Lost in Love
2 CAPÍTULO II - Stray Heart
Notas iniciais
STRAY HEART
(CORAÇÃO VAGABUNDO)
– NARUTO POV'S -
A luz do sol invadia meu quarto por uma fresta mínima entre as cortinas e batia diretamente em meus olhos obrigando-me trocar de posição na cama. Eu ainda estava cansado da noite anterior e logo senti o cheiro doce de Hinata na roupa que eu nem me dei ao trabalho de mudar antes de deitar e dormir.
– Ainda bem que é domingo. — eu disse a mim mesmo meio atordoado com tanta luz.
O relógio marcava quase meio-dia. Espreguicei-me para mandar o sono embora de vez esperando que aquela sensação ruim fosse junto — que inferno!– pensei — se eu passei a noite com ela como sempre fizemos, porque tudo pareceu tão diferente de qualquer outra noite que tivemos juntos? Eu me fiz essa pergunta desde o momento em que fui embora no meio da madrugada.
Essa sensação terrível de perdê-la apoderou-se de mim quando ela pediu que eu fosse embora, de novo. — Mas por que só dessa vez?– É a terceira vez que ela tenta me afastar e nós acabamos na cama, mas a primeira vez que eu me sinto assim... perdido. Às vezes eu acho que deveria apenas atender a esse pedido, mas o que sinto por ela é maior do que eu, mesmo não sabendo exatamente o que sinto por ela.
"Vá embora Naruto, por favor!"– eu pude ouvir perfeitamente a voz dela pronunciando suavemente essas palavras e um aperto surgir em meu coração.
A primeira vez que ela fizera esse pedido eu não pude levar a sério já que ela estava um tanto alterada pelo álcool e dizia coisas sobre eu e Sakura estarmos juntos. Lembro-me bem de levar Hinata para casa e ser enxotado por ela bêbada e aos prantos me dizendo para não procurá-la mais. Deixei que ela dormisse e esfriasse a cabeça e fui procurá-la no dia seguinte e quando nos encontramos ela parecia abatida, mas perguntou olhando no fundo dos meus olhos "Vocês estão dormindo juntos?" e eu neguei imediatamente tentando convencê-la de todas as formas possíveis de que isso era uma grande mentira, mesmo que fosse a verdade.
Ela fingiu acreditar em mim enquanto eu fingi acreditar nela e por meses estive com as duas ao mesmo tempo. Sakura começou a exigir demais do nosso "relacionamento", que não passava de um caso de desejos que eu logo terminei e novamente passei a dedicar meu tempo inteiramente a Hina.
Eu me senti o pior dos homens quando, novamente, me deixei levar pela sedução de Sakura em uma noite qualquer em minha casa e outra vez tínhamos um caso que eu não fui capaz de colocar um fim e que Hinata sabia ainda existir, embora eu negasse.
No fim das contas Sakura implorava para voltar comigo enquanto eu implorava para que Hinata não me deixasse e agora parando para pensar em tudo, de alguma forma acho que Hinata entendia o porque de todas as vezes que voltei com Sakura, já que ela me aceitava de volta dessa mesma forma.
A verdade é que desde o colegial eu era apaixonado pela garota de cabelos róseos e ela sabia, mas não se importava. Também era verdade que Hinata era apaixonada por mim e era eu quem não me importava.
Engraçado como as coisas mudam todo o tempo... em algum momento depois do colegial cada um tomou seu rumo e a rosada ficou esquecida no meio do caminho e entre tantas idas e vindas no amor eu reencontrei Hinata nesse mesmo caminho.
Começamos a sair e quando as coisas começavam dar certo e ficar sérias, eis que surge do além aquela paixão adolescente mais solteira e afim de mim do que nunca. Um ano atrás, mesmo que eu soubesse que o que estava fazendo era errado eu diria que tive uma sorte absurda, mas agora... tudo parece ainda mais errado.
Resolvi esquecer um pouco dos erros e comer alguma coisa antes que morresse de fome — sorri lembrando-me de que Hina diria que sou muito exagerado — e é verdade.
A todo momento meus pensamentos voltavam a noite anterior e aquela sensação terrível voltava junto. Talvez eu deveria ter dito a Hinata que fui chutado pela outra dessa vez.
"Não faria diferença porque ela não acreditaria."– era o que eu dizia a mim mesmo mentalmente.
