Lost Stars
1 Prólogo
Notas iniciais
"E as estrelas do Céu caíram na terra, como frutos verdes que caem da figueira agitada por forte ventania."
Apocalipse 6; 13
31 de dezembro (há vinte e um anos)
★
Estrelas cadentes são objetos de fascínio de muitos e supersticiosamente acreditamos que são capazes de conceder desejos, quando na verdade não passam de fragmentos de meteoritos que adentram na atmosfera terrestre e se desintegram pelo caminho deixando para trás um rastro luminoso. Mas diferente das estrelas cadentes comuns, aquela não parecia que iria se desintegrar, embora também rasgasse o céu com sua luminosidade quase mística.
Não era uma estrela cadente afinal.
Talvez aquela sim pudesse realizar desejos.
Quando Ariel pousou os pés no chão e respirou pela primeira vez sentiu o frescor da brisa fria do mar entrar por suas narinas, fazer cócegas suaves em seu rosto e balançar seus cabelos. O toque quente e áspero da areia sob seus pés descalços fez um arrepio estranho e prazeroso percorrer todo o corpo.
Aquele lugar era realmente lindo.
Ela ouvira histórias. Missões, relatos e advertências vindos de outros anjos, quase todos sem exceção diziam que aquele mundo mudava quem o tocava. E ela queria tanto tocar e conhecer mais daquilo que lhe era tão incomum, mas não tinha tempo para explorar, ou se encantar pela beleza até então desconhecida.
Em poucas horas a guarda perceberia o que ela havia feito, ou mais precisamente, o que ela havia roubado, e quando isso acontecesse a caçada começaria. Ela tinha todo o plano traçado em sua mente, muito já havia sido sacrificado para que desse certo, ela não poderia hesitar agora.
Tudo dependia dela.
Enquanto se preparava ela se lembrava de Rafael, o nobre amigo que havia desistido de tudo para ajudá-la, cegamente a seguindo. Lembrou-se do sofrimento que havia dentro dos olhos dele, não conseguia se livrar da sensação de que aquela dor era culpa dela ao permitir que Miguel o torturasse, e no fim, arrancasse as asas do leal amigo fazendo com que ele caísse.
Tentava aliviar a culpa dizendo a si mesma que era tudo em razão de um bem maior, e que no fim, todo sacrifício valeria a pena.
Tudo se resumia a ter fé.
E mesmo tendo tantos motivos para desacreditar, mesmo perdendo tanto no processo, aquela guerreira jamais perdia este sentimento.
Ariel respirou fundo e numa prece silenciosa orou para que Rafael estivesse bem e seguro. Uma pequena oração. Era tudo o que podia fazer pelo amigo, não havia mais tempo para ele. Para os dois, pensou com tristeza.
Ariel segurou a relíquia contra o peito. Não parecia metal frio, mas algo vivo, pulsante, com um calor que atravessava a pele e vibrava em seus ossos. Seus dedos traçaram brevemente o contorno dos dois querubins na tampa, com as asas esticadas uma em direção à outra, guardiões eternos de um silêncio absoluto. Em cada uma das laterais havia três arcos soltos, esse era o local utilizado pelos homens para colocar os varões, lhes permitindo carregarem a arca sem a tocarem. Diziam que apenas os puros de coração podiam segurar aquela arca, todos os que fossem impuros morriam imediatamente.
"Mentira" pensava Ariel com amarga ironia “Ela não a estava roubando?”
Certa do que devia fazer, Ariel segurou a arca firme junto ao peito e levantou voo em direção ao local escolhido. Ela dispensou um bom tempo pesquisando sobre aquele lugar seguro, quase uma década para ser precisa. E ainda assim ela não tinha certeza se seria suficiente, tudo o que podia fazer era ter fé de que seu plano funcionaria, e de que ela tomara a decisão correta.
Ela demorou mais tempo do que planejara para esconder a relíquia sagrada e quando Ariel retornou ao lugar onde havia inicialmente descido, ela conseguia ouvir as vozes em sua cabeça, os arcanjos do mais alto escalão discutiam sobre o desaparecimento da arca. Ariel compartilhava do desespero deles, eles se sentiam traídos. Ariel sentiu o peso dessa traição como uma lâmina em seu próprio peito.
