ROMANCES MENSAIS

LIVRO VIII – LOUCURAS DE AGOSTO

CAPÍTULO XV – CONFUSÃO

O céu estava azul e limpo como em um dia agradável de primavera. Olho em volta e noto que estou em na antiga casa de campo de tio Clint. Já fazia anos desde que ele havia dado aquela propriedade para um amigo que precisava de um lugar para morar e recomeçar a vida. Ouço o som de gritos e risadas infantis. Levanto-me da grama onde eu estava sentada e me aproximo do grupinho de adolescentes e crianças que brincavam.

Ao me aproximar, surpreendo-me ao ver as versões mais novas de meus primos da família Barton. Olho em volta e a decoração de jardim encantado com detalhes bastante familiares para mim me fazem entender que eu estava dentro de uma das minhas antigas lembranças.

Como de costume, Elena e Damon discutiam sobre a próxima brincadeira, enquanto Oliver ria, Aaron reclamava da confusão e infantilidade do grupo, Nancy, Sara e Beth conversavam em cochichos sobre alguém que estava na festa e Thea estava ao lado do irmão mais velho, segurando na perna dele com dois dedos na boca, sem entender o que acontecia. Austin, Ben e Barry fingiam ser super-heróis correndo ao redor dos primos, divertindo-se em seu próprio mundo.

Eu me lembrava muito bem desse dia. Se eu estivesse certa, era nesse exato momento em que ele apareceria com seu jeito tímido ao lado da mãe. Marissa Benson puxava o filho tímido pela mão, chamando por Elena. A garota levanta o olhar e coloca a mão sobre a boca de Damon para encarar a tia. Ao notar quem acompanhava a mulher, Elena abre um grande sorriso e corre em direção ao garotinho que deveria ter no máximo seus seis anos.

— Freddie! – Elena abraça o menino, que docemente a corresponde, sussurrando o que imaginei ser um “oi, Lena”. – Você chegou!

— Poderia cuidar dele enquanto a titia vai ajudar sua mãe a distribuir os pacotes de pipoca, querida? – Questiona Marissa e Elena assente, animada.

— Claro, tia Marissa. – Concorda a menina, pegando na mão do garotinho. – Vem, Freddie. Eu vou te apresentar meus amigos.

Ignorando as pernas curtas do primo, Elena simplesmente puxa a criança correndo. Por causa de suas pernas curtas, Freddie tem dificuldade para acompanhar a prima, mas felizmente consegue chegar à salvo no grupo que os encarava com curiosidade. Intimidado por ser o centro das atenções, o garotinho se esconde atrás de Elena e encara a todos timidamente.

— Pessoal, esse é o meu primo Freddie. Ele acabou de se mudar para Hawkins e também é muito tímido. Fala oi para eles, Freddie. – Elena empurra o garoto, um pouco forte demais. Observo suas bochechas coradas e os olhos miúdos arregalados, enquanto abria e fechava a boca diversas vezes. – Vamos! Diga oi. Eles são legais.

— Oi. – Sussurra Freddie encarando as próprias mãos.

— Que gracinha. – Comenta Nancy, encantada com a doçura de Freddie.

— Oi Freddie. Eu sou a Sara. Seja bem-vindo. – Sara se coloca de joelhos e bagunças os cabelos perfeitamente alinhados.

— Obrigado. – Responde a criança e sua educação parece deixar as garotas mais velhas ainda mais apaixonadas pelo lindo garotinho.

— Que pequeno mais educado. Você é muito fofo, Freddie. – Responde Beth, abraçando o garotinho, apertando-o intensamente.

E então a minha versão mais nova aparece, furiosa por ver a irmã mais velha abraçando uma criança completamente desconhecida. Desconfiada, eu observo o menino, procurando alguma forma de chamar a atenção de Beth. Assim que eles se afasto, abro um sorriso irônico e me aproximo à passos cautelosos, esperando o momento certo para atacar.

— Ele está usando a blusa dentro da calça. Parece um velho. – Provoco, fazendo Damon, Oliver e Barry rirem. Austin e Ben param de correr e encaram o garotinho. Aaron encaram a cena entediado, enquanto Beth, Nancy, Sara e Elena me encaram com repreensão.