O resto do dia passou rápido enquanto eu alternava entre assistir TV e comer qualquer porcaria e de vez em quando checar alguns relatórios do projeto que coordeno. Já era tarde e quando dei por mim havia me empolgado com o trabalho e terminado todos os relatórios. Quando ia enviá-los por email para que Hinata pudesse revisá-los e enfim entregarmos a versão final do projeto à Hanabi na terça-feira eu decidi ir vê-la e entregar pessoalmente.
Imprimi uma cópia para ela e peguei as chaves do carro partindo rumo ao seu apartamento, voltando a estacionar em minha garagem cinco minutos depois. Era domingo a noite e Hinata provavelmente estava na casa da irmã, alguém que eu preferia manter uma certa distância.
Hanabi representava duas coisas muito distintas em minha vida: uma chefe muito exigente e realmente insuportável quando quer e alguém que gostaria muito de me matar por eu não assumir um relacionamento de verdade com Hina e, por isso segundo ela posteriormente, eu sou "um completo cretino".
Quando Hanabi descobriu sobre o meu triângulo amoroso fez questão de contar à irmã e tentou me demitir, mas Hinata a impediu argumentando em meu favor para que ela não misturasse a nossa vida pessoal com a profissional. De qualquer maneira eu levei um tapa inesquecível na cara — me peguei com a mão do lado esquerdo onde Hanabi acertara o tapa — maldita encrenqueira — me inferniza sempre que tem chance.
Assisti mais um pouco de TV e fui me deitar pensando em como tudo no dia parecia ter sido sobre Hinata, mesmo que não houvéssemos ao menos nos falado. Deitei e adormeci... pensando nela.
A segunda-feira estava perfeita: dia de folga e eu sonhava com algo muito bom que foi rudemente interrompido por batidas na porta. Atendi mau humorado e o carteiro pareceu não dar a mínima, apenas empurrou uma prancheta e uma caneta para que eu assinasse a correspondência entregue e foi embora logo em seguida.
Quando verifiquei o remetente e li o nome Hyuuga Hinata automaticamente abri o envelope e peguei o conteúdo dele: uma carta. Desdobrei o papel com um certo cuidado e li.
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Naruto,
por favor não ligue mais pois meu número já não existe.
Também não venha me ver e dizer que precisa de mim, é tempo perdido.
Nós dois sabemos que se continuarmos nessa situação eu vou continuar a te amar e que você vai continuar apaixonado por ela... eu não quero metade de você.
Agora meu coração ainda não consegue dizer não para você e seus malditos olhos azuis, mas eu vou te esquecer e só conheço um jeito de fazer isso.
Não me procure mais, nunca mais.
Adeus.
Hinata.
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Li aquela carta uma, duas, três ou até mais do que isso e ainda não acreditava naquelas palavras. Eu nem mesmo conseguia pensar em uma explicação lógica. Hinata estava terminando definitivamente comigo? Ou, era apenas raiva acumulada relacionada à Sakura? TPM talvez? — ri sozinho tentando compreender.
O que diabos aquilo realmente significava? Apenas ela poderia dizer.
Larguei a carta na mesa da cozinha e liguei para Hina. O telefone chamou por uma eternidade e caiu na caixa postal, tentei então o celular dela e uma mensagem automática dizia que o número não existia. Fiquei tentando ligar por um longo tempo e os resultados eram sempre os mesmos.
Impaciente e confuso com as palavras de Hinata resolvi ir vê-la. — Maldição!– praguejei baixinho — Porque eu tô tão preocupado? — perguntei para o silêncio do apartamento vazio enquanto colocava uma roupa qualquer e procurava as chaves do carro ainda mais impaciente e quando finalmente conseguir achá-las dirigi até o apartamento de Hinata feito um louco para encontrá-la.
E no entanto, tudo o que encontrei fui uma aviso de "Imóvel à venda" fixado na porta e um apartamento vazio.
O que está acontecendo?– era o que eu me perguntava um milhão de vezes no mesmo segundo sem entender absolutamente nada.
Subi as escadas correndo e bati na porta incessante como há duas noites atrás, mas ela não veio atender e por um minuto inteiro ou até mais, eu apenas olhei para a porta branca de maçaneta dourada e continuei encarando-a.
Sem saber exatamente o que fazer, verifiquei se o corredor do andar estava vazio e arrombei a porta do apartamento na expectativa de encontrar Hinata rindo feito uma louca da minha cara como numa brincadeira de mau gosto ou um pedido de atenção por parte dela, mas não aconteceu — além de que, nada disso seria o tipo de coisa que Hinata faria.
