— Nós iremos dançar. – Responde Freddie, acariciando a cabeça da garota. Ele sorri e me encara brevemente.
— O Belac pode ir, Freddie? – Pergunta Caleb, preocupado.
— É claro que sim, Caleb. Você e o Belac são muito bem vindos. – Afirma o enfermeiro, dando um sorriso gentil para o rapaz. Encaro-o, confusa. Será que era só eu que não conseguia entender essa história de Belac?
— E será que eu posso deixar o grandão para trás, Freddie? – Questiono, não perdendo a chance de provocar o segurança, que me lança um olhar repreendedor.
— Sam. – Freddie me repreende, mas eu sabia que ele não falava a sério. Na verdade, eu tinha minhas suspeitas de que a antipatia do enfermeiro pelo brutamontes era ainda mais intensa do que ele demonstrava. – Vamos lá, pessoal. Nós perdemos muito tempo decidindo os grupos e os enfermeiros representantes.
Com Jujuba e Caleb segurando as mãos de Freddie, sigo o enfermeiro logo atrás, acompanhada do irritante segurança. Claude parecia não parecia conhecer o significado de espaço pessoal e fazia questão de ficar em cima de mim. E tudo parecia piorar ainda mais com a presença de Freddie. O homem parecia ter algum problema com ele e vivia lançando olhares raivosos em sua direção, enquanto frequentemente apertava meu braço com uma força desnecessária.
Infelizmente, eu sabia que precisava me manter calada e aguentar a presença do homem até que chegasse o momento de lhe dar uma surra e fugir para longe desse maldito hospital psiquiátrico. Ao mesmo tempo, quanto mais tempo passo ao lado dos pacientes do Troubled Waters a minha preocupação com o destino dessas pessoas inocentes que, em sua maioria, se encontravam aqui contra a sua vontade só aumenta.
Por mais que o hospital psiquiátrico tenha pessoas bondosas como Freddie, Gibby e Carly, infelizmente o local também possui profissionais odiosos como Gerard, um dos homens que mais tive desprazer de conhecer, Claude e o próprio diretor do hospital que provavelmente foi comprado pelo maldito do meu tio.
— Lesma. – Lesma Claude, empurrando-me com brutalidade, apressando os meus passos. Viro-me para o homem e ele tinha um sorriso irônico nos lábios. Aperto meus punhos e sinto meu sangue ferver. Eu realmente queria esmagar a cabeça desse maldito na parede.
— Sam! – A voz de Freddie chama a minha atenção. Contrariada, desvio o olhar do babaca que continuava a me empurrar e me viro para Freddie. – Vamos. Eu tenho certeza de que você vai gostar da aula.
O enfermeiro lança um olhar intimidador a Claude, dizendo alguma coisa em francês. O segurança parece ficar furioso e responde em um tom agressivo. Caleb e Jujuba encaram o homem com expressões horrorizadas e se aproximam ainda mais de Freddie. E mais uma vez, eu me repreendo por não ter aprendido o idioma anteriormente.
— Vem, Sam. – Insiste o enfermeiro, estendendo sua mão, ainda com os olhos presos aos de Claude.
A intensidade com a qual eles se encaravam era esmagadora. Eu nunca tinha visto Freddie se impor tanto como naquele momento. E talvez por estar tão impressionada com sua postura diante do brutamontes que parecia ter quase o dobro de seu tamanho, eu demoro algum tempo até pegar em sua mão e ser puxada para mais perto. Freddie ainda lança mais um olhar intenso para Claude e com delicadeza me conduz com Jujuba e Caleb para o local onde teremos a nossa aula de dança.
— O que foi isso? – Pergunto, preocupada. – O que vocês disseram?
— Não se preocupe. Não foi nada. – Afirma Freddie, dando um fraco sorriso.
— Claude malvado. – Comenta Caleb, encarando o segurança como uma criança diante da imagem de um vilão na televisão.
Claude apenas corresponde o olhar com uma expressão ainda mais assustadora, fazendo o rapaz se aproximar mais de Freddie enquanto descíamos algumas escadas. Assim que chegamos ao subsolo do hospital psiquiátrico, surpreendo-me ao encontrar a grandiosa sala de dança. Um espelho com barra ocupava toda a parede oposta a porta de entrada.
A música animada em volume agradável fazia os pacientes dançarem e rirem, divertindo-se com seus movimentos desengonçados. Caleb e Jujuba logo se animam e passam também a dançar da maneira deles. Uma enfermeira de cabelos azuis dava comandos a eles e ria, batendo palma, parecendo tão eufórica com a atividade quanto eles.
— Eles parecem estar se divertindo. – Comento com Freddie, que sorri e assente em concordância.
— Certa vez, eu ouvi que a dança é um registro de vida, de força, expressão, empenho, vontade e paixão. E que no ato de dançar podemos fluir elementos criativos, lapidando histórias no corpo, considerando que na vida todas as experiências estão inscritas no corpo. – Responde Freddie, enquanto adentramos mais a gigantesca sala de dança. – Ainda que possa parecer estranho os movimentos que eles estão fazendo, essa é a sua forma de se expressar e sentir. Isso ajuda a amenizar a carga negativa que eles carregam dentro de si.