Eles já sabiam que havia sido ela, e se preparavam para caçá-la.
Ela não podia mais esperar, tinha que quebrar a ligação. Era arriscado, porém ela sabia o que devia fazer.
Respirou fundo, e em seu último momento pensou em Rafael – Rafe, como apenas ela o chamava. Pensou em tudo o que ele havia abdicado por ela. Eles não se encontrariam como o combinando afinal. E ela sempre soubera disso, essa era a parte do plano que ela intencionalmente ocultara dele, pois sabia que se contasse, ele nunca permitiria que ela o fizesse. Uma lágrima quente escorreu pelo seu rosto vindo repousar em sua boca, o gosto salgado a retirou do devaneio momentâneo, e a lembrou que deveria fazer o que fosse melhor para manter a arca segura, ainda que perdesse sua vida no processo.
Secou as lágrimas, não poderia se dar ao luxo de desmoronar agora. Recompôs-se. Retirou uma pena da própria asa e começou a marcar rapidamente os símbolos antigos sobre a pele translúcida do antebraço esquerdo. A pele ardia enquanto era cortada, o sangue vermelho vivo escorria viscoso e quente pelas marcas que ela mesma lhe infligia. Não era um ato de rebeldia, mas de precisão técnica: cada símbolo talhado no antebraço era um prego no caixão de sua divindade. Ela sentia sua alma se desprendendo da memória do Céu. Ariel lutava contra o vazio que começava a tomar sua mente, gravando na carne o que o espírito estava prestes a perder. Ela não queria esquecer, não queria que a memória de quem ela era fosse apagada de sua alma, mas essa era única maneira de manter a arca segura. Se tudo ocorresse como o planejado, o conhecimento de onde a arca da aliança estava escondida morreria com ela. E nesse pensamento ela encontrou forças para continuar a profanar a própria pele.
Ariel sabia que seria doloroso, na teoria, afinal nunca houve um anjo que ousou fazê-lo para contar a história. Sem hesitar, aceitou o destino que impusera a si mesma. Arrancou a própria glória, o que a tornava divina, sua essência angelical. E foi como brasa queimando a alma, ela não estava preparada para esse nível de dor. Uma a uma, suas penas soltavam-se da haste da asa, e cada vez que uma delas caía ao chão aos seus pés, ela sentia como se um membro seu estivesse sendo decepado. Ariel tentou segurar o grito, mas ele veio como brasa, queimando o oxigênio novo em seus pulmões humanos. Ela estava se tornando oca, uma casca de carne deitada sobre um túmulo de marfim e penas brancas. Permitiu-se, por fim, sentir a fraqueza daquele momento, permitiu as lágrimas quentes que rolassem por seu rosto em um lamento de tristeza e de dor, ela estava deixando de ser quem foi criada para ser.
Nos seus últimos momentos, quando não era mais nada do que um corpo recolhido em posição fetal, deitado sobre as gloriosas penas brancas e choramingando de tanta dor, ela buscou forças para fazer a única coisa que sabia fazer, a única coisa capaz de trazer-lhe um pouco de paz e conforto em meio a tormenta. Ela orou. Enquanto sua pele, seus ossos, seu sangue e sua vida eram consumidos pelo fogo, ela pediu perdão.
— Deus meus, ex toto corde paénitet me ómnium meórum peccatórum, eáque detéstor, qui peccándo, non solum poenas a te iuste statútas proméritus sum, sed praesértim quia offéndi te, summum bonum, ac dignum qui super ómnia diligáris.Ideo firmiter propóno, adiuvánte grátia tua, de cétero me non peccatúrum peccandíque occasiónes próximas fugitúrum... — buscou um ar que não encontrava antes de dizer a última palavra — Amen.
Fechou os olhos.
Uma última suplica deixou seus lábios
— Que a Tua vontade seja feita, mesmo que eu seja esquecida por ela.
E de repente, nada mais existia.
✶✶✶
Era uma noite quente de fim de ano, o céu estava límpido e as constelações se destacavam como diamantes, pequenos pontos de luz na vasta imensidão negra que era o universo. A lua cheia iluminava as ruas, deixando a pequena cidade litorânea de Paradiso banhada por uma áurea quase etérea. Era uma noite perfeita para declarações de amor, beijos apaixonados à meia noite, e promessas que nunca seriam cumpridas. Era uma noite perfeita para fazer pedidos, e para acreditar que eles poderiam ser concedidos.