Tudo estava exatamente como duas noites atrás, exceto pelos plásticos que cobriam os móveis e os porta-retratos faltando. Fechei a porta e coloquei uma cadeira atrás para que ela permanecesse fechada e segui até o quarto de Hinata, ou melhor, o nosso quarto. Também estava tudo do mesmo jeito e coberto por plásticos, exceto pela grande caixa rotulada de "lixo" ao lado da cama.
Coloquei a caixa em cima da cama e abri para ver o conteúdo. — Pode ter alguma pista de onde Hina está.– pensei com um fio de esperança que morreu assim que vi todas as nossas fotos juntos dentro da caixa jogadas fora junto de outros presentes que dei a ela. Fui até o guarda-roupas e todas as roupas estavam em um saco rotulado como "doação" e a única coisa que fora deixada para trás sem rótulos foi o perfume dela.
Peguei o frasco e sentei-me na cama apenas encarando o nada. Lembrei daquela sensação ruim do dia anterior que insistira em me perseguir e agora, no lugar dela nascia algo novo. Demorei ainda algum tempo para assimilar o que de fato estava acontecendo e quando percebi que ela estava realmente disposta a me esquecer foi como o tapa na cara que levei de Hanabi tempos atrás.
–
Não.
Estava doendo mais, muito mais.
–
Não foi como uma semana atrás, quando Sakura pediu um tempo para ficar sozinha e eu simplesmente não dei importância, talvez porque tinha Hinata ao meu lado ou, talvez, porque eu realmente não me importava.
Horas se passaram e eu continuei ali na cama de Hinata, sentindo seu perfume no ar ao esguichá-lo vez ou outra e olhando as fotos jogadas no lixo por ela, assim como eu fui jogado.
Era tarde e tudo o que consegui fazer foi preparar um ramen instantâneo que encontrei na cozinha do apartamento e continuar encarando o nada pensando nela e em como me repreenderia seriamente por arrombar a porta e ficar na casa dela sem permissão. Deitei-me na cama e adormeci na esperança de acordar e encontrá-la ao meu lado quando acordasse no dia seguinte, e mesmo nisso fracassei. Acordei no meio da madrugada com a lua cheia iluminando o quarto em meio àquela escuridão absoluta e inevitavelmente a imagem de Hinata e seus olhos cor pérola atingiram minha mente com tudo.
– Até mesmo o universo acha que eu mereço essa.– falei sozinho, olhando para a lua na imensidão do céu noturno.
Passei o resto da madrugada acordado pensando onde Hinata estaria. Longe? Talvez perto? Não saberia dizer. Eu nem mesmo tinha alguém para quem ligar e perguntar onde ela estava. A verdade apareceu cruel: ela era tudo o que eu tinha e eu nem mesmo percebi e agora tudo o que havia era a solidão e eu conversando com as estrelas feito um tolo sobre onde ela estaria e se estava pensando em mim também.
O dia amanhecia e as horas arrastavam-se trazendo o sol, lindo e brilhante num infinito azul que agora parecia completamente cinza para mim. Entre suspiros cansados de uma noite mal dormida e aquele terrível sentimento de perda prometi a mim mesmo que se reencontrasse Hinata nunca mais deixaria ela partir, nem partiria o coração dela outra vez.
Dei um pulo assustado com meu celular tocando e imediatamente atendi pensando que fosse ela.
– Merda.– disse quase sussurrando quando ouvi a voz no aparelho e arrependi-me instantaneamente por não olhar o número no visor do celular.
– Bom dia Uzumaki. — ouvi uma voz falsamente suave me cumprimentar.
– Bom dia Hanabi. — respondi igualmente.
– Você poderia me informar porque está atrasado com os malditos relatórios do seu projeto que deveriam estar na minha mesa na primeira hora do dia de hoje? — ela perguntou exaltando a voz aguda propositalmente.
– Talvez porque eu estou feito um louco atrás da sua irmã que sumiu do planeta sem deixar rastros. — respondi me contendo para não soar tão mal educado o quanto eu queria.
– Ah sim, Hina foi mesmo embora... tinha até me esquecido — ela disse cínica e prosseguiu — eu até poderia te dizer onde ela está, mas, número um — ela pontuou — você é um completo incompetente que não entrega seus relatórios e dois, um completo cretino.
– Eu te mando os relatórios agora se quiser, mas me diz para onde ela foi! — eu disse ignorando os joguinhos de Hanabi — Eu preciso muito falar com ela... eu não v... — fui cortado bruscamente pela voz aguda e autoritária de Hanabi.