— Entendo. – Murmuro, vendo como naquele momento, todos os pacientes pareciam tão livres. Acabo sorrindo por ver como eles pareciam felizes.
— Vem. Vamos dançar também. – Fala Freddie, estendendo a mão como um cavalheiro. Encaro-o, surpresa.
— Eu... prefiro observar. – Sussurro a última parte, sentindo um pouco de frustração. Eu perdi as contas de quantas vezes eu tentei aprender algum passo de dança, mas falhei miseravelmente. Era como se eu tivesse dois pés esquerdos.
— Não mesmo. Todos devem dançar. – Insiste o nerd, dando aquele maldito sorriso bonito. – Vamos lá, Sam.
— Eu realmente não quero dançar. – Respondo, encolhendo-me um pouco intimidada por ser alvo dos olhares de outros pacientes que dançavam.
— Ah, vamos lá. Eu tenho certeza de que você vai gostar. É muito divertido. – Afirma Freddie, estendendo sua mão mais uma vez para mim. – Por favor, Sam. Poderia me dar a honra de dançar com você?
Suas palavras recheadas de humor e gentileza me atinge mais do que deveriam e fazem meu coração descompassar. Não fazia sentido. Ele não tinha dito nada demais. Ainda assim, eu me sentia presa nos olhos brilhantes do enfermeiro e em seu sorriso doce. E completamente envolvida pelo turbilhão de sentimentos, eu esqueço completamente da negação que sou como dançarina e coloco minha mão sobre a dele.
Freddie alarga ainda mais o seu sorriso e me puxa para mais perto. Ele então passa o braço livre pelas minhas costas e aperta mais a minha mão. Ao ver que eu não me movia, ele suspira e leva minha mão esquerda ao seu pescoço, antes de voltar a me envolver pela cintura. Antes que eu percebesse estava sendo conduzida elegantemente.
Preocupada que acabasse pisando no pé do enfermeiro e revelasse a minha total falta de coordenação para dança, sinto meu corpo ficar tenso e passo a olhar para os nossos pés. Ao mesmo tempo, ter o corpo de Freddie tão próximo ao meu mais uma vez me deixava nervosa e trazia aquelas lembranças que eu tentava esquecer desde o momento em que o deixei para trás naquele avião a seis meses atrás.
— Olhe para cima e deixa que eu conduzo você. – A voz baixa, mas autoritária de Freddie faz os pelos de minha nuca se arrepiarem e uma corrente elétrica percorrer o meu corpo. O suave aroma de seu perfume me inebriam e eu me sentia completamente hipnotizada pelos seus olhos cor de molho barbecue.
— Eu... não sei... dançar. – Confesso e ele me encara com um brilho ainda mais intenso. – Então não me culpe se eu pisar no seu pé. Depois não diga que eu não te avisei.
— Não se preocupe. – Afirma Freddie, impulsionando meu braço, separando-se de mim. Habilmente, ele me gira duas vezes e me faz jogar meu corpo para trás. Instintivamente, aperto mais o seus ombros e arfo ao ver seu rosto tão próximo ao meu. – Eu vou te ensinar todo o plano de dança.
— Plano... de dança? – Balbucio, ainda atordoada. Ele me lança uma piscadela e volta a me puxar para cima. A música que passava é trocada, mas Freddie continua a me conduzir. Nesse momento, noto que Claude havia ficado para trás e nos encarava raivoso.
— Nós nos reuniremos amanhã na sala da Carly. – Sussurra Freddie, girando-me mais uma vez. – Durante a consulta.
— Como? – Questiono de volta, surpresa.
— Usaremos a tecnologia a nosso favor. – Responde misteriosamente. Ele me faz realizar mais movimentos que nunca tinha conseguido antes. Freddie me roda, desfaçando o aperto de nossas mãos. No entanto, antes que eu acabasse me perdendo, ele volta a me puxar pela cintura e a colar nossos corpos de maneira incrivelmente sedutora. – Assim como a dança, tudo o que precisa fazer é deixar que eu te conduza. E eu prometo que jamais irei te decepcionar.
— Freddie... – Sussurra, sentindo mais uma vez aquelas malditas palpitações e meu rosto esquentar. Seus olhos me encaravam em uma intensa expectativa. Ele parecia esperar uma resposta de minha parte. Respiro fundo, tentando esvaziar minha mente de todas aquelas sensações e pensamentos desnecessários. E sorrio, imitando a pose que vi Elena fazer inúmeras vezes quando dançava acompanhada. – Tudo bem. Deixarei o destino de minha vida em suas mãos. Conduza-me com maestria.
Freddie sorri e nós finalizamos a dança com sorrisos intensos em nossos lábios. Não demora muito para que Jujuba me puxasse para dançar com ela e Caleb, seguindo as orientações da enfermeira de cabelos azuis. Freddie fica um pouco mais afastado de nós, mas em momento algum abandona seu bonito sorriso. E tudo o que eu consigo pensar é no que diabos está acontecendo comigo. E desde quando o sorriso de Freddie me afeta tanto?
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