Eleonor caminhava descalça pela areia fina em um local mais afastado da multidão e dos olhares curiosos, sentia água fria do mar tocar-lhe os pés, o que deixava a sua pele arrepiada, porém mais desperta. O ar úmido da noite batia em seus cabelos loiros normalmente sedosos, fazendo com que ficassem ásperos e embaraçados. Quem a visse de perto se assustaria com a visão, seus olhos que sempre tiveram um tom de verde vívido hoje estavam avermelhados, graças às horas em que ela passou chorando com o rosto colado ao travesseiro, tentando abafar os ruídos desesperados que pareciam sair de dentro da sua alma.
Eleonor brincou com as duas alianças no dedo anelar, o metal frio contrastando com a pele febril. Há poucas semanas, aquele peso em sua mão significava uma promessa de futuro; agora, parecia uma âncora arrastando-a para o fundo de um mar escuro e vazio. Ela olhou para o espaço vazio ao seu lado na areia, onde as pegadas de Will deveriam estar. A ausência dele não era apenas silêncio ou saudade, era uma dor física, uma pressão no peito que tornava cada respiração um esforço consciente. Como era possível que o mundo continuasse girando, que as pessoas rissem e brindassem, quando o centro do universo dela havia colapsado?
As pessoas comemoravam a chegada eminente do novo ano, estouravam garrafas de champanhe, se abraçavam e se divertiam ao pular as ondas do mar, alheias a todo o resto que não estava dentro daquela bolha, Eleonor se contentava em observar a cena de longe. Não tinha motivos para comemorar o ano novo. Não tinha motivos para viver, se a única pessoa que ela alguma vez amara acabara de partir.
Enquanto todos miravam as explosões multicoloridas no céu extasiados, Eleonor virou o rosto para a direção contrária, a parte mais escura do céu e a surpresa a atingiu quando viu o que parecia ser uma estrela cadente rasgar a noite. Seu coração se atreveu a dar uma batida forte. Ela estava sendo tola e esperançosa, mas ainda assim ousou fazer um pedido de amor, um pedido desesperado, um pedido que ela sabia ser impossível, mas mesmo assim ela não podia deixar de pedir.
— Will não me deixe aqui sozinha. — suas palavras foram abafadas pelo estrondo de mais fogos de artifícios e risos de comemoração. Apenas seu coração ouvira sua súplica, era tolice esperar que a pequena estrela, há milhões de quilômetros de Eleonor, pudesse escutá-la também.
Ela permaneceu caminhando pela praia por horas, até sentir seus pés doloridos e machucados pelas pedras e conchas que pisara, pensava em como sobreviveria a tamanha solidão, nunca estivera tão sozinha na vida. Pelo menos quando perdera toda a família naquele fatídico acidente de carro, ela encontrara consolo nos braços de Will. Ele tinha sido a sua rocha, seu porto seguro. Ele a impulsionara a não desistir da vida nos momentos mais difíceis. Mas o que ela faria agora? Como sobreviver sem ele?
Presa em seus devaneios, Eleonor quase não percebeu o pequeno bebê nu, deixado ali na areia, sob o que parecia ser uma cama feita de penas — isso mesmo penas, grandes, brancas e sedosas. O curioso é que o bebê não chorava, apenas olhava fixamente para Eleonor e por um momento a mulher se sentiu intimada pelo olhar do pequeno, com seus cílios longos e olhos castanhos, era como se pudesse penetrar na alma dela.
Eleonor hesitou. O choro que antes inundava sua alma estancou diante do absurdo: um bebê, nu e silencioso, repousando sobre um leito de penas que não pertenciam a nenhuma ave daquela costa. Ao pegá-lo, o peso da criança ancorou sua vontade de desaparecer. Apesar da distância, aquela estrela cadete havia ouvido as preces da mulher. Ela não conseguiu Will de volta, mas sim o que o coração dela precisava.
Um motivo para continuar, o seu pequeno milagre.
Fale com o autor