– Eu não me importo nenhum pouco com o que você precisa Uzumaki. Quero esses relatórios impressos em uma hora na minha mesa ou vou esquecer qualquer coisa que Hinata tenha dito sobre você e demiti-lo. Espero ter sido clara como um cristal. Até mais.
– Espera! — eu disse rapidamente, mas ela já havia desligado o telefone do outro lado da linha.
– Inferno de garota encrenqueira! Demoníaca!– amaldiçoei-a para o vento.
Corri até a porta do apartamento e anotei o número da corretora de imóveis e desci as escadas quase caindo para chegar ao carro estacionado do outro lado da rua. Dirigi numa velocidade três vezes maior que a permitida para chegar a tempo em casa e imprimir os relatórios na íntegra que totalizavam quase 200 páginas.
– Essa maldita quer me matar, só pode ser isso! — pensei amaldiçoando Hanabi mais um pouco enquanto estacionava e subia as escadas.
Coloquei o restante dos arquivos para imprimir e fui para o banheiro tomar um banho na velocidade da luz e colocar uma roupa apresentável para estar na Corporação Hyuuga. Arrumei os relatórios que já haviam sido impressos para a revisão de Hinata aos que eu acabara de imprimir numa pasta qualquer com divisórias e dirigi quase voando para tentar chegar em aproximadamente 25 minutos do outro lado da cidade, manter meu emprego e o mais importante: descobrir onde Hinata estava.
Cheguei faltando 5 minutos para que o prazo de Hanabi se encerrasse e peguei o elevador para o último andar, onde se localizava a sala da presidente, diretora geral, demoníaca e encrenqueira Hyuuga Hanabi. Identifiquei-me com a secretária Moegi e fui anunciado em seguida, adentrando na sala, ou melhor dizendo, no inferno.
Hanabi assinava alguns papéis e levantou a cabeça lentamente para me encarar.
– Você está mesmo acabado Uzumaki. — ela disse com um olhar analítico.
– Os relatórios — coloquei a pasta na mesa — onde Hina está? — perguntei sem cerimônias e com a respiração um pouco desregulada pelo estresse e recebi uma sonora gargalhada em troca.
– Quem diria — ela riu mais um pouco e eu fiquei muito sério — que logo você Naruto estaria aqui algum dia no horário. Por que está tão desesperado? — ela deu um sorrisinho maldoso.
– Eu trouxe esses malditos relatórios sua encrenqueira insuportável então me diz logo onde a Hinata está. — Eu disse sem qualquer vestígio de paciência.
– Ou? — ela disse em tom de desafio, eu fiquei em silêncio e ela prosseguiu — foi o que eu pensei– ela disse assumindo uma expressão séria e suspirou em seguida, mau humorada. — Você sabe exatamente o que eu penso de você Naruto e não tem nenhuma ideia de como eu fico feliz que Hinata tenha tomado a decisão de se afastar de você — ela sorriu — minha irmã está bem longe daqui e pretende esquecer você e recomeçar, acredito que ela tenha deixado isso claro.
Eu tentei falar alguma coisa, mas nada saia da minha garganta. Apenas continuei olhando a expressão de prazer de Hanabi e ela prosseguiu ao perceber minha situação.
– Eu confesso, estou me divertindo às suas custas! — ela jogou as mãos para o alto e riu para em seguida me olhar nos olhos — Eu poderia te dizer onde ela está, mas eu não vou — fez uma breve pausa analisando minhas reações às suas palavras — tudo porque você fez ela sofrer por muito tempo enquanto estava se divertindo com aquela sua amiguinha.
– Eu e Sakura não estamos mais... — eu não terminei a frase, a mulher na minha frente estava completamente indiferente as minhas palavras.
– Como eu ia dizendo, eu não vou te dizer onde ela está Naruto. Não por enquanto. — ela sorriu perversa e eu a olhei confuso e um pouco assustado — Primeiro eu vou fazer da sua vida um inferno — ela disse em um tom perigosamente divertido e se levantou — vou te lembrar todos os dias que ela pode ter se apaixonado por outro e que nem se lembra mais de você e então você vai entender como é se sentir trocado. E vou dar todo o apoio moral para ela recomeçar e só depois, se ela resolver voltar e, por algum motivo ainda te amar e te quiser, — ela deu ênfase — eu não vou me intrometer. Até lá você trabalha para mim e ela está livre para achar alguém que a mereça mais do que você — disse como se a conversa se tratasse de negócios — e por falar nisso, eu faço questão de te manter informado sobre todos os caras com quem ela sair para te esquecer só para você saber quem é o outro.