— Sam! Não pode dizer isso. Peça já desculpas para o Freddie. – Beth me encara brava. Sua reação me deixa ainda mais chateada. Em minha mente infantil de uma criança de seis anos, a bronca que eu estava levando de Beth era por culpa daquele garoto intrometido que tomou a atenção da minha irmã mais velha e dos meus primos.

— É tudo culpa sua. – Resmungo, empurrando o garotinho. Por causa de suas pequenas pernas, ele tropeça algumas vezes e acaba caindo em cima de uma pequena poça de lama, sujando-o completamente.

Por causa do susto e do forte impacto de seu frágil corpo contra aquele buraco, Freddie começa a chorar, apertando o braço que tinha usado para apoiar o corpo na queda. Todos encaram o menino com preocupação, parecendo incerto sobre o que deveriam fazer.

— Sam! – Dessa vez é Nancy quem me repreende, enquanto todos tentam acalmar o garoto para fazê-lo se levantar.

— Vem aqui, Freddie. Deixa-me ver o seu braço. – Pede Elena, preocupada com o primo, que chorava desesperado.

— Não! Não! – Implora quando Oliver tenta tocar em seu braço.

— Eu vou chamar o tio Clint! – Avisa Aaron, correndo em direção a linda casa de campo, pronto para me dedurar a tio Clint. Não demora muito para que a mãe do garoto apareça junto de seu pai e do meu. A confusão se torna ainda maior quando finalmente conseguem movê-lo e fica evidente que ele havia quebrado o braço.

Tento me aproximar, vendo a minha versão criança encarar a cena assustada, mas é como se houvesse uma parede de vidro que não permitia que meus gritos fossem audíveis ou que meus braços a tocassem, impedindo-me de alertar aquela criança de que ela devia se desculpar ou se arrependeria amargamente.

E então sinto um forte baque em meu corpo, que faz com que eu caísse e tudo se tornasse escuro. Quando volto a abrir meus olhos, percebo que estou no corredor de uma escola. Novamente, o cenário é bastante familiar, com crianças correndo e conversando animadamente.

De repente, vejo Freddie entrando na escola acompanhado de Carly. Dessa vez o garoto parecia ter uns nove anos e puxava uma mochila de rodinhas, enquanto conversava desanimado com a melhor amiga. Eles encaram o papel em suas mãos, parecendo perdidos sobre o lugar para onde eles poderiam ir. Lembro-me que aquele era o primeiro dia de aula de Carly e Freddie no Ridgeway Middle School. Os dois adentram o cenário caótico do início do ano letivo, tentando desviar das crianças que mais pareciam animais sendo soltos em uma selva.

E novamente a minha versão jovem entra em cena. Ao reconhecer Freddie, paro em meio ao corredor e o observo por alguns instantes, completamente paralisada. Eu não conseguia acreditar que ele e eu iríamos estudar na mesma escola. Depois do incidente no aniversário de Elena, nós passamos a nos ver apenas em eventos comemorativos ou quando Freddie iria visitar a prima, já que os membros da família Barton estavam sempre juntos.

— O que foi, Sam? — Ouço um garoto perguntar ao lado de minha versão mais nova. Puxo em minha memória a sua identidade e me lembro que aquele era Dylan Condor, um dos meus melhores amigos naquela época.

— Nerd novo na escola. — Respondo, um pouco a contragosto, mantendo meus olhos presos em Freddie. Aquele mesmo sentimento de angústia me atingem. Eu ainda me sentia culpada por machucá-lo diversas vezes e irritada por nunca conseguir me desculpar. Por algum motivo, Freddie me irritava apenas por existir e quando eu menos dava por mim, lá estava eu, machucando-o com palavras ou fisicamente.

— A garota ao lado dele é bem bonita. — Comenta Dylan, encarando Carly. Ele era três anos mais velho que eu e havia repetido o sexto ano duas vezes, por isso, era comum que ele já estivesse começando a se sentir atraído pelas garotas.