Recolheu alguns papéis na mesa e saiu andando em direção a porta com um sorriso vitorioso e malévolo no rosto me deixando perplexo e perdido em mim mesmo.
Desci até o meu escritório e avisei que não estava bem para trabalhar.
Voltei para casa e passei a tarde pensando nas palavras de Hanabi. Então era isso? Eu tinha que ver Hinata partir para sabe-se lá onde e aceitar que ela talvez não me esquecesse? E ainda ouvir a mulher do capeta comemorando minha desgraça, dizendo que vai pessoalmente fazer da minha vida um inferno (como se não fizesse isso há tempos!) e terminar de ferrar com a pouca chance que me resta?
– Eu devo estar em um pesadelo.– eu disse a mim mesmo sem acreditar muito na ideia e concluí que seria exatamente como Hanabi disse, porque eu queria Hinata de volta.
Peguei o número da corretora e fiz uma oferta no apartamento de Hinata usando o nome de um conhecido. De qualquer jeito, só me restava esperar...
Passei a tarde inteira me culpando por perdê-la assim, de graça, sem me conformar com a escolha dela de partir para longe de mim. Mesmo que no fim das contas eu merecesse ficar sem Hinata eu não desistiria.
Além de ter um maldito coração vagabundo e estúpido, fui idiota o suficiente para não perceber que eu a amava — correção– de que eu a amo. Talvez, meu grande erro tenha sido nunca dizer isso à ela, ou simplesmente não ter sido sincero comigo mesmo e dito isso a mim...
Admitir que eu estava com medo de amar poderia ter evitado que a minha mente fraca se deixasse seduzir tão facilmente por outra mulher quando eu já tinha tudo o que um homem queria ao meu lado.
Tudo o que me restava eram lembranças ao lado dela... vislumbres do rosto de Hinata apareciam em minha mente e por horas eu apenas tentei lembrar-me daqueles cabelos negros que faziam os olhos pérola se destacarem e daquele sorriso doce que me encantava.
Resolvi beber e afogar as mágoas e percebi que a bebida era completamente inútil já que depois de nem sei quantos copos o rosto dela ficava cada vez mais vívido e nossas noites juntos vieram à tona mais uma vez junto de todas as palavras não ditas por mim e lágrimas derramadas por ela.
Em algum momento de minha bagunça mental Sakura fez-se presente em meus pensamentos e não pude deixar de culpá-la também. Ela me seduziu usando como arma o meu próprio desejo por ela.
– "Fraco. Fraco. Fraco." — uma voz irritante zombava de mim e tinha razão.
Nesse momento eu não pude deixar de compará-las: ambas eram lindas. Hinata é encantadora de um jeito doce, tranquilo, puro, romântico, profundo e conseguia ler minha alma se quisesse, era meu porto seguro, minha calmaria enquanto Sakura tem um jeito explosivo, intenso, provocante, ardente e caprichoso que fazia o desejo transbordar em mim, vinha como uma tempestade repentina e ia embora do mesmo jeito.
Enfim pude entender o que me intrigava desde o domingo quando acordei: o porque daquela noite com Hinata parecer tão diferente. Talvez eu estivesse muito alterado pela bebida agora, mas lembrava-me perfeitamente de ter ido do céu ao inferno com aquela mulher em uma única noite — noite em que vi a profundidade dos sentimentos se misturarem à intensidade deles e extrapolarem fazendo-me sentir com se precisasse dela para sempre. E para provar que estava certa, ela tornou essa necessidade ainda mais verdadeira dizendo adeus.
Concluí que ela se foi e levou meu coração, deixando apenas lembranças, a descoberta de um amor arrebatador que me fazia precisar dela de um jeito que eu nunca imaginei junto da improbabilidade dela algum dia voltar para mim. Bebi um último copo com a certeza de que não importava quanto álcool eu ingerisse, o quanto eu procurasse por ela em outro alguém ou dirigisse sem rumo por aí para tentar esquecê-la, pois de alguma forma eu seria torturado pela necessidade de tê-la, pela saudade, pela dor do amor ou pelo medo de outro em meu lugar e passaria muitas outras longas noites sem dormir pensando nela e em como eu apenas pude deixá-la ir embora.
Coloquei o porta-retratos com foto dela que por longas horas eu fitei enquanto bebia ao meu lado e tudo o que pude fazer foi me deixar ser embalado pelo sono, esperando que a ressaca do dia seguinte fosse maior que a dor do amor perdido.
Há quem me julgue perdido,porque ando a ouvir estrelas. Só quem ama tem ouvido para ouvi-las e entendê-las...
– Olavo Billac
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