Impulsivamente, começo a andar na direção de Freddie. Dylan apenas me acompanha, tentando entender o que eu planejava fazer. Eu provavelmente também não sabia. Recordo-me com pesar que meu corpo sempre agia sozinho todas as vezes em que eu via Freddie e em questão de segundos, eu me via agindo como as vilãs dos filmes adolescentes, que sempre que tinha oportunidade, estava importunando a sua rival.

— Freddienerd. – Cumprimento o garoto, dando um forte tapa em seu ombro. Ele se vira assustado e a cor de seu rosto parece desaparecer. Sorrio largamente, satisfeita por vê-lo tão afetado. – Feliz em me ver?

— Quem é essa, Freddie? – Comenta Carly, encarando-me com curiosidade. Parecia analisar se eu apresentava algum perigo.

— Vai embora, Sam. – Resmunga Freddie com o tom de voz pelo menos três tons mais baixos que o normal. – Eu não quero me envolver em problemas no meu primeiro dia de aula.

— Como você é chato, Fredestúpido. Eu vim falar com você e te apresentar a escola e é assim que você me trata? – Questiono, dando mais um tapa desnecessário em seu ombro. Ele se encolhe e vejo seu rosto começar a ficar vermelho. Eu sabia o que vinha a seguir. Diferente dos outros nerds com quem eu gostava de implicar, Freddie sempre me retrucava, não importava o quão desesperado e amedrontado ele estivesse. – O que foi Fredduardo? O gato comeu sua língua?

— O meu nome é Fredward e você sabe disso. – Responde, irritado. – E por que você não me deixa em paz? Já não basta todas as vezes que você me incomoda na casa de Elena e nos aniversários dela? Qual é o seu problema comigo?

— Uau. O nerd é bravinho. – Comenta Dylan, sorrindo irônico.

Naquele momento, todos a nossa volta já prestavam atenção em nossa conversa. Eu estudava há muito tempo naquela escola e todos sabiam que ninguém em sã consciência ousava me responder ou me desafiar. Então ter um aluno novo de aparência que deixava claro o quanto ele era nerd retrucando a aluna mais temida da escola com certeza era uma atração e tanto para aquele primeiro dia de aula.

Vaias de provocações se fazem presente, enquanto as pessoas formavam uma rodinha ao nosso redor, ansiosos para saber como aquela discussão acabaria. Furiosa e impulsionada por Dylan e todos os outros que nos assistiam, avanço contra Freddie, levantando-o pelo colarinho da camiseta social que ele usava, enquanto o pressionava contra os armários.

Novamente eu tento me aproximar e impedir que eu continuasse a agir daquela forma. Não era certo. Mesmo naquela época eu já sabia disso. Ainda assim, meus esforços são em vão. Mais uma vez minhas ações cruéis causavam danos terríveis no garoto que nunca tinha feito mal algum a mim. Ainda assim, lá estava eu, agindo sem qualquer controle, enquanto todos pareciam se divertir com aquele espetáculo idiota.

— Quem você pensa que é para falar desse jeito comigo, nerd? – Questiono, enquanto ele se debatia tentando se soltar. Desde aquela época eu já possuía uma força acima da média.

— Me solta, Sam! Me solta! – Insiste o garoto, apertando os meus punhos.

— Freddie! – Carly me encara assustada. – Solta ele!

— Você que pediu. – Digo, sem desviar o olhar de Freddie, que arregala os olhos assustados, quando eu o solto de uma vez. Ele cai bruscamente de bunda no chão e me encara apavorado. – Nunca se esqueça de que eu sou mais forte que você, idiota.

— Eu não tenho medo de você. – Responde Freddie com a voz baixa, enquanto suas pernas tremiam.

Sorrio com ironia e pego a garrafa de suco de um dos garotos que assistiam a nossa briga. Sem esperar que ele dissesse mais alguma coisa, jogo o suco sobre ele e ouço as outras crianças rirem de seu estado deplorável. Abaixo-me para ficar na altura dele e volto a pegar em seu colarinho.

— Você é fraco, nerd. Você sempre será um bebezinho da mamãe que usa com roupas de gente velha e age como um esquisito. – Afirmo, fazendo com que ele se encolhesse diante dos meus insultos e olhares enojados.

Uma professora aparece em seguida e a plateia é toda dissipada. Eu me afasto de Freddie no mesmo instante em que Carly se aproxima, olhando feio para mim, enquanto usava um delicado lenço para limpar o rosto e as roupas molhadas do amigo. Eu fui para a direção e fui castigada com detenção para aprender a lidar com meus impulsos.

Depois daquele dia, Freddie passou a se incomodado pelas outras crianças, que sempre o chamavam de esquisito e implicavam seus hábitos semelhantes aos de um velho. Nada comum para uma criança de quase dez anos. Novamente eu me arrependi de meus atos, mas era orgulhosa demais para me desculpar, então passei a punir aqueles que mexiam com ele ou o atacavam. Sempre em sigilo.

A imagem daquele momento desaparece mais uma vez. Eu sentia meu coração comprimido. A culpa e o ódio que eu sentia de mim mesma por machucar o garoto me consumia. E então as lembranças dele levando uma descarga elétrica de uma arma de choque enquanto tentava me proteger voltam a minha mente.

Mesmo depois de anos, eu continuava a causar dor a Freddie. Fosse direta ou indiretamente, eu sempre acabo sendo a responsável por seus hematomas e traumas. E isso me destruía. Eu queria me desculpar com ele. Queria ser capaz de retribuir toda a paciência e gentileza dele, que mesmo eu sendo extremamente cruel com ele, nunca me negou qualquer ajuda. Ainda assim, tudo o que fiz foi trazer ainda mais problemas a sua vida.

Sinto o choro preso em minha garganta. Tento me mover, mas meu corpo está pesado. Eu não sabia dizer se eu estava dormindo, acordada ou pesa em algum tipo de sonho. Meus olhos estavam pesados. Luto para abri-los, mas não tenho controle algum sobre mim. Minha boca estava seca e o silêncio ensurdecedor era apavorante.

Abro minimamente meus olhos e vejo um branco. Minha mente está confusa. Não consigo distinguir o que estava acontecendo. Também não sabia onde estava, nem quanto tempo estou aqui. Tudo era muito incerto e eu tinha a sensação que estava sendo sufocada. O sorriso doce de Freddie continuava a vir em minha mente. Eu queria vê-lo de novo. Sentia todo o meu corpo implorar por ele. Tento me mexer mais uma vez, mas eu estava presa ou provavelmente fraca demais para me mover.

— Sam. – Ouço meu nome ser chamado ao longe, quase como um delírio. Era uma voz feminina. O silêncio é substituído por batidas intensas na porta. Não sei quem é, mas sinto que a conheço. – Sam? Você consegue me ouvir? Sou eu! Hillary!

O nome me desperta um pouco mais. Consigo abrir um pouco meus olhos e focar no local de onde saia o som. Tento mexer minha boca para responder, mas novamente estou pesada demais para tomar qualquer ação. Era como se eu estivesse perdido o controle de minha língua.

Com muito esforço, consigo mexer as minhas mãos. Devagar, tentado raciocinar. Eu precisava dizer alguma coisa a Hillary, que continuava a gritar pelo meu nome e bater contra a porta. Consigo mexer os meus dedos. Pouco a pouco, minha mente me traz algumas lembranças do código morse. Noto que estou deitada. Então passo a bater contra a minha cama. Eu não sabia bem se ela conseguiria me ouvir, mas precisava tentar.

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NÃO CONSIGO ME MEXER.

Espero alguns instantes, torcendo para que Hillary tivesse entendido ou fosse capaz de se comunicar comigo de alguma forma. O alívio me atinge quando posso ouvir sua resposta também em batidas codificadas.

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SAM, VOCÊ ESTÁ BEM?

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FREDDIE.

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O QUÊ?

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SALVE O FREDDIE.

E então novamente não tenho controle do meu corpo. Mesmo ouvindo as batidas de Hillary, não sou capaz de distinguir o que ela queria me dizer. Sua voz se torna distante demais para que eu entendesse o que ela dizia. E então a escuridão se torna presente mais uma vez. Não consigo dizer o que acontecia ao meu redor, mas esperava que Hillary pudesse fazer o que eu não fui capaz de fazer. Salvar o homem que eu amo.